Severino Boécio (475-525), na Consolação da Filosofia, apresenta a situação de desespero de sofrer, na perspectiva dele, os piores infortúnios da vida, pois, após ser preso injustamente e ter perdido a liberdade, perde o contato com a família, seus bens, seu posto de trabalho e sua honra. Ao encontrar a Filosofia, ele reclama por essa injustiça, mas ela oferece as condições de cura da alma para que ele supere aquele estado de sofrimento e confusão.
À Filosofia consola as aflições de Boécio.
Mas, dado que é prematuro submeter-te a um remédio forte e que, com certeza, os espíritos são de tal forma que, cada vez que eles abandonam as ideias verdadeiras, revestem-se das falsas, o que provoca uma turba de sensações desordenadas, que embaraça a verdadeira percepção, vou então tentar por um tempo dissipar por atividades sutis e medidas as trevas de tuas impressões enganosas, para que possas reconhecer o brilho da verdadeira luz.
Atribuis grande valor a uma felicidade que podes perder? E aprecias a companhia momentânea de uma Fortuna que ao partir te deixará desesperado? E ninguém pode domar seus caprichos (...) a Sabedoria consiste em avaliar a finalidade de todas as coisas, e é precisamente essa faculdade de passar de um extremo a outro que caracteriza a Fortuna que deve fazer com que a desprezemos, sem temê-la ou desejá-la.
(Fonte: BOÉCIO, S. A consolação da filosofia. Tradução do latim por William Li. São Paulo: Martins Fontes, 1998. p. 22; 26)
Os excertos acima indicam pontos importantes acerca da função da Filosofia como terapia do pensamento ou cura da alma. Sendo assim, é correto dizer que:
I. A Filosofia mostra que a fortuna (deusa romana do acaso) não oferece algo desejável, pois o que vem dela não é bom.
II. A Filosofia, com um remédio leve e atividade sutil, mostra o erro do desejo humano de requerer a constância da Fortuna.
III. O remédio oferecido pela Filosofia é ensinado como uma ideia verdadeira, como uma teoria sobre a vida.
IV. A Filosofia oferece as condições para a distinção entre as ideias verdadeiras das falsas, mediante o reconhecimento de que a Fortuna não é, por sua natureza, confiável.
Estão corretas apenas