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Conferências introdutórias sobre psicanálise Partes I e II VOLUME XV 19151916 Dr Sigmund Freud CONFERÊNCIAS INTRODUTÓRIAS SOBRE PSICANÁLISE 191617 191517 INTRODUÇÃO DO EDITOR INGLÊS VORLESUNGEN ZUR EINFÜHRUNG IN DIEPSYCHOANALYSE a EDIÇÕES ALEMÃS 1916 Parte I em separado Die Fehlleistungen Leipzig e Viena Heller 1916 Parte II em separado Der Traum Mesmos editores 1917 Parte III em separado Allgemeine Neurosenlehre Mesmos editores 1917 Os títulos acima as três partes em um só volume Mesmos editores viii 545 págs 1918 2ª ed Com índice e inserção de lista de 40 corrigendas Mesmos editores viii 553 págs 1920 3ª ed Reimpressão corrigida da edição anterior Leipzig Viena e Zurique Internationaler Psychoanalytischer Verlag viii 553 págs 1922 4ª ed Reimpressão corrigida da edição anterior Mesmos editores viii 554 págs Também as Partes II e III em separado sob os títulos de Vorlesungen über den Traum e Allgemeine Neurosenlehre 1922 Ed de bolso Sem índice Mesmos editores iv 495 págs 1922 Ed de bolso 2ª ed corrigida e com índice Mesmos editores iv 502 págs 1924 GS 7 483 págs 1926 5ª ed Reimpressão das GS IPV 483 págs 1926 Ed de bolso 3ª ed Mesmos editores 1930 Ed em 8 pequenos vols I PV 501 págs 1933 Com autorização Berlim Kiepenheuer 524 págs 1940 GW 11 495 págs b TRADUÇÕES INGLESAS A General Introduction to Psychoanalysis 1920 Nova Iorque Boni Liveright x 406 págs Tradutor não especificado Prefácio de G Stanley Hall Introductory Lectures on PsychoAnalysis 1922 Londres Allen Unwin 395 págs Trad de Joan Riviere sem prefácio de Freud com prefácio de Ernest Jones 1929 2a ed revista Mesmos editores 395 págs A General Introduction to Psychoanalysis 1935Nova Iorque Liveright 412 págs A ed de Londres com o título da anterior de Nova Iorque Trad de Joan Riviere com prefácios de Ernest Jones e G Stanley Hall incluído o prefácio de Freud A presente tradução inglesa é nova e da autoria de James Strachey Esta obra teve uma circulação maior do que qualquer outra obra de Freud com exceção talvez de The Psychopathology of Everyday Life Também se distingue pela quantidade de erros de impressão nela existentes Como ficou assinalado acima quarenta foram corrigidos na segunda edição porém havia ainda muitos mais e pode ser observado um número considerável de pequenas variações no texto das diversas edições A presente tradução inglesa segue o texto dos Gesammelte Werke que é de fato idêntico ao texto dos Gesammelte Schriften e somente foram registradas as discordâncias mais importantes das primeiras versões A data real de publicação das três partes não está definida A Parte I certamente surgiu antes do fim de julho de 1916 como se verifica por uma referência que a ela se faz em uma carta de Freud a Lou AndreasSalomé de 27 de julho de 1916 cf Freud 1960a Na mesma carta ele também fala na Parte II como estando prestes a aparecer Uma carta de 18 de dezembro de 1916 que Freud escreveu a Abraham sugere que com efeito ela apenas apareceu no fim do ano cf Freud 1965a A Parte III parece ter sido publicada em maio de 1917 O ano acadêmico da Universidade de Viena se dividia em dois períodos um período ou semestre de inverno que ia de outubro a março e um período de verão de abril a julho As conferências publicadas neste livro foram proferidas por Freud em dois períodos de inverno sucessivos durante a Primeira Guerra Mundial 191516 e 191617 Os relatos mais completos das circunstâncias que conduziram à sua publicação serão encontrados no segundo volume da biografia escrita por Ernest Jones 1955 pág 255 e seguintes Embora como o próprio Freud observara em seu prefácio às New Introductory Lectures sua qualidade de membro da Universidade de Viena tivesse sido apenas periférica desde os tempos de sua indicação como Privatdozent Livre Docente da Universidade em 1885 e como Professor Extraordinarius Professor Assistente em 1902 havia realizado muitos ciclos de conferências na Universidade Estes ficaram sem registro embora alguns relatos dos mesmos possam ser encontrados por exemplo os de Hanns Sachs 1945 pág 39 e segs e Theodor Reik 1942 pág 19 e segs bem como os de Ernest Jones 1953 pág 375 e segs Freud decidiu que a série que começava no outono de 1915 deveria ser a última e foi por sugestão de Otto Rank que Freud concordou com sua publicação Em seu prefácio às New Introductory Lectures há pouco citado Freud nos refere que a primeira metade da série atual a série inicial foi improvisada e escrita logo depois e que esboços da segunda metade foram feitos durante as férias do verão intermediário em Salzburg e passados para o papel palavra por palavra no inverno seguinte Acrescenta que naquela época ainda possuía o dom de uma memória fotográfica pois por mais cuidadosamente que suas conferências pudessem ter sido preparadas na realidade invariavelmente as proferia de improviso e geralmente sem anotações Existe concordância geral no tocante à sua técnica de dar conferências que ele nunca era retórico e que seu tom era sempre o de uma conversação tranqüila e mesmo íntima Contudo não se deve supor por isso que houvesse algo de desleixo ou desordem nessas conferências Elas quase sempre tinham uma forma definida início meio e fim e podiam freqüentemente dar ao ouvinte a impressão de possuírem uma unidade estética Foi mencionado Reik 1942 19 que ele não gostava de dar conferências no entanto é difícil conciliar essa afirmação não apenas com a quantidade de conferências que proferiu no decurso de sua vida mas também com a quantidade notavelmente elevada de seus trabalhos efetivamente publicados que estão sob a forma de conferências Existe entretanto uma possível explicação para essa discordância Um exame mostra que entre suas publicações são predominantemente os trabalhos expositivos que aparecem como conferências por exemplo a conferência inicial sobre The Aetiology of Hysteria 1896c a que surgiu um pouco depois Sobre a Psicoterapia 1905a assim como naturalmente as Cinco Lições proferidas na América 1910a e a presente série Contudo além disso quando empreendeu anos depois uma exposição das mais recentes evoluções de seus pontos de vista ele sem qualquer motivo evidente mais uma vez as colocou na forma de conferências e publicou suas New Introductory Lectures 1933a embora jamais houvesse qualquer possibilidade de serem dadas à luz como tais Assim Freud se socorreu evidentemente das conferências como método de expor suas opiniões mas apenas sob uma condição particular ele devia estar em vívido contato com seu auditório real ou suposto Os leitores do presente volume descobrirão como é constante Freud manter esse contato quão regularmente ele coloca objeções na boca de seus ouvintes e quão freqüentemente existem debates imaginários entre ele e seus ouvintes Na verdade ele estendia esse método de formular suas exposições a alguns de seus trabalhos que absolutamente não são conferências a totalidade de The Question of Lay Analysis 1926e e a maior parte de O Futuro de uma Ilusão 1927c tomaram a forma de diálogos entre o autor e um ouvinte que faz críticas Contrariamente talvez a certas noções errôneas Freud era inteiramente avesso à exposição de suas opiniões em forma autoritária e dogmática Não o direi aos senhores ele diz à sua audiência em uma passagem adiante pág 433 mas insistirei em que o descubram por si mesmos As objeções não eram para ser abafadas mas esclarecidas e examinadas E isso afinal não era mais que um prolongamento de um aspecto essencial da técnica da própria psicanálise As Conferências Introdutórias podem ser verdadeiramente consideradas como um inventário das conceituações de Freud e da posição da psicanálise na época da Primeira Guerra Mundial As dissidências de Adler e Jung já eram história passada o conceito de narcisismo já tinha alguns anos de vida o caso clínico do Wolf Man que marcou época tinha sido escrito com exceção de duas passagens um ano antes do começo das conferências embora não fosse publicado senão mais tarde E também a grande série de artigos metapsicológicos sobre a teoria fundamental tinha sido ultimada alguns meses antes ainda que apenas três deles tivessem sido publicados Mais dois deles surgiram logo após as conferências porém os sete restantes desapareceram sem deixar vestígio Essas últimas atividades e sem dúvida também a realização das conferências tinham sido facilitadas pela diminuição do trabalho clínico de Freud imposta pelas condições da guerra Parecia haverse chegado a um divisor de águas e era como se houvesse chegado a época para uma pausa De fato porém estavam em preparação idéias novas que deviam vir à luz em Além do Princípio de Prazer 1920g Psicologia de Grupo 1921c e O Ego e o Id 1923b Em verdade a linha não deve ser traçada com tanta exatidão Por exemplo já podem ser detectados indícios da noção da compulsão à repetição págs 2923 e os começos da análise do ego estão bastante evidentes págs 423 e 4289 ao passo que as dificuldades referentes aos múltiplos sentidos da palavra inconsciente ver em 1 preparam o caminho para uma nova descrição estrutural da mente Em seu prefácio a estas conferências Freud fala um pouco depreciativamente da falta de novidade em seu conteúdo No entanto ninguém embora muito tenha lido de literatura psicanalítica precisa sentir receio de se entediar com estas conferências e ainda poderá achar nelas muitas coisas que não se encontrarão em outro lugar As discussões sobre ansiedade Conferência XV e sobre fantasias primitivas Conferência XXIV que Freud mesmo no prefácio aponta como material recente não são as únicas que ele podia ter mencionado A revisão do simbolismo na Conferência X é provavelmente a mais completa que fez Em nenhuma outra parte fornece tão claro resumo da formação dos sonhos como nas últimas páginas da Conferência XIV Sobre as perversões não há comentários mais inteligíveis do que aqueles encontrados nas Conferências XX e XXI Finalmente não existe absolutamente qualquer tópico que se iguale à análise dos processos de terapia psicanalítica feita na última conferência E mesmo onde os assuntos pareceriam estar surrados como o mecanismo das parapraxias e dos sonhos a abordagem é feita a partir de direções inesperadas lançando nova luz sobre o que poderia ter parecido terreno por demais conhecido As Conferências Introdutórias seguramente merecem sua popularidade PREFÁCIO 1917 O que ao público agora ofereço como uma Introdução à Psicanálise não se destina a competir de forma alguma com determinadas descrições gerais desse campo de conhecimento como aquelas já existentes e dentre as quais citamse por exemplo as de Hitschmann 1913 Pfister 1913 Kaplan 1914 Régis e Hesnard 1914 e Meijer 1915 Este volume é uma reprodução fiel das conferências que proferi na Universidade durante as duas temporadas de inverno de 191516 e 191617 perante um auditório de médicos e leigos de ambos os sexos Quaisquer peculiaridades deste livro que possam surpreender os leitores são devidas às condições em que ele se originou Em minha apresentação não foi possível preservar a tranqüila serenidade de um tratado científico Pelo contrário o conferencista tinha de se empenhar em evitar que a atenção de seu auditório declinasse durante uma sessão de quase duas horas de duração As necessidades do momento muitas vezes tornaram impossível evitar repetições ao tratar de um determinado assunto poderiam emergir uma vez por exemplo em relação à interpretação de sonhos e mais tarde de novo em relação aos problemas das neuroses Também em conseqüência da maneira como o material foi ordenado alguns tópicos importantes o inconsciente por exemplo não puderam ser exaustivamente debatidos em um só ponto mas tiveram de ser retomados repetidamente e outra vez abandonados até que surgisse nova oportunidade para acrescentar alguma informação adicional a respeito Aqueles que estão familiarizados com a literatura psicanalítica encontrarão nesta Introdução pouca coisa que não lhes seja conhecida já a partir de outras publicações muito mais detalhadas Não obstante a necessidade de completar e resumir algum tema compeliu o autor em certos pontos a etiologia da ansiedade e as fantasias histéricas a apresentar material que até então havia retido FREUD VIENA primavera de 1917 PREFÁCIO DA TRADUÇÃO HEBRAICA 1930 Estas conferências foram proferidas em 1916 e 1917 proporcionaram uma descrição muito pormenorizada da posição da jovem ciência naquela época e continham mais do que seu título indicava Proporcionaram não apenas uma introdução à psicanálise mas abrangeram a maior parte de seu conteúdo temático Isso naturalmente já não é mais verdade Nesse meio tempo houve progressos em sua teoria e importantes acréscimos à mesma como a divisão da personalidade em ego superego e id uma modificação radical na teoria dos instintos bem como descobertas referentes à origem da consciência e do sentimento de culpa Assim sendo estas conferências se tornaram em grande parte incompletas na verdade somente agora é que se tornaram realmente introdutórias Porém em outro sentido mesmo hoje elas não foram suplantadas nem se tornaram obsoletas O que contêm ainda é acreditado e pensado afora algumas poucas modificações nos institutos de formação psicanalítica Os leitores de hebraico e especialmente os jovens ávidos de conhecimento se defrontarão neste volume com a psicanálise vestida com o antigo idioma que tem sido despertado para uma vida nova pela vontade do povo judeu O autor bem pode imaginar o problema que se propôs seu tradutor E nem pode suprimir a dúvida quanto a saber se Moisés e os Profetas teriam julgado inteligíveis estas conferências em hebraico Pede entretanto aos descendentes deles entre os quais ele próprio se inclui a quem este livro se destina para que não reajam demasiado prontamente a seus primeiros impulsos de crítica e enfado rejeitandoo A psicanálise revela tantas coisas novas e em meio a tudo isso tantas coisas que contraditam opiniões tradicionais e tanto fere sentimentos profundamente arraigados que não pode deixar de provocar contestação O leitor se deixar em suspenso seu julgamento e permitir que a psicanálise como um todo provoque nele sua impressão talvez se torne receptivo à convicção de que mesmo essa indesejada novidade é digna de se conhecer e indispensável para todo aquele que deseja compreender a mente e a vida humana VIENA dezembro de 1930 PARTE I PARAPRAXIAS 1916 1915 CONFERÊNCIA I INTRODUÇÃO SENHORAS E SENHORES Não posso dizer quanto conhecimento sobre psicanálise cada um dos senhores já adquiriu pelas leituras que fez ou por ouvir dizer Mas o título de meu programa Introdução Elementar à Psicanálise obrigame a tratálos como se nada soubessem e estivessem necessitados de algumas informações preliminares Posso no entanto seguramente supor que sabem ser a psicanálise uma forma de executar o tratamento médico de pacientes neuróticos E aqui já lhes posso dar um exemplo de como nessa atividade numerosas coisas se passam de forma diferente e muitas vezes realmente de forma oposta de como ocorrem em outros campos da prática médica Quando em outra situação apresentamos ao paciente uma técnica que lhe é nova de hábito minimizamos os inconvenientes desta e lhe damos confiantes promessas de êxito do tratamento Penso estarmos justificados de assim proceder de vez que desse modo estamos aumentando a probabilidade de êxito Quando porém tomamos em tratamento analítico um paciente neurótico agimos diferentemente Mostramoslhe as dificuldades do método sua longa duração os esforços e os sacrifícios que exige e quanto a seu êxito lhe dizemos não nos ser possível prometêlo com certeza que depende de sua própria conduta de sua compreensão de sua adaptabilidade e de sua perseverança Temos boas razões naturalmente para manter essa conduta aparentemente obstinada no erro como talvez os senhores virão a verificar mais adiante Não se aborreçam então se começo por tratálos da mesma forma como a esses pacientes neuróticos Seriamente eu os advirto de que não venham ouvirme uma segunda vez Para corroborar esta advertência explicarei quão incompleto deve necessariamente ser qualquer conhecimento da psicanálise e que dificuldades surgem no caminho dos senhores ao formarem um julgamento próprio a respeito dela Mostrarlhesei como toda a tendência de sua educação prévia e todos os seus hábitos de pensamento estão inevitavelmente propensos a fazer com que se oponham à psicanálise e quanto teriam de superar dentro de si mesmos para obter o máximo de vantagem dessa natural oposição Não posso certamente predizer quanto entendimento de psicanálise obterão das informações que lhes dou contudo posso prometerlhes isto que ouvindoas atentamente não terão aprendido como efetuar uma investigação psicanalítica ou como realizar um tratamento No entanto na hipótese de que um dos senhores não se sentisse satisfeito com um ligeiro conhecimento da psicanálise mas estivesse inclinado a entrar em relação permanente com ela não apenas eu o dissuadiria de agir assim como ativamente também o admoestaria para não fazêlo Da maneira como estão as coisas no momento tal escolha de profissão arruinaria qualquer possibilidade de obter sucesso em uma universidade e se começou na vida como médico clínico iria encontrarse numa sociedade que não compreenderia seus esforços que o veria com desconfiança e hostilidade e que despejaria sobre ele todos os maus espíritos que estão à espreita dentro dessa mesma sociedade E os acontecimentos que acompanham a guerra que agora assola a Europa lhes darão talvez alguma noção de que legiões desses maus espíritos podem existir Não obstante há bom número de pessoas para as quais a despeito desses inconvenientes algo que promete trazerlhes uma nova parcela de conhecimento tem ainda seu atrativo Se alguns dos senhores pertencerem a essa espécie de pessoas e malgrado minhas advertências novamente aqui comparecerem para minha próxima conferência serão bemvindos Todos porém têm o direito de saber da natureza das dificuldades da psicanálise às quais aludi Iniciarei por aquelas dificuldades vinculadas ao ensino à formação em psicanálise Na formação médica os senhores estão acostumados a ver coisas Vêem uma preparação anatômica o precipitado de uma reação química a contração de um músculo em conseqüência da estimulação de seus nervos Depois pacientes são demonstrados perante os sentidos dos senhores os sintomas de suas doenças as conseqüências dos processos patológicos e mesmo em muitos casos o agente da doença isolado Nos departamentos cirúrgicos são testemunhas das medidas ativas tomadas para proporcionar socorro aos pacientes e os senhores mesmos podem tentar pôlas em execução Na própria psiquiatria a demonstração de pacientes com suas expressões faciais alteradas com seu modo de falar e seu comportamento propicia aos senhores numerosas observações que lhes deixam profunda impressão Assim um professor de curso médico desempenha em elevado grau o papel de guia e intérprete que os acompanha através de um museu enquanto os senhores conseguem um contato direto com os objetos exibidos e se sentem convencidos da existência dos novos fatos mediante a própria percepção de cada um Na psicanálise ai de nós tudo é diferente Nada acontece em um tratamento psicanalítico além de um intercâmbio de palavras entre o paciente e o analista O paciente conversa fala de suas experiências passadas e de suas impressões atuais queixase reconhece seus desejos e seus impulsos emocionais O médico escuta procura orientar os processos de pensamento do paciente exorta dirige sua atenção em certas direções dálhe explicações e observa as reações de compreensão ou rejeição que ele analista suscita no paciente Os desinformados parentes de nossos pacientes que se impressionam apenas com coisas visíveis e tangíveis preferivelmente por ações tais como aquelas vistas no cinema jamais deixam de expressar suas dúvidas quanto a saber se algo não pode ser feito pela doença que não seja simplesmente falar Essa naturalmente é uma linha de pensamento ao mesmo tempo insensata e incoerente Essas são as mesmas pessoas que se mostram assim tão seguras de que os pacientes estão simplesmente imaginando seus sintomas As palavras originalmente eram mágicas e até os dias atuais conservaram muito do seu antigo poder mágico Por meio de palavras uma pessoa pode tornar outra jubilosamente feliz ou levála ao desespero por palavras o professor veicula seu conhecimento aos alunos por palavras o orador conquista seus ouvintes para si e influencia o julgamento e as decisões deles Palavras suscitam afetos e são de modo geral o meio de mútua influência entre os homens Assim não depreciaremos o uso das palavras na psicoterapia e nos agradará ouvir as palavras trocadas entre o analista e seu paciente Contudo nem isso podemos fazer A conversação em que consiste o tratamento psicanalítico não admite ouvinte algum não pode ser demonstrada Um paciente neurastênico ou histérico pode naturalmente como qualquer outro ser apresentado a estudantes em uma conferência psiquiátrica Ele fará uma descrição de suas queixas e de seus sintomas porém apenas isso As informações que uma análise requer serão dadas pelo paciente somente com a condição de que ele tenha uma ligação emocional especial com seu médico ele silenciaria tão logo observasse uma só testemunha que ele percebesse estar alheia a essa relação Isso porque essas informações dizem respeito àquilo que é mais íntimo em sua vida mental a tudo aquilo que como pessoa socialmente independente deve ocultar de outras pessoas e ademais a tudo o que como personalidade homogênea não admite para si próprio Portanto os senhores não podem estar presentes como ouvintes a um tratamento psicanalítico Este pode apenas serlhes relatado e no mais estrito sentido da palavra é somente de ouvir dizer que chegarão a conhecer a psicanálise Como conseqüência do fato de receberem seus conhecimentos em segunda mão por assim dizer os senhores estarão em condições bem incomuns para formar um julgamento Isto obviamente dependerá em grande parte do quanto de crédito podem dar a seu informante Suponhamos por um momento que os senhores estivessem ouvindo uma conferência não sobre psiquiatria mas sobre história e que o conferencista lhes estivesse expondo a vida e os feitos militares de Alexandre Magno Que fundamentos teriam para acreditar na verdade do que ele referisse Num primeiro relance a situação pareceria ser ainda mais desfavorável do que no caso da psicanálise pois o professor de história teve tanta participação nas campanhas de Alexandre quanto os senhores O psicanalista pelo menos reporta coisas nas quais ele próprio tomou parte Porém na devida oportunidade chegamos aos elementos que confirmam aquilo que o historiador lhes disse Ele poderia remetêlos aos relatos dos escritores da Antigüidade que ou foram eles próprios contemporâneos dos eventos em questão ou de qualquer forma estavam mais próximos dos mesmos ele poderia remetêlos digamos às obras de Diodoro Plutarco Arriano e outros Poderia colocar à frente dos senhores reproduções de moedas e estátuas do rei que sobreviveram e poderia passar às suas mãos uma fotografia do mosaico de Pompéia representando a batalha de Isso Estritamente falando contudo todos esses documentos apenas provam que as gerações anteriores já acreditavam na existência de Alexandre e na realidade de seus feitos e as críticas dos senhores poderiam começar novamente nesse ponto Os senhores descobririam então que nem tudo aquilo que foi relatado sobre Alexandre merece crédito ou pode ser confirmado em seus detalhes não obstante não posso supor que os senhores viessem a deixar a sala de conferência com dúvidas sobre a realidade de Alexandre Magno A decisão dos senhores seria determinada essencialmente por duas considerações primeiro que o conferencista não tem qualquer motivo imaginável para garantirlhes a realidade de algo que ele próprio não julga ser real e em segundo lugar que todos os livros de história disponíveis descrevem os acontecimentos em termos aproximadamente semelhantes Se continuassem a examinar as fontes antigas teriam em conta os mesmos fatores os possíveis motivos dos informantes e a conformidade das testemunhas entre si O resultado da pesquisa sem dúvida lhes traria uma confirmação no caso de Alexandre no entanto provavelmente seria diferente quando se tratasse de personagens como Moisés ou Nemrod Outras oportunidades revelarão muito claramente que dúvidas os senhores podem ter a respeito da credibilidade do seu informante psicanalítico Mas os senhores têm o direito de fazer outra pergunta Se não há verificação objetiva da psicanálise nem possibilidade de demonstrála como pode absolutamente alguém aprender psicanálise e convencerse da veracidade de suas afirmações É verdade que a psicanálise não pode ser aprendida facilmente e que não são muitas as pessoas que a tenham aprendido corretamente Naturalmente porém existe um método que se pode seguir apesar de tudo Aprendese psicanálise em si mesmo estudandose a própria personalidade Isso não é exatamente a mesma coisa que a chamada autoobservação porém pode se necessário estar nela subentendido Existe grande quantidade de fenômenos mentais muito comuns e amplamente conhecidos que após conseguido um pouco de conhecimento da técnica podem se tornar objeto de análise na própria pessoa Dessa forma adquirese o desejado sentimento de convicção da realidade dos processos descritos pela análise e da correção dos pontos de vista da mesma Não obstante há limites definidos ao progresso por meio desse método A pessoa progride muito mais se ela própria é analisada por um analista experiente e vivencia os efeitos da análise em seu próprio eu self fazendo uso da oportunidade de assimilar de seu analista a técnica mais sutil do processo Esse excelente método é naturalmente aplicável apenas a uma única pessoa e jamais a todo um auditório de estudantes reunidos A psicanálise não deve ser acusada de uma segunda dificuldade na relação dos senhores com ela devo fazêlos aos senhores mesmos responsáveis por isso senhoras e senhores pelo menos na medida em que foram estudantes de medicina A educação que receberam previamente deu uma direção particular ao pensar dos senhores que conduz para longe da psicanálise Foram formados para encontrar uma base anatômica para as funções do organismo e suas doenças a fim de explicálas química e fisicamente e encarálas do ponto de vista biológico Nenhuma parte do interesse dos senhores contudo tem sido dirigida para a vida psíquica onde afinal a realização desse organismo maravilhosamente complexo atinge seu ápice Por essa razão as formas psicológicas de pensamento têm permanecido estranhas aos senhores Cresceram acostumados a encarálas com suspeita a negarlhes a qualidade científica a abandonálas em poder de leigos poetas filósofos naturalistas e místicos Essa limitação é sem dúvida prejudicial à sua atividade médica pois como é a regra em todos os relacionamentos humanos os pacientes dos senhores começam mostrandolhes sua façade mental e temo que sejam obrigados como punição a deixar parte da influência terapêutica que os senhores estão procurando aos praticantes leigos aos curandeiros e aos místicos que os senhores tanto desprezam Não ignoro a excusa de que devemos tolerar esse defeito em sua educação Não existe nenhuma ciência filosófica auxiliar que possa servir às finalidades médicas dos senhores Nem a filosofia especulativa nem a psicologia descritiva nem o que é chamado de psicologia experimental que está estritamente aliada à fisiologia dos órgãos dos sentidos tal como são ensinadas nas universidades estão em condições de dizerlhes algo de utilizável pertinente à relação entre corpo e mente ou de lhes proporcionar uma chave para a compreensão dos possíveis distúrbios das funções mentais É verdade que a psiquiatria como parte da medicina se empenha em descrever os distúrbios mentais que observa e em agrupálos em entidades clínicas porém em momentos favoráveis os próprios psiquiatras duvidam de que suas hipóteses puramente descritivas mereçam o nome de ciência Nada se conhece da origem do mecanismo ou das mútuas relações dos sintomas dos quais se compõem essas entidades clínicas ou não há alterações observáveis no órgão anatômico da mente que correspondam a esses sintomas ou há alterações nada esclarecedoras a respeito deles Esses distúrbios mentais apenas são acessíveis à influência terapêutica quando podem ser reconhecidos como efeitos secundários daquilo que de outro modo constitui uma doença orgânica Essa é a lacuna que a psicanálise procura preencher Procura dar à psiquiatria a base psicológica de que esta carece Espera descobrir o terreno comum em cuja base se torne compreensível a conseqüência do distúrbio físico e mental Com esse objetivo em vista a psicanálise deve manterse livre de toda hipótese que lhe é estranha seja de tipo anatômico químico ou fisiológico e deve operar inteiramente com idéias auxiliares puramente psicológicas e precisamente por essa razão temo que lhes parecerá estranha de início Não considerarei os senhores ou sua educação ou sua atitude mental responsáveis pela próxima dificuldade Duas das hipóteses da psicanálise são um insulto ao mundo inteiro e têm ganho sua antipatia Uma delas encerra uma ofensa a um preconceito intelectual a outra a um preconceito estético e moral Não devemos desprezar em demasia esses preconceitos são coisas poderosas são precipitados da evolução do homem que foram úteis e na verdade essenciais Sua existência é mantida por forças emocionais e a luta contra eles é árdua A primeira dessas assertivas impopulares feitas pela psicanálise declara que os processos mentais são em si mesmos inconscientes e que de toda a vida mental apenas determinados atos e partes isoladas são conscientes Os senhores sabem que pelo contrário temos o hábito de identificar o que é psíquico com o que é consciente Consideramos a consciência sem mais nem menos como a característica que define o psíquico e a psicologia como o estudo dos conteúdos da consciência Na verdade parecenos tão natural os igualar dessa forma que qualquer contestação à idéia nos atinge como evidente absurdo A psicanálise porém não pode evitar o surgimento dessa contradição não pode aceitar a identidade do consciente com o mental Ela define o que é mental enquanto processos como o sentir o pensar e o querer e é obrigada a sustentar que existe o pensar inconsciente e o desejar não apreendido Dizendo isso de saída e inutilmente ela perde a simpatia de todos os amigos do pensamento científico solene e incorre abertamente na suspeita de tratarse de uma doutrina esotérica fantástica ávida de engendrar mistérios e de pescar em águas turvas Contudo as senhoras e os senhores naturalmente não podem compreender por agora que direito tenho eu de descrever como preconceito uma afirmação de natureza tão abstrata como o que é mental é consciente E nem podem os senhores conjecturar que evolução seja essa que chegou a levar a uma negação do inconsciente se é que isso existe e que vantagem pode ter havido em tal negação A questão de saber se devemos fazer coincidir o psíquico com o consciente ou aumentar a abrangência daquele soa como uma discussão vazia em torno de palavras mas posso assegurarlhes que a hipótese de existirem processos mentais inconscientes abre o caminho para uma nova e decisiva orientação no mundo e na ciência Os senhores não podem sequer ter qualquer noção de quão íntima é a conexão entre essa primeira mostra de coragem por parte da psicanálise e a segunda da qual devo agora falarlhes Essa segunda tese que a psicanálise apresenta como uma de suas descobertas é uma afirmação no sentido de que os impulsos instintuais que apenas podem ser descritos como sexuais tanto no sentido estrito como no sentido mais amplo do termo desempenham na causação das doenças nervosas e mentais um papel extremamente importante e nunca até o momento reconhecido Ademais afirma que esses mesmos impulsos sexuais também fornecem contribuições que não podem ser subestimadas às mais elevadas criações culturais artísticas e sociais do espírito humano Em minha experiência a antipatia que se volta contra esse resultado da pesquisa psicanalítica é a mais importante fonte de resistência que ela encontrou Gostariam de ouvir como explicamos esse fato Acreditamos que a civilização foi criada sob a pressão das exigências da vida à custa da satisfação dos instintos e acreditamos que a civilização em grande parte está sendo constantemente criada de novo de vez que cada pessoa assim que ingressa na sociedade humana repete esse sacrifício da satisfação instintual em benefício de toda a comunidade Entre as forças instintuais que têm esse destino os impulsos sexuais desempenham uma parte importante nesse processo eles são sublimados isto é são desviados de suas finalidades sexuais e dirigidos a outras socialmente mais elevadas e não mais sexuais Esse arranjo contudo é instável os instintos sexuais são imperfeitamente subjugados e no caso de cada indivíduo que se supõe juntarse ao trabalho da civilização há um risco de seus instintos sexuais se rebelarem contra essa destinação A sociedade acredita não existir maior ameaça que se possa levantar contra sua civilização do que a possibilidade de os instintos sexuais serem liberados e retornarem às suas finalidades originais Por esse motivo a sociedade não quer ser lembrada dessa parte precária de seus alicerces Não tem interesse em reconhecer a força dos instintos sexuais nem interesse pela demonstração da importância da vida sexual para o indivíduo Ao contrário tendo em vista um fim educativo temse empenhado em desviar a atenção de todo esse campo de idéias É por isso que não tolerará esse resultado da pesquisa psicanalítica e nitidamente prefere qualificálo como algo esteticamente repulsivo e moralmente repreensível ou como algo perigoso Entretanto as objeções dessa espécie são ineficazes contra aquilo que se ergueu como produto objetivo de um exemplo de trabalho científico se a contestação se fizer em público então deve ser expressa novamente em termos intelectuais Ora é inerente à natureza humana ter uma tendência a considerar como falsa uma coisa de que não gosta e ademais é fácil encontrar argumentos contra ela Assim a sociedade transforma o desagradável em falso Rebate as verdades da psicanálise com argumentos lógicos e concretos estes porém surgem de fontes emocionais e ela mantém essas objeções na forma de preconceitos opondose a toda tentativa de as contestar Nós porém senhoras e senhores podemos afirmar que ao expor esta controvertida tese não temos em vista qualquer objetivo tendencioso Desejamos simplesmente dar expressão a um assunto que acreditamos ter demonstrado mediante nossos conscienciosos trabalhos Afirmamos também o direito de rejeitar sem restrição qualquer interferência motivada em considerações práticas no trabalho científico mesmo antes de nos termos perguntado se o medo que procura impornos essas considerações é justificado ou não Essas pois são algumas das dificuldades que se erguem contra o interesse dos senhores pela psicanálise São talvez mais que suficientes para um começo Porém se puderem vencer a impressão que lhes causam prosseguiremos CONFERÊNCIA II PARAPRAXIAS SENHORAS E SENHORES Não começaremos com postulados e sim com uma investigação Escolhamos como tema determinados fenômenos muito comuns e muito conhecidos os quais porém têm sido muito pouco examinados e de vez que podem ser observados em qualquer pessoa sadia nada têm a ver com doenças São o que se conhece como parapraxias às quais todos estão sujeitos Pode acontecer por exemplo que uma pessoa que tenciona dizer algo venha a usar em vez de uma palavra outra palavra um lapso de língua Versprechen ou possa fazer a mesma coisa escrevendo podendo ou não perceber o que fez Ou uma pessoa pode ler algo seja impresso ou manuscrito diferentemente do que na realidade está diante de seus olhos um lapso de leitura Verlesen ou ouvir errado algo que lhe foi dito um lapso de audição Verhören na hipótese naturalmente de não haver qualquer perturbação orgânica de sua capacidade auditiva Outro grupo desses fenômenos tem como sua base o esquecimento Vergessen não no entanto um esquecimento permanente mas apenas um esquecimento temporário Assim uma pessoa pode ser incapaz de se lembrar de uma palavra que conhece apesar de tudo e que reconhece de imediato ou pode esquecer de executar uma intenção embora dela se lembre mais tarde tendoa esquecido apenas naquele determinado momento Em um terceiro grupo o caráter temporário está ausente por exemplo no caso de extravio Verlegen quando a pessoa colocou uma coisa em algum lugar e não consegue encontrála novamente ou no caso precisamente igual de perda Verlieren Aqui temos um esquecimento que tratamos diferentemente de outras formas de esquecimento um caso em que ficamos surpresos ou aborrecidos em vez de considerálo compreensível Além de tudo isso há determinadas espécies de erros Irrtümer nos quais o caráter temporário está presente mais uma vez pois no caso destes por um certo espaço de tempo acreditamos saber algo que antes ou depois desse período na realidade não sabemos E existem numerosos outros fenômenos semelhantes conhecidos por diversos nomes Todas essas são ocorrências cuja afinidade interna recíproca é expressa pelo fato de em alemão sua designação começar com a sílaba ver Quase todas carecem de importância na maioria são muito transitórias e são destituídas de muita importância na vida humana Apenas raramente como no caso da perda de um objeto um fenômeno desses assume certo grau de importância prática Também por esse motivo chamam pouco a atenção fazem surgir nada mais que tênues emoções e assim por diante É para esses fenômenos também que agora proponho chamar a atenção dos senhores Porém irão protestar com certo enfado Há tantos problemas ingentes no amplo universo assim como dentro dos estreitos limites de nossas mentes tantas maravilhas no campo dos distúrbios mentais que exigem e merecem elucidação que parece realmente injustificado investir trabalho e interesse em tais trivialidades Se o senhor puder fazernos compreender por que uma pessoa com olhos e ouvidos sãos pode ver e ouvir em plena luz do dia coisas que não se encontram ali por que outra pessoa subitamente pensa estar sendo perseguida pelas pessoas das quais foi até então muito amiga ou apresenta os mais engenhosos argumentos em apoio de suas crenças delirantes que qualquer criança poderia ver que são disparatadas então deveríamos ter algum apreço pela psicanálise Entretanto se ela não pode fazer mais que nos pedir para considerarmos por que um orador num banquete emprega uma palavra em vez de outra ou por que uma dona de casa extraviou suas chaves e futilidades semelhantes então saberemos como empregar melhor nosso tempo e interesse Eu responderia Paciência senhoras e senhores Penso que suas críticas perderam o rumo É verdade que a psicanálise não pode vangloriarse de jamais haverse ocupado de trivialidades Pelo contrário o material para sua observação é geralmente proporcionado pelos acontecimentos banais postos de lado pelas demais ciências como sendo bastante insignificantes o refugo poderíamos dizer do mundo dos fenômenos Porém não estão os senhores fazendo confusão em suas críticas entre a vastidão dos problemas e a evidência que aponta para eles Não existem coisas muito importantes que sob determinadas condições e em determinadas épocas só se podem revelar por indicações bastante débeis Eu não encontraria dificuldade para fornecerlhes diversos exemplos de tais situações Se o senhor por exemplo é um homem jovem não será a partir de pequenos indícios que concluirá haver conquistado os favores de uma jovem Esperaria uma expressa declaração de amor ou um abraço apaixonado Ou não seria suficiente um olhar que outras pessoas mal perceberiam um ligeiro movimento o prolongamento por um segundo da pressão de sua mão E se fosse um detetive empenhado em localizar um assassino esperaria achar que o assassino deixou para trás sua fotografia no local do crime com seu endereço assinalado Ou não teria necessariamente de ficar satisfeito com vestígios fracos e obscuros da pessoa que estivesse procurando Assim sendo não subestimemos os pequenos indícios com sua ajuda podemos obter êxito ao seguirmos a pista de algo maior Ademais penso como os senhores que os grandes problemas do universo e da ciência são aqueles que mais exigem nosso interesse É porém muito raro alguém manter a expressa intenção de se devotar à pesquisa deste ou daquele grande problema Ficase então sem poder saber qual o primeiro passo a dar É mais promissor no trabalho científico atacar o que quer que esteja imediatamente à nossa frente e ofereça uma oportunidade à pesquisa Agindo dessa forma realmente com afinco e sem preconceito ou sem prevenções e tendose sorte então desde que tudo se relaciona com tudo inclusive as pequenas coisas com as grandes podese mesmo partindo de um trabalho despretensioso ter acesso ao estudo dos grandes problemas É isso que eu devia dizer a fim de manter o interesse dos senhores quando tratamos dessas trivialidades tão evidentes como o são as parapraxias de pessoas sãs Peçamos agora auxílio a alguém que nada saiba de psicanálise e perguntemoslhe como explica essas ocorrências Sua primeira resposta certamente será Ora não há o que explicar não passam de pequenos acontecimentos ao acaso O que o amigo quer dizer com isso Estará afirmando existirem ocorrências embora pequenas que escapam à concatenação universal dos fatos ocorrências que tanto poderia haver como não haver Se alguém comete uma infração desse tipo no determinismo dos eventos naturais em um só ponto significa que atirou fora toda a Weltanschauung da ciência A própria Weltanschauung da religião podemos lembrarlhe se comporta de maneira mais coerente porque dá explícita garantia de que nenhum pardal cai do telhado sem a vontade de Deus Penso que nosso amigo hesitará em tirar a conclusão lógica dessa primeira resposta mudará de opinião e dirá que afinal quando vir a estudar essas coisas poderá encontrar explicações para elas O que está em questão são pequenas falhas no funcionamento imperfeições na atividade mental cujos determinantes podem ser especificados Um homem que em geral consegue falar corretamente pode cometer um lapso de língua 1 se está ligeiramente indisposto e cansado 2 se está excitado e 3 se está excessivamente ocupado com outras coisas É fácil comprovar essas afirmações Os lapsos de língua realmente acontecem com especial freqüência quando se está cansado quando se tem dor de cabeça ou quando se está ameaçado de enxaqueca Nas mesmas circunstâncias os nomes próprios são esquecidos com facilidade Algumas pessoas estão acostumadas a reconhecer a aproximação de um ataque de enxaqueca quando nomes próprios lhes escapam dessa forma Quando estamos excitados também amiúde cometemos erros com palavras assim como com coisas e seguese um ato descuidado Intenções são esquecidas e numerosos outros atos não premeditados se tornam perceptíveis se estamos distraídos isto é propriamente falando se estamos concentrados em alguma coisa Um conhecido exemplo de tal distração é o professor em Fliegende Blätter que perde seu guardachuva e pega o chapéu errado porque está pensando nos problemas que terá de abordar no livro seguinte Todos nós podemos recordar de nossa própria experiência exemplos de como nos é possível esquecer intenções que tivemos e promessas que fizemos por termos nesse entremeio passado por alguma experiência absorvente Tal coisa soa bastante razoável e parece não ser passível de contradição embora possa afigurarse não muito interessante talvez e não ser o que esperávamos Vejamos mais de perto essas explicações sobre parapraxias As supostas precondições para a ocorrência desses fenômenos não são todas da mesma espécie Estar doente e ter distúrbios de circulação fornecem um motivo fisiológico de deterioração do funcionamento normal a excitação a fadiga e a distração são fatores de outra espécie que poderiam ser descritos como psicofisiológicos Esses últimos comportam fácil tradução para a teoria Tanto a fadiga como a distração e talvez também a excitação geral realizam uma divisão da atenção que pode resultar em que seja dirigida atenção insuficiente para a função em apreço Nesse caso a função pode ser perturbada com especial facilidade ou executada com descuido Uma ligeira doença ou mudanças no suprimento sangüíneo ao órgão nervoso central podem ter o mesmo efeito influenciando de modo similar o fator determinante a divisão da atenção Em todos esses casos portanto seria uma questão de efeito de um distúrbio da atenção de causas orgânicas ou físicas Isso parece não prometer muito ao nosso interesse psicanalítico Poderíamos sentirnos tentados a abandonar o tema Se no entanto examinarmos as observações mais atentamente o que vemos não se harmoniza inteiramente com essa teoria da atenção das parapraxias ou pelo menos naturalmente não se regula por ela Descobrimos que as parapraxias desse tipo e o esquecimento dessa espécie ocorrem em pessoas que não estão fatigadas ou distraídas ou excitadas mas que estão sob todos os aspectos em seu estado normal a menos que decidamos atribuir ex post facto às pessoas em questão puramente por conta de suas parapraxias uma excitação que entretanto elas mesmas não comportam Nem pode simplesmente tratarse do caso de uma função ser garantida através de um incremento da atenção dirigida a ela e ser comprometida se essa atenção é reduzida Há grande número de ações efetuadas de forma puramente automática com muito pouca atenção não obstante com total segurança Um caminhante que mal sabe aonde está indo mantémse no caminho certo malgrado isso e pára em seu destino sem se haver perdido vergangen Ora em todos os casos isso é como uma regra Um exímio pianista toca as teclas certas sem pensar Pode naturalmente cometer um erro ocasional porém se o tocar automático aumentasse o risco de errar esse risco seria máximo para um virtuose cuja forma de tocar em conseqüência de prolongada prática se tornou inteiramente automática Sabemos pelo contrário que muitas ações são efetuadas com um grau de precisão muito especial se não são objeto de um nível especialmente elevado de atenção e que o infortúnio de uma parapraxia está fadado a ocorrer precisamente quando se atribui importância especial ao funcionamento correto portanto deveras sem que houvesse distração da atenção necessária Poderseia argüir que isso é o resultado da excitação porém é difícil enxergar por que a excitação não deveria inversamente aumentar a atenção dirigida para aquilo que tão intensamente é desejado Se por um lapso de língua alguém diz o oposto do que pretende em um importante discurso ou comunicação oral dificilmente isso pode ser explicado pela teoria psicofisiológica ou da atenção Existem ademais numerosos pequenos fenômenos secundários no caso das parapraxias os quais não compreendemos e a cujo respeito as explicações dadas até agora não trouxeram nenhuma luz Por exemplo se temporariamente esquecemos um nome aborrecemonos com isso fazemos tudo para recordálo e não podemos nos resignar Por que nesses casos é tão extremamente raro lograrmos orientar nossa atenção pois enfim estamos ansiosos por fazêlo à palavra que como dizemos está na ponta da língua e que reconhecemos de pronto quando é dita para nós Ou ainda há casos em que as parapraxias se multiplicam formam cadeias e se substituem umas às outras Numa primeira ocasião alguém perdeu um compromisso Na ocasião seguinte quando se decidiu firmemente não esquecer desta vez verificase que se faz anotação da hora errada Ou tentase chegar por vias indiretas a uma palavra esquecida e nisso escapa uma segunda palavra que poderia ter ajudado a encontrar a primeira Procurandose por essa segunda palavra uma terceira desaparece e assim por diante Como bem se sabe o mesmo acontece com os erros de impressão que devem ser considerados as parapraxias do compositor Um teimoso erro de impressão dessa espécie segundo se conta certa vez esgueirouse para dentro de um jornal socialdemocrata A notícia que dava de uma cerimônia incluía as palavras Entre os que estavam presentes podiase notar Sua Alteza o Kornprinz No dia seguinte fezse uma tentativa de correção O jornal pedia desculpas e dizia Devíamos naturalmente ter dito o Knorprinz Em tais casos as pessoas falam de um demônio dos erros de impressão ou um demônio da composição tipográfica expressões que pelo menos vão além de qualquer teoria psicofisiológica dos erros de impressão Talvez lhes seja também conhecido o fato de ser possível provocar lapsos de língua produzilos digamos assim por sugestão Uma anedota ilustra esse fato Tinha sido confiado a um estreante dos palcos o importante papel em Die Jungfrau von Orleans de Schiller do mensageiro que anuncia ao rei de der Connétable schickt sein Schwert zurück o Condestável devolve sua espada Um primeiro ator divertiase durante os ensaios com induzir repetidamente o nervoso jovem a dizer em vez das palavras do texto der Komfortabel schickt sein Pferd zurück o cocheiro devolve seu cavalo Conseguiu seu intento o desventurado principiante realmente fez sua estréia na representação com a versão corrompida apesar de haver sido admoestado de não fazêlo ou talvez porque tenha sido admoestado Nenhuma luz é lançada sobre esses pequenos aspectos das parapraxias com a teoria da falta de atenção Porém não significa necessariamente que a teoria seja errônea em face dessa explicação ela simplesmente pode estar carecendo de algo de algum acréscimo para que venha a ser completamente satisfatória Contudo algumas das parapraxias também podem ser consideradas por outro prisma Tomemos os lapsos de língua como o tipo de parapraxia mais adequado a nossos propósitos embora pudéssemos igualmente ter escolhido lapsos de escrita ou lapsos de leitura Devemos ter em mente que até aqui apenas perguntamos quando sob que condições as pessoas cometem lapsos de língua e apenas para essa pergunta tivemos uma resposta Poderíamos porém dirigir nosso interesse para outro aspecto e indagar por que razão o erro ocorreu dessa determinada forma e não de outra e poderíamos considerar o que é que emerge no lapso propriamente dito Os senhores observarão que enquanto essa pergunta não for respondida e nada for respondido e nada for elucidado sobre o lapso o fenômeno permanece como evento casual do ponto de vista psicológico embora dele se tenha dado uma explicação fisiológica Se eu cometesse um lapso de língua poderia obviamente fazêlo em número infinito de formas a palavra certa poderia ser substituída por alguma palavra entre milhares de outras ser distorcida em incontáveis direções diferentes Existe pois algo que no caso particular me compele a cometer o lapso de uma determinada forma ou isso continua sendo uma questão de acaso de escolha arbitrária e se trata talvez de uma pergunta a que não se pode dar qualquer resposta sensata Dois escritores Meringer e Mayer um filólogo o outro psiquiatra de fato tentaram em 1895 atacar o problema das parapraxias por esse ângulo Coligiram exemplos e começaram por abordálos de maneira puramente descritiva Isso naturalmente até aqui não oferece nenhuma explicação embora possa preparar o caminho para alguma Distinguem os diversos tipos de distorções que o lapso impõe ao discurso pretendido como transposições présonâncias antecipações póssonâncias perseverações fusões contaminações e substituições Eu lhes darei alguns exemplos desses principais grupos propostos pelos autores Um exemplo de transposição seria dizer a Milo de Vênus em vez de a Vênus de Milo transposição da ordem das palavras um exemplo de présonância antecipação seria es war mir auf der Schwest auf der Brust so schwer e uma póssonância perseveração seria exemplificada pelo conhecido brinde que saiu errado Ich fordere Sie auf auf das Wohl unseres Chefs aufzustossen em vez de anzustossen Essas três formas de lapso de língua não são propriamente comuns Os senhores encontrarão exemplos muito mais numerosos nos quais o lapso resulta de contração ou fusão Assim por exemplo um cavalheiro dirigese a uma senhora na rua com as seguintes palavras Se me permite senhora gostaria de a begleitdigen A palavra composta que se juntou a begleiten acompanhar evidentemente escondeu em si beleidigen insultar Digase de passagem o jovem provavelmente não teve muito êxito com a senhora Como exemplo de substituição Meringer e Mayer citam o caso de alguém que diz Ich gebe die Präparate in den Briefkasten em vez de Brütkasten A explicação em que esses autores tentaram basear sua coleção de exemplos é especialmente inadequada Acreditam que os sons e as sílabas de uma palavra têm uma valência determinada e que a inervação de um elemento de alta valência pode exercer uma influência perturbadora em outro de menor valência Com isso estão evidentemente se baseando nos raros casos de présonância e póssonância essas preferências de uns sons a outros se é que de fato existem podem não ter absolutamente qualquer relação com outros casos de lapsos de língua Afinal os lapsos de língua mais comuns ocorrem quando em vez de dizermos uma palavra dizemos uma outra muito semelhante e essa semelhança é para muitos explicação suficiente de tais lapsos Por exemplo um professor declarou em sua aula inaugural Não estou geneigt inclinado em vez de geeignet qualificado a valorizar os serviços de meu mui estimado predecessor Ou então outro professor observava No caso dos órgãos genitais femininos apesar de muitas Versuchungen tentações me desculpem Versuche tentativas O tipo mais comum e ao mesmo tempo mais notável de lapsos de língua no entanto são aqueles em que se diz justamente o oposto do que se pretendia dizer Aqui naturalmente estamos muito longe de relações entre sons e os efeitos de semelhança e em vez disso podemos apelar para o fato de que os contrários têm um forte parentesco conceitual uns com os outros e mantêm entre si uma associação psicológica especialmente próxima Há exemplos históricos de tais ocorrências Um presidente da câmara dos deputados de nosso parlamento certa vez abriu a sessão com as palavras Senhores observo que está presente a totalidade dos membros e por isso declaro a sessão encerrada Qualquer outra associação conhecida pode atuar da mesma forma insidiosa como um contrário e emergir em circunstâncias bastante inadequadas Assim contase que por ocasião de uma celebração em honra do casamento de um filho de Hermann von Helmholtz com uma filha de Werner von Siemens o conhecido inventor e industrial a incumbência de saudar à felicidade do jovem par coube ao famoso fisiologista Du BoisReymond Sem dúvida este fez um discurso brilhante porém encerrou com as palavras Portanto longa vida à nova firma Siemens e Haeske Essa era naturalmente a denominação da antiga firma A justaposição dos dois nomes deve ter sido tão familiar a um berlinense como Fortnum e Mason o seria a um londrino Devemos portanto incluir entre as causas das parapraxias não apenas relações entre sons e semelhança verbal como também a influência das associações de palavras Isso porém não é tudo Em numerosos casos parece impossível explicar um lapso de língua a não ser que levemos em conta algo que tinha sido dito ou mesmo simplesmente pensado em uma frase anterior De novo temos aqui um caso de perseveração como aqueles em que insistia Meringer porém de origem mais remota Devo confessar que sinto na totalidade como se estivéssemos mais longe do que nunca de compreender os lapsos de língua Não obstante espero não estar equivocado ao dizer que durante essa última pesquisa todos nós tivemos uma nova impressão desses exemplos de lapsos de língua e que pode valer a pena considerar um pouco mais detidamente essa impressão Examinamos as condições sob as quais em geral os lapsos de língua ocorrem e depois as influências que determinam o tipo de distorção produzida pelo lapso Até agora no entanto não dedicamos nada de nossa atenção ao produto do lapso considerado em si mesmo sem referência à sua origem Se decidimos fazêlo não podemos deixar de encontrar no final coragem para dizer que em alguns exemplos aquilo que resulta do lapso de língua tem um sentido próprio O que queremos dizer com tem um sentido Que o produto do lapso de língua pode talvez ele próprio ter o direito de ser considerado como ato psíquico inteiramente válido que persegue um objetivo próprio como uma afirmação que tem seu conteúdo e seu significado Até aqui temos sempre falado em parapraxias atos falhos porém agora é como se às vezes o ato falho fosse ele mesmo um ato bastante normal que simplesmente tomou o lugar de outro que era o ato que se esperava ou desejava O fato de a parapraxia ter um sentido próprio parece em determinados casos evidente e inequívoco Quando o presidente da câmara dos deputados com suas primeiras palavras encerrou a sessão em vez de abrila sentimonos inclinados em vista de nosso conhecimento das circunstâncias em que o lapso de língua ocorreu a reconhecer que a parapraxia tem um sentido O presidente não esperava nada de bom da sessão e ficaria satisfeito se pudesse darlhe um fim imediato Não temos qualquer dificuldade em chamar a atenção para o sentido desse lapso de língua ou por outras palavras de interpretálo Ou então suponhamos que uma mulher diga a outra em tom de aparente admiração Esse lindo chapéu novo suponho que você mesma o aufgepatzt palavra não existente em lugar de aufgeputzt enfeitou não Ora não existe decoro científico que possa impedirnos de ver por trás desse lapso de língua as palavras Esse chapéu é uma Patzerei droga Ou noutro caso contamnos que uma senhora conhecida por seus modos enérgicos certa ocasião observava Meu marido perguntou a seu médico qual dieta devia seguir mas o médico lhe disse que não precisava de dieta ele podia comer e beber o que eu quero Também nesse caso o lapso de língua tem seu inconfundível outro lado estava expressando um programa coerentemente planejado Se viesse a acontecer senhoras e senhores que tivessem um sentido não apenas alguns exemplos de lapsos de língua e de parapraxias em geral mas considerável número deles o sentido das parapraxias do qual até agora nada ouvimos se tornaria seu aspecto mais importante e deslocaria qualquer outra consideração para um plano secundário Poderíamos então pôr de lado todos os fatores fisiológicos e psicofisiológicos e dedicarnos à investigação exclusivamente psicológica do sentido isto é da significação ou do propósito das parapraxias Por conseguinte nos ocuparemos em testar essa hipótese em grande número de observações Antes porém de levar a cabo essa intenção gostaria de convidálos a seguirme ao longo de outra pista Repetidamente tem acontecido haver um escritor criativo feito uso de um lapso de língua ou de alguma outra parapraxia como meio de produzir um efeito pleno de imaginação Esse fato isoladamente deve demonstrarnos que ele considera a parapraxia o lapso de língua por exemplo como possuidora de um sentido de vez que a produziu deliberadamente Pois o que sucedeu não foi o autor ter cometido um lapso de escrita acidental e assim permitido o uso do mesmo por um de seus personagens na qualidade de lapso de língua ele tenciona trazer algo à nossa atenção mediante o lapso de língua e podemos indagar sobre que algo é esse se talvez queira sugerir que o personagem em questão esteja distraído e fatigado ou esteja prestes a ter um ataque de enxaqueca Se o autor emprega o lapso como se este tivesse um sentido nós naturalmente não temos vontade de exagerar a importância disso Afinal um lapso poderia realmente não ter sentido ser um evento psíquico casual ou poderia ter um sentido apenas em casos bastante raros contudo ainda assim o autor teria o direito de intelectualizálo fornecendo a ele um sentido a fim de empregálo segundo suas finalidades próprias E não seria de surpreender se tivéssemos mais a aprender sobre lapsos de língua com escritores criativos do que com filólogos e psiquiatras Um exemplo desse tipo pode ser encontrado em Wallenstein Piccolomini Ato I Cena 5 de Schiller Na cena anterior Max Piccolomini esposou ardentemente a causa do Duque de Wallenstein e esteve descrevendo apaixonadamente os benefícios da paz dos quais se tornou cônscio no decurso de uma viagem enquanto acompanhava a filha de Wallenstein ao campo Quando ele deixa o palco seu pai Octavio e Questenbergs o emissário da Corte estão mergulhados em consternação A Cena 5 continua QUESTENBERG Ai de mim e continua assimComo amigo deixamolo partirNeste delírio deixálo partirNão chamálo de volta imediatamentenão abrirSeus olhos sem perda de tempo OCTAVIO saindo de uma meditação profunda Ele vem de abrir meus olhosE enxergo mais do que me apraz QUEST Que é isso OCT Amaldiçoem essa viagem QUEST Mas por quê Que se passa OCT Vem vamos juntos amigos Preciso seguirA execrável rota imediatamente Meus olhosAgora estão abertos e devo usálos VemAtrai Q e o leva consigo QUEST Que está havendo Aonde vais então OCT Até ela QUEST Até OCT corrigindose Até o Duque Vem partamosConforme a tradução inglesa de Coleridge Otávio quis dizer até ele ao Duque Comete porém um lapso de língua e dizendo até lá ao menos revela a nós que reconheceu claramente a influência que o jovem guerreiro causou em um entusiasta da paz Um exemplo ainda mais impressionante foi descoberto por Otto Rank 1910a em Shakespeare Está em O Mercador de Veneza na famosa cena em que o venturoso amante escolhe entre os três cofres e talvez o melhor é ler para os senhores a breve descrição de Rank Um lapso de língua ocorre em O Mercador de Veneza de Shakespeare Ato III Cena 2 e é do ponto de vista dramático causado de maneira extremamente sutil e empregado com técnica brilhante Semelhante ao lapso existente em Wallenstein para o qual Freud chamou a atenção mostra que os dramaturgos possuem uma clara compreensão do mecanismo e do significado desse tipo de parapraxia e supõem que o mesmo seja verdadeiro para sua platéia Pórcia que por vontade de seu pai teve de escolher um marido por sorteio escapou até então de todos os seus indesejados pretendentes por um feliz acaso Tendo enfim encontrado em Bassanio o pretendente de sua preferência tem motivos para temer que também ele venha a escolher o cofre errado Ela desejaria muito dizerlhe que mesmo assim ele poderia ter certeza de seu amor porém isso lhe é vedado em virtude do juramento Nesse conflito íntimo o poeta faz com que ela diga ao pretendente preferido Por favor não vos apresseis esperai um ou dois dias antes de consultar a sorte pois se escolherdes mal perco vossa companhia assim pois aguardai um pouco Alguma coisa me diz mas não é o amor que não quereria perdervos Eu poderia ensinarvos como escolher bem mas então seria perjura e não o serei jamais Podeis pois fracassar porém se fracassardes farmeeis deplorar não haver cometido o pecado de perjúrio Malditos sejam vossos olhosEncantaramme e partiramme em duas partes uma é vossa e outra é meia vossa quero dizer minha mas sendo minha é vossa e desse modo sou toda vossa A coisa da qual ela desejava dar a ele apenas um indício muito sutil porque devia escondêla dele de qualquer maneira ou seja que ela mesmo antes de ele fazer a escolha era inteiramente dele e o amava é precisamente isso que o poeta com uma maravilhosa sensibilidade psicológica faz irromper abertamente em seu lapso de língua e com essa solução artística logra aliviar tanto a incerteza intolerável do amante como o suspense do compreensivo auditório diante do resultado de sua escolha Observem também com que habilidade Pórcia no fim reconcilia as duas afirmações contidas em seu lapso de língua como resolve a contradição entre elas e como finalmente mostra ser o lapso o que estava correto Mas sendo minha é vossae desse modo sou toda vossa Ocasionalmente tem acontecido que um pensador cuja atividade se situa fora da medicina haja revelado por algo que falou o sentido de uma parapraxia e se tenha antecipado a nossos esforços de explicála Os senhores todos ouviram falar no espirituoso satirista Lichtenberg 174299 de quem Goethe disse Onde ele faz uma pilhéria se esconde um problema Às vezes a pilhéria também traz à luz a solução do problema Nos Witzige und Satirische Einfälle Witty and Satirical Thoughts 1853 de Lichtenberg encontramos o seguinte Ele tanto leu Homero que sempre lia Agamemnon em vez de angenommen suposto Aqui temos toda a teoria dos lapsos de leitura Na próxima vez precisamos ver se podemos concordar com esses escritores em suas opiniões CONFERÊNCIA III PARAPRAXIAS continuação SENHORAS E SENHORES Chegamos na última vez à idéia de considerar as parapraxias não em relação à desejada função que elas perturbavam mas à sua própria descrição e tivemos a impressão de que em casos especiais pareciam revelar um sentido próprio Refletimos então que se pudesse ser obtida a confirmação em uma escala mais ampla de que as parapraxias têm um sentido seu sentido logo ficaria mais interessante que a investigação das circunstâncias em que ocorrem Vamos mais uma vez chegar a um acordo sobre o que se deve entender por sentido de processo psíquico Queremos dizer com isso tãosomente a intenção à qual serve e sua posição em uma continuidade psíquica Na maioria de nossas investigações podemos substituir sentido por intenção ou propósito Tratavase então simplesmente de uma ilusão enganadora ou de uma exaltação poética das parapraxias quando pensamos reconhecer nelas uma intenção Continuaremos a tomar lapsos de língua como nossos exemplos Se agora examinarmos atentamente numerosas observações desse tipo encontraremos categorias completas de casos em que a intenção o sentido do lapso é inteiramente visível Antes de tudo existem aqueles nos quais o que se pretendia é substituído por seu contrário O presidente da câmara dos deputados ver em 1 disse em seu discurso de abertura Declaro a sessão encerrada Isso não é nada ambíguo O sentido e intenção de seu lapso era encerrar a sessão Er sagt es ja selbst é o que estamos tentados a citar é apenas uma questão de aceitar suas palavras Não me interrompam neste ponto objetando que isso é impossível que sabemos que ele não queria encerrar a sessão e sim abrila e que ele mesmo a quem nós reconhecemos como a única suprema corte de apelação poderia confirmar o fato de que queria abrila Os senhores estão se esquecendo de que fizemos o acordo de começarmos considerando as parapraxias no que concerne à sua própria descrição sua relação com a intenção que elas perturbaram não será discutida senão mais adiante De outro modo os senhores serão culpados de um erro de lógica simplesmente por fugirem do problema ora em exame por algo que é chamado em inglês begging the question Em outros casos nos quais o lapso não expressa o exato contrário não obstante um sentido oposto pode ser expresso por ele Não estou geneigt inclinado a valorizar os serviços de meu predecessor ver em 1 Geneigt não é o contrário de geeignet qualificado mas exprime claramente algo que contrasta nitidamente com a situação na qual o discurso devia ser feito Já em outros casos o lapso de língua apenas acrescenta um segundo sentido àquele que se pretendia A frase então soa como uma contração uma abreviação ou condensação de diversas frases Assim quando a enérgica senhora dizia Ele pode comer e beber o que eu quero ver em 1 é bem como se ela tivesse dito Ele pode comer e beber o que ele quer mas o que ele tem a ver com querer Eu é que quero em vez dele Um lapso de língua muitas vezes dá a impressão de ser uma abreviação desse tipo Por exemplo um professor de anatomia ao fim de uma conferência sobre as cavidades nasais perguntou se seu auditório havia compreendido o que ele disse e após geral assentimento prosseguiu Dificilmente posso acreditar nisso pois mesmo em uma cidade com milhões de habitantes aqueles que entendem das cavidades nasais podem ser contados em um dedo desculpemme nos dedos de uma mão A frase abreviada também possui um sentido a saber que existe apenas uma pessoa que delas entende Contrastando com esses grupos de casos nos quais a parapraxia por si mesma revela seu sentido existem outros em que a parapraxia não produz nada que tenha algum sentido próprio e que por conseguinte contrariam nitidamente nossas expectativas Se alguém deturpa um nome próprio através de um lapso de língua ou agrupa uma série anormal de sons esses eventos muito comuns isoladamente considerados parecem dar uma resposta negativa à nossa pergunta sobre se todas as parapraxias têm alguma espécie de sentido Um exame mais detido desses exemplos porém mostra que essas distorções são facilmente compreendidas e que absolutamente não existe diferença tão grande entre esses casos mais obscuros e os anteriores mais claros Um homem a quem se perguntou a respeito da saúde de seu cavalo respondeu Bem ele draut uma palavra sem sentido ele dauert vai durar mais um mês talvez Quando lhe foi perguntando o que realmente quis dizer explicou haver pensado que isso era uma traurige triste história A combinação de dauert e traurig produziu draut Outro homem falando de uns acontecimentos que condenava prosseguiu Mas então os fatos vieram a Vorschwein palavra não existente em vez de Vorschein luz Respondendo a indagações confirmou o fato de que havia considerado essas ocorrências Schweinereien repugnantes literalmente porcarias Vorschein e Schweinereien combinaramse para produzir a estranha palavra Vorschwein Por certo recordamse do caso do jovem senhor que perguntou à senhora desconhecida se ele a podia begleitdigen ver em 1 Aventuramonos a dividir esta forma verbal em begleiten acompanhar e beleidigen insultar e nos sentimos muito certos dessa interpretação sem precisarmos de qualquer confirmação Os senhores verão a partir desses exemplos que mesmo esses casos mais obscuros de lapsos de língua podem ser explicados por uma convergência uma interferência recíproca entre duas elocuções desejadas as diferenças entre esses casos de lapsos surgem meramente do fato de em algumas ocasiões uma intenção tomar completamente o lugar da outra uma substitui a outra como nos lapsos de língua que exprimem o contrário ao passo que em outras ocasiões uma intenção se satisfaz distorcendo ou modificando a outra de modo que se produzem estruturas compostas que fazem sentido em maior ou menor grau por sua própria conta Parecemos agora haver desvendado o segredo de grande número de lapsos de língua Se retivermos na memória essa descoberta seremos capazes de compreender também outros grupos que até agora se constituíram em enigma para nós Nos casos de distorção de nomes por exemplo não podemos supor que se trate sempre de uma questão de competição entre dois nomes semelhantes mas diferentes Não é difícil no entanto entrever a segunda intenção A distorção de um nome ocorre muito freqüentemente sem haver lapsos de língua procura dar ao nome um tom ofensivo ou fazêlo soar como algo inferior e é um costume conhecido ou mau costume destinado a insultar que as pessoas civilizadas cedo aprendem a abandonar porém relutam em abandonar Muitas vezes ainda é permitida como brincadeira embora brincadeira pouco digna Como exemplo notório e deselegante dessa forma de distorcer nomes posso mencionar que nos dias atuais da Primeira Guerra Mundial o nome do presidente da República Francesa Poincaré foi transformado em Schweinskarré Portanto é plausível supor que a mesma intenção insultuosa esteja presente nesses lapsos de língua e procure encontrar expressão na distorção de um nome Explicações semelhantes acodem ao espírito na mesma ordem de coisas quando se trata de certos exemplos de lapsos de língua com efeitos cômicos ou absurdos Eu os convido a arrotar aufzustossen à saúde de nosso Chefe ver em 1 Aqui uma atmosfera de cerimônia é inesperadamente perturbada pela intromissão de uma palavra que evoca uma idéia condenável e à maneira de certas frases insultuosas e ofensivas mal podemos evitar a suspeita de que uma intenção procurava encontrar expressão e estava em violenta contradição com as palavras ostensivamente respeitosas O que o lapso de língua parece ter estado dizendo era mais ou menos isto Não acreditem Isso não é a sério Pouco me importa esse sujeito Quase a mesma coisa se aplica a lapsos de língua que transformam palavras inocentes em outras indecentes ou obscenas Assim Apopos em vez de à propos ou Eischeissweibchen por EiweissscheibchenMuitas pessoas como sabemos tiram alguma satisfação de um costume como esse de distorcer deliberadamente palavras inocentes em obscenas tais distorções são vistas como engraçadas e ao ouvirmos uma delas devemos de fato primeiro indagar do interlocutor se a disse intencionalmente como brincadeira ou se ela ocorreu como lapso de língua Bem está parecendo como se tivéssemos resolvido o problema das parapraxias e com bem pouca dificuldade Não são eventos casuais porém atos mentais sérios têm um sentido surgem da ação concorrente ou talvez da ação de mútua oposição de duas intenções diferentes Agora contudo vejo também que os senhores estão se preparando para apresentarme uma avalanche de perguntas e de dúvidas que terão de ser respondidas e abordadas antes de podermos apreciar esse primeiro resultado de nosso trabalho Certamente não tenho qualquer desejo de forçar os senhores a decisões apressadas Vamos tomálas na devida ordem uma após outra e dedicarlhes uma tranqüila atenção O que é que os senhores desejam perguntarme Penso eu que essa explicação se aplica a todas as parapraxias ou apenas a determinado número delas Pode este mesmo ponto de vista ser estendido aos muitos outros tipos de parapraxias aos lapsos de leitura aos lapsos de escrita ao esquecimento aos atos descuidados aos extravios e assim por diante Em vista da natureza psíquica das parapraxias que significação resta aos fatores de fadiga excitação distração e interferência na atenção E mais é claro que das duas intenções rivalizantes de uma parapraxia uma delas sempre está manifesta porém a outra nem sempre Que fazemos então para descobrir essa outra E se pensamos têla descoberto como provamos que se trata não apenas de uma intenção provável mas da única que é a correta para o caso Existe algo mais que desejam perguntarme Se não vou prosseguir Os senhores se lembrarão de que não damos muito valor às parapraxias em si mesmas e tudo o que queremos é aprender partindo de seu estudo algo que possa resultar em benefício da psicanálise Por conseguinte eu lhes apresento esta questão Que intenções ou que propósitos são esses capazes de perturbar outros dessa maneira E quais são as relações entre as intenções que perturbam e as intenções que são perturbadas Logo o problema não é resolvido a menos que recomecemos nosso trabalho Assim pois em primeiro lugar é essa a explicação para todos os casos de lapsos de língua Estou muito inclinado a pensar que sim e meu motivo é que sempre ao se investigar um exemplo de lapso de língua surge uma explicação desse tipo No entanto realmente também não há maneira de provar que um lapso de língua não possa ocorrer sem esse mecanismo Pode ser assim mas teoricamente é uma questão sem interesse para nós de vez que permanecem as conclusões que desejamos tirar para nossa introdução à psicanálise embora este não é certamente o caso nossa opinião seja válida apenas para uma minoria dos casos de lapsos de língua À questão seguinte saber se podemos estender a outros tipos de parapraxias nosso ponto de vista responderei de antemão com um sim Os senhores serão capazes de se convencer disso ao virmos examinar exemplos de lapsos de escrita de atos descuidados e outros mais Por motivos técnicos porém sugiro que adiemos essa tarefa até havermos abordado os lapsos de língua de forma ainda mais completa Exigese uma resposta mais detalhada à pergunta sobre que significação resta aos fatores postos em evidência pelos autores mencionados distúrbios da circulação fadiga excitação distração e a teoria da perturbação da atenção se aceitamos o mecanismo psíquico dos lapsos de língua que descrevemos Observem que não estamos negando esses fatores Em geral não é muito comum a psicanálise negar algo que outras pessoas afirmam via de regra ela apenas acrescenta algo novo embora sem dúvida vez e outra sucede esse algo que até então foi negligenciado e é agora apresentado como um acréscimo novo ser de fato a essência do assunto A influência das condições fisiológicas sobre a produção dos lapsos de língua mediante uma ligeira doença distúrbios da circulação ou estados de exaustão deve ser reconhecida de imediato a experiência cotidiana e pessoal os convencerá disso Mas que pouca coisa elas explicam Antes de tudo elas não são precondições necessárias das parapraxias Lapsos de língua ocorrem com a mesma possibilidade em perfeita saúde e em estado normal Esses fatores somáticos portanto apenas servem para facilitar e favorecer o especial mecanismo mental dos lapsos de língua Certa vez usei de uma analogia para descrever essa relação e vou repetila aqui porquanto posso supor não haver outra melhor que a substitua Suponhamos que numa noite escura eu fosse a um local ermo e ali fosse atacado por um meliante que carregasse com meu relógio e minha carteira Como não visse claramente o rosto do ladrão faria minha queixa no posto policial mais próximo com as palavras Isolamento e escuridão roubaram meus pertences O funcionário da polícia poderia então dizerme Pelo que o senhor diz parece estar adotando injustificadamente uma opinião extremamente esquemática Seria melhor apresentar os fatos assim Valendose da escuridão e favorecido pelo isolamento do lugar um ladrão desconhecido roubou os pertences do senhor Em seu caso me parece que a tarefa principal é que devemos encontrar o ladrão Talvez então sejamos capazes de recuperar o produto do roubo Esses fatores psicofisiológicos como a excitação a distração e os distúrbios da atenção muito pouco nos vão ajudar com vistas a uma explicação Eles são apenas frases vazias são biombos atrás dos quais não devemos nos sentir impedidos de lançar um olhar A pergunta deveria ser o que foi causado pela excitação pela distração especial da atenção Ademais devemos reconhecer a importância da influência dos sons da semelhança das palavras e das associações habituais suscitadas pelas palavras Estas facilitam os lapsos de língua por apontarem os caminhos que esses lapsos podem tomar Contudo se tenho um caminho aberto diante de mim esse fato automaticamente decide que eu o tomaria Preciso de um motivo a mais antes de me resolver por ele e além disso de uma força que me impulsione pelo caminho Assim essas relações de sons e palavras constituem também do mesmo modo como as condições somáticas exclusivamente coisas que favorecem os lapsos de língua e não podem proporcionar a verdadeira explicação para eles Considerem apenas isso em uma imensa quantidade de casos meu falar não é perturbado pela circunstância de as palavras que estou usando lembrarem outras com som semelhante de serem intimamente vinculadas a seus contrários ou de associações correntes delas derivarem E talvez pudéssemos encontrar uma saída acompanhando o filósofo Wundt quando diz que os lapsos de língua surgem se em conseqüência de exaustão física a tendência a associar prevalece sobre aquilo que a pessoa tenciona dizer Seria muito convincente se não fosse contrariado pela experiência que mostra que numa série de casos os fatores somáticos facilitadores dos lapsos de língua estão ausentes e que em outra série de casos os fatores associativos que os facilitam estão igualmente ausentes Entretanto estou particularmente interessado em sua pergunta seguinte Como se descobrem as duas intenções que se interferem mutuamente Os senhores provavelmente não percebem como é importante a pergunta Uma das duas intenções aquela que é perturbada naturalmente é inequívoca a pessoa que comete o lapso de língua conhecea e a admite É somente a outra a intenção que perturba que pode dar origem à dúvida e à hesitação Ora já temos visto e sem dúvida os senhores não o esqueceram que em numerosos casos essa outra intenção é igualmente evidente É indicada pelo efeito do lapso bastando que tenhamos a coragem de reconhecer nesse efeito uma validade própria Seja o caso do presidente da câmara dos deputados cujo lapso de língua disse o contrário do tencionado E claro que desejava abrir a sessão porém é igualmente claro que também desejava encerrála Isso é tão óbvio que não nos deixa nada por interpretar Nos outros casos contudo nos quais a intenção perturbadora apenas distorce a intenção original sem que ela mesma consiga completa expressão como é que partindo da distorção chegamos à intenção perturbadora Em um primeiro grupo de casos isso se faz de maneira bastante simples e segura com efeito da mesma maneira como se tem a intenção perturbada Fazemos o interlocutor darnos a informação diretamente Depois do lapso de língua ele prontamente diz as palavras que originalmente pretendia Draut não dauert vai durar mais um mês talvez ver em 1 Pois bem exatamente da mesma forma o fazemos dizer qual a intenção que perturba Por que lhe perguntamos o senhor disse draut Ele responde Eu queria dizer É uma traurige triste história De maneira semelhante em outro caso em que o lapso de língua era Vorschwein ver em 1 a pessoa confirma o fato de que desejava inicialmente dizer É uma Schweinerei porcaria porém se controlou e saiuse com outro comentário Aqui pois a intenção que distorce fica estabelecida tão seguramente como aquela que foi distorcida Minha escolha desses exemplos não foi sem propósito de vez que sua origem e sua solução não procedem nem de mim nem de meus seguidores E em ambos esses casos medidas ativas de alguma espécie foram necessárias para se chegar à solução Foi preciso perguntar ao orador por que cometera o lapso e o que poderia dizer sobre o mesmo De outro modo seu lapso poderia terlhe passado despercebido sem desejar explicálo Quando porém foi indagado a respeito deu a explicação com a primeira coisa que lhe ocorreu E agora por favor observem que esse pequeno passo positivo e seu resultado bemsucedido já são uma psicanálise e constituem um modelo para todas as investigações psicanalíticas que empreenderemos daqui por diante Serei demais desconfiado porém se suspeito que exatamente no momento em que a psicanálise faz seu aparecimento perante os senhores a resistência a ela desperta simultaneamente Não se sentem os senhores inclinados a objetar que a informação dada pela pessoa a quem foi feita a pergunta a pessoa que cometeu o lapso de língua não é totalmente conclusiva Ela estava naturalmente desejosa pensam os senhores de atender à solicitação de explicar o lapso e assim disse a primeira coisa que lhe veio à cabeça e que parecia capaz de fornecer tal explicação Isso porém não é nenhuma prova de que o lapso realmente ocorreu dessa maneira Pode ter sido assim contudo também pode ter sucedido de outra forma E poderia terlhe ocorrido mais alguma coisa que seria também apropriada ou talvez até mesmo mais bem ajustada É estranho quão pouco respeito os senhores no fundo têm por um ato psíquico Imaginem que alguém tivesse empreendido a análise química de determinada substância e encontrado determinado peso para um de seus componentes tantos e tantos miligramas Determinadas inferências seriam deduzidas desse peso Ora supõem os senhores que alguma vez ocorreria a um químico criticar essas inferências com base no fato de que a substância isolada poderia igualmente ter tido algum outro peso Todos se curvarão ante o fato de que o peso era esse e nenhum outro e confiantemente tirarão daí suas ulteriores conclusões No entanto quando os senhores se defrontam com o fato psíquico de que determinada coisa ocorreu à mente da pessoa interrogada não querem admitir a validade do fato alguma outra coisa poderia terlhe ocorrido Os senhores acalentam a ilusão de haver uma coisa como liberdade psíquica e não querem desistir dela Lamento dizer que discordo categoricamente dos senhores a este respeito Perante isso irão interromperse porém apenas para retomar sua resistência em outro ponto E prosseguirão Constitui técnica especial da psicanálise segundo entendemos tomarem análise as próprias pessoas a fim de obter a solução de seus problemas ver em 1 adiante Agora tomemos um novo exemplo aquele em que um orador convocando a um brinde de homenagem numa ocasião de cerimônia convidou seus ouvintes a arrotar aufzustossen à saúde do chefe ver em 1O senhor diz ver em 1 e 2 que a intenção perturbadora nesse caso era uma intenção de insultar era essa que estava opondose à expressão de respeito do orador É contudo mera interpretação da parte do senhor baseada em observações não relacionadas com o lapso de língua Se nesse exemplo o senhor interrogasse a pessoa responsável pelo lapso ela não confirmaria a idéia do senhor de que ela tencionava um insulto ao contrário ela repudiaria isso energicamente Por que em face desse claro desmentido não abandona sua improvável interpretação Sim Os senhores encontraram um argumento poderoso desta vez Posso imaginar o desconhecido proponente do brinde Provavelmente é subordinado do chefe do departamento a quem está sendo feita a homenagem talvez ele mesmo já seja professorassistente um homem jovem com excelentes projetos de vida Procuro forçálo a admitir que ele pode não obstante ter tido uma sensação de que nele havia algo se opondo ao brinde em honra do chefe Entretanto isso me põe em maus lençóis Ele fica impaciente e de repente irrompe Pare de querer me interrogar se não vou ficar grosseiro O senhor vai arruinar toda a minha carreira com suas suspeitas Apenas falei aufstossen arrotar em vez de anstossen brindar porque antes disse auf duas vezes na mesma frase É o que Meringer chama de perseveração e não há nada mais para ser interpretado nisso Está entendendo Basta Hum Que reação surpreendente uma negação realmente enérgica Vejo que não há nada mais a tratar com o homem Porém também constato que ele mostra intenso interesse pessoal em insistir em que sua parapraxia não tem um sentido Os senhores também podem sentir que existe algo de errado em ele ser assim tão rude com uma indagação puramente teórica Entretanto pensarão depois de tudo dito e feito ele deve saber o que quis e o que não quis dizer Mas será que sabe mesmo Talvez seja essa ainda a questão Agora porém julgam que me têm à mercê dos senhores Então essa é sua técnica ouçoos dizer Quando alguém que cometeu um lapso de língua diz alguma coisa a respeito que satisfaz ao senhor o senhor o declara autoridade decisiva e final no assunto É ele mesmo quem diz ver em 1 Quando o que ele diz não se ajusta ao livro do senhor então tudo quanto o senhor diz é que ele não tem importância não há necessidade de acreditar nele Isso é bastante verdadeiro Mas posso trazerlhes um exemplo semelhante no qual ocorre o mesmo espantoso evento Quando alguém acusado de um delito confessa ao juiz sua ação o juiz acredita em sua confissão porém se nega o juiz não acredita nele Se fosse de outra forma não haveria aplicação de justiça e apesar de erros ocasionais devemos convir em que o sistema funciona O senhor é um juiz então E uma pessoa que cometeu um lapso de língua é trazida à sua presença sob acusação Quer dizer que cometer um lapso de língua é um delito não é Talvez não precisemos rejeitar a comparação Eu contudo pedirlhesia observarem que profundas diferenças de opinião atingimos após uma pequena investigação do que pareciam ser esses inocentes problemas concernentes às parapraxias diferenças que no momento não vemos como atenuar Proponho uma conciliação provisória com base na analogia entre juiz e réu Penso que os senhores convirão comigo em que não pode haver dúvida de que a parapraxia tenha um sentido se a própria pessoa o admite Em troca eu vou convir em que não podemos chegar a uma prova direta do suspeito sentido se a pessoa nos recusa informações e também naturalmente se não está em condições de nos fornecer as informações Portanto como no caso da aplicação da justiça somos obrigados a voltarnos para a prova circunstancial que pode tornar uma decisão mais fundamentada em alguns casos e menos em outros Nos tribunais de justiça pode ser necessário por motivos práticos considerar um réu culpado com base em provas circunstanciais Não temos necessidade disso nem estamos contudo também obrigados a prescindir de provas circunstanciais Seria um erro supor que uma ciência consista inteiramente de teses estritamente comprovadas e seria injusto exigir isso Somente uma pessoa inclinada a uma paixão por autoridade fará essa exigência alguém com um desejo insaciável de substituir seu catecismo religioso por outro embora científico A ciência tem apenas algumas poucas proposições apodícticas em seu catecismo o resto são asserções promovidas por ela a um certo grau de probabilidade Atualmente constitui sinal de modo científico de pensamento contentarse com essas aproximações da certeza e ser capaz de dedicarse a um trabalho construtivo mais além apesar da ausência de confirmação final No entanto se a pessoa mesma não nos dá a explicação do sentido de uma parapraxia onde iremos encontrar os pontos de partida para nossa interpretação a prova circunstancial Em diversas direções Em primeiro lugar a partir de analogias com fenômenos outros que não as parapraxias quando por exemplo afirmamos que distorcer um nome isso ocorrendo como lapso de língua tem o mesmo sentido insultuoso que a deturpação deliberada de um nome Ademais também a partir da situação psíquica na qual ocorreu a parapraxia do caráter da pessoa que comete a parapraxia e das impressões que a pessoa recebeu antes da parapraxia e às quais a parapraxia talvez seja uma reação O que sucede via de regra é a interpretação ser efetuada segundo princípios gerais começar por onde existe apenas uma suspeita uma hipótese de interpretação e então encontramos uma confirmação ao examinarmos a situação psíquica Às vezes temos de esperar também por eventos subseqüentes que de certa maneira se anunciaram pela parapraxia antes de nossa suspeita ser confirmada Não posso facilmente darlhes ilustrações desse aspecto se me limito ao campo dos lapsos de língua embora nele mesmo se possa encontrar alguns bons exemplos O jovem senhor que queria begleitdigen uma senhora ver em 1 certamente era uma personalidade tímida A mulher cujo marido podia comer e beber o que ela quisesse ver em 1 é o que eu conheço como uma dessas enérgicas senhoras que mandam em casa Ou então tomemos o seguinte exemplo Na assembléia geral do Concordia um jovem membro fez um discurso de violenta oposição no decorrer do qual se referiu à diretoria como Vorschussmitglieder membros do empréstimo uma palavra que parece ter sido formada de Vorstand diretoria e Ausschuss comissão Suspeitaremos de que alguma intenção perturbadora estivesse operando nele trabalhando contra sua violenta oposição baseada em algo referente a um empréstimo E com efeito soubemos de nosso informante que o orador estava constantemente em dificuldades financeiras e justamente nessa época se havia inscrito para um empréstimo A intenção perturbadora podia por conseguinte ser substituída pelo pensamento Modere sua posição estas são as mesmas pessoas que irão aprovar seu empréstimo Contudo tenho condições de darlhes um extenso conjunto de provas circunstanciais desse tipo se me desloco para o vasto campo das outras parapraxias Se alguém esquece um nome próprio que lhe é normalmente familiar ou se malgrado todos os seus esforços acha difícil lembrálo é plausível supor que tenha algo contra a pessoa que usa o nome de modo que prefere não pensar nela Considerem por exemplo o que aprendemos sobre a situação psíquica em que ocorreu a parapraxia nos casos que agora examinaremos Herr Y apaixonouse por uma senhora porém não teve sucesso e logo depois ela se casou com Herr X Depois disso Herr Y apesar de ter conhecido Herr X por muito tempo e mesmo ter assuntos de negócios com ele esquecia seu nome repetidamente de forma que por diversas vezes tinha de perguntar a outras pessoas qual era o nome quando precisava corresponderse com Herr X Herr Y evidentemente nada queria saber de seu rival mais afortunado jamais pensar sobre sua existência Ou esse outro Uma senhora indagou a seu médico sobre notícias de uma conhecida de ambos porém mencionoua por seu nome de solteira Ela havia esquecido o nome de casada de sua amiga Admitiu depois que ficara muito desgostosa com o casamento e se antipatizava com o marido de sua amiga Teremos muito a dizer sobre esquecimento de nomes em outros contextos ver em 1 e seg adiante no momento interessanos principalmente a situação psíquica na qual ocorre o esquecimento O esquecimento de intenções pode geralmente ser atribuído a uma corrente oposta de pensamento que reluta em executar a intenção Essa opinião porém não é sustentada apenas por nós psicanalistas é opinião geral aceita por todos em sua vida diária e negada somente quando se torna teoria Um protetor que dá a seu protégé a desculpa de haver esquecido seu pedido não precisa justificarse O protégé logo pensa Não significa nada para ele é verdade que prometeu mas na realidade não quer fazêlo Por essa razão o esquecimento é interdito em certas circunstâncias da vida comum a diferença entre a opinião popular e a opinião psicanalítica acerca dessas parapraxias parece haver desaparecido Imaginem a dona da casa recebendo seu convidado com as palavras O quê O senhor veio hoje Esquecime totalmente de havêlo convidado para hoje Ou imaginem um jovem senhor confessando a sua noiva que ele se esqueceu de comparecer ao último encontro Ele certamente não o confessará preferirá inventar de improviso os mais improváveis obstáculos que o impediram de comparecer a tempo e que depois o impossibilitaram de avisála Todos sabemos também que na vida militar a desculpa de se haver esquecido algo em nada ajuda e não constitui proteção contra punição e certamente todos sentimos que essa conduta se justifica Aqui de repente todos se unem no pensar que uma determinada parapraxia tem um sentido e no saber que sentido é esse Por que não são suficientemente coerentes para estender seu conhecimento às outras parapraxias e admitilas plenamente Para essa pergunta existe naturalmente também uma resposta Visto como os leigos têm tão poucas dúvidas sobre o sentido do esquecimento de intenções os senhores não ficarão nada surpresos ao encontrarem escritores empregando essa espécie de parapraxia no mesmo sentido Qualquer um dos senhores que tenha visto ou lido Caesar and Cleopatra de Bernard Shaw se lembrará de que na última cena César ao deixar o Egito é perseguido pela idéia de que há alguma coisa mais que tencionara fazer porém esqueceu No fim vemse a saber o que era esquecerase de dizer adeus a Cleópatra O dramaturgo mediante esse pequeno expediente engenhoso procura atribuir ao grande César a superioridade que na realidade ele não possui e que jamais desejou Fontes históricas lhes contarão que César fez Cleópatra acompanhálo a Roma que ela vivia lá com seu pequeno Caesarion quando César foi assassinado e que ela logo depois fugiu da cidade Casos de esquecimento de uma intenção em geral são tão claros que não servem muito a nosso objetivo obter a partir da situação psíquica uma prova circunstancial do sentido de uma parapraxia Voltemonos portanto para um tipo de parapraxia especialmente ambíguo e obscuro a perda e o extravio Os senhores não terão dúvida em achar inacreditável que nós próprios podemos desempenhar um papel intencional em coisa tão freqüente como o é o doloroso acidente de perder algo Existem contudo numerosas observações semelhantes à que se segue Um jovem senhor perdeu um lápis de grande valor estimativo para ele No dia anterior recebera uma carta de seu cunhado a qual terminava com estas palavras Não tenho atualmente nem disposição nem tempo para encorajálo em sua futilidade e preguiça O lápis de fato lhe fora dado pelo mesmo cunhado Sem essa coincidência não poderíamos naturalmente ter afirmado que nessa perda um papel foi desempenhado pela intenção de se desfazer do objeto Casos semelhantes são muito comuns Perdemos um objeto se nos desentendemos com a pessoa de quem o ganhamos e não queremos nos lembrar dela ou então se não gostamos mais do objeto em si mesmo e queremos uma desculpa para conseguir um outro melhor em seu lugar A mesma intenção dirigida contra um objeto também naturalmente pode ter um desempenho nos casos de deixar cair de quebrar e de destruir coisas Podemos considerar obra do acaso quando uma criança em idade escolar imediatamente antes do aniversário estraga ou despedaça algum de seus pertences pessoais como sua mochila ou seu relógio Sequer qualquer um que já tenha sofrido suficientes vezes o tormento de não poder encontrar algo guardado por ele mesmo se sentirá inclinado a acreditar que existe um objetivo em extraviar coisas Não são nada raros os casos em que as circunstâncias concomitantes do extravio indicam uma intenção de se desfazer temporária ou permanentemente do objeto O que se segue talvez seja o melhor exemplo de tal situação Um homem ainda bem jovem contoume o seguinte caso Há alguns anos havia desentendimentos entre mim e minha esposa Achavaa muito fria e embora de bom grado reconhecesse suas excelentes qualidades convivíamos sem quaisquer sentimentos ternos Um dia voltando de uma caminhada deume um livro que havia comprado porque pensou que me interessaria Agradecilhe esse gesto de atenção prometi ler o livro e o pus de parte Depois disso jamais consegui encontrálo Passaramse meses durante os quais casualmente eu me lembrava do livro perdido e fazia vãs tentativas de encontrálo Uns seis meses mais tarde minha querida mãe que não morava conosco caiu doente Minha esposa deixou a casa para ir cuidar de sua sogra A condição da paciente agravouse e deu à minha mulher uma oportunidade de revelar o melhor lado de si mesma Uma noite eu regressava a casa cheio de entusiasmo e gratidão pelo que minha esposa tinha realizado Aproximeime de minha escrivaninha e sem qualquer intenção definida embora com uma espécie de certeza de sonâmbulo abri uma das gavetas Ali bem à vista encontrei o livro que há muito eu extraviara Com a extinção do motivo o extravio do objeto também cessou Senhoras e senhores poderia multiplicar indefinidamente essa coleção de exemplos mas não o farei aqui De qualquer forma os senhores encontrarão uma profusão de material para estudo das parapraxias em Psychopathology of Everyday Life publicado pela primeira vez em 1901 Todos esses exemplos conduzem ao mesmo resultado indicam a probabilidade de as parapraxias terem um sentido e mostram aos senhores como esse sentido é descoberto ou confirmado pelas circunstâncias concomitantes Hoje serei mais breve pois adotamos o objetivo limitado de usar o estudo desses fenômenos como auxílio para uma preparação à psicanálise Há apenas dois grupos de observações nos quais preciso adentrarme mais completamente neste ponto as parapraxias acumuladas e combinadas e a confirmação de nossas interpretações por acontecimentos subseqüentes As parapraxias acumuladas e combinadas são sem dúvida a fina flor de sua espécie Se estivéssemos apenas interessados em provar que as parapraxias têm um sentido nos teríamos limitado a elas logo de saída de vez que em seu caso o sentido é inconfundível até mesmo para um pobre de espírito e se impõe ao julgamento mais crítico Um acúmulo desses fenômenos revela uma persistência que quase nunca constitui característica de eventos casuais a qual porém se ajusta muito bem a algo intencional Finalmente a permutabilidade recíproca entre diferentes espécies de parapraxias demonstra que coisa na parapraxia é importante e característica não é sua forma nem o método que empregam mas sim o propósito a que servem possível de se atingir das mais variadas formas Por essa razão fornecerlhesei um exemplo de esquecimento repetido Ernest Jones 1911 483 contanos que por motivo que ele desconhece certa vez deixou por vários dias uma carta sobre sua escrivaninha Por fim decidiu expedila a carta porém retornou a ele pelo Dead Letter Office pois havia se esquecido de sobrescritála Depois de colocado o endereço levoua ao correio mas desta vez ela não tinha selo Então por fim foi obrigado a admitir sua completa relutância em enviar a carta Em outro caso um ato descuidado aparece combinado com um exemplo de extravio Uma senhora viajou para Roma com seu cunhado que era um artista famoso O visitante foi recebido com grandes honras pela comunidade alemã de Roma e entre outros presentes deramlhe uma antiga medalha de ouro A senhora ficou agastada porque seu cunhado não apreciou suficientemente o valioso objeto Quando regressava a sua casa o lugar onde estava em Roma ficou ocupado por sua irmã ao desfazer as malas ela descobriu que havia trazido a medalha consigo como ela não sabia Imediatamente enviou a seu cunhado uma carta com a notícia informando que no dia seguinte devolveria para Roma o objeto que levara consigo Porém no dia imediato a medalha foi extraviada de forma tão astuta que não pôde ser encontrada e remetida e foi nesse ponto que a senhora começou a compreender o significado de sua distração ela queria guardar o objeto para si mesma Já lhes dei um exemplo de combinação de um esquecimento com um erro o caso de alguém que se esquece de um compromisso e numa segunda ocasião aparece na hora errada tendo antes decidido firmemente não esquecêlo desta vez ver em 1 Um caso exatamente semelhante foime referido de sua própria experiência por um amigo que possui interesses literários e científicos Há alguns anos contoume permiti que me elegessem para a diretoria de certa sociedade literária pois pensava que a organização algum dia pudesse ser capaz de me ajudar a ter minha peça produzida e embora sem muito interesse participei regularmente das reuniões que se realizavam todas as sextasfeiras Há poucos meses deramme a promessa de uma produção no teatro de F e desde então tenho me esquecido regularmente das reuniões da sociedade Ao ler seu livro sobre o assunto sentime envergonhado de minha negligência Reproveime com a idéia de que distanciarme era uma conduta indigna de minha parte de vez que agora eu não estava precisando mais dessas pessoas e resolvi a qualquer custo não me esquecer da próxima sextafeira Persisti em lembrarme dessa resolução até quando a pus em execução e parei diante da porta da sala onde as reuniões se realizavam Para minha surpresa estava fechada a reunião havia terminado Eu havia realmente cometido um engano quanto ao dia era sábado Seria adequado acrescentar outros exemplos semelhantes Devo prosseguir contudo e mostrarlhes num relance os casos em que nossa interpretação tem de esperar pelo futuro para ser confirmada A condição dominante nesses casos como se verificará é que a situação psíquica presente nos é desconhecida ou inacessível a nossas pesquisas Nossa interpretação por conseguinte não é mais que uma suspeita à qual nós próprios não atribuímos muita importância Mais tarde no entanto sucede algo que nos revela quão acertada fora nossa interpretação Certa vez fui hóspede de um jovem casal recémcasado e ouvi a jovem senhora descrever com risos sua última experiência No dia após o regresso da luademel convidara sua irmã solteira para acompanhála às compras como costumava fazer enquanto seu marido ia para o trabalho De repente reparou em um cavalheiro no outro lado da rua e cutucando sua irmã exclamou Olha aí vai Herr L Ela se havia esquecido de que esse cavalheiro era seu marido há algumas semanas Estremeci quando ouvi a história contudo não ousei tirar uma conclusão O pequeno incidente só acudiu à minha memória alguns anos depois quando o casamento havia chegado a um triste fim Maeder contanos de uma senhora que na véspera de suas núpcias se esquecera de provar o vestido de casamento e para desespero de seu costureiro apenas se lembrou quando já era tarde à noite Correlaciona essa negligência com o fato de que ela em breve se divorciava de seu marido Conheço uma senhora atualmente divorciada de seu marido a qual ao tratar de assuntos de dinheiro freqüentemente assinava documentos com seu nome de solteira muitos anos antes de o reassumir de fato Sei de outras mulheres que perderam suas alianças de casamento durante a luademel e também que a história de seus casamentos conferiu um sentido ao acidente E agora eis mais um exemplo evidente porém com um final mais feliz Contase essa história de um famoso químico alemão cujo casamento não se realizou porque ele se esqueceu da hora da cerimônia nupcial tendo ido ao laboratório em vez de ir à igreja Foi muito prudente por se haver contentado com uma só tentativa morreu em avançada idade solteiro Talvez possa ter ocorrido aos senhores a idéia de que nesses exemplos as parapraxias assumiram o lugar dos presságios ou dos augúrios dos antigos E com efeito alguns presságios nada mais eram que parapraxias como por exemplo quando alguém tropeçava ou caía Outros é verdade tinham o caráter de acontecimentos objetivos e não de atos subjetivos Os senhores contudo dificilmente acreditariam quão difícil às vezes é decidir se determinado evento pertence a um ou a outro grupo Um ato muito amiúde sabe como se disfarçar como uma experiência passiva Aqueles dentre nós que podem recordar uma experiência de vida comparativamente longa provavelmente admitirão que nos teríamos poupado muitos desapontamentos e surpresas dolorosas se tivéssemos encontrado coragem e determinação para interpretar como augúrios pequenas parapraxias experimentadas em nossos contatos humanos e para fazer uso delas como indícios de intenções que ainda estavam ocultas Via de regra não ousamos fazêlo isso nos levaria a sentirnos como se após uma jornada através da ciência estivéssemos ficando supersticiosos novamente Nem todos os augúrios se realizam e os senhores compreenderão a partir de nossas teorias que nem todos precisam realizarse CONFERÊNCIA IV PARAPRAXIAS conclusão SENHORAS E SENHORES Podemos considerar como resultado de nossos esforços até agora desenvolvidos e como base de nossas ulteriores investigações o fato de as parapraxias terem um sentido Permitamme mais uma vez insistir em que não estou afirmando para nossos objetivos não há necessidade de fazêlo que toda parapraxia que ocorre individualmente tem um sentido embora eu pense que provavelmente seja esse o caso Já nos satisfaz mostrarmos esse sentido em um número relativamente freqüente de diferentes formas de parapraxias Ademais a esse respeito as diferentes formas aqui mencionadas se comportam de modo diverso Casos de lapsos de língua e de lapsos de escrita e outros podem ocorrer mediante uma causa puramente fisiológica Não posso acreditar que isso ocorra nos tipos que dependem de esquecimento esquecimento de nomes ou de intenções extravios etc É muito provável haver casos de perda que podem ser considerados como nãointencionados De um modo geral é verdade que apenas uma parcela dos erros que ocorrem na vida comum pode ser julgada segundo nosso ponto de vista Os senhores devem ter em mente essas limitações quando de ora em diante dermos por estabelecido o fato de que as parapraxias são atos psíquicos e surgem de mútua interferência entre duas intenções Esse é o primeiro produto da psicanálise A psicologia até o momento atual nada sabia da existência dessas interferências recíprocas ou da possibilidade de que pudessem resultar em tais fenômenos Ampliamos consideravelmente o mundo dos fenômenos psíquicos e conquistamos para a psicologia fenômenos que anteriormente não eram nele incluídos Façamos uma pausa mais detida sobre a afirmação de que as parapraxias são atos psíquicos Será que isso envolve uma coisa além daquilo que já dissemos que elas possuem um sentido Penso que não Penso antes que a afirmação anterior de que são atos psíquicos é mais indefinida e mais facilmente passível de compreensão errônea Tudo o que é observável na vida mental pode ocasionalmente ser descrito como fenômeno mental A questão nesse caso é saber se o fenômeno mental específico teve origem imediata em influências somáticas orgânicas e materiais e assim sua investigação não fará parte da psicologia ou se ele em primeira instância deriva de outros processos mentais em alguma parte além daquela onde começa a série das influências orgânicas É essa última situação que temos em vista quando descrevemos um fenômeno como processo mental sendo por isso mais adequado encerrar nossa afirmação desta forma o fenômeno tem um sentido Por sentido entendemos significação intenção propósito e posição em um contexto psíquico contínuo ver em 1 Existem inúmeros outros fenômenos muito semelhantes às parapraxias para eles porém esse nome não mais se ajusta Nós os denominamos ações casuais e ações sintomáticas Estas possuem igualmente a peculiaridade de não ter motivo serem insignificantes e não importantes contudo têm um acréscimo explicitamente o de serem desnecessárias Distinguemse das parapraxias porque lhes falta uma segunda intenção capaz de lhes fazer oposição e de ser perturbada por elas Por outro lado elas se confundem insensivelmente com os gestos e movimentos que consideramos expressões das emoções Essas ações casuais incluem toda classe de manipulações com nossas roupas ou com partes de nosso corpo ou com objetos ao nosso alcance executadas como que por brincadeira e aparentemente sem finalidade e incluem ademais a omissão dessas manipulações ou além disso melodias que murmuramos para nós mesmos Penso que todos esses fenômenos têm um sentido e podem ser interpretados da mesma forma como as parapraxias que eles são pequenas indicações de processos mentais mais importantes e atos psíquicos inteiramente válidos Não me proponho contudo demorarme sobre essa recente expansão do campo dos fenômenos mentais voltarei às parapraxias em relação às quais importantes problemas para a psicanálise podem ser equacionados com muito maior clareza Talvez sejam essas as questões mais interessantes que levantamos a respeito das parapraxias e que ainda não foram respondidas Dissemos serem as parapraxias o produto de mútua interferência entre duas intenções diferentes das quais uma pode ser chamada de intenção perturbada e a outra intenção perturbadora As intenções perturbadas não ensejam outras questões porém no que se refere às intenções perturbadoras gostaríamos de saber em primeiro lugar que espécie de intenções são essas capazes de perturbar outras e em segundo lugar qual é a relação das intenções perturbadoras com as perturbadas Se me permitem mais uma vez tomarei lapsos de língua como representantes da classe inteira e responderei à segunda questão antes de responder à primeira Em um lapso de língua a intenção perturbadora pode em seu conteúdo custar relacionada à intenção perturbada caso em que ela a contradiz corrige ou suplementa Ou então caso esse mais obscuro e mais interessante o conteúdo da intenção perturbadora pode não ter nada a ver com o conteúdo da intenção perturbada Não teremos qualquer dificuldade em encontrar provas da relação citada em primeiro lugar em exemplos que já conhecemos e em outros parecidos Em quase todos os casos nos quais um lapso de língua inverte o sentido a intenção perturbadora expressa o contrário da intenção perturbada e a parapraxia representa um conflito entre duas tendências incompatíveis Declaro aberta a sessão porém preferiria que já estivesse encerrada é o sentido do lapso de língua do presidente ver em 1 Uma revista política acusada de corrupção se defende em um artigo cujo clímax deveria ter sido Nossos leitores serão testemunhas do fato de que sempre agimos da maneira mais desinteressada pelo bem da comunidade O editor a quem fora confiada a preparação do artigo porém escreveu da maneira mais interesseira Quer dizer ele estava pensando Isso é o que estou obrigado a escrever porém tenho idéias diferentes Um membro do parlamento alemão que insistia em que se devia dizer a verdade ao imperador rückhaltlos sem reservas evidentemente ouviu uma voz interior sobressaltada com sua ousadia e por um lapso de língua mudou a palavra para rückgratlos sem espinha dorsal sem coragem Nos exemplos já conhecidos dos senhores os quais dão uma impressão de serem contrações ou abreviações o que temos diante de nós são correções acréscimos ou continuações por meio dos quais uma segunda intenção se faz sentir ao lado da primeira Os fatos vieram a Vorschein a luz melhor dizer de uma vez eram Schweinereien porcarias pois bem então os fatos vieram a Vorschwein ver em 1 Os que entendem disso podem ser contados nos dedos de uma mão não existe realmente apenas uma pessoa que entende disso portanto pode ser contada em um só dedo ver em 1 Ou Meu marido pode comer e beber o que quer Mas como sabem eu não me submeto à sua vontade em nada absolutamente então ele pode comer e beber o que eu quero ver em 1 Em todos esses casos o lapso de língua surge pois do conteúdo da própria intenção perturbada ou está em conexão com ela A outra espécie de relação entre as duas intenções mutuamente interferentes parece enigmática Se a intenção perturbadora não tem nada a ver com a intenção perturbada de onde pode terse originado e por que se faz notar como uma perturbação nesse determinado ponto A observação que por si só é capaz de darnos a resposta para isso mostra que a perturbação surge de uma seqüência de idéias que pouco antes se apossou da pessoa referida e produz esse efeito subseqüente havendo ou não já sido expressa no discurso Portanto na realidade deve ser descrita como uma perseveração embora não necessariamente como a perseveração das palavras faladas Também nesse caso está presente um elo associativo entre as intenções perturbadora e perturbada porém não é situado em seu conteúdo e sim construído artificialmente muitas vezes através de vias associativas extremamente tortuosasAqui está um exemplo simples desse aspecto derivado de minha própria experiência Certa vez encontrei nas aprazíveis Dolomitas duas senhoras vienenses vestidas em trajes de passeio Acompanheias parte do caminho e conversamos sobre as delícias e também as atribulações de passar um feriado daquela maneira Uma das senhoras admitiu que passar assim o dia tinha como conseqüência uma boa dose de desconforto Certamente não é de todo agradável dizia quando se esteve o dia inteiro perambulando ao sol e transpirando até pela blusa e a camisa Nesta frase ela teve de vencer uma leve hesitação em determinado ponto E prosseguiu Mas então quando se vai nach Hose e se pode mudar Esse lapso de língua não foi analisado contudo espero que possam compreendêlo facilmente A intenção da senhora fora obviamente a de dar uma lista mais completa de suas roupas blusa camisa e Hose calças Razões de decoro levaramna a omitir qualquer menção às Hose Porém na frase seguinte com seu conteúdo bastante independente a palavra não dita emergiu como uma distorção da outra de som semelhante nach Hause para casa Agora porém podemos voltar à questão principal que por muito tempo adiamos que espécie de intenções são essas que encontram expressão nessa forma incomum como perturbadoras de outras intenções Bem evidentemente elas são de espécies muito diferentes entre as quais devemos procurar o fator comum Com isso em mente se examinarmos determinado número de exemplos esses logo se enquadrarão em três grupos O primeiro grupo contém aqueles casos nos quais a intenção perturbadora é do conhecimento de quem fala e além disso foi por este percebida antes de cometer o lapso de língua Assim no lapso do Vorschwein ver em 1 a pessoa que falava admitiu não somente haver feito o julgamento Schweinereien sobre os fatos em questão mas também admitiu que tivera a intenção da qual depois recuou de expressar seu julgamento em palavras Um segundo grupo é formado por outros casos nos quais a intenção perturbadora é igualmente reconhecida como tal pela pessoa que fala porém nestes casos a pessoa não se apercebia de que a intenção estava atuando dentro dela tão logo acabou de cometer o lapso Desse modo ela aceita nossa interpretação de seu lapso ainda assim permanece surpresa com o mesmo Exemplos desse tipo de atitude talvez possam ser encontrados em outras espécies de parapraxias mais facilmente do que nos lapsos de língua Em um terceiro grupo a interpretação da intenção perturbadora é vigorosamente rejeitada por aquele que incorreu no lapso não apenas nega que essa intenção estava atuante nele antes de cometer o lapso mas procura sustentar a afirmação de que tal intenção lhe é inteiramente estranha Recordamse do exemplo do arroto ver em 1 e 2 e da vigorosa contestação que me foi apresentada pelo orador pelo fato de eu revelar sua intenção perturbadora Como os senhores sabem até agora em nossas opiniões ainda não chegamos a um acordo a respeito desses casos Eu não daria maior importância à contestação formulada pelo proponente do brinde e persistiria serenamente em minha interpretação ao passo que os senhores suponho ainda afetados pelo protesto daqueles levantam a questão de saber se não deveríamos desistir de interpretar parapraxias dessa espécie e considerálas como atos puramente fisiológicos no sentido préanalítico Bem posso imaginar que coisa os intimida Minha interpretação abriga a hipótese de que quando uma pessoa fala podem ser expressas intenções das quais ela própria nada sabe e que eu contudo posso inferir a partir de provas circunstanciais Os senhores se detêm ao arrostar essa hipótese nova e momentosa Posso entender isso e lhes dou razão nesse ponto No entanto uma coisa é certa Se os senhores querem aplicar coerentemente a compreensão das parapraxias confirmada por tantos exemplos terão de se decidir a aceitar a estranha hipótese que mencionei Caso não possam fazêlo mais uma vez precisarão abandonar o entendimento das parapraxias que os senhores vêm de adquirir Consideremos por um momento que coisa é essa que une os três grupos o que é aquilo que os três mecanismos dos lapsos de língua têm em comum Isso felizmente é um fato inequívoco Nos dois primeiros grupos a intenção perturbadora é reconhecida pela pessoa que comete o lapso ademais no primeiro grupo essa intenção se revela imediatamente antes do lapso Porém em ambos os casos ela é repelida O orador decide não expressála verbalmente e após isso ocorre o lapso de língua após isso quer dizer que a intenção que foi repelida é expressa em palavras contra a vontade de quem fala seja alterando a expressão da intenção permitida seja confundindose com essa expressão ou realmente tomando seu lugar Este é pois o mecanismo do lapso de língua Em minha opinião posso fazer com que aquilo que acontece no terceiro grupo se harmonize completamente com o mecanismo que descrevi Apenas tenho de supor ser o diferente grau em que a intenção é repelida aquilo que distingue esses três grupos um dos outros No primeiro grupo a intenção existe e se faz notar antes de o orador expressála só então é rejeitada e faz sua desforra no lapso de língua No segundo grupo a rejeição vai além a intenção já deixou de ser perceptível antes de a pessoa expressála no lapso De modo muito estranho isso absolutamente não impede que ela tenha sua parte na causa do lapso Essa conduta porém nos facilita a explicação do que acontece no terceiro grupo Eu me aventuraria a supor que uma intenção também possa conseguir expressarse em uma parapraxia quando foi repelida e não foi percebida durante um tempo considerável talvez por um tempo muito longo e pode por essa razão ser negada francamente pelo orador Conquanto os senhores ponham de lado o problema do terceiro grupo não podem deixar de concluir a partir das observações que fizemos nos outros casos que a supressão da intenção de alguém que fala de dizer algo é a condição indispensável para que ocorra um lapso de língua Agora podemos pretender havermos feito maiores progressos em nossa compreensão das parapraxias Sabemos não apenas que elas são atos mentais nos quais podemos detectar sentido e intenção sabemos não apenas que acontecem por mútua interferência entre duas intenções diferentes porém além disso sabemos que uma dessas intenções deve ter sido de alguma forma coagida a não ser posta em execução antes de poder manifestarse como uma perturbação da outra intenção Deve ter sido perturbada antes de poder ser um elemento perturbador Isso não significa naturalmente que já tenhamos conseguido uma completa explicação dos fenômenos que denominamos parapraxias Vemos aflorarem imediatamente novas interrogações e geralmente suspeitamos que quanto mais se estende nossa compreensão mais ocasiões haverá para surgirem novas questões Podemos perguntar por exemplo da razão por que as coisas não poderiam ser mais simples Se o propósito é repelir determinada intenção em vez de colocála em execução o ato de repelir deveria ser bemsucedido de modo que a intenção absolutamente não se manifestasse ou por outro lado a repulsa poderia falhar de forma que a intenção que devia ter sido repelida se manifestaria completamente As parapraxias porém são o resultado de um acordo constituem um meioêxito e um meiofracasso para cada uma das duas intenções a intenção que está sendo desafiada não é completamente suprimida salvo em casos especiais nem é levada a cabo em sua íntegra Podemos concluir que determinadas condições especiais devem prevalecer para que uma interferência ou ajuste desse tipo aconteçam no entanto não podemos formar nenhuma idéia sobre que condições são essas E não penso que poderíamos descobrir esses fatores desconhecidos penetrando mais a fundo no estudo das parapraxias Será necessário isto sim examinar primeiramente outras regiões obscuras da vida mental somente a partir das analogias que aí obtivermos encontraremos a coragem de estabelecer as hipóteses necessárias para lançar uma luz mais penetrante sobre as parapraxias E acrescento mais uma coisa Trabalhar com base em pequenos indícios como constantemente temos o hábito de fazer nessa área tem seus próprios perigos Existe uma doença mental a paranóia combinatória na qual a exploração de pequenos indícios como esses é levada a graus ilimitados e naturalmente não pretendo afirmar que as conclusões construídas sobre tais fundamentos sejam invariavelmente corretas Podemos tãosomente nos precaver desses riscos pela ampla base de nossas observações pela repetição de impressões semelhantes originárias das mais variadas esferas da vida mental Nesse ponto portanto vamos abandonar a análise das parapraxias Existe contudo mais um ponto para o qual chamaria a atenção dos senhores Eu lhes pediria que fixassem na memória como um modelo a maneira como temos tratado esses fenômenos Os senhores podem aprender desse exemplo quais os objetivos de nossa psicologia Buscamos não apenas descrever e classificar fenômenos mas entendêlos como sinais de uma ação recíproca de forças na mente como manifestação de intenções com finalidade trabalhando concorrentemente ou em oposição recíproca Interessanos uma visão dinâmica dos fenômenos mentais Em nossa opinião os fenômenos que são percebidos devem ceder lugar em importância a tendências que são apenas hipotéticas Por conseguinte não nos aprofundaremos mais nas parapraxias contudo ainda podemos realizar um rápido reconhecimento da extensão dessa área no decorrer do qual mais uma vez encontramos coisas que já conhecemos mas que também revelarão algumas novidades Nesse reconhecimento manterei a divisão em três grupos que propus inicialmente lapsos de língua reunidos com suas formas cognatas lapsos de escrita lapsos de leitura e lapsos de audição esquecimento subdividido segundo os objetos de esquecimento nomes próprios palavras estrangeiras intenções e impressões e atos descuidados extravio e perda Os erros no aspecto que nos interessa situamse em parte entre os esquecimentos e em parte nos atos descuidados Já abordamos bastante detalhadamente os lapsos de língua contudo existem mais alguns pontos a acrescentar Os lapsos de língua são acompanhados por determinados fenômenos emocionais menores não de todo destituídos de interesse Ninguém aprecia cometer lapsos de língua e assiduamente deixamos de ouvir nossos próprios lapsos embora jamais deixemos de ouvir os de outras pessoas Os lapsos de língua também são em certo sentido contagiosos absolutamente não é fácil falar sobre lapsos de língua sem cometer alguns lapsos de língua próprios As formas mais triviais desses lapsos precisamente aquelas não consignadas a projetar uma luz especial sobre os processos mentais ocultos possuem razões que não obstante não são difíceis de discernir Por exemplo se alguém pronunciou com emissão breve uma vogal longa em virtude de um distúrbio que afeta a palavra por uma ou outra razão logo após pronunciará como longa uma vogal subseqüente breve cometendo assim um novo lapso de língua para compensar o anterior Da mesma forma se a pessoa pronuncia um ditongo incorreta e descuidadamente por exemplo pronunciar um eu ou i como ei procurará compensar isso trocando um ei subseqüente por um eu ou oi Aqui o fator decisivo parece ser uma consideração para com a impressão causada nos ouvintes estes não deveriam supor que para o orador é indiferente a maneira como trata sua línguamãe A segunda distorção a que compensa a primeira realmente tem o propósito de dirigir a atenção do ouvinte para a primeira e de lhe assegurar que o orador também a percebeu Os lapsos de língua mais comuns simples e triviais são contrações e antecipações ver em 1 e 2 ocorrentes em partes insignificantes do falar Por exemplo em uma frase um tanto longa podese cometer um lapso de língua que antecipa a última palavra do que se pretende dizer Isso causa uma impressão de impaciência por ver terminada a frase e em geral constitui evidência de uma certa antipatia contra o ato de comunicar a frase ou contra o todo do comentário que se está fazendo Chegamos assim a casos marginais em que as diferenças entre a opinião psicanalítica a respeito de lapsos de língua e a opinião fisiológica comum se fundem uma na outra É de supor que nestes casos esteja presente um propósito de perturbar a intenção do discurso porém tal propósito apenas consegue fazer notar sua presença e não aquilo a que ele próprio visa A perturbação que ele produz se faz então segundo certas influências fonéticas ou atrações associativas pode ser considerada resultado de a atenção ter sido desviada da intenção do discurso Contudo nem essa perturbação da atenção nem as tendências à associação que se tornaram atuantes atingem a essência do processo Este apesar de tudo se mantém como a indicação da existência de uma intenção que é perturbadora da intenção do discurso embora a natureza dessa intenção perturbadora não possa ser avaliada a partir de suas conseqüências conforme é possível fazêlo em todos os casos de lapsos de língua mais bem definidos Os lapsos de escrita aos quais passaremos agora são tão afins dos lapsos de língua que nada de novo podemos esperar deles Talvez possamos acrescentar algum pequeno ponto adicional Os pequenos lapsos de escrita extremamente comuns contrações e antecipações de palavras que deveriam vir depois especialmente de palavras do fim de frases indicam mais uma vez um desprazer geral de escrever e impaciência por ver o trabalho terminado Determinados produtos mais marcantes de lapsos de escrita possibilitam reconhecer a natureza e o objetivo da intenção perturbadora Ao encontrar um lapso de escrita em uma carta sabese geralmente que havia algo de diferente com seu autor porém não se pode sempre descobrir o que se passava com ele Um lapso de escrita passa despercebido da pessoa responsável com a mesma freqüência com que sucede com os lapsos de língua A seguinte observação é digna de nota Como sabemos há pessoas que tem o hábito de reler todas as cartas que escrevem antes de enviálas Outras não via de regra porém quando excepcionalmente o fazem sempre encontram alguns lapsos de escrita que chamam a atenção e que elas podem corrigir então Como se explica isso É como se essas pessoas soubessem que haviam cometido um erro ao escrever a carta Podemos realmente acreditar nesse fato Um problema interessante diz respeito à importância prática dos lapsos de escrita Os senhores certamente podem recordar o caso de um assassino H que encontrou os meios de obter de instituições científicas culturas de bactérias patogênicas altamente perigosas apresentandose como bacteriologista Usou então essas culturas com a finalidade de se desfazer de suas ligações próximas através desse método moderníssimo Ora certa ocasião esse homem se queixou aos diretores de um desses institutos que as culturas a ele enviadas eram ineficazes porém cometeu um lapso de escrita e em vez de escrever em meus experimentos com camundongos ou porquinhosdaíndia escreveu muito claramenteem meus experimentos com homens Os cientistas do instituto ficaram chocados com o lapso contudo pelo que sei daí não tiraram qualquer conclusão Pois bem o que pensam os senhores Não deveriam os cientistas pelo contrário ter tomado o lapso de escrita como uma confissão e iniciado uma investigação que teria posto um fim imediato às atividades do assassino Por ignorarem nossas opiniões sobre parapraxias não foram responsáveis nesse caso por uma omissão de importância prática Ora penso que um lapso de escrita como esse deveras me pareceria muito suspeito porém algo de grande importância se opõe a que seja qualificado como confissão O assunto não é tão simples assim O lapso certamente era uma prova circunstancial mas não era suficiente por si mesmo para dar início a uma investigação É verdade que o lapso de escrita disse que ele estava ocupado com idéias de infectar pessoas entretanto não tornou possível decidir se essas idéias deveriam ser tomadas como clara intenção de causar dano ou como uma fantasia sem importância prática É mesmo possível que um homem que tivesse cometido um lapso como esse teria todas as justificativas objetivas para negar a fantasia e a repudiaria como algo inteiramente estranho para ele Os senhores compreenderão ainda melhor essas possibilidades quando mais adiante viermos a considerar a diferença entre realidade psíquica e material Assim esse é mais um exemplo de parapraxia que adquire importância a partir de eventos subseqüentes ver em 1 e seg acima Com os lapsos de leitura chegamos a uma situação psíquica que difere sensivelmente daquela encontrada em lapsos de língua ou em lapsos de escrita Aqui uma das duas intenções em mútua competição é substituída por uma estimulação sensorial e talvez por isso resiste menos O que a pessoa vai ler não é um derivado de sua própria vida mental como algo que se propõe escrever Em grande número de casos portanto um lapso de leitura consiste em uma substituição completa Substituise por outra a palavra que deve ser lida sem haver necessariamente qualquer conexão de conteúdo entre o texto e o produto do lapso de leitura o qual depende via de regra de semelhança verbal O melhor exemplo desse grupo é o de Lichtenberg Agamemnon por angenommen ver em 1 acima Se quisermos descobrir a intenção perturbadora que produziu o lapso de leitura devemos deixar inteiramente de lado o texto que foi lido erroneamente e podemos começar a investigação analítica com duas perguntas qual é a primeira associação ao produto do lapso de leitura e em que situação ocorreu o lapso de leitura Às vezes o conhecimento dessa situação é por si só suficiente para explicar o lapso de leitura Por exemplo um homem sob a pressão de uma necessidade urgente vagava por uma cidade estranha quando viu a palavra ClosetHouse numa grande tabuleta no primeiro andar de um prédio Mal teve tempo suficiente para se surpreender com o fato de a tabuleta estar colocada tão alta quando descobriu que estritamente falando o que devia ter lido era CorsetHouse Em outros casos um lapso de leitura precisamente do tipo que é muito independente do conteúdo do texto requer uma análise detalhada impossível de se efetuar sem a prática da técnica de psicanálise e sem seu apoio Como regra entretanto não é tão árduo encontrar a explicação para um lapso de leitura a palavra substituída imediatamente revela como no exemplo Agamemnon o círculo de idéias do qual surgiu a perturbação Na atual época de guerra por exemplo é coisa muito comum os nomes de cidades e de generais e de termos militares que estão constantemente zumbindo à nossa volta serem lidos onde quer que nossos olhos encontrem palavras semelhantes Tudo aquilo que nos interessa e nos preocupa se põe no lugar do que é estranho e ainda destituído de interesse Imagens residuais de pensamentos anteriores perturbam novas percepções Com os lapsos de leitura também não faltam os casos de outra espécie nos quais o texto daquilo que se lê desperta por si mesmo a intenção perturbadora a qual de imediato o transforma em seu contrário O que devíamos ler era alguma coisa de indesejado e a análise nos convencerá de que um intenso desejo de rejeitar o que estávamos lendo deve ter sido responsável por sua alteração Nos casos mais freqüentes de lapsos de leitura que mencionamos no início inexistiam os dois fatores aos quais consignamos um importante papel no mecanismo das parapraxias o conflito entre dois propósitos e a repulsa a um deles que faz sua represália produzindo a parapraxia Não que algo em contrário ocorra no lapso de leitura A proeminência da idéia que leva ao lapso de leitura é contudo muito mais perceptível do que a repulsa que essa idéia pode ter percebido previamente São esses dois fatores os que encontramos com mais evidência nas diferentes situações em que ocorrem parapraxias de esquecimento O esquecimento de intenções é bem livre de ambigüidades como já vimos ver em 1 sua interpretação não é objeto de controvérsias nem mesmo por parte de leigos O propósito que perturba a intenção é em todos os casos uma contraintenção uma relutância e tudo o que nos resta saber a seu respeito é por que ele não se expressou em alguma forma diversa e menos disfarçada No entanto a presença dessa contravontade é inquestionável Vez e outra também conseguimos entrever algo dos motivos que compelem essa contravontade a ocultarse agindo subrepticiamente por intermédio da parapraxia ela sempre atinge seu objetivo ao passo que seria seguramente repudiada se emergisse como franca oposição Se alguma importante modificação na situação psíquica se realiza entre a formação da intenção e sua execução em conseqüência do que não mais existe a cogitação de executar a intenção então o esquecimento da intenção se exclui da categoria das parapraxias Já não parece mais estranho havêla esquecido e nos apercebemos de que teria sido desnecessário lembrarmonos dessa intenção depois disso ela se extingue em forma permanente ou temporária O esquecimento de uma intenção somente pode ser denominado parapraxia quando não pudermos acreditar que a intenção tenha sido interrompida desse último modo Os casos de esquecimento de uma intenção geralmente são tão uniformes e tão evidentes que por essa mesma razão não interessam à nossa investigação Assim mesmo existem dois pontos em que algo de novo podemos aprender a partir de um estudo dessas parapraxias O esquecimento de uma intenção isto é a omissão de executála revela como dissemos uma contravontade que lhe é hostil Sem dúvida esse fato procede nossas investigações porém mostram que a contravontade pode ser de dois tipos direto e indireto O que dou a entender com este último é ilustrado mais adequadamente com um ou dois exemplos Se um benfeitor se esquece de interceder junto a uma terceira pessoa em benefício de seu protégé isso pode acontecer porque não está realmente muito interessado no protégé e portanto não tem grande desejo de falar em benefício deste De qualquer forma é esse o modo como o protégé entenderá o esquecimento de seu protetor ver em 1 Contudo as coisas podem ser mais complexas No protetor a contravontade opondose à execução da intenção pode ter outra origem e pode ser voltada em direção a um ponto bem diferente Pode não ter nada a ver com o protégé mas talvez pode ser dirigida contra a terceira pessoa junto a quem a recomendação devia ter sido feita Assim a partir disso os senhores mais uma vez verificam ver em 1 as dúvidas que se erguem como obstáculo a uma aplicação prática de nossas interpretações Apesar da interpretação correta do esquecimento o protégé corre o risco de ser demasiado desconfiado e de fazer grave injustiça ao seu protetor Ou suponhamos que alguém se esqueça de um compromisso que prometeu manter com alguma outra pessoa a razão mais freqüente para isso será sem dúvida uma franca rejeição ao encontro com essa pessoa Contudo em um caso assim a análise poderia demonstrar que a intenção perturbadora não se referiu a essa pessoa mas estava dirigida contra o lugar planejado para o encontro e foi evitado por conta de uma lembrança desagradável referente ao lugar Ou ainda se alguém se esquece de pôr uma carta no correio o contrapropósito pode basearse no conteúdo da carta de modo algum porém se exclui a hipótese de a carta poder ser inocente em si mesma e poder apenas estar sujeita ao contrapropósito de vez que algo referente a ela faz lembrar uma outra carta escrita em alguma ocasião anterior que ofereceu à contravontade um ponto direto de ataque Podese dizer portanto que aqui a contravontade foi transferida da carta anterior que a justificou à carta atual em relação à qual não havia motivos de preocupação Os senhores verificam então que devemos ser moderados e previdentes ao aplicar nossas interpretações e isso se justifica as coisas que são psicologicamente equivalentes podem na prática ter grande variedade de significados Fenômenos como esses últimos podem parecer muito inusitados para os senhores e talvez se inclinarão a supor que uma contravontade indireta já indica tratarse de um processo patológico Posso assegurarlhes contudo que ela ocorre também dentro dos limites do que é normal e sadio Ademais não devem me interpretar mal Estou longe de admitir que nossas interpretações analíticas sejam indignas de confiança As ambigüidades no esquecimento de intenções que venho mencionando existem apenas enquanto não tenhamos feito uma análise do caso e apenas quando fazemos nossas interpretações com base em nossas hipóteses gerais Se efetuarmos uma análise na pessoa em questão invariavelmente descobrimos com suficiente certeza se a contravontade é direta ou que outra origem possa ter O segundo ponto que tenho em mente ver em 1 é o seguinte Se em uma grande maioria de casos encontramos confirmação do fato de que o esquecimento de uma intenção remonta a uma contravontade podemos ousar estender a solução a um outro grupo de casos nos quais a pessoa em análise não confirma e sim nega a contravontade que inferimos Tomem como exemplo disso eventos tão extremamente comuns como esquecer de devolver livros que se tomaram emprestados ou de pagar contas ou dívidas Com a pessoa em questão nos aventuraremos a insistir em que nela existe uma intenção de conservar consigo os livros e de não pagar as dívidas a pessoa negará essa situação porém não será capaz de fornecer qualquer outra explicação para sua conduta Com isso prosseguiremos dizendolhe que tem essa intenção mas sem nada saber da mesma embora para nós isso seja suficiente porquanto nos revela a presença da intenção que origina nela o esquecimento A pessoa pode repetirnos que deveras se esqueceu Agora reconhecerão a situação como uma tal em que nós mesmos anteriormente nos encontramos ver em 1 e 2 Se quisermos prosseguir com nossas interpretações das parapraxias tão freqüentemente comprovadas como acertadas até uma conclusão coerente somos compelidos à inevitável hipótese de que nas pessoas existem propósitos capazes de se tornar atuantes sem que elas saibam da existência deles Isto contudo nos leva a contrariarmos todas as opiniões dominantes tanto na vida comum como na psicologia O esquecimento de nomes próprios e de nomes estrangeiros tanto como o de palavras estrangeiras pode semelhantemente ser rastreado até uma contraintenção que se volta direta ou indiretamente contra o nome em questão Já lhes apresentei diversos exemplos de aversão direta ver em 1 e 2 A causação indireta é contudo particularmente freqüente nesses casos e em geral apenas pode ser estabelecida por meio de análises cuidadosas Por exemplo durante a guerra atual que nos obrigou a abandonar tantos dos nossos divertimentos anteriores nossa capacidade de recordar nomes sofreu muito em conseqüência das mais estranhas associações Há pouco tempo atrás verifiquei que eu era incapaz de reproduzir o nome de Bisenz pacata cidade da Morávia e a análise demonstrou que aquilo que era responsável pelo fato não era nenhuma hostilidade direta contra ela senão sua similitude no som com o nome do Palazzo Bisenzi em Orvieto que tive o prazer de visitar repetidas vezes no passado Aqui pela primeira vez descobrimos nessa razão de se opor à recordação de um nome um princípio que depois irá revelar sua enorme importância na causação dos sintomas neuróticos a memória tem aversão por recordar tudo que está em conexão com sentimentos de desprazer e com a reprodução daquilo que renova o desprazer Essa intenção de evitar o desprazer emergente da lembrança ou de outros atos psíquicos essa fuga psíquica do desprazer pode ser reconhecida como a causa atuante fundamental não apenas do esquecimento de nomes mas também de muitas outras parapraxias como as omissões os erros e assim por dianteO esquecimento de nomes entretanto parece ser sobremodo facilitado psicofisiologicamente e por esse motivo há casos em que não se pode confirmar a interferência de um motivo de desprazer Se alguém tem determinada tendência para esquecer nomes a investigação analítica mostrará que os nomes lhe fogem não apenas porque em si não os aprecia ou porque lhe lembram algo desagradável porém também porque nesse caso o nome pertence a outro círculo de associações com as quais a pessoa está mais intimamente relacionada O nome está digamos ali ancorado e se mantém fora de contato com outras associações que foram momentaneamente ativadas Se os senhores se recordarem dos truques mnemotécnicos verificarão com certa surpresa que as mesmas cadeias associativas deliberadamente estabelecidas para evitar que nomes sejam esquecidos também podem nos levar a esquecêlos O mais notável exemplo desse fato é o que se refere aos nomes próprios de pessoas os quais naturalmente possuem importância psíquica bastante diferente para diferentes pessoas Para ilustrálo tomemos um primeiro nome como Teodoro Para alguns dos senhores ele não terá qualquer significação especial para outro será o nome de seu pai do irmão ou de um amigo ou seu próprio nome Assim a experiência analítica lhes mostrará que a primeira dessas pessoas não corre nenhum risco de se esquecer de que algum estranho usa esse nome ao passo que as outras terão constantemente a tendência de negar a estranhos um nome que lhes parece reservado a ligações íntimas Ora se os senhores considerarem que essa inibição associativa pode coincidir com a atuação do princípio de desprazer e ademais com um mecanismo indireto estarão em condições de formar uma idéia adequada das complexidades existentes na causação do esquecimento temporário de um nome Uma análise apropriada irá porém desemaranharlhes uma dessas meadas O esquecimento de impressões e de experiências demonstra de forma muito mais clara e exclusiva do que o esquecimento de nomes a atuação da intenção de manter coisas desagradáveis fora da memória Naturalmente nem toda a área desse tipo de esquecimento se situa dentro da categoria das parapraxias mas apenas casos tais como aqueles que medidos pelo padrão de nossa experiência habitual nos parecem admiráveis e inexplicáveis por exemplo quando o esquecimento atinge impressões que são muito recentes ou importantes ou quando a lembrança perdida abre uma brecha naquilo que é por seu lado uma bemmemorizada cadeia de acontecimentos Por que e de que modo somos capazes de esquecer em geral e entre outras coisas esquecer experiências que certamente deixaram em nós uma impressão mais profunda tal como os acontecimentos dos anos mais remotos de nossa infância isso constitui outro problema no qual querer evitar impulsos desagradáveis desempenha determinado papel e contudo está longe de constituir a explicação completa É fato inequívoco que as impressões desagradáveis são facilmente esquecidas Diversos psicólogos o observaram e o grande Darwin se impressionava tanto com isso que tornou regra de ouro anotar com cuidado especial quaisquer observações que parecessem desfavoráveis à sua teoria de vez que se havia convencido de que precisamente elas não permaneceriam em sua memória Uma pessoa que pela primeira vez ouve falar nesse princípio do afastamento de lembranças desagradáveis por meio do esquecimento raramente deixa de objetar que pelo contrário em sua experiência as coisas aflitivas são especialmente difíceis de esquecer e insistem em retornar contra sua vontade a fim de atormentála lembranças por exemplo de insultos e humilhações Isso também é um fato verídico contudo a objeção não procede É importante e oportuno começar a levar em conta o fato de que a vida mental é a arena e o campo de batalha de intenções que se opõem reciprocamente ou para dizêlo de modo nãodinâmico que se constitui de contradições e de pares de contrários A prova da existência de determinado propósito não é argumento contra a existência de um propósito oposto há lugar para ambos É apenas uma questão de saber como se colocam esses contrários um em relação ao outro e que efeitos são produzidos por um e por outro Perda e extravio são de particular interesse para nós devido aos vários significados que podem ter isto é devido à multiplicidade das intenções que podem se servir dessas parapraxias Todos os casos têm em comum o fato de ter existido um desejo de perder algo diferem quanto à origem e quanto ao objetivo desse desejo Perdemos uma coisa quando está gasta quando pretendemos substituíla por outra melhor quando não gostamos mais dela quando ela procedeu de alguém com quem não estamos nos relacionando bem ou quando a adquirimos em circunstâncias que não desejamos mais rememorar ver em 1 e 2 Deixar cair danificar ou quebrar um objeto podem servir à mesma finalidade Na esfera da vida social segundo se diz a experiência demonstrou que as crianças indesejadas e ilegítimas são muito mais frágeis do que aquelas concebidas legitimamente Não é necessário atingir a crua técnica das criadeiras profissionais de crianças para chegar a tal resultado determinada dose de negligência no trato com as crianças deve ser suficiente A preservação de coisas pode estar sujeita às mesmas influências que o cuidado com as crianças No entanto as coisas podem ser condenadas a serem perdidas sem que seu valor tenha sofrido qualquer diminuição isto é quando há uma intenção de sacrificar algo ao Destino a fim de se proteger de uma outra perda que se teme A análise nos revela que entre nós ainda é muito comum exorcizar o Destino dessa maneira e assim nossa perda muitas vezes é um sacrifício voluntário Da mesma forma a perda também pode servir à intenção de desafio ou autopunição Para resumir são incontáveis as mais remotas razões para a intenção de se desfazer de uma coisa por meio de sua perda Os atos descuidados assim como outros erros muitas vezes são usados para satisfazer desejos que uma pessoa deveria negar existirem em si própria Neles a intenção se dissimula em um auspicioso acidente Por exemplo como aconteceu a um de meus amigos um homem pode ser obrigado obviamente contra sua vontade a viajar de trem para visitar alguém perto da cidade em que vive e em uma estação onde deve fazer baldeação então pode por engano embarcar num trem que o leva de volta ao local de onde veio Ou alguém numa viagem pode estar desejoso de fazer uma parada em uma estação intermediária porém estar impedido de fazêlo devido a outras obrigações podendo assim negligenciar ou perder uma conexão de modo que em última análise é obrigado a interromper sua viagem da maneira como queria Ou o que sucedeu a um de meus pacientes eu lhe havia proibido telefonar à moça de quem estava apaixonado e quando quis telefonar para mim pediu o número errado por engano ou enquanto estava pensando em alguma outra coisa e de repente se viu com o número do telefone da moça Um bom exemplo de descuido cabal com repercussão prática é proporcionado pela observação feita por um engenheiro em seu relato dos fatos que antecederam um caso de danos materiais Há algum tempo atrás eu trabalhava com diversos estudantes no laboratório da escola técnica numa série de complexas experiências sobre elasticidade um trabalho que tínhamos assumido voluntariamente e contudo começava a exigir mais tempo de que prevíramos Um dia quando retornava ao laboratório com meu amigo F este comentou como o aborrecia perder tanto tempo justamente naquele dia quando tinha tantas outras coisas para fazer em casa Não pude deixar de concordar com ele e com algum gracejo referindome a um acidente na semana anterior acrescentei Esperemos que a máquina falhe novamente pois assim poderemos parar com o trabalho e ir para casa cedo Ao distribuir o trabalho sucedeu que a F coube a regulagem da válvula da prensa isto é estava incumbido de abrir cuidadosamente a válvula para deixar o fluido sob pressão sair lentamente do acumulador para o cilindro da prensa hidráulica O homem que conduzia a experiência colocouse junto ao manômetro e quando se atingiu a pressão correta ordenou em voz alta Pare À palavra de comando F agarrou a válvula e torceua com toda a força para a esquerda Todas as válvulas sem exceção fechamse girando para a direita Isso fez com que a pressão total do acumulador passasse subitamente para a prensa um esforço para o qual não estavam destinados os canos de ligação de forma que um desses canos imediatamente explodiu um acidente bastante inócuo para a máquina porém suficiente para nos obrigar a suspender o trabalho por esse dia e irmos para casa O surpreendente aliás é que quando estávamos discutindo o caso algum tempo depois meu amigo F não tinha a mínima recordação de meu comentário que eu recordava fielmente Isso pode levar os senhores a suspeitar de que não é apenas um inocente acaso que transforma as mãos de nossas empregadas domésticas em perigosos inimigos de nossos objetos de casa E os senhores também podem se perguntar se é obra do acaso quando as pessoas se machucam e arriscam sua própria segurança Essas são noções cuja validade os senhores surgindo a ocasião podem se dedicar a comprovar analisando suas próprias observações Senhoras e senhores isso está longe de ser tudo quanto se poderia dizer a respeito de parapraxias Muita coisa resta a examinar e discutir Fico contudo satisfeito se nossa discussão do assunto até aqui de certa forma agitou suas opiniões anteriores e os deixou um tanto mais preparados para aceitar outras novas Contentome de resto com deixálos defrontandose com uma situação não esclarecida Não podemos estabelecer nossas doutrinas a partir de um estudo das parapraxias e não estamos obrigados a extrair nossas provas a partir apenas desse material O grande valor das parapraxias para os objetivos que almejamos consiste no fato de serem fenômenos muito comuns que além de tudo podem ser observados com facilidade em cada um e ocorrer sem absolutamente implicar em doença Existe apenas uma das questões dos senhores não respondida a qual eu antes de terminar gostaria de verbalizar Conforme verificamos em muitos exemplos se as pessoas chegam tão próximo de uma compreensão das parapraxias e tão amiúde se comportam como se apreendessem seu sentido de que modo lhes é possível não obstante classificar esses fenômenos como sendo em geral eventos casuais sem sentido nem significado e poder oporse tão vigorosamente à elucidação psicanalítica dessas mesmas parapraxias Os senhores têm razão Esse é um fato notável e exige uma explicação No entanto não lhes darei tal explicação Em vez disso eu os levarei gradualmente a áreas de conhecimento a partir das quais a explicação irá se impor aos senhores sem qualquer contribuição de minha parte PARTE II SONHOS1916 191516 CONFERÊNCIA V DIFICULDADES E ABORDAGENS INICIAIS SENHORAS E SENHORES Um dia descobriuse que os sintomas patológicos de determinados pacientes neuróticos têm um sentido Nessa descoberta fundamentouse o método psicanalítico de tratamento Acontecia que no decurso desse tratamento os pacientes em vez de apresentar seus sintomas apresentavam sonhos Com isso surgiu a suspeita de que também os sonhos teriam um sentido Não seguiremos contudo esse caminho histórico e sim prosseguiremos na direção oposta Demonstraremos o sentido dos sonhos como forma de preparação para o estudo das neuroses Essa inversão se justifica de vez que o estudo dos sonhos não apenas é a melhor preparação para o estudo nas neuroses como também porque os sonhos por si mesmos são um sintoma neurótico que nos oferece ademais a inestimável vantagem de ocorrer em todas as pessoas sadias Na verdade supondose que todos os seres humanos fossem normais contanto que sonhassem nós partindo de seus sonhos poderíamos chegar a quase todas as descobertas a que nos levou a investigação das neuroses Os sonhos portanto se tornaram tema de pesquisa psicanalítica mais uma vez fenômenos comuns aos quais se tem atribuído pouco valor e aparentemente sem nenhum uso prático como as parapraxias com as quais na realidade têm em comum o fato de ocorrerem em pessoas sadias Afora isso porém as condições para nosso trabalho são aqui bem menos favoráveis As parapraxias simplesmente tinham sido negligenciadas pela ciência pouca atenção lhes havia sido dada contudo pelo menos não havia nenhum prejuízo em alguém se interessar por elas Sem dúvida dirseia há coisas mais importantes Alguma coisa no entanto talvez possa resultar daí Ademais alguém se interessar por sonhos não é apenas pouco prático e desnecessário é positivamente ignominioso Traz consigo a reprovação geral de não ser científico e desperta a suspeita de uma inclinação pessoal pelo misticismo Imaginem um profissional da medicina dedicandose a sonhos quando há tantas coisas mais sérias mesmo na neuropatologia e na psiquiatria tumores da dimensão de maçãs comprimindo o órgão da mente hemorragias inflamação crônica onde em todos as alterações dos tecidos podem ser demonstrados ao microscópio Não os sonhos são excessivamente triviais e indignos de ser objeto de pesquisa E existe algo mais que por sua própria natureza frustra os requisitos da pesquisa exata Ao investigar os sonhos nem mesmo se está seguro do objeto da pesquisa que se faz Um delírio por exemplo apresentase de forma inequívoca e com seus contornos definidos Eu sou o imperador da China diz o paciente sem qualquer dissimulação Mas sonhos Via de regra não se pode fazer nenhum relato de sonhos Se alguém faz um relato de um sonho existe alguma garantia de que seu relato foi correto ou pelo contrário não poderia ter alterado seu relato à medida que o fazia e ter sido compelido a inventar algum acréscimo para compensar a obscuridade de suas recordações A maioria dos sonhos não pode absolutamente ser lembrada e é esquecida salvo pequenos fragmentos E de que modo a interpretação de material desse tipo pode servir como base de uma psicologia científica ou como método de tratar pacientes Um excesso de críticas pode despertar nossas suspeitas Essas objeções aos sonhos como objeto de pesquisa obviamente foram longe demais Já tratamos da questão da nãoimportância em relação às parapraxias ver 1 e seg Dissemos que as grandes coisas podem ser reveladas através de pequenos indícios No que concerne à sua indefinição esta é uma característica dos sonhos como outra qualquer não podemos estabelecer para as coisas quais as características que devem ter Aliás também existem sonhos claros e distintos Ademais há outros assuntos de pesquisa psiquiátrica que padecem da mesma característica de indefinição em muitos casos por exemplo as obsessões e estas têm em última análise sido abordadas por psiquiatras respeitáveis e conceituados Recordome do último desses casos que encontrei em minha atividade médica Era uma paciente que se apresentou com estas palavras Tenho uma espécie de sentimento como se eu tivesse ferido ou desejasse ferir uma criatura viva uma criança não mais como se fosse um cachorro como se a tivesse jogado de uma ponte ou alguma outra coisa Podemos conseguir superar a deficiência da incerteza ao relembrar sonhos se decidimos que deve ser considerado como sonho seu tudo aquilo que nos relata a pessoa que sonhou sem levar em conta o que possa ter esquecido ou tenha alterado ao recordálo E finalmente nem mesmo se pode continuar afirmando tão indiscriminadamente que os sonhos são coisas sem importância Sabemos por nossa própria experiência que o estado de ânimo em que uma pessoa acorda de um sonho pode perdurar o dia inteiro os médicos têm observado casos nos quais uma doença mental começou com um sonho e nos quais persistiu um delírio originário de um sonho têm sido relatados casos de personagens históricos que em resposta a sonhos se aventuraram a importantes empreendimentos Podemos pois indagar qual deve ser a verdadeira origem do desprezo no qual são mantidos os sonhos nos círculos científicos Acredito que se trata de uma reação contra a supervalorização dos sonhos em épocas antigas A reconstrução do passado como sabemos é tarefa nada fácil contudo podemos supor com certeza se é que posso expressálo como brincadeira que há três mil anos ou mais nossos ancestrais já tinham sonhos como os nossos Até onde sabemos todos os povos da Antigüidade atribuíram grande importância aos sonhos e pensavam que estes podiam ser usados para fins práticos Deduziram a partir deles sinais para ler o futuro e neles procuravam os augúrios Para os gregos e para outros povos orientais pode ter havido época em que as campanhas militares sem interpretadores de sonhos pareciam tão impossíveis como nos dias atuais pareceria impossível uma campanha sem reconhecimento aéreo Quando Alexandre Magno iniciou suas conquistas seu séquito incluía os mais famosos interpretadores de sonhos A cidade de Tiro que naquele tempo ainda se erguia sobre uma ilha ofereceu ao rei tão dura resistência que ele pensou na possibilidade de levantar o cerco Então uma noite ele teve um sonho em que um sábio parecia dançar em triunfo e quando o relatou a seus interpretadores de sonhos estes o informaram de que o sonho predizia sua conquista da cidade Ordenou um assalto e capturou Tiro Entre os etruscos e os romanos estavam em uso outros métodos de prever o futuro porém durante todo o período helênicoromano a interpretação de sonhos era praticada e altamente conceituada Da literatura que trata do assunto o principal trabalho pelo menos sobreviveu o livro de Artemidoro de Daldis que provavelmente viveu durante o período do imperador Adriano Não sei dizerlhes como aconteceu que depois disso a arte de interpretar sonhos sofreu um declínio e os sonhos caíram em descrédito A difusão da instrução não pode ter tido muita coisa a ver com isso porquanto muitas coisas mais absurdas do que a interpretação de sonhos da Antigüidade foram ciosamente preservadas nas trevas da Idade Média Resta o fato de que o interesse pelos sonhos caiu gradualmente ao nível de superstição e pôde sobreviver apenas entre as classes não instruídas O abuso final da interpretação de sonhos foi atingido em nossos dias com tentativas de descobrir a partir dos sonhos os números destinados a serem premiados no jogo do loto Por outro lado a ciência exata de hoje repetidamente se ocupou de sonhos mas sempre com o único objetivo de aplicar a eles suas teorias fisiológicas Os médicos naturalmente consideraram os sonhos como atos nãopsíquicos como a expressão na vida mental de estímulos somáticos Binz 1878 35 enunciou que os sonhos são processos somáticos que em todos os casos são inúteis e em muitos casos positivamente patológicos em relação aos quais a alma do universo e a imortalidade são tão excelsamente superiores como o céu azul sobre um areal plano infestado de ervas Maury 1878 50 compara os sonhos aos desordenados movimentos da dança de São Vito em contraste com os movimentos coordenados de um homem sadio Consoante velha analogia os conteúdos de um sonho são semelhantes aos sons produzidos quando os dez dedos de um homem que nada sabe de música vagueiam sobre as teclas de um piano Strümpell 1877 84 Interpretar significa achar um sentido oculto em algo naturalmente não haverá como fazêlo se adotarmos essa última opinião sobre a função dos sonhos Reparem na descrição dos sonhos feita por Wundt 1874 Jodl 1896 e outros filósofos mais recentes Eles se contentam com enumerar os aspectos em que a vida onírica difere do pensamento desperto sempre num sentido que deprecia os sonhos enfatizando o fato de que as associações se rompem que a faculdade de criticar deixa de funcionar que todo o conhecimento é eliminado bem como outros sinais de diminuição do funcionamento A única contribuição de valor aos conhecimentos sobre sonhos que temos a agradecer às ciências exatas referese ao efeito produzido no conteúdo dos sonhos pelo impacto de estímulos somáticos durante o sono Um autor norueguês recentemente falecido J Mourly Vold publicou dois alentados volumes de pesquisas experimentais sobre sonhos edição alemã 1910 e 1912 que se dedicam quase que exclusivamente às conseqüências das alterações na postura dos membros Foramnos recomendados como modelos de pesquisa exata sobre sonhos Os senhores podem imaginar o que diria a ciência exata se soubesse que desejamos fazer uma tentativa de descobrir o sentido dos sonhos Talvez ela já o tenha dito Porém não nos deixaremos atemorizar com isso Se foi possível às parapraxias ter um sentido os sonhos podem ter algum também e em muitos e muitos casos as parapraxias têm um sentido que à ciência exata passou despercebido Assim abracemos o preconceito dos antigos e do povo e sigamos as pegadas dos interpretadores de sonhos da Antigüidade Devemos começar por encontrar nossos propósitos na tarefa à nossa frente e fazer um reconhecimento geral do campo dos sonhos Então o que é um sonho É difícil responder em uma só frase Porém não tentaremos uma definição quando só basta que se chame a atenção para algo que é conhecido de todos Devemos entretanto pôr em evidência o aspecto essencial dos sonhos Este onde é que se pode encontrálo porém São tão grandes as diferenças dentro do âmbito em que se inscreve nosso assunto diferenças em todas as direções O aspecto essencial provavelmente será algo que podemos apontar como sendo comum a todos os sonhos A primeira coisa que é comum a todos os sonhos pareceria ser naturalmente o fato de que estamos dormindo durante os sonhos O sonhar é evidentemente vida mental durante o sono algo que tem certas semelhanças com a vida mental desperta mas que por outro lado se distingue dela por grandes diferenças Essa era há muito tempo a definição de Aristóteles Talvez existam ainda conexões mais estreitas entre sonhos e sono Podemos ser acordados por um sonho muito freqüentemente temos um sonho quando acordamos espontaneamente ou quando somos tirados à força do sono Assim os sonhos parecem ser um estado intermediário entre o sono e a vigília De modo que nossa atenção se volta para o sono Bem então o que é o sono Esse é um problema fisiológico sobre o qual ainda existe muita controvérsia Quanto a esse respeito não podemos chegar a qualquer conclusão penso porém que devemos tentar descrever as características psicológicas do sono O sono é um estado no qual não desejo saber de nada do mundo externo um estado no qual retirei do mundo externo meu interesse Ponhome a dormir retraindome do mundo externo e mantendo afastados de mim seus estímulos Também vou dormir quando estou fatigado dele De modo que quando vou dormir digo ao mundo externo Deixeme em paz quero dormir As crianças ao contrário dizem Eu não vou dormir agora não estou cansado e quero ter mais algumas experiências A finalidade biológica do sono parece ser portanto a recuperação e sua característica psicológica a suspensão do interesse pelo mundo Nossa relação com o mundo ao qual viemos tão a contragosto parece incluir também nossa impossibilidade de tolerálo ininterruptamente Assim de tempos em tempos nos retiramos para o estado de prémundo para a existência dentro do útero A todo custo conseguimos para nós mesmos condições muito parecidas com aquelas que então possuímos calor escuridão e ausência de estímulos Alguns de nós se embrulham formando densa bola e para dormir assumem uma postura muito parecida com a que ocupavam no útero Parece que o mundo não possui completamente sequer mesmo aqueles dentre nós que são adultos mas apenas até os dois terços um terço de nós ainda é como se não fora nascido Cada vez que acordamos pela manhã é como que um novo nascimento Com efeito ao falar em nosso estado após o sono dizemos que nos sentimos como se tivéssemos acabado de nascer Ao dizer isso aliás estamos demonstrando o que provavelmente é uma suposição muito falsa acerca das sensações gerais de uma criança recémnascida que parece ao contrário se sentir provavelmente muito sem conforto Falamos também do nascer como ver pela primeira vez a luz do dia Se é isso o sono os sonhos possivelmente não fazem parte do seu programa parecendo ao contrário ser um indesejável acréscimo ao sono Também ao nosso ver um sono sem sonhos é o melhor o único apropriado Não deveria existir qualquer atividade mental no sono se este começa a ficar inquieto é por que não conseguimos atingir o estado fetal de repouso não fomos inteiramente capazes de evitar os remanescentes da atividade mental Os sonhos consistiriam nesses remanescentes Contudo se fosse assim realmente pareceria não haver necessidade de os sonhos terem algum sentido Com as parapraxias era diferente elas afinal eram atividades durante a vida desperta Se porém estou dormindo e cessei minha atividade mental completamente e simplesmente não consegui suprimir alguns resíduos dessa atividade então não há necessidade alguma de esses resíduos terem algum sentido Nem sequer posso fazer uso de um tal sentido de vez que o restante de minha vida mental está dormindo Assim realmente só pode tratarse de uma questão de reações à maneira de repuxões dos fenômenos mentais como resultado direto de um estímulo somático Por conseguinte os sonhos seriam remanescentes da atividade mental desperta perturbadores do sonho e faríamos bem em decidir abandonar de vez o assunto por ser inadequado à psicanálise No entanto ainda que os sonhos fossem supérfluos eles existem e podemos tentar explicar sua existência Por que a vida mental não consegue dormir Provavelmente porque existe algo que não quer conceder paz à mente Os estímulos incidem sobre a mente e ela deve reagir a eles Um sonho pois é a maneira como a mente reage aos estímulos que a atingem no estado de sono E nisso vemos uma via de acesso à compreensão dos sonhos Podemos tomar diferentes sonhos e tentar descobrir qual o estímulo que procurou perturbar o sono e contra o qual a reação foi um sonho Nosso exame da primeira coisa que é comum a todos os sonhos parece ternos levado até esse ponto Existe algo mais que é comum a todos eles Sim algo que é inconfundível porém muito mais difícil de apreender e descrever Os processos mentais no sono têm um caráter bastante diferente daqueles que se realizam em vigília Nos sonhos experimentamos toda sorte de coisas e acreditamos nelas ao passo que não obstante nada experimentamos exceto talvez o estímulo perturbador isolado Nós o experimentamos predominantemente sob a forma de imagens visuais sentimentos também podem estar presentes assim como pensamentos que nisso se entrelaçam Os outros sentidos também podem experimentar algo porém mesmo assim se trata principalmente de uma questão de imagens Parte da dificuldade de fornecer uma descrição dos sonhos se deve ao fato de termos de traduzir essas imagens em palavras Eu poderia desenhálo diznos muitas vezes uma pessoa que sonhou mas não sei como dizêlo Não se trata porém de uma atividade mental reduzida como a de uma pessoa oligofrênica comparada com a de um gênio é qualitativamente diferente embora seja difícil dizer onde está a diferença G T Fechner 1860 certa vez exprimiu a suspeita de que o cenário da ação dos sonhos na mente fosse diferente daquele da vida ideativa desperta Conquanto não o compreendamos e não saibamos o que fazer disso na verdade reproduz a impressão de estranheza que a maioria dos sonhos nos causa A comparação entre a atividade do sonho e os efeitos de uma mão nãomusical no piano ver em 1 não nos auxilia nesse ponto O piano afinal de contas responde com as mesmas notas embora não com melodias quando suas teclas são tocadas ao acaso Guardemos cuidadosamente na memória essa segunda coisa comum a todos os sonhos embora possamos não têla compreendido Existem mais outras coisas comuns a eles Não posso descobrir nenhuma não posso ver senão diferenças em todos os aspectos em sua duração aparente assim como em sua clareza na quantidade de afeto que os acompanha na possibilidade de retêlos na memória e assim por diante Essa variedade não é realmente o que poderíamos esperar encontrar em uma simples reação defensiva a um estímulo algo mecanicamente imposto uma coisa vazia como os repuxões da dança de São Vito No que concerne às dimensões dos sonhos alguns são muito curtos e compreendem apenas uma única imagem ou umas poucas imagens um único pensamento ou mesmo uma única palavra outros são extraordinariamente ricos em seu conteúdo apresentam novelas inteiras e parecem durar longo tempo Há sonhos tão claros como a experiência vigil tão claros que bastante tempo após havermos acordado não percebemos que eram sonhos e outros existem que são indescritivelmente obscuros vagos e borrados Na realidade em um mesmo sonho partes muito definidas podem se alternar com outras de uma vaguidade que mal se pode discernir Há sonhos inteiramente plenos de sentido ou pelo menos coerentes humorísticos mesmo ou fantasticamente belos outros ademais são confusos imbecis por assim dizer absurdos muitas vezes positivamente loucos Há sonhos que nos deixam praticamente frios e outros em que se manifestam afetos de todos os tipos sofrimento a ponto de fazer chorar ansiedade a ponto de nos acordar surpresa encantamento etc Os sonhos são de hábito esquecidos facilmente após o despertar ou podem perdurar através do dia lembrados mais e mais indistintamente até o fim do dia outros ainda por exemplo sonhos da infância são tão bem preservados que trinta anos após permanecem na memória como se fossem experiência recente Os sonhos à semelhança de pessoas podem aparecer somente em uma única ocasião para nunca mais ou retornar na mesma aparência não modificada ou com pequenas dessemelhanças Em suma esse fragmento da vida mental durante a noite tem um imenso repertório à sua disposição é capaz de fato de tudo aquilo que a mente cria no período diurno e contudo jamais é a mesma coisa Poderíamos tentar explicar essas muitas variações dos sonhos supondo que correspondem a diferentes fases intermediárias entre o sono e a vigília graus diferentes de sono incompleto Está bem mas se assim fosse o valor o conteúdo e a clareza de um produto onírico e também a consciência de se tratar de um sonho teriam de crescer naqueles sonhos em que a mente estava próxima do despertar e não seria possível uma parte clara e racional de sonho ser seguida imediatamente de outra que é obscura e não tem sentido e esta por sua vez ser acompanhada de outra parte de boa qualidade A mente por certo não poderia modificar a profundidade de seu sono assim tão rapidamente Logo essa explicação não nos auxilia não há como sair da dificuldade Por agora deixaremos de lado o sentido dos sonhos e tentaremos chegar a uma melhor compreensão dos mesmos a partir daquilo que verificamos terem eles em comum Inferimos da relação entre os sonhos e o estado de sono que os sonhos são a reação a um estímulo que perturba o sono Aprendemos que esse é também o único ponto no qual a psicologia experimental exata pode vir em nosso auxílio fornecenos provas de que os estímulos que incidem durante o sono fazem seu aparecimento nos sonhos Muitas investigações desse tipo foram realizadas sendo as mais recentes as de Mourly Vold que já mencionei ver em 1 e 2 e cada um de nós sem dúvida tem estado em condições de confirmar estes achados a partir de observações pessoais Selecionarei algumas das primeiras experiências Maury 1878 realizou algumas experiências consigo próprio Foilhe dado para cheirar um pouco de água de colônia durante o sono Sonhou que estava no Cairo na loja de Johann Maria Farina e houve mais algumas aventuras absurdas Em outra ocasião deramlhe um leve beliscão no pescoço sonhou que lhe era aplicado um cataplasma de mostarda e sonhou com um médico que o havia tratado quando era criança Ou ainda pingaram uma gota dágua em sua testa estava na Itália transpirava violentamente e bebia vinho branco de Orvieto O notável nesses sonhos produzidos experimentalmente será talvez mais visível ainda em outra série de sonhos produzidos por estímulos São três sonhos relatados por um observador inteligente Hildebrandt 1875 todos eles reações à campainha de um despertador Sonhei então que certa manhã de primavera eu saía a passeio e vagava pelos verdes campos até chegar a uma aldeia próxima onde vi os aldeões em suas melhores roupas com seus livros de cânticos debaixo do braço reunindose na igreja Evidente Era domingo e o culto do início da manhã logo estaria começando Decidi assistir ao culto mas antes eu estava um tanto acalorado de caminhar entrei no cemitério que circundava a igreja para refrescar Enquanto lia algumas das lápides dos túmulos ouvi o sineiro subindo a torre da igreja e lá no alto via agora o pequeno sino da aldeia que logo daria o sinal para o início das devoções Por um momento eu o vi pendente ali sem movimento depois começou a balançar e subitamente seu repicar começou a soar claro e penetrante tão claro e penetrante que pôs fim ao meu sono Porém o que estava soando era o despertador Aqui está outro exemplo Era um dia claro de inverno e as ruas estavam cobertas de espessa camada de neve Eu tinha decidido comparecer a uma festa em viagem de trenó contudo tive de esperar por longo tempo até virem me dizer que o trenó estava à porta E então se seguiram os preparativos para embarcar a manta de pele estendida o abrigo para os pés já colocado e por fim estava sentado em meu lugar Ainda assim o momento da partida foi retardado até que um puxão nas rédeas deu o sinal aos cavalos De imediato partiram e em sacudidas violentas os cincerros do trenó romperam seu tilintar conhecido deveras com tal violência que num momento a teia do meu sonho se havia rompido E uma vez mais era apenas o som estridente do despertador E agora um terceiro exemplo Via uma empregada doméstica com várias dúzias de pratos empilhados uns sobre os outros andando pelo corredor que dava para a sala de jantar A pilha de louça em seus braços me pareceu estar prestes a perder o equilíbrio Cuidado exclamei eu senão você vai deixar cair tudo Seguiuse devidamente a inevitável resposta ela estava acostumada àquela espécie de tarefa e assim por diante E entrementes meu olhar ansioso seguia a figura que avançava Então justamente como eu esperava ela tropeçou na soleira e a frágil louça escapuliu e numa verdadeira sinfonia de ruídos espatifouse em mil pedaços no chão Mas o barulho prosseguiu sem cessar e logo não pareceu mais o ruído característico do espatifar de louças transformandose no som de uma campainha e este som como o meu eu self desperto agora percebia era apenas o despertador desempenhando sua tarefa Esses são sonhos muito bonitos inteiramente plenos de sentido e pelo menos não tão incoerentes como costumam ser os sonhos Não estou fazendo objeção a eles a esse respeito O que eles têm em comum é a situação em cada caso terminar com um barulho que quando o sonhador acorda é reconhecido como sendo causado pelo despertador Assim vemos aqui como se produz um sonho aprendemos porém algo mais que isso O sonho não reconhece o despertador e sequer este aparece no sonho mas substitui o ruído do despertador por outro interpreta o estímulo que está pondo fim ao sono contudo o interpreta de forma diferente em cada uma das vezes Por que faz isso Não há resposta parece questão de capricho Compreender o sonho significaria poder dizer por que esse determinado ruído e não outro foi escolhido para interpretar o estímulo proveniente do despertador Objeção análoga podemos fazer às experiências de Maury podemos verificar bem claramente que o estímulo incidente aparece no sonho porém por que teve de tomar essa forma particular isso não nos é dito e não parece em absoluto ser devido à natureza do estímulo que perturbou o sono Nas experiências de Maury geralmente aparece também uma série de outros materiais dos sonhos que se juntam ao efeito direto do estímulo por exemplo as aventuras absurdas no sonho da água de colônia que não podem encontrar explicação E agora considerem que os sonhos do despertar oferecem a melhor oportunidade de estabelecer a influência dos estímulos externos perturbadores do sono Em muitos outros casos será mais difícil Nem todos os sonhos nos levam a acordar e se na manhã seguinte nos lembramos de um sonho da noite anterior como iremos descobrir um estímulo perturbador que talvez possa ternos causado um impacto durante a noite Certa vez consegui identificar um estímulo sonoro desse tipo de modo retrospectivo naturalmente porém apenas devido a circunstâncias especiais Acordei certa manhã em uma localidade das montanhas do Tirol sabendo que havia tido um sonho em que o papa havia morrido Não pude explicar a mim mesmo o sonho entretanto mais tarde minha esposa me perguntou se eu tinha ouvido o tremendo barulho do repicar dos sinos pela manhã que irrompera de todas as igrejas e capelas Não eu nada tinha ouvido meu sono é mais resistente que o dela mas graças à sua informação eu compreendi meu sonho Quantas vezes estímulos dessa espécie podem provocar sonhos em uma pessoa que dorme sem que esta venha a saber deles depois Talvez muito freqüentemente mas talvez não Se os estímulos não podem mais ser identificados não podemos nos convencer de sua existência E em todo caso mudamos nossa opinião com relação à importância dos estímulos externos que perturbam o sono pois aprendemos que podem explicar apenas uma pequena parte do sonho e não o total da reação onírica Não há necessidade para em virtude disso abandonar de todo essa teoria Ademais ela pode ser ampliada Obviamente não importa saber o que é que perturba o sono ou leva a mente a sonhar Como não pode invariavelmente tratarse de estímulo sensorial vindo de fora pode haver em substituição o que se chama de estímulo somático que surge dos órgãos internos Essa é uma idéia muito plausível e concorda com a muito popular opinião sobre a origem dos sonhos os sonhos vêm da indigestão dizem as pessoas freqüentemente Infelizmente aqui também devemos suspeitar muitas vezes que existem casos em que um estímulo somático atuado sobre uma pessoa em sono durante a noite não mais se manifesta após o despertar e portanto não se pode provar que tenha ocorrido Não desprezaremos porém o sem números de claras experiências que apóiam a origem dos sonhos em estímulos somáticos Em geral não pode haver dúvida de que as condições dos órgãos internos possam influenciar os sonhos A relação entre o conteúdo de alguns sonhos e uma bexiga muito cheia ou um estado de excitação dos órgãos genitais é tão simples que não pode causar malentendidos Esses casos evidentes levam a outros nos quais o conteúdo dos sonhos dá origem à justificada suspeita de que houve um impacto causado por estímulos somáticos porque no conteúdo existe algo que pode ser visto como uma superelaboração atuante uma representação ou interpretação de tais estímulos Scherner 1861 que realizou pesquisas com sonhos argumentava com vigor especial a favor da derivação dos sonhos a partir de estímulos orgânicos e apresentava alguns bons exemplos pertinentes Por exemplo em um sonho ele viu duas fileiras de rapazes elegantes com lindos cabelos e pele delicada enfrentandose em formação de combate fazendo uma investida atacando uma à outra e após retirandose e voltando novamente à posição anterior em seguida começando toda a manobra mais uma vez Sua interpretação dessas duas fileiras de rapazes como sendo dentes é plausível em si mesma e parece inteiramente confirmada quando sabemos que após essa cena do sonho a pessoa arrancou de sua mandíbula um comprido dente Identicamente a interpretação de corredores longos estreitos e ventosos como derivados de um estímulo intestinal parece válida e confirma a asserção de Scherner de que os sonhos procuram sobretudo representar o órgão que emite o estímulo por objetos que se lhes assemelham Por conseguinte devemos estar preparados para admitir que os estímulos internos podem desempenhar nos sonhos o mesmo papel que os externos Qualquer estimativa acerca de sua importância infelizmente é passível das mesmas objeções Em numerosos casos uma interpretação que aponte para um estímulo somático é incerta e improvável Não são todos os sonhos mas apenas determinado número deles que dão lugar a uma suspeita de que os estímulos orgânicos internos tivessem parte na origem deles E por fim os estímulos somáticos internos são como os estímulos sensoriais externos tão pouco capazes de explicar mais aspectos de um sonho do que aquilo que neste corresponde a uma reação direta ao estímulo Continua obscuro saber de onde vem o restante do sonho Observemos no entanto uma peculiaridade da vida onírica que vem à luz neste estudo dos efeitos dos estímulos Os sonhos não fazem simplesmente reproduzir o estímulo eles o vertem fazem alusões a ele o incluem em algum contexto o substituem por alguma outra coisa Esse é um aspecto da elaboração onírica que não pode deixar de nos interessar porque pode talvez nos aproximar mais da essência dos sonhos Quando uma pessoa constrói algo em conseqüência de um estímulo o estímulo não necessita por isso levar a cabo todo o trabalho O Macbeth de Shakespeare por exemplo foi uma pièce doccasion composta para celebrar a elevação ao trono do rei que foi o primeiro a unir as coroas dos três reinos Essa ocasião histórica imediata porém abrangeria todo o conteúdo da tragédia Explica todas as suas grandezas e os seus enigmas Pode ser que os estímulos externos e internos também atingindo a pessoa em sono sejam apenas provocadores do sonho e por conseguinte nada nos revelem de sua essência A segunda coisa comum aos sonhos sua peculiaridade psíquica ver em 1 e seg é por um lado difícil de compreender e por outro não nos oferece ponto de partida para ulterior investigação Nos sonhos via de regra experimentamos coisas sob formas visuais Podem os estímulos esclarecer algo a esse respeito O que experimentamos é realmente o estímulo Nesse caso porém por que a experiência é visual se é apenas em casos muito raros que a estimulação óptica provoca o sonho Ou se sonhamos palavras faladas poderá ser demonstrado que durante o sonho uma conversação ou algum ruído que lhe seja semelhante teve acesso aos nossos ouvidos Eu me aventuraria a desprezar essa possibilidade decisivamente Se não podemos progredir com aquilo que é comum aos sonhos vejamos se nos é possível valernos das diferenças Naturalmente os sonhos muitas vezes são sem sentido confusos e absurdos contudo também existem os sonhos plenos de sentido práticos e sensatos Verifiquemos se os últimos os que são plenos de sentido podem elucidar aqueles carentes de sentido Aqui está o último sonho sensato que me foi relatado Foi sonhado por um jovem Fui dar um passeio pela Kärntnerstrasse encontrei ali Herr X e estive com ele por certo tempo Depois entrei num restaurante Duas senhoras e um cavalheiro chegaram e se sentaram à minha mesa Aborrecime com isso inicialmente e não queria olhar para eles Então olhei realmente e constatei que eram muito amáveis A pessoa que teve esse sonho comentou a propósito que na tarde anterior ao sonho de fato passara pela Kärntnerstrasse que é o caminho que geralmente segue e que ali encontrara Herr X A outra parte do sonho não era uma recordação direta e apenas tinha alguma semelhança com determinada experiência de uma época consideravelmente anterior E aqui está outro sonho trivial desta vez o sonho de uma senhora O marido dela lhe perguntou Você não acha que devemos mandar afinar o piano E ela replicou Não vale a pena de qualquer maneira os martelos precisam de recondicionamento Este sonho repetia sem muita modificação uma conversação mantida entre ela e seu marido no dia anterior ao sonho O que entendemos desses dois sonhos sensatos Nada senão que contêm repetições extraídas da vida diária ou coisas a esta vinculadas Já seria alguma coisa se dos sonhos em geral se pudesse dizer algo semelhante Esse porém não é o caso aplicase apenas a uma minoria e na maioria dos sonhos não existe sinal de uma conexão com o dia anterior com isso se elucidam os sonhos sem sentido e absurdos Apenas mostra que encontramos sem esperar uma nova tarefa Desejamos não apenas saber o que um sonho diz mas se ele fala claramente como o faz nesses exemplos também queremos saber por que e com que finalidade esse material corriqueiro experimentado tão recentemente foi repetido no sonho Penso que como eu os senhores devem estar cansados de prosseguir com investigações como as que estivemos fazendo até aqui Todo o interesse por um problema é evidentemente insuficiente a menos que se conheça bem uma via de abordagem que leve à sua solução Ainda não encontramos um tal caminho A psicologia experimental nada nos proporciona salvo algumas informações muito valiosas sobre a importância dos estímulos como incentivadores do sonhar Da filosofia nada podemos esperar exceto que uma vez mais nos salientará orgulhosamente a inferioridade intelectual do objeto de nosso estudo Também não temos desejo algum de tomar qualquer coisa emprestada das ciências ocultas A história e a opinião popular nos dizem que os sonhos têm um sentido e um significado que eles perscrutam o futuro o que é difícil de aceitar e certamente impossível de provar Assim nosso esforço inicial nos deixa em completa incerteza Inesperadamente nos chega a indicação de uma direção em que até agora não havíamos olhado O uso idiomático que não é algo casual porém constitui o precipitado de antigas descobertas embora para estarmos seguros não deva ser empregado descuidadamente portanto nossa linguagem está familiarizada com coisas que levam o estranho nome de devaneios Os devaneios são fantasias produtos da imaginação são fenômenos muito generalizados observáveis mais uma vez tanto nas pessoas sadias como nas doentes e são facilmente acessíveis ao estudo em nossa própria mente A coisa mais notável a respeito dessas estruturas imaginárias é que lhes foi dado o nome de devaneios de vez que nelas não há qualquer traço dos dois elementos comuns aos sonhos ver em 1 e segs Sua relação com o sono já é negada em seu próprio nome e no concernente à segunda coisa comum aos sonhos nelas não experimentamos nem alucinamos algo mas imaginamos alguma coisa sabemos que estamos tendo uma fantasia não vemos mas pensamos Esses devaneios surgem no período prépúbere freqüentemente ainda na parte final da infância persistem até a maturidade ser alcançada e então ou são abandonados ou mantidos até o fim da vida O conteúdo dessas fantasias é dominado por um motivo muito inteligível São cenas e eventos em que as necessidades egoísticas de ambição e poder da pessoa ou seus desejos eróticos encontram satisfação Em homens jovens as fantasias ambiciosas são as mais proeminentes nas mulheres cuja ambição se dirige ao êxito no amor as fantasias é que o são Também nos homens contudo as necessidades eróticas estão muito freqüentemente presentes nos bastidores todos os seus feitos heróicos e seus êxitos parecem ter como único alvo a admiração e o favor das mulheres Em outros aspectos esses devaneios são de tipos muito diferentes e passam por vicissitudes modificadoras Todos eles cada qual por sua vez ou são abandonados após pouco tempo e substituídos por outros novos ou mantidos tecidos em longas histórias e adaptados às modificações que surgem nas circunstâncias da vida da pessoa Eles se acomodam aos tempos por assim dizer e recebem uma marca da época que testemunha a influência da nova situação São a matériaprima da produção poética pois o escritor criativo usa seus devaneios com determinadas remodelações disfarces e omissões para construir as situações que introduz em seus contos novelas ou peças O herói dos devaneios é sempre a própria pessoa seja diretamente seja por uma óbvia identificação com alguma outra pessoa Talvez os devaneios atribuam seu nome ao fato de terem a mesma relação com a realidade para indicar que seu conteúdo é para ser considerado não menos irreal do que o dos sonhos No entanto talvez partilhem esse nome por causa de alguma característica psíquica dos sonhos que ainda nos é desconhecida alguma característica que estamos investigando Também é possível que estejamos laborando em considerável erro ao tentarmos fazer uso dessa semelhança de nome como algo significativo Somente mais tarde será possível elucidar esse aspecto CONFERÊNCIA VI PREMISSAS E TÉCNICA DE INTERPRETAÇÃO SENHORAS E SENHORES Aquilo de que necessitamos então é um novo caminho um método que nos possibilitará estabelecer um início na investigação dos sonhos Apresentolhes uma hipótese razoável Consideremos como premissa desse ponto em diante que os sonhos não são fenômenos somáticos mas psíquicos Os senhores sabem o que isso significa contudo o que justifica que façamos essa hipótese Nada mas também nada há a impedirnos de fazêlo Esta é a situação se os sonhos são fenômenos somáticos não têm interesse para nós podem apenas nos interessar na hipótese de serem fenômenos mentais Trabalharemos com a hipótese de que realmente o são para ver o que daí se origina O resultado de nosso trabalho decidirá se devemos manter essa hipótese e se podemos tratála por sua vez como dado comprovado Entretanto a que realmente queremos chegar Que objetivo nosso trabalho está buscando Desejamos algo que é buscado em todo trabalho científico compreender os fenômenos estabelecer uma correlação entre os mesmos e como fim último aumentar se possível nosso poder sobre esses fenômenosNesse consenso prosseguimos com nosso trabalho baseados na hipótese de que os sonhos são fenômenos psíquicos Nesse caso são produtos e comunicações da pessoa que sonha porém comunicações que nada nos dizem que não entendemos Pois bem o que fazem os senhores se Ihes comunico algo ininteligível Os senhores me farão perguntas não é mesmo Por que não faríamos a mesma coisa com a pessoa que sonhou questionála sobre o que seu sonho significa Como se recordam certa vez nos encontramos na mesma situação anteriormente Quando estávamos investigando determinadas parapraxias um caso de lapso de língua Alguém havia dito ver em 1 Então os fatos vieram a Vorschwein e logo lhe perguntamos não felizmente não éramos nós e sim outras pessoas que não tinham absolutamente qualquer conexão com a psicanálise essas outras pessoas então lhe perguntaram o que quis dizer com esse comentário ininteligível E ele prontamente replicou que tinha pretendido dizer estes fatos eram Schweinereien repugnantes porém repelira essa intenção em troca da versão mais suave então os fatos vieram a Vorschein luz Naquela ocasião ver em 1 e 2 assinalei aos senhores que essa amostra de informação constituía um modelo para toda investigação psicanalítica e agora compreenderão que a psicanálise segue a técnica de fazer com que as próprias pessoas que estão sendo examinadas tanto quanto possível proporcionem a solução de seus enigmas ver em 1 Assim também é o próprio sonhador quem deve nos dizer o que seu sonho significa No entanto como sabemos com os sonhos as coisas não são tão simples Com as parapraxias funcionou tudo bem em numerosos casos houve porém outros em que a pessoa indagada nada quis dizer e até mesmo recusou indignada a resposta que lhe propusemos Com os sonhos os casos do primeiro tipo são muito escassos o sonhador sempre diz que nada sabe Não pode rejeitar nossa interpretação de vez que não temos nenhuma para lhe apresentar Devemos então desistir de nossa tentativa Como ele nada sabe e nós nada sabemos e uma terceira pessoa poderia saber menos ainda parece não haver perspectiva de descobrir a solução Nesse caso se os senhores estão propensos a desistir desistam da tentativa Porém se pensam de forma diferente podem continuar acompanhandome Porque posso lhes assegurar ser completamente possível e na realidade altamente provável que o sonhador sabe sim o que seu sonho significa apenas não sabe que sabe e por esse motivo pensa que não sabe Os senhores me assinalarão que mais uma vez estou introduzindo uma suposição já a segunda nesse breve raciocínio e que assim fazendo estou reduzindo enormemente o direito à credibilidade de meu procedimento Devido à premissa de que os sonhos são fenômenos psíquicos e devido a uma nova premissa de que há coisas mentais em uma pessoa que sabe sem saber que sabe da existência deles e assim por diante Sendo assim basta que se considere a improbabilidade intrínseca de cada uma dessas duas premissas para se poder tranqüilamente desviar o interesse de qualquer conclusão que se possa basear nelas Eu não os trouxe até aqui senhoras e senhores para iludilos ou para ocultarlhes determinadas coisas Em meu programa é verdade anunciei uma série de Conferências Elementares para Servir como Introdução à Psicanálise contudo aquilo que eu tinha em mente não era nada nos moldes de uma apresentação in usum Delphini que lhes daria uma versão agradável com todas as dificuldades cuidadosamente escamoteadas com as lacunas preenchidas e as dúvidas explicadas favoravelmente de forma que os senhores pudessem crer com a mente despreocupada que tinham aprendido algo novo Não justamente pelo motivo de os senhores serem principiantes quis mostrarlhes a nossa ciência como ela é com suas asperezas e dificuldades suas exigências e hesitações Pois sei que o mesmo se passa com todas as ciências e possivelmente não pode ser de outra forma especialmente em seus começos Sei também que em geral o ensino se dá ao trabalho de se notabilizar pelo fato de encobrir de quem aprende essas dificuldades e imperfeições Com a psicanálise porém isso não vai acontecer De modo que formulei duas premissas uma dentro da outra e se alguém acha tudo isso muito laborioso e muito inseguro ou se alguém está habituado a certezas mais garantidas e a deduções mais elegantes não deve prosseguir conosco Penso no entanto que absolutamente não deveria se meter com os problemas psicológicos porquanto é de se temer que em breve achará intransitáveis os caminhos precisos e seguros que escolheu para seguir E uma ciência que tem algo a oferecer não tem necessidade de cortejar ouvintes e adeptos Suas descobertas não podem deixar de angariar adesões e ela pode esperar até que essas descobertas tenham feito com que as atenções se voltassem para ela Para aqueles que gostariam de prosseguir com esse tema porém posso afiançar que minhas duas hipóteses não são equivalentes A primeira a de que os sonhos são fenômenos psíquicos é a premissa que procuramos demonstrar pelo resultado de nosso trabalho a segunda já foi demonstrada em outra área de conhecimento e eu simplesmente estou me aventurando a transportála dessa área para nossos próprios problemas Onde pois em que campo se pôde encontrar a prova de que existe algum conhecimento do qual a pessoa interessada apesar de tudo nada sabe conforme estamos propondo supor a respeito dos sonhos Em última análise este seria um fato estranho surpreendente um fato que viria alterar nossa visão da vida mental e que não teria por que se manter escondido um fato aliás que se neutraliza na sua própria denominação e que não obstante pretende ser algo de real uma contradição em termos Pois bem ele não se esconde Não é falta sua se as pessoas nada sabem a seu respeito ou não lhe prestam suficiente atenção Também não somos nós que devemos ser acusados de permitir que esses problemas psicológicos sejam deixados a cargo de pessoas que se mantêm distanciadas de todas as observações e experiências decisivas para a questão A comprovação foi encontrada no campo dos fenômenos hipnóticos Quando em 1889 tomei parte nas demonstrações extraordinariamente impressionantes feitas por Liébault e Bernheim em Nancy testemunhei a seguinte experiência entre outras Quando um homem era colocado em estado de sonambulismo era levado a experimentar toda espécie de coisas em forma alucinatória e depois era despertado de início parecia nada saber do que acontecera durante seu sono hipnótico Bernheim então lhe pedia sem rodeios para relatar o que lhe havia acontecido sob hipnose O homem afirmava que não conseguia lembrarse de nada Bernheim porém se mantinha firme pressionavao para falar insistia em que o homem sabia e devia recordar E eis que o homem era tomado de incerteza começava a refletir e recordava de forma indistinta uma das experiências que lhe tinham sido sugeridas e depois outra parte e a memória se tornava cada vez mais clara e mais completa e finalmente vinha à luz sem falha Como no entanto posteriormente o homem sabia o que lhe acontecera durante a experiência e como ninguém lhe havia comunicado nada nesse meio tempo achamos acertado concluir que ele também antes sabia Simplesmente lhe era inacessível ele não sabia que sabia e pensava que não sabia Ou seja a situação era exatamente igual àquela que suspeitamos existir naquele nosso sonhador Suponho que os senhores se surpreendam com que esse fato tenha sido estabelecido e me perguntarão Por que o senhor deixou de apresentar essa prova anteriormente em conexão com as parapraxias quando terminamos por atribuir a um homem que cometera um lapso de língua uma intenção de dizer coisas das quais nada sabia e que negava Se uma pessoa pensa que não sabe nada sobre experiências cuja lembrança ainda assim está dentro dela já não é mais tão improvável ela não saber nada de outros processos mentais dentro de si Esse certamente seria para nós um argumento de peso e nos teria auxiliado a compreender as parapraxias Naturalmente eu poderia têlo apresentado antes porém reserveio para outro lugar onde é mais necessário As parapraxias em parte se explicavam por si mesmas e em parte nos deixavam a impressão de que para preservar a continuidade dos fenômenos em questão seria prudente supor a existência de processos mentais dos quais a pessoa nada sabe No caso dos sonhos somos compelidos a introduzir explicações provenientes de outro lugar e ademais disso espero que no caso dos mesmos os senhores acharão mais fácil aceitar que eu transporte para cá explicações provenientes da hipnose O estado no qual uma parapraxia ocorre não pode deixar de se lhes afigurar normal não possui qualquer semelhança com o estado hipnótico Por outro lado existe um parentesco evidente entre o estado hipnótico e o estado de sonho que constitui uma condição necessária do sonho A hipnose na verdade é descrita como um sono artificial À pessoa que estamos hipnotizando pedimos que durma e as sugestões que fazemos são comparáveis aos sonhos do sono natural As situações psíquicas nos dois casos são realmente análogas No sono natural retiramos nosso interesse de todo o mundo externo e no sono hipnótico também o retiramos do mundo inteiro porém com exceção apenas da pessoa que nos hipnotizou e com a qual permanecemos em contato Digase de passagem o sono de uma mãe cuidando de seu filho permanecendo em contato com o mesmo e podendo ser acordada apenas por ele é um equivalente normal do sono hipnótico Assim não seria tão fora de propósito transpor a situação da hipnose para a do sono natural Não é inteiramente absurda a suposição de que também no sonhador esteja presente algum conhecimento a respeito de seus sonhos embora esse conhecimento lhe seja inacessível a ponto de não acreditar no mesmo Observese que nesse ponto se abre uma terceira frente de abordagem ao estudo dos sonhos vimos a dos estímulos que perturbam o sono a dos devaneios e agora temos a dos sonhos sugeridos do estado hipnótico Talvez possamos agora retornar à nossa tarefa com renovada confiança É pois provável que o sonhador tenha noção do que sonhou a única questão é saber como tornarlhe possível descobrir o conhecimento que tem e o comunicar a nós Não lhe exigimos dizernos abertamente o sentido de seu sonho porém será capaz de encontrar a origem o círculo de pensamentos e de interesses do qual surgiu tal sonho Os senhores se recordam de que no caso das parapraxias perguntouse ao homem como ele havia chegado à palavra equivocada Vorschwein e a primeira coisa que lhe ocorreu deunos a explicação Nossa técnica no que se refere aos sonhos portanto é muito simples e copiada desse exemplo Também aqui perguntaremos a quem sonhou de que modo chegou ao sonho e da mesma forma seu primeiro comentário pode ser considerado uma explicação Com isso deixamos de lado o problema da distinção entre o fato de o sonhador pensar e o de não pensar que sabe algo e tratamos ambos os casos como um só e mesmo caso Essa técnica certamente é muito simples porém temo que desencadeará a mais viva oposição dos senhores Haverão de dizer Mais uma hipótese a terceira E a mais improvável de todas Se pergunto à pessoa que sonhou o que é que lhe ocorre em relação ao sonho de que modo precisamente a primeira coisa que lhe ocorre pode nos dar a explicação que esperamos Ora pode não lhe ocorrer absolutamente nada ou sabe lá o que lhe pode ocorrer Não consigo ver em que se baseia uma expectativa desse tipo Isso realmente é mostrar demasiada confiança na divina providência em um ponto em que seria apropriado isto sim um maior exercício da faculdade crítica Ademais um sonho não é somente uma palavra errada consiste em numerosos elementos Assim sendo que associação de idéias devemos seguirOs senhores estão corretos em todos os pontos de menor importância Um sonho difere de um lapso de língua entre outras coisas pela multiplicidade de seus elementos Nossa técnica deve levar isso em consideração Portanto lhes sugiro dividirmos o sonho em seus elementos e iniciarmos uma pesquisa à parte de cada elemento ao fazermos isso a analogia com um lapso de língua se estabelece Os senhores também têm razão ao pensar que aquele que sonhou quando interrogado sobre os diversos elementos do sonho separados uns dos outros pode responder que nada lhe ocorre Há alguns exemplos nos quais deixamos passar essa resposta e mais adiante os senhores saberão que exemplos são esses ver em 1 coisa muito estranha são exemplos nos quais idéias definidas podem ocorrer em nós mesmos Porém em geral se quem sonhou afirma que nada lhe ocorre contestamos nós o pressionamos insistimos em que algo deve ocorrerlhe e tornamos a ter razão Produzirá uma idéia qualquer idéia énos indiferente qual seja O sonhador nos dará determinadas informações que podem ser descritas como históricas com especial facilidade Ele pode dizer Isso é algo que aconteceu ontem como foi o caso em nossos dois sonhos de verdade ver em 1 e 2 ou Isso me lembra algo que aconteceu há pouco tempo e dessa maneira descobriremos que os sonhos se referem a impressões do dia anterior ou dos dois últimos dias muito mais freqüentemente do que de início imaginávamos loc cit E finalmente também recordará a partir do sonho acontecimentos de épocas ainda mais anteriores e até mesmo talvez de um passado muito remoto No seu ponto principal contudo os senhores se enganam Se pensam ser arbitrário supor que a primeira coisa que ocorre ao sonhador forçosamente deva nos revelar aquilo que estamos procurando nos levar até a meta de nossa procura se pensam que aquilo que lhe vem à mente poderia ser qualquer outra coisa deste mundo e poderia não ter qualquer relação com o que procuramos e que ao esperar alguma coisa diferente estou apenas exibindo minha confiança na providência divina então os senhores estão cometendo um grande equívoco Uma vez anteriormente ver em 1 arrisqueime a dizerlhes que os senhores acalentam uma fé profundamente arraigada em acontecimentos psíquicos nãodeterminados e no livrearbítrio que isso porém é bastante anticientífico e deve ceder lugar à necessidade de um determinismo cujo princípio se estende à vida mental Peço que respeitem o fato de que aquilo foi o que veio à mente do homem e não outra coisa No entanto não estou opondo uma fé a outra Podese demonstrar que a idéia referida pelo homem não era arbitrária nem indeterminável nem isenta de relação com aquilo que procurávamos Na realidade há não muito tempo constatei posso dizer que sem atribuir muita importância ao fato que a psicologia experimental também havia obtido provas nesse sentido Tendo em vista a importância do assunto solicitarei dos senhores especial atenção Ao pedir a alguém dizerme o que lhe vem à mente em resposta a um determinado elemento do sonho estou lhe pedindo que se entregue à associação livre enquanto mantém na mente uma idéia como ponto de partida Isso exige uma atitude especial da atenção bastante diferente da reflexão e que exclui esta Algumas pessoas conseguem essa atitude com facilidade outras quando tentam conseguila mostram um grau de inabilidade incrivelmente elevado Existe no entanto um grau maior de liberdade de associação quer dizer posso eliminar a exigência de manter na memória uma idéia inicial e tãosomente estabelecer a modalidade ou tipo de associação que quero posso por exemplo exigir da pessoa em experiência que deixe vir à mente um nome próprio ou um número livremente Aquilo que então lhe ocorre presumivelmente seria ainda mais casual e mais imprevisível do que com nossa técnica anterior Pode ser demonstrado porém que é sempre algo estritamente determinado por importantes atitudes internas da mente desconhecidas de nós no momento em que atuam tão pouco conhecidas como as intenções perturbadoras das parapraxias e as intenções causadoras das ações casuais ver em 1 Eu e muitos outros depois de mim fizemos repetidamente essas experiências com nomes e com números pensados ao acaso e alguns desses experimentos foram publicados Nessas experiências o procedimento consiste em fornecer uma série de associações ao nome que emergiu essas associações subseqüentes em decorrência não são mais inteiramente livres porém possuem um vínculo assim como existe vínculo entre as associações e os elementos dos sonhos Continuase com esse procedimento até que se considere esgotado o estímulo para associar Entretanto com isso já terá sido esclarecido tanto o motivo como o significado da escolha casual do nome Essas experiências sempre conduzem ao mesmo resultado relatos referentes a elas freqüentemente abrangem copioso material e exigem amplas elucidações As associações com números escolhidos ao acaso são talvez as mais convincentes elas fluem tão rapidamente e avançam com tão incrível certeza em direção a um objetivo oculto que o efeito é realmente surpreendente Apresentarei aos senhores um exemplo de uma dessas análises de um nome de vez que lidar com isso exige uma quantidade de material convenientemente pequenaNo decurso do tratamento de um jovem tive ocasião de discutir esse assunto e mencionei a tese de que apesar de uma escolha aparentemente casual é impossível pensar em um nome ao acaso que não venha a se revelar como rigorosamente determinado pelas circunstâncias imediatas pelas características da pessoa em experiência e por sua situação no momento De vez que ele se encontrava cético sugerilhe que deveria fazer consigo mesmo uma experiência desse tipo na hora Eu sabia que ele mantinha relações particularmente numerosas de todo tipo com mulheres casadas e com moças e assim pensei que ele teria à sua disposição uma escolha especialmente ampla se fosse o caso de lhe pedir que escolhesse o nome de uma mulher Concordou em fazer a experiência Para minha surpresa ou melhor talvez para sua surpresa não fui assoberbado por nenhuma avalanche de nomes femininos permaneceu calado por um momento e então admitiu que apenas um nome lhe tinha vindo à cabeça e nenhum outro além deste Albina Que coisa curiosa Mas o que significa esse nome para o senhor Quantas Albinas o senhor conhece É estranho dizêlo ele não conhecia nenhuma mulher chamada Albina e nada mais lhe ocorreu junto com o nome Dessa forma podiase pensar que a análise havia fracassado Mas não absolutamente já estava completa e outras associações não eram necessárias O homem tinha uma pele excepcionalmente alva e em conversação durante o tratamento muitas vezes eu o chamara de albino por brincadeira Por essa época estávamos tratando de determinar os componentes femininos de sua constituição Assim era ele mesmo essa Albina a mulher que mais lhe interessava no momento Do mesmo modo podese constatar que as melodias que acodem à mente de uma pessoa de modo inesperado são determinadas por uma seqüência de idéias à qual pertencem e têm o direito de atarefar a mente sem que haja consciência de sua atividade É fácil nesses casos demonstrar que a relação com a melodia é baseada em sua letra ou em sua origem Contudo devo ter o cuidado de não estender essa asserção a pessoas realmente ligadas à música sucede que com elas não tive qualquer experiência Pode ser que para essas pessoas o conteúdo musical da melodia é que decide seu surgimento O primeiro caso é certamente o mais comum Por exemplo conheço um jovem que se sentiu durante algum tempo realmente perseguido pela melodia aliás uma melodia maravilhosa da canção de Páris de Offenbach La belle Hélène até que em sua análise ele teve sua atenção voltada para uma rivalidade em torno de sua pessoa e em benefício seu uma rivalidade entre uma Ida e uma HelenaSe então as coisas que vêm à mente de uma pessoa assim tão livremente são de tal maneira determinadas e formam parte de um todo interrelacionado sem dúvida estamos agindo acertadamente ao concluir que não podem ser menos determinadas aquelas coisas que Ihe acodem à mente com apenas um vínculo ou seja o vínculo delas com a idéia que serve como seu ponto de partida A investigação realmente mostra que afora o vínculo que lhe fornecemos com a idéia inicial essas associações são dependentes também de grupos de idéias e de interesses intensamente emocionais os complexos cuja participação não é conhecida no momento ou seja é inconscienteA ocorrência de idéias com vínculos dessa espécie tem sido objeto de pesquisas experimentais muito elucidativas que desempenharam um papel notável na história da psicanálise A escola de Wundt introduziu o que conhecemos como experiências de associação nas quais se diz à pessoa uma palavraestímulo e a pessoa tem de responder a ela tão rapidamente quanto lhe é possível com qualquer reação que lhe ocorra Nesse caso é possível estudar o intervalo de tempo que se passa entre o estímulo e a reação a natureza das respostas dadas como reação os possíveis erros quando a experiência é repetida mais tarde e assim por diante A escola de Zurique liderada por Bleuler e Jung encontrou explicação para as reações que se sucediam na experiência de associação fazendo as pessoas em experiência elucidarem suas reações por meio de associações subseqüentes no caso de essas reações terem mostrado aspectos marcantes Constatouse então que essas reações marcantes eram determinadas de forma muito definida pelos complexos da pessoa Assim Bleuler e Jung estabeleceram a primeira ponte entre a psicologia experimental e a psicanáliseTendo aprendido tantas coisas os senhores poderão dizer Agora reconhecemos que os pensamentos que livremente acodem à mente de uma pessoa são determinados e não arbitrários como supunhamos Admitimos que isso seja verdadeiro também para os pensamentos que ocorrem como resposta aos elementos dos sonhos Não é nisso porém que estamos interessados O senhor assevera que aquilo que vem à mente do sonhador como resposta ao elemento onírico é determinado pelo fundamento psíquico desconhecido para nós daquele elemento em particular Isso não nos parece estar provado Esperamos isto sim que o que ocorre ao sonhador como resposta ao elemento onírico venha a se revelar como sendo determinado por um dos complexos de quem sonhou contudo de que nos serve isso Não nos leva a uma compreensão dos sonhos e sim tal como a experiência de associação ao conhecimento desses ditos complexos Mas o que têm eles a ver com os sonhos Os senhores têm razão porém estão negligenciando um fator Ademais é precisamente devido a esse fator que não escolhi a experiência de associação como ponto de partida desta exposição Nessa experiência o único determinante da reação isto é a palavraestímulo é arbitrariamente escolhida por nós Aqui a reação é intermediária entre a palavraestímulo e o complexo despertado na pessoa Nos sonhos a palavraestímulo é substituída por algo que propriamente deriva da vida mental da pessoa de fontes que lhe são desconhecidas podendo este algo por conseguinte ser facilmente um verdadeiro derivado de um complexo Logo não é exatamente fantástico supor que as demais associações vinculadas aos elementos oníricos serão determinadas pelo mesmo complexo que o do próprio elemento e supor que conduzirão à sua descoberta Permitamme mostrarlhes com outro exemplo que os fatos são como esperamos O esquecimento de nomes próprios é realmente um excelente modelo do que acontece na análise de sonhos a diferença está apenas em que os eventos compartilhados entre duas pessoas na análise de sonhos estão combinados em uma só pessoa nas parapraxias Se esqueço temporariamente um nome mesmo assim sinto em mim alguma certeza de o saber uma certeza a que no caso da pessoa que sonhou somente chegamos pelo caminho indireto da experiência de Bernheim ver em 1 O nome que esqueci embora o saiba não é acessível para mim A experiência em breve me ensina que nada adianta pensar nele por mais que me esforce Em lugar do nome esquecido porém sempre posso recordar um ou vários nomes substitutos É somente depois de espontaneamente terme ocorrido um nome substituto desse tipo que se torna óbvio a semelhança dessa situação com a da interpretação do sonho Como esse nome substituto também o elemento onírico não é a verdadeira coisa em si porém tãosomente está em lugar de alguma outra coisa da coisa original que desconheço e devo descobrir mediante a análise do sonho Mais uma vez a única diferença é que no caso do esquecimento de um nome reconheço sem hesitação o substituto como algo nãooriginal ao passo que no caso do elemento onírico chegamos a essa constatação com mais dificuldade Pois bem no caso do esquecimento de um nome existe também um método pelo qual podemos partir do substituto e chegar à coisa inconsciente original o nome esquecido Dirigindo minha atenção para os nomes substitutos e permitindo que em resposta a estes outras idéias me advenham obtenho o nome esquecido através de rodeios mais ou menos longos ao ocorrer isso verifico que tanto o nome substituto espontâneo como os nomes que recordei estão correlacionados com o nome esquecido e foram por ele determinadosDescreverei para os senhores uma análise desse tipo Certo dia verifiquei que não conseguia recordar o nome do pequeno país da Riviera cuja capital é Monte Carlo Foi muito cansativo porém a coisa se passou assim Concentrei tudo quanto sabia a respeito desse país Pensei no Príncipe Alberto da Casa de Lusignan nos seus casamentos em sua dedicação às pesquisas em altomar e tudo o mais que pude reunir mas foi inútil Desisti assim da reflexão e deixei que me ocorressem nomes substitutos em vez do nome esquecido Vieram rapidamente a própria Monte Carlo Piemonte Albânia Montevidéu Colico Nessa série chamoume a atenção primeiramente Albânia logo substituída por Montenegro sem dúvida por causa do contraste entre branco e negro Então constatei que quatro desses nomes substitutos continham a mesma sílaba mon e com isso subitamente eu tinha a palavra esquecida e exclamei em voz alta Mônaco Os nomes substitutos assim realmente haviam surgido do nome esquecido os quatro primeiros provinham de sua primeira sílaba ao passo que o último reproduzia sua estrutura silábica e sua última sílaba inteira Ademais consegui descobrir com bastante facilidade o que me privara temporariamente desse nome Mônaco é também a palavra italiana para Munique e foi essa cidade que exerceu a influência inibitória Não há dúvida de que esse é um bom exemplo porém é simples demais Em outros casos teria sido necessário recordar extensas seqüências de idéias em resposta ao primeiro nome substituto e então a analogia com a análise de sonhos teria sido mais clara Tive experiências também desse tipo Certa ocasião um estrangeiro convidoume para tomar vinho italiano em sua companhia porém quando estávamos no restaurante sucedeu não lembrarse ele do nome do vinho que desejava pedir em virtude das recordações muito agradáveis que tinha desse vinho A partir de numerosas idéias substitutas de diferentes espécies que acudiam à sua memória em lugar do nome esquecido pude concluir que pensamentos a respeito de algo com o nome Hedwig o tinham feito esquecer o nome E ele não apenas confirmou o fato de que provara desse vinho pela primeira vez quando estava em companhia de alguém com esse nome como também auxiliado pela descoberta se lembrou do nome do vinho Presentemente ele estava sendo feliz no casamento e aquele nome Hedwig pertencia a uma época anterior que não desejava recordar Sendo possível no caso de esquecimento de um nome também na interpretação de sonhos deve ser possível prosseguir a partir do substituto ao longo da cadeia de associações ligada a ele e dessa forma obter acesso à coisa original que está sendo mantida oculta Do exemplo do nome esquecido podemos concluir que as associações com o elemento onírico serão determinadas tanto pelo elemento onírico como pela coisa original inconsciente que está por trás deste Sendo assim parece que aduzimos alguma fundamentação para nossa técnica CONFERÊNCIA VII O CONTEÚDO MANIFESTO DOS SONHOS E OSPENSAMENTOS ONÍRICOS LATENTES SENHORAS E SENHORES Como vêem nosso estudo das parapraxias não foi improfícuo Graças a nossos esforços com elas sujeitos a duas premissas que lhes expliquei conseguimos duas coisas uma concepção da natureza dos elementos oníricos e uma técnica para interpretar sonhos A concepção dos elementos oníricos nos diz serem eles coisas nãooriginais ver em 1 substitutos de alguma outra coisa desconhecida do sonhador como a intenção de uma parapraxia substitutos de algo cujo conhecimento está presente em quem sonhou que lhe é porém inacessível Temos a esperança de que será possível aplicar a mesma concepção a sonhos inteiros constituídos de tais elementos Nossa técnica baseiase em usar a associação livre para esses elementos a fim de suscitar a emergência de outras estruturas substitutivas que nos possibilitarão atingir aquilo que se oculta de nossos olhosProponho agora que devemos introduzir uma modificação em nossa nomenclatura o que nos dará maior liberdade de movimentos Em vez de falar em oculto inacessível ou nãogenuíno adotemos a descrição correta e digamos inacessível para a consciência do sonhador ou inconsciente Com isso quero dizer tãosomente aquilo que pode acudir ao espírito dos senhores quando pensam em uma palavra que lhes escapou ou na intenção perturbadora de uma parapraxia ou seja quero dizer apenas inconsciente no momento Contrastando com esse aspecto naturalmente podemos referir como conscientes os elementos oníricos propriamente ditos e as idéias substitutivas que através das associações com estes elementos são de surgimento recente Até aqui essa nomenclatura não envolve qualquer formulação teórica Não se pode estabelecer objeção alguma ao uso da palavra inconsciente como descrição adequada e de fácil compreensão Se estendemos ao sonho total nossa concepção a respeito de seus elementos isolados procede que o sonho como um todo constitui um substituto deformado de alguma outra coisa algo inconsciente e que a tarefa de interpretar um sonho é descobrir esse material inconsciente Disso logo resultam entretanto três regras importantes que devemos observar durante o trabalho de interpretação de sonhos 1 Não devemos nos preocupar com aquilo que o sonho parece dizernos seja compreensível ou absurdo claro ou confuso de vez que pode não ser o material inconsciente que estamos procurando Uma evidente limitação desta regra forçosamente irá imporse à nossa consideração mais adiante ver em 1 2 Devemos restringir nosso trabalho à recordação das idéias substitutivas de cada elemento não devemos refletir sobre elas nem considerar se contêm algo importante e não devemos nos perturbar com o grau de divergência que elas apresentam em relação ao elemento onírico 3 Precisamos aguardar até que o material inconsciente oculto o qual procuramos surja com espontaneidade exatamente como a palavra esquecida Mônaco adveio na experiência que descrevi ver em 1 Agora também podemos compreender em que grau é indiferente o fato de muita ou pouca coisa do sonho ser lembrada sobretudo se lembrada com precisão ou imprecisão Pois o sonho recordado não é o material original e sim um seu substituto deformado o qual mediante a rememoração de outras imagens substitutivas deve auxiliarnos a nos aproximarmos do material original a tornar consciente aquilo que no sonho é inconsciente Se nossa lembrança foi imprecisa portanto causou simplesmente uma deformação a mais desse substituto uma deformação que porém não se efetuou sem motivo O trabalho de interpretar pode ser executado nos sonhos de cada um ou nos sonhos de outras pessoas Na realidade aprendese mais consigo mesmo o processo impõe maior convicção Se então fizermos uma tentativa observaremos que algo se opõe ao nosso trabalho É verdade que as idéias nos ocorrem porém não permitimos que todas elas sejam levadas em consideração influências de julgamentos e de escolhas se fazem sentir No caso de uma idéia podemos dizer a nós mesmos Não isso não é importante não tem cabimento aqui No caso de outra idéia isso é demasiadamente sem sentido e no caso de uma terceira isso é totalmente sem importância E depois somos capazes de observar como com objeções dessa espécie podemos encobrir idéias e finalmente rechaçálas todas juntas sem exceção antes mesmo de se haverem tornado bastante claras Assim por um lado nos aferramos muito àquela idéia que constituiu nosso ponto de partida o próprio elemento onírico e por outro lado interferimos no resultado das associações livres ao fazer a escolha Se não somos nós mesmos enquanto interpretamos o sonho se tomamos outra pessoa para que o interprete adquirimos consciência muito nítida de mais um motivo que alegamos ao fazer essa seleção indevida porque às vezes dizemos para nós Não essa idéia é excessivamente desagradável não quero ou não posso referila Essas objeções constituem evidente ameaça ao êxito de nosso trabalho Delas devemos nos resguardar e em nosso próprio caso o fazemos resolvendo não ceder a elas Estando analisando o sonho de uma outra pessoa estabelecemos como regra inviolável a pessoa não ocultar de nós idéia alguma ainda que dê origem a uma das quatro objeções de ser demasiado sem importância ou sem sentido ou de ser irrelevante ou muito desagradável para ser referida O sonhador promete obedecer à regra e a seguir podemos ter o aborrecimento de verificar como ele cumpre mal o prometido quando lhe surge a ocasião Podemos explicar a nós mesmos o que se passa de início supondo que malgrado a garantia peremptória ele ainda não se compenetrou da razão de ser da associação livre e talvez possamos ter a idéia de primeiro convencêlo teoricamente dandolhe livros para que leia ou enviandoo a conferências que o possam converter em adepto de nossos pontos de vista sobre a associação livre Contudo de um erro assim nos manteremos à distância basta considerarmos nosso próprio caso do vigor de nossas convicções dificilmente se pode duvidar afinal de contas as mesmas objeções se apresentam a determinadas idéias e são afastadas apenas posteriormente digamos em segunda instânciaEm vez de nos aborrecermos com a desobediência do sonhador podemos lucrar com essas experiências aprendendo algo novo a partir delas algo tanto mais importante quanto menos esperamos Percebemos que o trabalho de interpretar sonhos é executado em presença de uma resistência que a ele se opõe e da qual as objeções críticas constituem manifestações A resistência independe da convicção teórica daquele que sonhou Com efeito aprendemos ainda mais Descobrimos que uma objeção crítica desse tipo jamais chega a mostrarse justificada Ao contrário as idéias que as pessoas tentam suprimir dessa maneira invariavelmente se revelam as mais importantes e decisivas em nossa busca de material inconsciente Na realidade equivale a uma marca distintiva uma idéia acompanharse de uma objeção desse tipo A referida resistência é algo inteiramente novo um fenômeno que encontramos calmamente em relação a nossas premissas ver em 1 e seg porém um fenômeno que não se incluía entre as mesmas O aparecimento desse novo fator em nossos cálculos nos alcança como determinada surpresa não de todo agradável Logo suspeitamos que ela não irá tornar mais fácil nosso trabalho Poderia desorientarnos a ponto de abandonarmos nosso completo interesse pelos sonhos algo tão sem importância como um sonho e como se não bastasse todas essas dificuldades em lugar de uma única técnica simples sem rodeios Em compensação porém as dificuldades podem precisamente agir como estímulo e fazernos suspeitar que o trabalho valerá a pena Regularmente deparamos com a resistência ao tentarmos abrir caminho desde o substituto que é o elemento onírico até o material inconsciente oculto por trás dele Podemos assim concluir que deve haver algo importante escondido por trás do substituto Se não para que servem as dificuldades que tentam manter em vigor o ocultamento Se uma criança recusa abrir sua mão fechada para mostrar o que tem escondido podemos nos sentir seguros de que se trata de algo equívoco algo que ela não devia ter No momento em que introduzimos nos fatos em questão a idéia dinâmica de uma resistência devemos simultaneamente refletir ser esse fator algo que varia em quantidade Podem existir resistências maiores e menores e estamos preparados para encontrar essas diferenças revelandose também durante nosso trabalho Talvez sejamos capazes de vincular essa experiência com outra que também encontramos durante o trabalho da interpretação de sonhos às vezes apenas uma única resposta ou não mais do que algumas são requeridas para nos conduzirem desde o elemento onírico até o material inconsciente que nele se oculta ao passo que em outras ocasiões para se realizar isso são necessárias longas cadeias de associações e a superação de muitas objeções críticas Concluiremos que essas diferenças correspondem à variável magnitude da resistência e certamente se verá que temos razão Se a resistência é pequena o substituto não pode estar muito distante do material inconsciente contudo uma resistência maior significa que o material inconsciente está muito distorcido e que será longo o caminho que se estende desde o substituto ao material inconsciente Talvez agora seja o momento de tomarmos um sonho e tentar aplicarlhe nossa técnica a fim de verificar se nossas expectativas se confirmam Sim no entanto que sonho devemos escolher para essa finalidade Os senhores não podem imaginar como julgo difícil decidir nem sequer posso esclarecer a natureza de minhas dificuldades Evidentemente deve haver sonhos que em seu conjunto foram sujeitos apenas a uma pequena deformação e o melhor plano seria começar por eles Entretanto que sonhos foram menos deformados Os inteligíveis e não confusos dos quais já lhes apresentei dois exemplos ver em 1 e 2 Isso nos faria perder o rumo A investigação mostra que tais sonhos foram sujeitos a um extraordinário grau de deformação Se entretanto eu devesse não levar em conta exigências especiais e selecionasse um sonho a esmo os senhores provavelmente ficariam muito desapontados Talvez tivéssemos de observar ou gravar tamanha profusão de idéias em resposta aos elementos oníricos isolados que seríamos incapazes de estabelecer uma visão de conjunto do trabalho Se tomamos nota por escrito de um sonho e então anotamos todas as idéias que emergem como resposta a ele podemos verificar que essas idéias são muitas vezes mais longas do que o texto do sonho O melhor plano portanto pareceria ser o de escolher alguns sonhos curtos para análise quando cada um dos quais pelo menos nos dirá algo ou confirmará algum ponto Decidiremos assim seguir esse rumo a menos que a experiência talvez nos mostre onde realmente podemos encontrar sonhos que foram apenas ligeiramente deformados No entanto posso pensar em alguma outra coisa que nos tornará as coisas mais fáceis algo ademais que está em nossa trajetória Em vez de começarmos por interpretar sonhos completos nos restringiremos a alguns elementos oníricos e descobriremos em determinado número de exemplos como esses podem ser explicados mediante aplicação de nossa técnica a Uma senhora referiu que quando criança sonhava muito freqüentemente que Deus usava na cabeça um chapéu de três bicos feito de papel O que os senhores podem fazer com esse caso sem o auxílio daquela que sonhou Parece totalmente disparatado Deixa porém de ser absurdo quando ouvirmos da senhora que ela costumava usar na cabeça um chapéu desse tipo às refeições quando era criança porque nunca podia resistir ao desejo de dar olhadas furtivas aos pratos dos irmãos e irmãs para ver se eles não tinham ganho porções maiores que a sua Assim o chapéu se destinava a funcionar como um par de óculos de proteção Isso aliás era uma parte das informações referentes à sua história ver em 1 e 2 e seg e foi fornecida sem qualquer dificuldade A interpretação desse elemento e ao mesmo tempo de todo esse breve sonho foi feita com o auxílio de mais uma idéia que lhe ocorreu Quando ouvi dizer que Deus era onisciente e via tudo disse o sonho só pode significar que eu sabia tudo e via tudo mesmo que procurassem me impedir Parece que este exemplo é simples demaisb Uma paciente que se mostrava cética neste respeito teve um longo sonho no decorrer do qual algumas pessoas Ihe falavam acerca de meu livro sobre chistes 1905c e o elogiavam muito Então surgiu algo referente a um canal talvez um outro livro que mencionava um canal ou então alguma coisa com canal ela não sabia era tudo tão indistintoSem dúvida os senhores tenderão a esperar que o elemento canal de vez que já era tão indistinto seria inacessível à interpretação Têm razão em suspeitar de uma dificuldade porém a dificuldade não resulta da indistinção tanto a dificuldade como a indistinção se originam de outra causa Nada ocorreu a essa paciente em relação a canal e eu obviamente não pude elucidálo Pouco tempo depois para dizer a verdade no dia seguinte disseme que havia pensado em alguma coisa que podia ter algo a ver com o fato Era sim um chiste um chiste que tinha ouvido No vapor entre Dover e Calais um conhecido autor entabulou conversação com um inglês Este aproveitou a ocasião para citar a frase Du sublime au ridicule il ny a quun pas Do sublime ao ridículo não vai mais que um passo Sim respondeu o autor le Pas de Calais querendo dizer que havia pensado que a França era sublime e a Inglaterra ridícula Porém o Pas de Calais é um canal o Canal Inglês Na verdade os Estreitos de Dover Os senhores me perguntarão se penso que isso tinha algo a ver com o sonho Penso que sim certamente e dá a solução do elemento enigmático do sonho Poderão duvidar de que esse chiste já antes de ocorrer o sonho estava presente na qualidade de pensamento inconsciente oculto por trás do elemento canal Podem os senhores supor que foi introduzido como invenção subseqüente A associação revelou o ceticismo que jaz oculto na admiração ostensiva da paciente e sua resistência contra a revelação desse fato era sem dúvida a causa comum tanto de sua demora em fornecer a associação como da indistinção do elemento onírico em referência Considerem a relação entre o elemento onírico e seu terreno inconsciente era como se fosse um fragmento desse terreno uma alusão ao mesmo tendose tornado ininteligível ao ser isoladoc Como parte de um sonho um tanto longo um paciente sonhou que diversos membros de sua família estavam sentados em volta de uma mesa de formato especial etc Ocorreulhe em relação à mesa que ele tinha visto um móvel desse tipo quando visitava determinada família Seus pensamentos continuaram revelando que havia um relacionamento peculiar entre pai e filho nessa família e logo acrescentou que o mesmo se passava de fato nas relações entre ele próprio e seu pai Assim a mesa passou a fazer parte do sonho a fim de assinalar esse paraleloO sonhador há muito se havia familiarizado com os requisitos da interpretação de sonhos Outras pessoas talvez pudessem fazer objeções a que detalhes tão triviais como o formato de uma mesa se tornassem objeto de investigação Na realidade porém não consideramos que algo seja casual ou indiferente em um sonho e esperamos obter informações precisamente a partir da explicação desses detalhes triviais e despropositados Os senhores talvez também se sintam surpresos com o fato de que o pensamento de que a mesma coisa era verdadeira para nós e para eles deveria ter sido expresso em especial pela escolha da forma da mesa Tisch Isso contudo também se aclara quando os senhores se dão conta de que o nome da família em questão era Tischler literalmente marceneiro Ao fazer seus parentes se sentarem a essa Tisch ele estava dizendo que também eles eram Tischlers Aliás os senhores observarão quão inevitavelmente se é levado a ser indiscreto ao referir essas interpretações de sonhos E perceberão que essa é uma das dificuldades a que aludi na escolha dos exemplos Poderia facilmente ter escolhido um outro exemplo em lugar deste provavelmente porém eu apenas teria evitado tal indiscrição e iria cometer uma outraParece haver chegado o momento para eu introduzir dois termos que poderíamos ter empregado há muito tempo Descreveremos como conteúdo manifesto do sonho aquilo que a pessoa que sonhou realmente nos conta e o material oculto que esperamos encontrar acompanhando idéias que lhe acodem à mente chamaremos de pensamentos oníricos latentes Desse modo consideramos aqui as relações entre o conteúdo manifesto do sonho e os pensamentos oníricos latentes conforme se mostrou nesses exemplos Essas relações podem ser de muitas espécies diferentes Nos exemplos a e b o elemento manifesto também é um constituinte dos pensamentos latentes embora sendo apenas uma pequena parte deles Uma pequena porção da grande e complexa estrutura psíquica dos pensamentos oníricos inconscientes também conseguiu ter acesso ao sonho manifesto um fragmento desses pensamentos ou em outros casos uma alusão aos mesmos uma manchete por assim dizer ou uma abreviação em estilo telegráfico É atribuição do trabalho de interpretação reunir esses fragmentos ou essa alusão para completar um todo o que foi conseguido de modo especialmente preciso no caso do exemplo b Assim uma forma da deformação que constitui a elaboração onírica é a substituição por um fragmento ou uma alusão No exemplo c podese observar outro tipo de relação além deste e a encontramos expressa em forma ainda mais pura e clara nos exemplos que se seguem d O sonhador estava puxando uma mulher determinada mulher conhecida sua de detrás de uma cama Ele mesmo encontrou o significado desse elemento onírico partindo da primeira idéia que lhe ocorreu Significava que estava manifestando sua preferência por essa mulhere Outro homem sonhou que seu irmão estava numa caixa Kasten Em sua primeira resposta Kasten foi substituída por Schrank armário e a segunda deu a interpretação seu irmão estava se restringindo schränkt sich einf O sonhador subia ao cume de uma montanha de onde se descortinava uma paisagem extraordinariamente ampla Este sonho parece bastante racional e os senhores poderiam supor que não há o que interpretar nele e que tudo quanto temos a fazer é interrogar sobre qual lembrança deu origem ao sonho e a razão de essa lembrança ter sido despertada Enganarseiam porém Verificouse que este sonho estava carecendo de uma interpretação tanto quanto qualquer outro mais confuso Pois não foi de nenhuma escalada de montanha que o homem se recordou na realidade pensou em um conhecido seu editor de uma Rundschau que tratava de nossas relações com as mais distantes regiões da Terra Assim o pensamento onírico latente era uma identificação desse homem com o RundschauerAqui temos um novo tipo de relação entre os elementos oníricos manifesto e latente O primeiro não é bem uma deformação do último e sim uma representação deste um retrato plástico e seu ponto de partida se localiza nas palavras Contudo precisamente por esse motivo ele é mais uma vez uma deformação porquanto de há muito temos esquecido de que imagem concreta a palavra se originou e por conseguinte deixamos de reconhecêla quando substituída pela imagem Quando os senhores consideram que o sonho manifesto é constituído predominantemente de imagens visuais e mais raramente de pensamentos e palavras podem imaginar que importância se atribui a esse tipo de relação na construção dos sonhos Os senhores também verão que assim em face de um grande número de pensamentos abstratos se torna possível criar quadros que funcionem como substitutos desses pensamentos no sonho manifesto ao passo que simultaneamente se ajustam à finalidade de ocultar Essa é a técnica das conhecidas figuras enigmáticas Por que possuem essas figuras aparência de serem brincadeiras é um problema especial com o qual não precisamos nos envolver por enquantoExiste um quarto tipo de relação entre os elementos manifesto e latente que devo continuar mantendo em segredo dos senhores até que cheguemos à sua palavrachave ao tecermos considerações sobre a técnica Mesmo assim não terei apresentado uma lista completa porém serve às nossas finalidades Os senhores se sentem agora com coragem suficiente para se aventurarem a interpretar um sonho inteiro Façamos a experiência para verificar se estamos bem equipados para a tarefa Naturalmente não selecionarei um dos mais obscuros mesmo assim será um sonho que fornecerá um quadro muito aproximado dos atributos de um sonhoPois bem vamos ao caso Uma senhora que embora ainda jovem estava casada há muitos anos teve o seguinte sonho Ela estava no teatro com seu marido Um lado da primeira fila de cadeiras estava completamente vazio Seu marido lhe disse que Elise L e seu noivo também tinham pretendido ir porém só poderiam conseguir lugares ruins três por 1 florim e 50 kreuzers e naturalmente não poderiam adquirilos Ela pensou que não teria sido realmente nenhum prejuízo se tivessem conseguidoA primeira coisa que essa senhora nos referiu foi que a causa precipitante do sonho residia em uma alusão do seu conteúdo manifesto Seu marido realmente lhe havia falado que Elise L que era aproximadamente da mesma idade dela há pouco havia contratado casamento O sonho era uma resposta a essa informação Já sabemos ver em 1 ser fácil no caso de muitos sonhos assinalar uma causa desencadeante como essa do dia anterior e que a pessoa que sonhou muitas vezes é capaz de estabelecêla para nós sem qualquer dificuldade Essa senhora no presente caso colocou à nossa disposição informações semelhantes para outros elementos do sonho manifesto também De onde veio o detalhe referente a estar vazio um dos lados das cadeiras Era alusão a um evento real da semana anterior Ela havia planejado ir assistir a determinada peça e por isso havia comprado seus ingressos com antecedência com tanta antecedência que teve de pagar uma taxa de reserva Quando foram ao teatro acabaram verificando que a pressa dela era bastante desnecessária de vez que uma parte das cadeiras da primeira fila estava quase vazia Teria sido suficiente a antecipação de comprar os ingressos se os tivesse adquirido no dia em que realmente se realizava a representação Seu marido não deixou de gracejar com ela por ter tido tanta pressa Qual era a origem do 1 florim e 50 kreuzers Surgiu de uma relação bem diferente que nada tinha a ver com a anterior mas que também aludia a algumas informações do dia anterior Sua cunhada recebera de presente 150 florins de seu marido e tinha tido muita pressa a tola de correr a uma joalheria e trocar o dinheiro por uma peça de bijuteria De onde veio o três Ela não conseguia pensar em nada referente a isso até que levamos em conta a idéia de que Elise L sua amiga que noivara recentemente era só três meses mais nova que ela embora ela própria estivesse casada há dez anos aproximadamente E a idéia absurda de adquirir três ingressos para apenas duas pessoas Ela nada tinha a dizer quanto a isso e não quis referir mais nenhuma idéia ou informação De qualquer modo porém ela nos havia fornecido tanto material nessas poucas associações que foi possível a partir destas entrever os pensamentos oníricos latentes Não pode deixar de chamarnos a atenção o fato de ocorrerem períodos de tempo em diversos pontos das informações que nos deu sobre o sonho e esses pontos proporcionam um denominador comum das diferentes partes do material Ela adquiriu os ingressos para o teatro cedo demais comprouos superapressadamente tendo de pagar mais do que o necessário assim também sua cunhada estivera com pressa de levar seu dinheiro à joalheria e com ele comprar bijuteria como se de outra maneira fosse perdêlo Se além do cedo demais e do com pressa que nos chamaram a atenção tomamos em consideração a causa desencadeante do sonho a notícia de que sua amiga embora somente três meses mais nova do que ela tinha não obstante conseguido um excelente marido e a crítica a sua cunhada expressa na idéia de que era absurdo ela estar com tanta pressa então se nos apresenta quase espontaneamente a seguinte construção dos pensamentos oníricos latentes dos quais o sonho manifesto é um substituto acentuadamente deformado Realmente foi absurdo de minha parte ter tanta pressa de casar Posso ver pelo exemplo de Elise que também eu podia arranjar um marido mais tarde Estar com pressa demais foi representado por sua própria conduta de comprar os ingressos e pela conduta de sua cunhada de comprar a bijuteria Ir ver a peça pareceu um substituto de casar Pareceria ser esse o pensamento principal Talvez possamos ir adiante embora com menos certeza pois a análise não deveria prescindir dos comentários da pessoa que sonhou nos seguintes pontos E eu poderia ter conseguido um cem vezes melhor com o dinheiro 150 florins é cem vezes mais do que 150 florim No caso de colocarmos seu dote em lugar do dinheiro significaria que seu marido foi comprado com o dote dela a peça de bijuteria assim como os ingressos ruins seriam substitutos de seu marido Seria ainda mais satisfatório se o elemento real três ingressos tivesse algo a ver com seu marido ver adiante em 1 e 2 No entanto até esse ponto ainda não chegamos por enquanto em nossa compreensão do sonho Descobrimos apenas que o sonho expressa o reduzido valor atribuído por ela a seu marido e seu pesar por ter casado tão cedo Imagino que ficaremos mais surpresos e confusos do que satisfeitos com o resultado dessa primeira interpretação de sonho Foinos dado demais numa primeira dose mais do que somos capazes de enfrentar Já podemos ver que não esgotaremos as lições dessa interpretação de um sonho Apressemonos a separar aquilo que podemos reconhecer como novas descobertas firmadas Em primeiro lugar é algo notável a ênfase principal dos pensamentos latentes residir no elemento estar com pressa demais nada disso se pode encontrar no sonho manifesto Sem a análise não suspeitaríamos de que esse fator desempenhasse algum papel Parece portanto que no sonho manifesto é possível estar ausente aquilo que de fato constitui coisa principal o centro dos pensamentos inconscientes Isso significa que deve ser fundamentalmente modificada a concepção que tivemos do sonho inteiro Em segundo lugar no sonho existe uma combinação absurda três por 150 florim Detectamos nos pensamentos oníricos a afirmação de que foi absurdo casar tão cedo Pode haver dúvida de que idéia foi absurdo é representada pela inclusão de um elemento absurdo no sonho manifesto E em terceiro lugar uma rápida comparação nos mostra que a relação entre os elementos manifesto e latente não é uma relação simples está longe de ser o caso o fato de um elemento manifesto sempre estar no lugar de um elemento latente Antes o que existe é uma relação de conjunto entre as duas camadas dentro da qual um elemento manifesto pode substituir diversos elementos latentes ou um elemento latente pode ser substituído por diversos elementos manifestos ver adiante em 1 No que concerne ao significado do sonho e à atitude da sonhadora para com este bem poderíamos classificálo de igualmente surpreendente Realmente ela concordou com a interpretação porém estava assombrada com ela Não tinha consciência de como era reduzido o valor que atribuía a seu marido e nem sabia por que tinha de desvalorizálo tanto Assim a este respeito muita coisa ainda existe por compreender Com efeito pareceme que ainda não estamos aparelhados para interpretar um sonho e que primeiro necessitamos receber mais alguns conhecimentos e preparação CONFERÊNCIA VIII SONHOS DE CRIANÇAS SENHORAS E SENHORES Tenho a impressão de que progredimos depressa demais Retrocedamos um pouco Antes de empreendermos a anterior tentativa de vencer a dificuldade da deformação em sonhos com o auxílio de nossa técnica dissemos ver em 1 que a melhor forma de proceder nesse caso seria contornar a dificuldade atendonos a sonhos em que não havia deformação ou apenas pouca deformação caso existam tais sonhos Uma vez mais isso significará um desvio em relação à evolução histórica de nossas descobertas ver em 1 porque na verdade só após a técnica de interpretação ter sido coerentemente aplicada e os sonhos deformados terem sido completamente analisados é que percebemos haver sonhos livres de deformaçãoOs sonhos que estamos buscando ocorrem em crianças São breves claros coerentes fáceis de entender sem ambigüidade não obstante são sonhos indubitavelmente Os senhores porém não devem supor que todos os sonhos de crianças sejam desse tipo A deformação onírica já inicia bem no início da infância e têm sido relatados sonhos sonhados por crianças entre 5 e 8 anos que possuem todas as características de sonhos de idade maior Entretanto se os senhores se limitarem à faixa etária entre o início da atividade mental observável e o quarto ou quinto ano encontrarão numerosos sonhos portadores das características que se podem descrever como infantis e alguns outros do mesmo tipo em anos posteriores da infância Na verdade sob certas condições os próprios adultos têm sonhos que em muito se assemelham aos sonhos tipicamente infantisDesses sonhos de crianças podemos tirar conclusões com grande facilidade e certeza a respeito do caráter essencial dos sonhos em geral e podemos esperar que essas conclusões sejam comprovadas como decisivas e universalmente válidas1 Nenhuma análise nenhuma aplicação de qualquer técnica é necessária para compreender esses sonhos Não há necessidade de indagar a uma criança que nos conta seu sonho No entanto há que acrescentar ao sonho alguma parcela de informação proveniente de eventos da vida da criança Invariavelmente existe alguma vivência do dia anterior que nos explica o sonho O sonho é a reação durante o sono da vida mental da criança à experiência que teve no dia precedente Tomaremos alguns exemplos nos quais basearemos nossas demais conclusões a Um menino de 2 anos foi solicitado a entregar a alguém uma cesta de cerejas como presente de aniversário Obviamente ele estava muito relutante em fazêlo embora lhe houvessem prometido que ganharia algumas das cerejas Na manhã seguinte contou que havia sonhado O Hermann comeu todas as cerejas b Uma menina de 3 anos e 3 meses fez a travessia de um lago pela primeira vez No local de desembarque não queria deixar o barco e chorava desconsoladamente A travessia tinha sido curta demais para ela Na manhã seguinte anunciou Noite passada eu andei no lago Seguramente podemos acrescentar que essa travessia tinha durado mais tempo c Um menino de 5 anos e 3 meses foi levado a uma excursão ao Echerntal perto de Hallstatt Tinhalhe sido dito que Hallstatt ficava no sopé do Dachstein Tinha mostrado grande interesse por essa montanha De onde ele estava em Aussee havia uma linda vista da montanha e o Simony Hut que a encimava podia ser reconhecido através de um telescópio A criança muitas vezes procurava vêlo através do telescópio se o conseguiu não se sabe A excursão começou em clima de alegre expectativa Sempre que uma nova montanha surgia aos seus olhos a criança perguntava É aquele o Dachstein e foi ficando mais e mais deprimida cada vez que lhe diziam que não Por fim ficou completamente calado e se recusou a prosseguir com o resto do grupo na curta subida da cachoeira acharam que devia estar exausto Na manhã seguinte porém com a fisionomia radiante falou assim Na noite passada sonhei que nós estávamos no Simony Hut Assim fora isso que esperava obter da excursão Não deu outros detalhes salvo algo que tinha ouvido antes Você tem que subir a pé durante seis horasEstes três sonhos nos fornecerão todas as informações de que necessitamos2 Como podemos ver esses sonhos de crianças não são absurdos São atos mentais inteligíveis completamente válidos Os senhores recordarão o que eu lhes disse da opinião médica a respeito de sonhos e da analogia com dedos sem experiência musical passeando sobre as teclas de um piano ver em 1 Não podem deixar de observar quão nitidamente esses sonhos de crianças contradizem tal opinião De fato seria por demais estranho se as crianças pudessem executar atos mentais completos em seu sono enquanto os adultos se contentassem sob as mesmas condições com reações que não fossem nada mais que repuxões Ademais temos toda a razão ao pensar que o sono das crianças é mais eficaz e profundo 3 Esses sonhos não apresentam qualquer deformação onírica e por conseguinte não exigem nenhuma atividade interpretativa Neles o sonho manifesto e o latente coincidem Assim a deformação onírica não faz parte das características essenciais do sonho Espero que isso alivie os senhores Porém quando examinarmos esses sonhos mais detidamente reconheceremos mesmo neles uma pequena parcela de deformação onírica determinada diferença entre o conteúdo manifesto do sonho e os pensamentos oníricos latentes 4 Um sonho de uma criança é uma reação a uma experiência do dia precedente a qual deixou atrás de si uma mágoa um anelo um desejo que não foi satisfeito O sonho proporciona uma satisfação direta indisfarçada desse desejo Recordemos agora nossas discussões sobre o papel que desempenham os estímulos somáticos de fora e de dentro como perturbadores do sono e provocadores dos sonhos ver em 1 e segs Nessa conexão vimos a conhecer alguns fatos incontestes mas por meio destes apenas nos capacitamos a explicar um reduzido número de sonhos Nesses sonhos de crianças entretanto não há nada que assinale a atuação de estímulos somáticos dessa espécie nisso não poderíamos estar equivocados pois os sonhos são completamente inteligíveis e fáceis de apreender Porém isso não significa que devemos abandonar a questão do estímulo na etiologia do sonho Podemos apenas nos perguntar como pôde acontecer que desde o início esquecessemos que além dos estímulos somáticos existem estímulos mentais que perturbam o sono Afinal de contas sabemos que excitações dessa natureza são os principais responsáveis pela perturbação do sono em um adulto impedindoo de estabelecer o estado de espírito requerido para o adormecer o interesse em ser retirado do mundo Ele não deseja interromper a vida de preferência continuaria seu trabalho com as coisas nas quais está interessado e por essa razão não adormece No caso de crianças portanto o estímulo mental o desejo que não foi satisfeito e é a isso que reagem com o sonho 5 Isso nos abre o caminho mais direto para a compreensão da função do sonho Na medida em que um sonho é uma reação a um estímulo psíquico deve equivaler a um manejo do estímulo de maneira tal que este seja eliminado e o sono possa continuar Ainda não sabemos como esse manejo do estímulo pelo sonho se torna possível dinamicamente porém já estamos verificando que os sonhos não são perturbadores do sono como erroneamente são denominados mas guardiães do sono que eliminam as perturbações do sono Pensamos que deveríamos dormir melhor se não houvesse sonho porém nos equivocamos de fato sem o auxílio do sonho não poderíamos absolutamente ter dormido É devido a isso que dormimos bem ou mal O sonho não pode evitar de nos perturbar um pouco da mesma maneira como um vigia noturno muitas vezes não pode evitar de fazer um pequeno ruído quando persegue os perturbadores do sossego que procuram acordarnos com seu barulho 6 O que origina um sonho é um desejo e a satisfação deste desejo constitui o conteúdo do sonho esta é uma das características principais dos sonhos A outra igualmente constante é que um sonho não apenas confere expressão a um pensamento mas também representa o desejo sendo satisfeito sob a forma de uma experiência alucinatória Gostaria de ir ao lago é o desejo que origina o sonho O conteúdo do sonho propriamente dito é Estou indo ao lago Portanto mesmo nesses simples sonhos de crianças há uma diferença entre o sonho latente e sonho manifesto há uma distorção do pensamento onírico latente a transformação de um pensamento em uma vivência No processo de interpretar um sonho essa alteração necessita primeiro ser desfeita Se tal vier a revelarse como a característica mais universal dos sonhos a parte de sonho que lhes referi anteriormente ver em 1 Vi meu irmão em uma caixa Kasten não deve ser traduzida como meu irmão está se restringindo schränkt sich ein e sim como Eu gostaria que meu irmão se restringisse meu irmão deve restringirse Das duas características gerais dos sonhos que agora apresentei a segunda tem melhor perspectiva de ser aceita sem oposição do que a primeira É apenas por meio de exaustivas investigações que podemos estabelecer o fato de que a origem dos sonhos deve ser sempre um desejo não uma preocupação uma intenção ou uma censura isso porém não afetará a outra característica a de que o sonho não faz simplesmente reproduzir esse estímulo mas removeo eliminao manejao através de um tipo de vivência 7 Com base nestas características dos sonhos podemos voltar mais uma vez a uma comparação entre sonho e parapraxia Nesta distinguimos entre uma intenção perturbadora e uma intenção perturbada ver em 1 e segs sendo a parapraxia uma conciliação das duas Um sonho pode se ajustar ao mesmo modelo A intenção perturbada só pode ser a de dormir Podemos substituir a intenção perturbadora pelo estímulo psíquico quer dizer pelo desejo que pressiona por ser manejado de vez que até o momento não tomamos conhecimento de nenhum outro estímulo psíquico que perturbe o sono Também aqui o sonho é o resultado de uma conciliação Dormese e não obstante se vivencia a remoção de um desejo satisfazse um desejo porém ao mesmo tempo continuase a dormir Ambas as intenções são em parte realizadas e em parte abandonadas 8 Os senhores estarão lembrados de que em certa passagem ver em 1 e 2 tínhamos a esperança de nos aproximarmos da compreensão dos problemas dos sonhos a partir de determinadas estruturas imaginativas muito simples de examinar conhecidas como devaneios Ora esses devaneios são na realidade satisfações de desejos satisfações de ambições e de desejos eróticos que nos são bem conhecidos porém constituem pensamento ainda que vividamente imaginado e jamais são experimentados sob a forma de alucinações Das duas principais características dos sonhos então a menos constante é aqui preservada ao passo que a outra está totalmente ausente visto depender do estado de sono e não poder realizarse no estado de vigília O uso idiomático por conseguinte encerra uma noção do fato de que a satisfação de desejos é uma característica principal dos sonhos Digase de passagem se nossa vivência nos sonhos é apenas um tipo modificado de imaginação que se tornou possível devido às condições do estado de sono isto é um devanear noturno já podemos compreender como o processo de construção de um sonho pode utilizar o estímulo noturno e proporcionar satisfação visto que o devaneio também é uma atividade vinculada à satisfação e na verdade somente é exercido por esse motivo Outros usos idiomáticos contudo expressam o mesmo sentido Existem provérbios conhecidos como Os porcos sonham com bolotas de carvalho e os gansos sonham com milho ou Com que sonham as galinhas Com milho Assim os provérbios descem mais ainda do que nós abaixo das crianças até os animais e afirmam que o conteúdo dos sonhos é a satisfação de uma necessidade Numerosas expressões idiomáticas parecem apontar na mesma direção lindo como um sonho eu nem sonharia uma coisa dessas não imaginei isso nem nos meus sonhos mais ousados Neste ponto o uso idiomático está tomando partido evidentemente Tanto que existem também sonhos de ansiedade e sonhos de conteúdo penoso ou indiferente porém o uso idiomático permaneceu indiferente a eles É verdade que se conhece o que se chama de sonhos maus mas um sonho é pura e simplesmente apenas a doce realização de um desejo E não existe nenhum provérbio que nos afirme que os porcos e os gansos sonham com sua matança É naturalmente inconcebível que a realização de desejos característica dos sonhos não tivesse sido percebida por pessoas que escreveram sobre o assunto Pelo contrário muitas vezes foi percebida contudo a ninguém ocorreu a idéia de reconhecer esta característica como sendo universal e transformála em ponto capital da explicação dos sonhos Bem podemos imaginar o que impediu de fazêlo entraremos no assunto mais adiante Mas vejam quantos esclarecimentos obtivemos ao examinarmos sonhos de crianças e com tão pouco esforço o conseguimos as funções dos sonhos na qualidade de guardiães do sono sua origem situada em duas intenções concorrentes uma das quais o desejo de dormir permanece inalterada ao passo que a outra luta por satisfazer um estímulo psíquico a evidência de que os sonhos são atos psíquicos com um sentido suas duas principais características realização de desejos e vivência alucinatória E ao descobrir tudo isso quase seríamos capazes de esquecer que estávamos comprometidos com a psicanálise À parte a relação com as parapraxias nosso trabalho não leva nenhum sinal especial Qualquer psicólogo nada conhecendo dos postulados da psicanálise teria conseguido darnos essa explicação dos sonhos de crianças Por que não o fez Se os sonhos do tipo infantil fossem os únicos o problema estaria resolvido e nossa tarefa terminada e isso sem termos de fazer perguntas àquele que sonhou sem tocarmos no inconsciente ou recorrermos à associação livre É aí evidentemente que se situa a continuação de nossa tarefa Já verificamos repetidamente que as características que se afirmava serem de validade geral terminaram aplicandose apenas a um determinado tipo e a um determinado número de sonhos A questão que se nos apresenta portanto é saber se as características gerais que inferimos dos sonhos de crianças possuem uma base mais firme se elas são válidas também para sonhos que não são tão transparentemente nítidos e cujo conteúdo manifesto não apresenta qualquer sinal de estar relacionado a algum desejo remanescente do dia anterior É nossa opinião que esses outros sonhos sofreram uma deformação em profundidade e por este motivo não podem ser avaliados à primeira vista Também suspeitamos que para explicar essa deformação necessitaremos da técnica psicanalítica da qual pudemos prescindir quando tratávamos de entender ainda há pouco os sonhos de crianças Em todo caso ainda há uma outra classe de sonhos que se apresentam nãodeformados e que como os sonhos de crianças facilmente podem ser reconhecidos como realizações de desejos Estes são os sonhos que em qualquer época da vida são suscitados por necessidades corporais imperiosas fome sede necessidade sexual isto é são realizações de desejos sob a forma de reações a estímulos somáticos internos Assim tenho anotado um sonho de uma menina de dezenove meses que consistia em um cardápio ao qual se ligava seu próprio nome Anna F morangos morangos silvestres omelete pudim Isso era uma reação a um dia sem comida devido a um distúrbio digestivo este realmente se tinha originado na ingestão da fruta que apareceu por duas vezes no sonho A avó da criança suas idades somadas perfaziam setenta anos simultaneamente foi obrigada a privarse de alimentos por um dia inteiro devido um distúrbio ocasionado por um rim flutuante Ela sonhou na mesma noite que havia sido convidada para comer fora e que fora regalada com as mais apetitosas iguarias Observações levadas a cabo com prisioneiros que foram forçados a jejuar e com pessoas que estiveram sujeitas a privações em viagens e explorações nos ensinam que sob essas condições os sonhos regularmente se centram na satisfação de tais necessidades Assim Otto Nordenskjöld 1904 1 336 e seg escreve da seguinte maneira a respeito dos membros de sua expedição enquanto atravessavam o inverno na Antártida A direção tomada por nossos pensamentos mais íntimos mostravase claramente em nossos sonhos que nunca foram mais vívidos nem mais numerosos do que nesta época Mesmo aqueles de nós que de outro modo sonhavam apenas de vez em quando tinham longas histórias para contar quando chegava a manhã ocasião em que trocávamos experiências desse mundo da imaginação Todos diziam respeito ao mundo exterior agora tão distante de nós embora todas elas muitas vezes estivessem adaptadas a nossas circunstâncias reais No entanto comer e beber eram o ponto central ao redor do qual giravam no mais das vezes os nossos sonhos Um de nós que tinha um dom especial para participar de grandes banquetes durante a noite se sentia orgulhoso de poder contar de manhã que tinha devorado um jantar de três pratos Um outro sonhava com fumo com montanhas inteiras de fumo enquanto isso um terceiro sonhava com um navio que se aproximava de velas enfunadas em mar aberto Mas esse outro sonho vale a pena repetilo Um carteiro trazia a correspondência e dava uma longa explicação do motivo pelo qual tivéramos que esperar tanto tempo pela correspondência ele a havia despachado para o endereço errado e só pudera recuperála com grande dificuldade Naturalmente sonhávamos com coisas ainda mais impossíveis Mas havia uma falta muito grande de imaginação evidenciada por quase todos os sonhos que eu próprio sonhei ou de que ouvi falar Certamente seria de grande interesse psicológico se todos esses sonhos pudessem ser registrados E facilmente se pode compreender quanto desejávamos o sono pois este podia oferecer a cada um de nós tudo o que mais ardentemente era desejado Assim também de acordo com Du Prel 1885 231 Mungo Park quando estava a ponto de morrer de sede em uma de suas viagens pela África sonhava incessantemente com os vales ricamente irrigados e com as campinas de sua terra natal Em forma semelhante o barão Trenck sofrendo os tormentos da fome à época em que esteve encarcerado na fortaleza de Magdeburg sonhava que se via rodeado de refeições abundantes e George Back que tomou parte na primeira expedição de Franklin quando estava quase morrendo de inanição em conseqüência de suas terríveis privações sonhava constante e regularmente com lautas refeições Todo aquele que come algum prato altamente condimentado no jantar e sente sede durante a noite provavelmente sonha que está bebendo Naturalmente é impossível desfazerse de uma necessidade muito premente de comer e beber por meio de um sonho Acordase de um sonho dessa natureza ainda com a sensação de sede e temse de tomar água realmente O efeito produzido pelo sonho é insignificante neste caso sob o ponto de vista prático não obstante é evidente que ele aconteceu com o objetivo de despertar e fazer agir Quando a necessidade não é tão intensa os sonhos de satisfação de necessidades amiúde ajudam a superálas Da mesma forma proporcionam satisfação os sonhos sob a influência de estímulos sexuais contudo estes mostram particularidades que convém mencionar Como constitui característica do instinto sexual ser um pouco menos dependente do seu objeto do que a fome e a sede pode constituir uma satisfação real aquela que advém de sonhos de ejaculação e como conseqüência de determinadas dificuldades que terei de mencionar mais adiante em sua relação com o objeto acontece com especial freqüência que a satisfação real é ainda assim vinculada a um obscuro ou distorcido conteúdo do sonho Essa característica dos sonhos de ejaculação como foi assinalado por Otto Rank 1912a faz deles assunto especialmente favorável ao estudo da deformação onírica Ademais todos os sonhos de adultos originários em necessidades corporais geralmente contêm junto com a satisfação um outro material este deriva de fontes de estimulação puramente psíquicas e exige interpretação para que possa ser compreendidoAlém disso não desejo afirmar que os sonhos de realização de desejos em adultos construídos segundo padrões infantis somente aparecem como reações a necessidades imperiosas que mencionei Conhecemos também sonhos breves claros do tipo que sob a influência de alguma situação dominante inquestionavelmente se originam em fontes psíquicas de estimulação Existem por exemplo sonhos de impaciência se alguém fez preparativos para uma viagem para uma representação teatral importante para ele para ir a uma conferência ou fazer uma visita pode sonhar com uma satisfação antecipada de sua expectativa durante a noite anterior ao evento poderá verse a si mesmo chegando ao seu destino presente no teatro em conversação com a pessoa que vai visitar Existem ainda aqueles que são apropriadamente chamados de sonhos de conveniência nos quais uma pessoa que deseja dormir mais sonha que já está de pé e se lavando ou que já está na escola ao passo que na realidade ainda está dormindo e preferiria levantarse num sonho a fazêlo na realidade O desejo de dormir que temos reconhecido como um dos constantes componentes da construção dos sonhos aparece abertamente nesses sonhos e se revela como o principal construtor onírico Existem bons motivos para situar a necessidade de dormir em condições de igualdade com as outras grandes necessidades corporaisAqui está uma reprodução de um quadro de Schwind exposto na Galeria Schack de Munique ver frontispício que mostra com que perfeição o artista captou a maneira como os sonhos surgem da situação dominante Seu título é O Sonho do Prisioneiro um sonho cujo conteúdo só pode ser sua fuga Constitui uma solução feliz darse sua fuga através da janela porque é o estímulo da luz entrando pela janela que põe fim ao sono do prisioneiro Os gnomos que estão subindo um em cima do outro sem dúvida representam as posições sucessivas que ele próprio teria de tomar à medida que subisse até o nível da janela E se não me engano e se não estou atribuindo demasiada deliberação ao artista o gnomo que se situa mais em cima que está serrando as grades isto é que está fazendo o que o prisioneiro gostaria de fazer tem semblante igual ao desteEm todos os sonhos que não sejam os de crianças nem os de tipo infantil nosso caminho como disse está obstruído pela deformação onírica De início não podemos dizer se esses outros sonhos também são realizações de desejos conforme suspeitamos não podemos determinar a partir do seu conteúdo manifesto a que estímulo psíquico devem sua origem e não podemos provar que também eles se esforçam por eliminar esse estímulo ou de algum modo manejálo Devem ser interpretados isto é traduzidos sua deformação deve ser desfeita e seu conteúdo manifesto substituído pelo conteúdo latente antes de podermos julgar se aquilo que encontramos nos sonhos infantis pode ser considerado válido para todos os sonhos CONFERÊNCIA IX A CENSURA DOS SONHOS SENHORAS E SENHORES O estudo dos sonhos de crianças nos ensinou a origem a natureza essencial e a função dos sonhos Os sonhos são coisas que eliminam pelo método da satisfação alucinatória estímulos psíquicos perturbadores do sono No entanto conseguimos explicar apenas um grupo dos sonhos de adultos aqueles que descrevemos como sonhos de tipo infantil O que se passa com os demais ainda não sabemos dizer contudo também não os entendemos Assim mesmo chegamos a um dado provisório cuja importância não devemos subestimar Sempre que um sonho se nos tornou inteiramente inteligível veio a se revelar como realização de um desejo em forma alucinatória Essa coincidência não pode ter surgido do acaso deve ter um significadoCom base em considerações diversas e na analogia com nossa opinião acerca das parapraxias supusemos a propósito de sonhos de uma outra espécie ver em 1 e seg que eles seriam um substituto deformado de um conteúdo desconhecido e que a primeira coisa seria correlacionálos com esse conteúdo Nossa tarefa imediata portanto consiste em uma investigação que nos leva a compreender essa deformação nos sonhosDeformação onírica é aquilo que faz com que um sonho nos pareça estranho e ininteligível A respeito dela queremos saber diversas coisas primeiro de onde vem sua dinâmica segundo o que faz e por último como faz Também podemos dizer que a deformação onírica é obra da elaboração onírica é necessário descrevermos a elaboração onírica e explicarmos as forças que nela operamE agora ouçam este sonho Foi registrado por uma senhora pertencente ao nosso grupo e conforme ela nos conta provém de uma senhora de idade avançada altamente conceituada e instruída Não foi feita nenhuma análise do sonho nossa informante observa que para um analista ele não requer interpretação E a pessoa que o sonhou também não o interpretou porém o julgou e o condenou como se compreendesse a maneira de interpretálo pois a respeito do mesmo ela disse E uma coisa chocante e estúpida como esta foi sonhada por uma mulher de cinqüenta anos que dia e noite não tem outros pensamentos senão os de se preocupar com seu filhoAqui pois está o sonho que trata de serviços de amor em época de guerra A paciente dirigiuse ao Hospital da Guarnição N 1 e informou ao sentinela do portão que precisava falar com o Chefe do Serviço Médico mencionando um nome que lhe era desconhecido visto desejar oferecer seus serviços como voluntária no hospital Ela pronunciou a palavra serviço de tal forma que o suboficial imediatamente compreendeu que ela queria dizer serviço de amor Como se tratava de uma senhora idosa após alguma hesitação permitiu que ela passasse Em vez de encontrar o Chefe do Serviço Médico contudo chegou ela a um aposento grande e sombrio no qual estava grande número de oficiais e médicos do exército alguns de pé e outros sentados em torno de uma longa mesa Aproximouse de um cirurgião da equipe com o seu pedido e ele compreendeu o que ela queria dizer depois de ter esta pronunciado apenas algumas palavras O fraseado real de seu discurso no sonho foi Eu e muitas outras mulheres e moças de Viena estamos prontas para nesta altura do sonho suas palavras se transformaram num sussurro ininteligível para as tropas oficiais e outras patentes sem distinção Ela pôde compreender pela expressão do rosto dos oficiais em parte com uma expressão de constrangimento e em parte de malícia que todos haviam compreendido suas palavras corretamente Prosseguiu a senhora Estou cônscia de que nossa decisão pode parecer surpreendente mas nossa intenção é realmente séria Ninguém pergunta a um soldado no campo de batalha se ele deseja morrer ou não Seguiuse um incômodo silêncio de alguns minutos O médico pôs então um braço em torno de sua cintura e disse Suponha madame que isso realmente viesse a murmúrio Ela afastouse dele dizendo com os seus botões Ele é como todos os demais e retrucou Deus do Céu sou uma velha e nunca poderia chegar a esse ponto Além disso há uma condição que deve ser observada idade deve ser respeitada Jamais deve acontecer que uma mulher idosa murmúrio um mero garoto Isso seria terrível Compreendo perfeitamente respondeu o médico Alguns dos oficiais e entre eles um que tinha sido pretendente à sua mão quando ela era jovem riram alto A seguir a senhora pediu para ser levada à presença do Chefe do Serviço Médico pessoa do seu conhecimento de modo que todo o assunto pudesse ser deslindado mas verificou para sua consternação que não podia recordarlhe o nome Não obstante o médico com o máximo de cortesia e respeito indicoulhe o caminho até o segundo andar por uma escada de ferro em caracol muito estreita que conduzia diretamente da sala até aos andares superiores do edifício Quando subia ouviu um oficial dizer Essa é uma tremenda decisão a tomar não importa que uma mulher seja moça ou velha Belo gesto o dela Sentindo simplesmente que estava cumprindo com seu dever ela subiu por uma interminável escadaO sonho se repetiu por duas vezes no decurso de poucas semanas conforme comentou a senhora com apenas algumas modificações sem importância e carentes de sentidoPor sua continuidade este sonho se assemelha a uma fantasia diurna nele há poucas interrupções e alguns dos detalhes de seu conteúdo poderiam ter sido explicados se tivessem sido investigados porém como sabem isto não foi feito Do nosso ponto de vista contudo o que é notável e interessante é que o sonho apresenta diversas lacunas lacunas não na memória da mulher que o sonhou mas no conteúdo do próprio sonho Em três pontos o conteúdo do sonho foi por assim dizer extinto onde ocorrerem essas lacunas o falar foi interrompido por um murmúrio Como não foi realizada nenhuma análise estritamente falando não temos o direito de dizer algo sobre o sentido do sonho Não obstante há indícios nos quais podem se fundamentar determinadas conclusões por exemplo na expressão serviço de amor porém acima de tudo as partes do discurso imediatamente anteriores aos murmúrios exigem que sejam preenchidas as lacunas e de forma nada ambígua Ao fazermos as inserções o conteúdo da fantasia se revela como sendo o seguinte a mulher que teve o sonho atendendo a uma obrigação patriótica está apta a colocarse à disposição das tropas tanto de oficiais como de outras categorias para satisfação das necessidades eróticas dos mesmos Naturalmente isso é muito censurável é o modelo de uma fantasia libidinal desavergonhada tal porém absolutamente não aparece no sonho Precisamente nos pontos onde o contexto exigiria que isso fosse admitido o sonho manifesto contém um murmúrio indistinto algo se perdeu ou foi suprimido Os senhores pensarão assim espero que seja plausível supor que foi justamente a natureza censurável dessas passagens que constituiu o motivo de sua supressão Onde encontraremos um paralelo de tal evento Nos dias atuais não é preciso ir longe Tomem qualquer jornal político e verificarão que aqui e ali o texto está ausente e em seu lugar não se vê nada mais que papel em branco Isto como sabem é obra da censura da imprensa Nos espaços vazios havia algo que só agradou às autoridades superiores da censura e por este motivo foi removido é uma pena como vêem pois sem dúvida era o que de mais interessante havia no jornal o melhor pedaço Noutras ocasiões a censura não funcionou em uma passagem depois de esta já estar pronta O autor viu com antecedência quais as passagens que se podia esperar suscitassem objeções da censura e por esta causa antecipadamente moderou o tom das mesmas modificouas ligeiramente ou se contentou com aproximações ou alusões àquilo que originalmente teria fluido de sua pena Neste caso não há espaços em branco no papel contudo as circunlocuções e obscuridades de expressão que aparecem em certos pontos possibilitarão aos senhores perceber onde houve prévio acatamento à censura Pois bem podemos manter esta comparação Pensamos que as partes omitidas do discurso do sonho que foram ocultadas por um murmúrio de forma semelhante foram sacrificadas a uma censura Queremos nos referir a uma censura de sonhos à qual se deve atribuir uma parcela da deformação onírica Em qualquer parte onde existem lacunas no sonho manifesto a censura é responsável por elas Devemos ir mais adiante e considerar como manifestação da censura toda passagem em que um elemento onírico é recordado de maneira especialmente indistinta indefinida duvidosa em meio a outros elementos construídos mais claramente No entanto apenas muito raramente essa censura se manifesta tão indisfarçadamente tão ingenuamente se poderia dizer como nesse exemplo do sonho dos serviços de amor A censura age muito mais freqüentemente de acordo com o segundo método produzindo atenuações aproximações e alusões em vez da coisa original Nas atuações da censura de imprensa não conheço nada semelhante à terceira forma de funcionamento da censura de sonhos posso porém demonstrála justamente com o exemplo de um sonho que antes já analisamos Os senhores se recordam do sonho dos três bilhetes de entrada ruins por 150 florim ver em 1 Nos pensamentos latentes desse sonho o elemento superapressadamente cedo demais estava em primeiro plano Portanto foi absurdo casar tão cedo também foi absurdo adquirir os bilhetes de ingresso tão cedo foi ridículo a cunhada sair tão apressada com o dinheiro para comprar jóias Nada desse elemento central dos pensamentos oníricos transpareceu no sonho manifesto neste a posição central é ocupada por ir ao teatro e comprar os ingressos Como conseqüência desse deslocamento da ênfase com esse novo agrupamento dos elementos de conteúdo o sonho manifesto ficou tão diferente dos pensamentos oníricos latentes que ninguém suspeitaria da presença destes atrás daquele Esse deslocamento da tônica é um dos principais instrumentos da deformação onírica e é o que confere ao sonho sua estranheza que faz com que a própria pessoa que teve o sonho não se mostre inclinada a reconhecêlo como obra sua Omissão modificação novo agrupamento do material são estas pois as atividades da censura de sonhos e os instrumentos da deformação onírica A censura de sonhos por si mesma é o agente ou um dos agentes da deformação onírica que agora estamos examinando Estamos habituados a combinar os conceitos de modificação e reajuste sob o termo deslocamento Após estes comentários sobre as atividades da censura de sonhos passemos agora à sua dinâmica Espero que os senhores não tomem o termo antropomorficamente demais e não imaginem o censor dos sonhos como um severo homúnculo contudo também espero que não assumam muito o termo num sentido de localização e não pensem em um centro cerebral do qual proceda uma influência censora dessa ordem uma influência que chegaria ao fim se esse centro fosse lesado ou removido Por agora não é nada mais que um termo útil para descrever a relação dinâmica A palavra não nos impede de perguntarmos por quais intenções é exercida essa influência censora e contra que intenções ela é exercida E não nos surpreenderemos ao constatar que mais uma vez nos defrontamos com a censura de sonhos embora talvez sem reconhecêlaPois é este realmente o caso Os senhores se recordam de que ao começarmos a usar nossa técnica de associação livre fizemos uma descoberta surpreendente Apercebemonos de que nossos esforços de abrir caminho desde o elemento onírico até o elemento inconsciente do qual aquele é um substituto encontravam uma resistência ver em 1 e 2 Essa resistência dissemos poderia ser de diferentes magnitudes às vezes enorme às vezes quase insignificante Nesse último caso temos de passar através de apenas alguns elos intermediários em nosso trabalho de interpretação No entanto quando a resistência é grande temos de percorrer longas cadeias de associações a partir do elemento onírico somos conduzidos para longe deste e em nosso caminho temos de vencer todas as dificuldades representadas pelas objeções críticas às idéias que ocorrem O que encontramos sob a forma de resistência em nosso trabalho de interpretação deve agora ser introduzido na elaboração onírica como censura de sonhos A resistência à interpretação é apenas a efetivação da censura do sonho Também nos prova que a força da censura não se esgota com a deformação do sonho e nem se extingue depois disso que a censura contudo persiste como instituição permanente que tem como seu objetivo manter a deformação Ademais assim como a força da resistência varia na interpretação de cada elemento do sonho também a magnitude da deformação engendrada pela censura varia para cada elemento do mesmo sonho Se compararmos o sonho manifesto com o latente constataremos que determinados elementos latentes foram totalmente eliminados outros modificados em grau maior ou menor enquanto outros ainda foram transportados para o conteúdo manifesto do sonho inalterados ou mesmo talvez reforçadosDesejávamos no entanto perguntar quais são os propósitos que exercem a censura e contra que propósitos ela é exercida Ora esta questão fundamental para o entendimento dos sonhos e talvez na realidade da vida humana é fácil de responder se examinarmos a série de sonhos que foram interpretados Os propósitos que exercem a censura são aqueles reconhecidos pelo julgamento vigil da pessoa que sonhou aqueles com o quais o sonhador está de acordo Os senhores podem ter a certeza de que se rejeitarem uma interpretação de um de seus próprios sonhos que tenha sido efetuada corretamente assim estarão agindo pelos mesmos motivos pelos quais a censura do sonho foi exercida a deformação do sonho foi ocasionada e a interpretação do sonho se tornou necessária Vejam o sonho da senhora de cinqüenta anos de idade ver em 1 e 2 Ela achou seu sonho repugnante sem têlo analisado e se teria indignado mais ainda se Dr von HugHellmuth lhe houvesse dito algo acerca de sua inevitável interpretação foi precisamente porque essa senhora condenou o sonho que as passagens censuráveis do mesmo foram substituídas por um murmúrioAs tendências contra as quais se dirige a censura de sonhos devem ser descritas em primeiro lugar do ponto de vista dessa instância mesma Assim sendo apenas podese dizer que invariavelmente são de natureza repreensível repulsiva do ponto de vista ético estético e social assuntos nos quais a pessoa absolutamente não se aventura a pensar ou somente pensa com aversão Esses desejos que são censurados e recebem uma expressão deformada nos sonhos são primeiro e acima de tudo manifestações de um egoísmo desenfreado e impiedoso E vejam só o próprio ego do sonhador surge e desempenha o papel principal no sonho apesar de muito bem saber esconderse para o que muito contribui o conteúdo manifesto Este sacro egoísmo dos sonhos certamente não é desprovido de alguma relação com a atitude que adotamos quando dormimos que consiste em retirarmos nosso interesse de todo o mundo externoO ego liberto de todos os compromissos éticos também se sente à vontade com todas as exigências do sexo mesmo aquelas que por muito tempo têm sido condenadas pela nossa educação estética e aquelas que contrariam todos os requisitos das barreiras morais O desejo de prazer a libido conforme o denominamos escolhe sem inibição seus objetos e de preferência os proibidos não somente as mulheres de outros homens mas acima de tudo objetos incestuosos objetos sagrados segundo o consenso da humanidade mãe e irmã de um homem pai e irmão de uma mulher O sonho dessa senhora de cinqüenta anos também era incestuoso sua libido estava inequivocamente voltada para seu filho ver em 1 e 2 Desejos sensuais que imaginamos distantes da natureza humana mostramse suficientemente fortes para provocar o surgimento de sonhos Também surgem ódios rancorosos sem constrangimento Desejos de vingança e de morte dirigidos contra aqueles que nos são mais próximos e mais caros na vida desperta contra os pais irmãos e irmãs marido ou esposa e contra os próprios filhos não são nada raros Esses desejos censurados parecem nascer de um verdadeiro inferno depois que são interpretados quando estamos acordados nenhuma censura a eles nos parece tão rigorosa Porém os senhores não devem acusar o próprio sonho por causa de seu conteúdo mau Não se esqueçam de que ele executa a função inocente e na verdade útil de preservar o sono de qualquer perturbação Essa ruindade não faz parte da natureza essencial dos sonhos Com efeito os senhores também sabem que há sonhos que podem ser reconhecidos como satisfação de desejos justificados e de necessidades corporais prementes Estes é verdade não apresentam deformação mas também não precisam de deformação porque podem preencher sua função sem insultar os propósitos éticos e estéticos do ego Atentem também para o fato de que a deformação do sonho é proporcional a dois fatores Por um lado ela é tão maior quanto pior é o desejo a ser censurado mas por outro lado também se torna maior à medida que mais severas forem as exigências da censura no momento Assim uma moça educada rigorosamente pudica com uma censura implacável irá distorcer impulsos oníricos que nós médicos por exemplo teríamos de considerar desejos libidinais permissíveis inofensivos e acerca dos quais dentro de dez anos ela mesma fará julgamento igualAdemais ainda não fomos tão suficientemente longe a ponto de sentirmos indignação com esse resultado de nosso trabalho de interpretação Penso que ainda não o compreendemos acertadamente porém nossa primeira obrigação é defendêlo contra certas calúnias Não há dificuldade em encontrar nele um ponto fraco Nossas interpretações de sonhos são feitas com fundamento nas premissas que já aceitamos ver em 1 e seg que os sonhos em geral possuem um sentido que é correto transportar do sono hipnótico para o normal o fato de existirem processos mentais que na época considerada são inconscientes e que tudo o que ocorre à mente é determinado Se com base nessas premissas tivéssemos chegado a achados plausíveis originados da interpretação de sonhos deveríamos ter encontrado justificativa para concluir pela validade das premissas Mas como conseguir isso se esses achados parecem ser como lhes mostrei Estaríamos então tentados a dizer Esses achados são impossíveis carecem de sentido ou pelo menos são muito improváveis portanto havia algo de errado nas premissas Ou os sonhos não são fenômenos psíquicos ou não existe nada inconsciente no estado normal ou nossa técnica apresenta em si uma falha Não é mais simples e mais satisfatório supor assim de preferência a aceitar todas as abominações que se supõe tenhamos descoberto baseados em nossas premissasSim com efeito Mais simples e mais satisfatório no entanto nem por isso necessariamente mais correto Concedamonos tempo o tema ainda não está maduro para julgamento E em primeiro lugar podemos reforçar ainda mais as críticas à nossa interpretação de sonhos O fato de os achados provenientes dos sonhos serem tão desagradáveis e repulsivos talvez não devesse ter tanto peso Um argumento mais forte é que as pessoas que têm os sonhos a quem somos levados a atribuir essas intenções plenas de desejos mediante a interpretação de seus sonhos as rejeitem muito enfaticamente e por boas razões o fazem O quê diz uma delas o senhor quer me convencer com este sonho de que eu lamento ter gasto dinheiro com o dote de minha irmã e com a instrução de meus irmãos Mas não pode ser assim Trabalho exclusivamente para meus irmãos e irmãs não tenho nenhum outro interesse na vida senão cumprir minhas obrigações para com eles o que como o mais velho da família prometera a minha falecida mãe fazer Ou então uma mulher poderá dizer a propósito de seu sonho Pensa que eu desejaria ver meu marido morto Isso é chocante disparate É que não somente estamos vivendo um casamento muito feliz o senhor provavelmente não acreditaria em mim se eu dissesse isso mas a morte dele me roubaria tudo o que eu tenho neste mundo Um outro homem nos respondeu O senhor diz que tenho desejos sensuais por minha irmã Isso é ridículo Ela não significa absolutamente nada para mim Estamos brigados e com ela não tenho trocado uma palavra há anos Poderíamos talvez não dar maior importância se tais pessoas não confirmassem nem negassem as intenções que lhes atribuímos poderíamos dizer que essas eram justamente coisas que elas desconheciam a respeito de si próprias Porém quando sentem em si mesmas justamente o contrário do desejo que lhes interpretamos e quando conseguem provarnos através da vida que levaram estarem dominadas por esse desejo contrário seguramente somos tomados de surpresa Não teria chegado a hora de abandonar todo o trabalho que executamos acerca da interpretação de sonhos como algo cujos achados se reduziram ad absurdumNão ainda não Até mesmo este argumento mais forte desmorona se o examinarmos criticamente Tendo como certo que na vida mental existem intenções inconscientes nada se prova ao mostrar que intenções opostas às intenções inconscientes dominam a vida consciente Quem sabe na mente há lugar para existirem lado a lado intenções opostas contradições Possivelmente na verdade a dominância de um impulso seja precisamente a condição necessária para que seu contrário seja inconsciente Afinal restamnos então as primeiras objeções levantadas as descobertas da interpretação de sonhos não são simples e são muito desagradáveis À primeira delas podemos responder que toda a paixão dos senhores pelo que é simples não conseguirá solucionar um só dos problemas dos sonhos Aqui os senhores precisam se acostumar a enfrentar um complexo estado de coisas E à segunda objeção podemos responder que os senhores se enganam redondamente quando usam um gostar ou nãogostar daquilo que sentem como fundamento de um julgamento científico Que diferença faz se as descobertas da interpretação de sonhos lhes parecem desagradáveis ou na realidade embaraçosas e repulsivas Ça nempêche pas dexister conforme ouvi meu mestre Charcot dizer em situação semelhante quando eu era um jovem médico Devese ter humildade e refrear as simpatias e antipatias quando se deseja descobrir o que é real neste mundo Se um físico pudesse provarlhes que em certo espaço de tempo a vida orgânica neste planeta chegaria ao fim por meio do congelamento os senhores se arriscariam a darlhe a mesma resposta Não pode ser assim a perspectiva é tão desagradável assim Penso que os senhores se calariam até que outro físico viesse e mostrasse ao primeiro um erro em suas premissas ou em seus cálculos Quando os senhores rejeitam alguma coisa que lhes desagrada o que fazem é repetir o mecanismo de construção dos sonhos em vez de entendêlo e superáloOra os senhores poderão prometer não levar em conta o caráter desagradável dos sonhos de realização de desejo censurados e se apoiarão no argumento de que afinal é improvável que seja dado espaço tão grande ao mal na constituição dos seres humanos A experiência dos senhores porém ratifica o que dizem Não irei discutir o que cada um possa aparentar a si mesmo mas têm os senhores encontrado tanta benevolência entre os seus superiores e competidores tanto cavalheirismo entre os seus inimigos e tão pouca inveja em seu meio social que se sentem na obrigação de protestar contra o fato de a maldade egoísta fazer parte da natureza humana Não têm os senhores plena consciência de como a média das pessoas tem descontroles e deslealdades em tudo o que diz respeito à vida sexual Ou não sabem que todas as transgressões e excessos com que sonhamos durante a noite são diariamente cometidos na vida real pelas pessoas em sua vida desperta O que faz aqui a psicanálise senão confirmar a velha sentença de Platão de que os bons são aqueles que se contentam em sonhar com aquilo que os outros os maus realmente fazemE agora abstraiamse dos indivíduos e considerem a grande guerra que ainda devasta a Europa Pensem na avassaladora brutalidade na crueldade e nas mentiras que conseguem se alastrar pelo mundo civilizado Os senhores acreditam realmente que um punhado de homens ambiciosos trapaceiros sem consciência poderiam ter tido êxito em desatrelar todos esses maus espíritos se seus milhões de seguidores não partilhassem de seu crime Os senhores se arriscariam nessas circunstâncias a quebrar lanças em defesa da inexistência do mal na constituição mental da humanidadeOs senhores me farão ver que estou fazendo um julgamento unilateral da guerra que esta também faz manifestarse o que há de mais belo e nobre nos homens seu heroísmo seu autosacrifício seu senso social Sem dúvida mas os senhores não se estarão revelando cúmplices da injustiça que tem sido feita à psicanálise de reprovála negando uma coisa só porque ela afirmou outra Não é nossa intenção questionar os nobres reforços da natureza humana e nunca fitemos algo que lhe diminuísse o valor Pelo contrário estou mostrando aos senhores não apenas os maus sonhos de realização de desejo que são censurados mas também a censura que os suprime e os torna irreconhecíveis Damos ênfase maior àquilo que nos homens é mau tãosomente porque outras pessoas o rejeitam e com isso tornam a mente humana não melhor mas incompreensível Se agora deixamos de lado essa avaliação ética unilateral sem dúvida encontraremos uma fórmula mais correta para a relação entre o bem e o mal na natureza humanaAí está Não temos por que abandonar as descobertas de nosso trabalho sobre interpretação dos sonhos ainda que não consigamos vêlas senão como estranhas Talvez mais adiante sejamos capazes de nos aproximarmos da compreensão delas a partir de outro enfoque Por agora fixemonos nisso a deformação onírica é conseqüência da censura exercida por intenções reconhecidas do ego contra impulsos plenos de desejos de qualquer modo censuráveis que perturbam nosso interior à noite durante nosso sono Por que isso tem de acontecer especialmente à noite e de onde procedem esses desejos repreensíveis ambos constituem um assunto sobre o qual sem dúvida ainda há muito a questionar e pesquisar Seria injusto porém se a esta altura deixássemos de enfatizar suficientemente um outro resultado de nossas investigações Os sonhos de realização de desejo que procuram nos perturbar o sono nos são desconhecidos e na verdade deles somente tomamos conhecimento através da interpretação de sonhos Portanto eles devem ser descritos segundo o sentido de nossa exposição como inconscientes no momento atual Devemos contudo refletir que são inconscientes também por duração mais longa do que no momento atual O sonhador como temos verificado em tantos casos também os rejeita depois de chegar a conhecêlos pela interpretação do seu sonho Aqui nos defrontamos novamente com a situação que pela primeira vez encontramos no lapso de língua do arroto ver em 1 onde o proponente do brinde protestou indignado que nem naquela época nem em qualquer outra época anterior estivera cônscio de qualquer impulso desrespeitoso em relação a seu chefe Já naquela ocasião nos assaltaram algumas dúvidas a respeito da validade de uma convicção dessa espécie e em vez disso sugerimos a hipótese de que o orador tinha permanente desconhecimento da presença de semelhante impulso em si próprio Essa situação se repete agora com toda interpretação de um sonho acentuadamente deformado e conseqüentemente adquire redobrada importância pelo apoio que confere à nossa opinião Agora estamos preparados para supor existirem na mente processos e intenções dos quais a pessoa pode não saber absolutamente nada nada soube durante longo tempo e até mesmo talvez jamais tenha sabido de alguma coisa Com isso o inconsciente adquire um novo sentido para nós a característica de no momento atual ou temporário desaparece de sua natureza essencial Pode significar permanentemente inconsciente e não meramente latente em certa época Naturalmente haveremos de ouvir mais a este respeito em outra ocasião CONFERÊNCIA X SlMBOLISMO NOS SONHOS SENHORAS E SENHORES Verificamos que a deformação que ocorre nos sonhos e interfere em nossa possibilidade de compreendêlos resulta de uma atividade censora dirigida contra inaceitáveis impulsos plenos de desejo inconscientes Não temos afirmado naturalmente ser a censura o único fator responsável pela deformação nos sonhos e de fato ao estudálos mais detidamente podemos descobrir que outros fatores desempenham sua parte na consecução desse resultado Isso importa em dizermos que mesmo estando fora de ação a censura onírica ainda assim não estaríamos em condições de entender os sonhos o sonho manifesto ainda não seria idêntico aos pensamentos oníricos latentesDescobrimos esse outro fator que evita que os sonhos sejam nítidos essa nova contribuição à deformação onírica ao constatarmos uma lacuna em nossa técnica Já fiz ver aos senhores ver em 1 que às vezes realmente acontece não ocorrer à pessoa em análise nenhuma idéia em resposta a determinados elementos de seus sonhos É verdade que isso não acontece tão seguidamente como a pessoa afirma em muitíssimos casos com persistência brotalhe uma idéia Não obstante restam casos nos quais deixa de surgir uma associação ou se essa é obtida não nos dá o que dela esperávamos Acontecendo durante um tratamento analítico isso tem um significado especial que não nos interessa aqui Contudo também acontece na interpretação de sonhos de pessoas normais e em nossos próprios sonhos Se nos convencemos de que em tais casos não há pressão que possa nos ser de utilidade terminamos por descobrir que esse evento indesejado ocorre regularmente em conexão com determinados elementos oníricos e começamos a reconhecer que um novo princípio geral está em vigor ali onde começávamos a pensar que apenas se nos antepunha uma excepcional falha de técnica Assim sendo somos tentados a interpretar esses elementos oníricos mudos em si mesmos a nos pôr a traduzilos com nossos próprios recursos Somos então compelidos a reconhecer que sempre que nos aventuramos a efetuar uma substituição dessa espécie encontramos um sentido adequado para o sonho ao passo que este permanece carente de sentido e a cadeia de pensamentos se mantém interrompida enquanto nos abstivermos de intervir dessa maneira A acumulação de muitos casos semelhantes proporciona por fim a necessária certeza àquilo que começou como tímida experiência Estou expondo tudo isso de modo bastante esquemático Tal porém afinal se permite por motivos didáticos e nada foi adulterado mas apenas simplificado Conseguimos assim traduções uniformes para numerosos elementos oníricos assim como os livros de sonhos populares dão traduções para tudo o que aparece nos sonhos Os senhores naturalmente não se terão esquecido de que quando usamos técnica associativa nunca se torna claro por que ocorrem determinadas substituições constantes de alguns elementos oníricos Os senhores prontamente farão a objeção de que esse método de interpretação lhes parece muito mais inseguro e passível de ataque do que o anterior baseado na associação livre Porém existe algo mais Pois quando com a experiência tivermos coligido número suficiente de tais versões constantes chega a hora em que percebemos que deveríamos ser capazes de lidar com essa parte da interpretação de sonhos por meio de nossos próprios conhecimentos e que elas poderiam realmente ser compreendidas sem as associações do sonhador O modo como devemos conhecer necessariamente seu significado se tornará claro na segunda metade desta nossa exposiçãoUma relação constante desse tipo entre um elemento onírico e sua versão nós a descrevemos como relação simbólica e ao elemento onírico propriamente dito como um símbolo do pensamento onírico inconsciente Os senhores estão lembrando de que anteriormente quando investigávamos as relações entre elementos oníricos e a coisa original situada por trás deles diferenciei três relações desse tipo a da parte com o todo a da alusão e a da representação plástica Na ocasião eu os adverti de que havia uma quarta relação porém não citei seu nome ver em 1 Essa quarta relação é a relação simbólica que estou apresentando agora Ela enseja oportunidade para algumas discussões interessantes e eu passarei a estas antes de lhes demonstrar os resultados detalhados de nossas observações sobre o simbolismo O simbolismo é talvez o mais notável capítulo da teoria dos sonhos Em primeiro lugar como os símbolos são versões constantes realizam até certo ponto o ideal da antiga tanto como da popular interpretação dos sonhos do qual com nossa técnica nos afastamos muito Permitemnos em certas circunstâncias interpretar um sonho sem fazer perguntas ao sonhador que de qualquer modo realmente nada teria a nos dizer acerca do símbolo Se estivermos familiarizados com os símbolos oníricos comuns e ademais disso com a personalidade do sonhador as circunstâncias em que ele vive e as impressões que precederam a ocorrência do sonho freqüentemente estaremos em situação de interpretar um sonho com segurança de traduzilo à vista por assim dizer Um virtuosismo dessa espécie lisonjeia a quem interpreta o sonho e impressiona aquele que teve o sonho forma um agradável contraste com a laboriosa tarefa de interrogar o sonhador Contudo não se deixem perderse com isso Não é de nosso feitio executar atos de virtuosismo A interpretação baseada no conhecimento dos símbolos não é uma técnica que possa substituir a técnica associativa nem competir com esta A técnica dos símbolos suplementa a técnica associativa e produz resultados que apenas possuem utilidade quando subordinada a esta E no que concerne ao conhecimento que se tenha da situação psíquica da pessoa que nos relata seu sonho devem ter em mente que os sonhos das pessoas que os senhores bem conhecem não são os únicos que os senhores têm para analisar ter em mente que via de regra os senhores não estão familiarizados com os eventos do dia anterior que foram aqueles que provocaram o sonho mas que as associações de idéias da pessoa que os senhores estão analisando lhes proporcionarão um conhecimento preciso daquilo que chamamos situação psíquica Ademais constitui aspecto muito notável tendo em conta também algumas considerações que mencionaremos mais adiante cf pág 16970 o fato de se terem manifestado mais uma vez as mais violentas resistências contra uma relação simbólica entre os sonhos e o inconsciente Mesmo pessoas de discernimento e reputação que afora isso têm concordado em muito com a psicanálise nesse ponto retiraram seu apoio Esse comportamento se afigura muito estranho primeiro em vista do fato de que o simbolismo não constitui peculiaridade exclusiva dos sonhos e não é característico dos mesmos e em segundo lugar o simbolismo nos sonhos não é de forma alguma descoberta da psicanálise embora esta tenha feito muitas outras descobertas surpreendentes O filósofo K A Scherner 1861 deve ser apontado como o descobridor do simbolismo onírico se é que absolutamente se possam situar seus inícios nos tempos atuais A psicanálise confirmou os achados de Scherner embora tenha feito substanciais modificações nos mesmos Agora certamente os senhores desejam ouvir algo sobre a natureza do simbolismo dos sonhos e ter alguns exemplos Com satisfação lhes direi o que sei embora deva confessar que nossa compreensão deste tema não é tão completa como desejaríamos A essência desta relação simbólica constitui em ela ser uma comparação embora não uma comparação de tipo qualquer Limitações especiais parecem estar vinculadas à comparação porém é difícil dizer quais sejam elas Nem tudo aquilo com que podemos comparar um objeto ou um processo aparece nos sonhos como símbolo dessa comparação E por outro lado um sonho não simboliza cada elemento possível dos pensamentos oníricos latentes mas somente alguns pensamentos determinados Assim existem limitações em ambos os sentidos Devemos admitir também que o conceito de símbolo no momento atual não pode ser definido com precisão esse conceito se transfigura gradualmente em noções tais como as de substituição ou representação e mesmo se aproxima do que entendemos por alusão Em numerosos símbolos a comparação que subjaz é óbvia Entretanto também aí existem outros símbolos em relação aos quais devemos nos perguntar onde buscaremos o elemento comum o tertium comparationis da suposta comparação Com outras reflexões podemos posteriormente descobrilo ou então ele pode permanecer definitivamente oculto É ademais estranho que sendo o símbolo uma comparação não seja elucidado por uma associação e que o sonhador não conheça mas faça uso dele sem saber nada a seu respeito mais ainda na verdade que o sonhador não se sinta disposto a reconhecer a comparação mesmo depois de esta lhe ter sido mostrada Os senhores observam pois que uma relação simbólica é uma comparação de tipo muito especial cuja base até agora ainda não apreendemos embora possamos posteriormente chegar a alguma indicação sobre a mesma A gama de coisas às quais se confere uma representação simbólica nos sonhos não é ampla o corpo humano como um todo os pais os filhos irmãos e irmãs nascimento morte nudez e algumas outras coisas mais A representação típica isto é regular da figura humana como um todo é uma casa conforme foi reconhecido por Scherner que até mesmo quis atribuir a este símbolo uma importância transcendental que não tem Em um sonho pode acontecer alguém sentirse descendo pela fachada de uma casa num momento deliciandose com isso depois atemorizandose As casas com paredes lisas representam homens e aquelas com saliências e sacadas em que é possível segurarse representam mulheres ver em 1 adiante Os pais aparecem nos sonhos como imperador e imperatriz rei e rainha loc cit ou outras personagens respeitadas com isso os sonhos evidenciam muito respeito filial Tratam porém com muito menos ternura os filhos os irmãos e as irmãs estes são simbolizados como pequenos animais ou bichinhos O nascimento é quase que invariavelmente representado por algo que tem uma conexão com água ou a pessoa cai dentro da água ou sai da água a pessoa salva alguém da água ou é resgatada da água por alguém ou seja é uma relação mãefilho ver em 1 Morrer é substituído nos sonhos por partir por viajar de trem ver em 1 e 2 estar morto é representado por indícios diversos por assim dizer obscuros a nudez por meio de roupas e uniformes Os senhores vêem quão indistintos são os limites aqui entre a representação simbólica e a alusiva É surpreendente que em comparação com essa reduzida numeração existe uma outra área em que os objetos e assuntos são representados por um simbolismo extraordinariamente rico Essa área é a da vida sexual os genitais os processos sexuais a relação sexual Nos sonhos a grande maioria dos símbolos são símbolos sexuais E aqui se revela uma estranha desproporção Os temas que mencionei são poucos os símbolos que os representam são porém extremamente numerosos de forma que cada uma dessas coisas pode ser expressa por numerosos símbolos quase equivalentes Quando interpretados o resultado origina objeções generalizadas Pois em contraste com a multiplicidade das representações no sonho as interpretações dos símbolos variam muito pouco o que enfada qualquer pessoa que ouve falar nisso mas o que podemos fazer quanto a isto Como esta é a primeira vez que falo no tema da vida sexual em uma destas conferências devolhes uma explanação sobre a maneira pela qual me proponho a tratar do assunto A psicanálise não tem necessidade de ocultamentos nem de palpites não pensa que seja necessário envergonharse de lidar com esse importante material acredita que é correto e apropriado nomear cada coisa pelo seu nome certo e espera que esta seja a melhor maneira de manter à distância idéias inadequadas de natureza desorientadora O fato de estas conferências estarem sendo proferidas perante um auditório misto de ambos os sexos não faz qualquer diferença com relação a esse aspecto Assim como não pode haver ciência in usum Delphini também não pode havêla para meninas de colégio e as senhoras aqui presentes já evidenciaram por sua própria presença nesta sala de conferências que desejam ser tratadas em condições de igualdade com os homensOs genitais masculinos então são representados nos sonhos por numerosas formas que devem ser chamadas simbólicas nas quais o elemento comum da comparação é em geral muito evidente Primeiramente para os genitais masculinos como um todo o sagrado número 3 tem significação simbólica ver em 1 e segs O mais notável e para ambos os sexos mais interessante componente dos genitais o órgão masculino encontra substitutos simbólicos primordialmente em coisas que a ele se assemelham pela sua forma coisas portanto que são alongadas e retas tais como bengalas guardachuvas postes árvores e assim por diante e também objetos que compartilham com a coisa que representam da característica de penetrar no corpo e ferir ou seja armas pontiagudas de toda espécie facas punhais lanças sabres e também armas de fogo rifles pistolas e revólveres especialmente adequados por causa de sua forma Nos sonhos de ansiedade de uma menina ser seguida por um homem com uma faca ou com arma de fogo desempenha importante papel Esse talvez seja o caso mais comum de simbolismo onírico e agora os senhores estão aptos a traduzilo com facilidade E não é difícil compreender de que modo o órgão masculino pode ser substituído por objetos dos quais flui água torneira regador chafariz ou ainda por outros objetos capazes de se distenderem tais como lâmpadas suspensas lápis extensíveis etc Um aspecto não menos óbvio do órgão explica o fato de que lápis canetas limas martelos e outros instrumentos são indubitáveis símbolos sexuais masculinosA extraordinária característica do órgão masculino de ser capaz de erguerse em desafio às leis da gravidade um dos fenômenos da ereção faz com que seja representado simbolicamente por balões máquinas voadoras e mais recentemente pelas aeronaves Zeppelin Os sonhos porém podem simbolizar a ereção de outra maneira muito mais expressiva Podem tratar o órgão sexual como sendo a essência da pessoa inteira daquele que sonha e fazêlo voar Não se melindrem com a idéia de que os sonhos com voar tão comuns e freqüentemente tão agradáveis devam ser interpretados como sonhos de excitação sexual geral como sonhos de ereção Entre alunos de psicanálise Paul Federn 1914 colocou essa interpretação fora de dúvida contudo através de suas investigações chegou à mesma conclusão Mourly Vold 191012 2 791 que tem sido tão elogiado por sua seriedade quem levou a cabo as experiências com sonhos a que me referi ver em 1 e 2 com posições artificialmente assumidas dos braços e pernas e estava muito distanciado da psicanálise e possivelmente nada sabia a respeito dela E não façam a partir daí a objeção ao fato de as mulheres poderem ter os mesmos sonhos de voar como os homens Lembremse antes de que nossos sonhos objetivam ser realizações de desejos e que o desejo de ser homem com muita freqüência é encontrado consciente ou inconscientemente em mulheres E ninguém que conheça anatomia se espantará com o fato de que é possível às mulheres realizar esse desejo através das mesmas sensações do homem As mulheres possuem como parte de seus genitais um pequeno órgão semelhante ao órgão masculino e esse pequeno órgão o clitóris realmente desempenha na infância e durante os anos anteriores às relações sexuais o mesmo papel que desempenha o grande órgão dos homensEntre símbolos sexuais masculinos menos inteligíveis situamse certos répteis e peixes e acima de tudo o famoso símbolo da cobra Certamente não é fácil adivinhar por que chapéus e sobretudos ou capas são empregados da mesma maneira contudo seu significado simbólico é bastante inquestionável ver em 1 Finalmente podemos nos perguntar se a substituição do membro masculino por outro membro o pé ou a mão deveria ser descrita como simbólica Penso que somos compelidos a também fazêlo em face ao contexto e aos equivalentes no caso das mulheresOs genitais femininos são simbolicamente representados por todos esses objetos que compartilham da característica de possuírem um espaço oco que pode conter algo dentro de si buracos cavidades e concavidades por exemplo vasos e garrafas recipientes caixas malas estojos cofres bolsas e assim por diante Barcos também se incluem nesta categoria Alguns símbolos têm mais conexão com o útero do que com os genitais femininos assim armários fogões e mais especialmente aposentos Aqui o simbolismo de aposento se aproxima do simbolismo de casa Portas e portões também são símbolos do orifício genital Os materiais também são símbolos femininos ver em 1 madeira papel e objetos feitos desses materiais como mesas e livros Dentre os animais caramujos e conchas pelo menos são inegáveis símbolos femininos entre as partes do corpo a boca como substituto do orifício genital entre as construções igrejas e capelas como podem observar nem todos os símbolos são igualmente inteligíveisOs seios devem ser incluídos nos genitais sendo hemisférios volumosos do corpo feminino são representados por maçãs pêras e frutas em geral Os pêlos pubianos de ambos os sexos são representados nos sonhos por florestas e moitas A complexa topografia das partes genitais femininas torna compreensível o fato de elas serem freqüentemente representadas por paisagens com rochedos floresta e água ao passo que o imponente mecanismo do aparelho genital feminino explica por que todo tipo de máquinas difíceis de descrever lhe serve de símboloOutro símbolo dos genitais femininos que merece ser mencionado é o portajóias Jóia e tesouro são usados nos sonhos assim como na vida desperta para mencionar alguém que é amado Doces freqüentemente representam satisfação sexual A satisfação que uma pessoa obtém com seus próprios genitais é indicada por toda espécie de tocar inclusive tocar piano Constituem representação simbólica par excellence da masturbação o deslizar ou escorregar o arrancar um ramo ver em 1 A queda de um dente ou a extração de um dente são símbolos oníricos particularmente dignos de reparo Sua significação primeira é indubitavelmente a castração como castigo pela masturbação loc cit Encontramos representações especiais do ato sexual com menos freqüência do que se poderia esperar com base naquilo que se disse até aqui Atividades rítmicas como dançar cavalgar e subir devem ser mencionadas aqui bem como ocorrências violentas como ser atropelado e ainda da mesma forma certas atividades manuais e naturalmente ameaças com armasOs senhores não devem imaginar que seja muito simples o emprego ou a tradução desses símbolos No decurso deles acontecem todos os tipos de coisas que são contrárias às nossas expectativas Parece quase inacreditável por exemplo que nessas representações simbólicas as diferenças entre os sexos amiúde não são nitidamente observadas Alguns símbolos significam em geral independentemente de serem masculinos ou femininos por exemplo uma criança pequena um filho pequeno uma filha pequena Ou ainda um símbolo predominantemente masculino pode ser empregado para representar genitais femininos e viceversa Não podemos compreender esse fato enquanto não tivermos obtido determinada compreensão interna insight da evolução das idéias sexuais nos seres humanos Em alguns casos a ambigüidade dos símbolos pode ser apenas aparente e os símbolos mais marcados como armas bolsas e cofres se excluem desse uso bissexual Agora partindo não da coisa representada mas sim do símbolo prosseguirei fazendo um exame de conjunto das áreas das quais geralmente derivam os símbolos sexuais e farei algumas observações adicionais com especial referência aos símbolos em que o elemento comum da comparação não está entendido O chapéu é um símbolo obscuro deste tipo talvez também tudo o que se usa para cobrir a cabeça em geral e tem via de regra significação masculina mas é também capaz de ter significação feminina Da mesma forma um sobretudo ou uma capa significam um homem talvez nem sempre se referindo ao aspecto genital compete aos senhores perguntarem por quê Gravatas que são coisas que ficam pendentes e não são usadas por mulheres são definitivamente um símbolo masculino Roupa interior e roupa branca geralmente são símbolos femininos Vestuário e uniformes conforme já vimos são substitutos da nudez ou das formas corporais Sapatos e chinelos são símbolos de genitais femininos Mesas e madeira já foram mencionadas como símbolos femininos enigmáticos porém certos Escadas degraus escadarias ou mais precisamente subir ou descer pelos mesmos são claros símbolos da relação sexual Pensando melhor ocorrenos que aqui o elemento comum é o ritmo de galgálos talvez também a crescente excitação e a respiração ofegante à medida que se sobe ver em 1Já nos referimos anteriormente a paisagens como representantes dos genitais femininos Montes e rochedos são símbolos do órgão masculino Jardins são símbolos comuns dos genitais femininos Frutas representam não os filhos mas os seios Animais selvagens significam pessoas em estado de excitação sensual e além disso os maus instintos ou paixões Botões e flores indicam os genitais femininos ou em especial a virgindade Não se esqueçam de que realmente as flores constituem os genitais das plantasJá conhecemos aposentos como símbolos A representação pode ir além as janelas e portas com ou sem aposentos assumindo o significado de orifícios do corpo E a questão de um aposento estar aberto ou fechado se adapta a este simbolismo e a chave que o abre é decididamente um símbolo masculinoEsse pois o material de que se serve o simbolismo nos sonhos Não está completo e poderia ser aprofundado e ampliado ainda mais Imagino porém que lhes parecerá mais que suficiente e talvez até mesmo possa têlos irritado Será que de fato vivo no meio de símbolos sexuais poderão perguntar São todos os objetos ao meu redor todas as roupas que visto todas as coisas que pego todos símbolos sexuais e nada mais Existe com efeito fundamento suficiente para fazer perguntas atônitas e como primeira delas podemos nos interrogar sobre como realmente chegamos a conhecer a significação desses símbolos oníricos a respeito dos quais o sonhador nos dá informação insuficiente ou absolutamente nenhuma informaçãoMinha resposta é que a aprendemos a partir de fontes muito diversas de contos de fadas de mitos de bufonarias e anedotas do folclore isto é do conhecimento dos usos populares e costumes da maneira de falar e das canções e de expressões idiomáticas poéticas e coloquiais Em todas essas direções encontramos o mesmo simbolismo e em alguns deles podemos entendêlo sem maior erudição Se penetrarmos nos detalhes dessas fontes encontraremos tantas semelhanças do simbolismo onírico que não podemos deixar de nos convencer de nossas interpretaçõesSegundo Scherner como dissemos ver em 1 o corpo humano é com freqüência representado nos sonhos pelo símbolo de uma casa Aprofundando esta representação verificamos que janelas portas e portões representavam as aberturas do corpo e que as fachadas das casas eram ou lisas ou providas de sacadas e saliências nas quais se podia encontrar apoio Contudo o mesmo simbolismo é encontrado em nossos usos idiomáticos quando saudamos familiarmente um conhecido como uma altes Haus casa velha quando falamos em dar a alguém eins aufs Dachl uma pancada na cabeça literalmente uma no telhado ou quando dizemos de uma pessoa que ela não está bem do sótão Na anatomia os orifícios do corpo são muitas vezes chamados Leibespforten literalmente portões do corpo De início parece surpreendente encontrar os pais nos sonhos como casal imperial ou real Isso porém tem seu similar nos contos de fadas Começamos a compreender que as variadas histórias de fadas que começam com Era uma vez um rei e uma rainha apenas querem dizer que certa vez havia um pai e uma mãe Em uma família as crianças são de brincadeira chamadas de príncipes e o mais velho de príncipe herdeiro O próprio rei se denomina o pai de seu país Por brincadeira falamos nos filhos como Würmer bichinhos e com simpatia nos referimos a uma criança como der arme Wurm pobre bichinho Retornemos ao simbolismo da casa Quando em um sonho fazemos uso das saliências de uma casa para nelas nos segurarmos podemos nos recordar de uma expressão vulgar comumente usada para designar seios bem desenvolvidos Ela tem coisa para agarrar Existe outra expressão popular em tais casos Ela tem muita madeira em frente de casa o que parece confirmar nossa interpretação da madeira como símbolo feminino materno E por falar em madeira é difícil compreender como esse material veio a representar o que é materno No entanto nisso a filologia comparada pode vir em nosso auxílio Nossa palavra alemã Holz parece provir da mesma raiz da ulh hulé grega significando material matériaprima Esse parece ser um exemplo da ocorrência não rara de um nome genérico de um material vir a ser afinal reservado a algum material determinado Ora existe no Atlântico uma ilha chamada Madeira Este nome lhe foi dado pelos portugueses quando a descobriram porque naquela época estava toda recoberta de florestas Pois na língua portuguesa madeira está relacionada a floresta Os senhores observam porém que madeira é apenas uma forma ligeiramente modificada da palavra latina materia que mais uma vez significa material em geral Contudo materia é derivada de mater mãe o material do qual tudo é feito por assim dizer a mãe de tudo Esse conceito antigo da coisa sobrevive portanto no uso simbólico de madeira como mulher ou mãe O nascimento é geralmente expresso nos sonhos por meio de alguma conexão com a água a pessoa cai na água ou é tirada das águas dá à luz ou nasce Não devemos nos esquecer de que este símbolo consegue se utilizar em dois sentidos da verdade da evolução Não apenas todos os mamíferos terrestres inclusive os ancestrais do homem descendem de seres aquáticos este é o mais remoto dos dois fatos mas também todo mamífero todo ser humano passou a primeira fase de sua existência na água ou seja na qualidade de embrião no líquido amniótico do útero materno e saiu dessa água ao nascer Não digo que aquele que sonha sabe disso por outro lado afirmo que ele não necessita saber Existe algo mais que o sonhador provavelmente sabe por lhe haver sido dito em sua infância assim mesmo afirmo que se soubesse esse conhecimento em nada contribuiria para a construção do símbolo Foilhe dito quando criança que é a cegonha que traz os bebês Mas de onde os busca Do lago ou do rio mais uma vez pois da água Um de meus pacientes após lhe haver sido dada esta informação na época ele era um pequeno conde desapareceu por uma tarde inteira Por fim foi encontrado de bruços junto à borda do lago do castelo com seu rostinho pendido sobre a superfície da água perscrutando atentamente procurando ver os bebês no fundo da água Nos mitos sobre o nascimento de heróis aos quais Otto Rank 1909 dedicou um estudo comparado sendo o mais antigo o mito do rei Sargão de Agade cerca de 2800 aC uma parte predominante é desempenhada pelo abandono na água e o resgate da água Rank constatou que isso são representações do nascimento análogas às que comumente surgem nos sonhos Quando uma pessoa salva alguém das águas em um sonho ela se transforma em sua mãe ou simplesmente em mãe Nos mitos uma pessoa que salva um bebê das águas admite ser a verdadeira mãe do bebê Existe uma conhecida anedota cômica segundo a qual perguntaram a um inteligente menino judeu quem era a mãe de Moisés Respondeu sem hesitação A princesa Não disseramlhe ela somente o tirou da água Isso é o que ela diz replicou e assim provou que havia encontrado a interpretação correta do mitoNos sonhos partir significa morrer Assim quando uma criança pergunta onde está alguém que morreu e de quem sente falta é costume comum responderlhe que esse alguém partiu de viagem Mais uma vez gostaria de desmentir a crença de que o símbolo onírico deriva dessa evasiva O dramaturgo Shakespeare em Hamlet Ato III Cena 1 usa a mesma conexão simbólica quando fala na morte como país desconhecido de cujos limites nenhum viajante retorna Mesmo na vida comum é freqüente falar em última jornada Todo aquele que conhece os rituais antigos se apercebe de como se levava a sério na religião do antigo Egito por exemplo a idéia de uma viagem às regiões da morte Sobreviveram muitas cópias do Livro dos Mortos que era fornecido à múmia como um guia de viagem para ser levado nessa jornada Desde quando os locais funerários foram separados dos locais de moradia a última viagem de uma pessoa morta se tornou verdadeiramente uma realidadeE não se pense que o simbolismo genital seja algo encontrado apenas em sonhos Provavelmente todos os senhores em uma ou outra ocasião referiramse indelicadamente a uma mulher como alte Schachtel caixa velha talvez sem saber que estavam usando um símbolo genital No Novo Testamento encontramos a mulher sendo mencionada como o vaso mais frágil As escrituras hebraicas escritas em um estilo que muito se aproxima da poesia estão plenas de expressões sexualmente simbólicas que nem sempre foram corretamente compreendidas e cuja exegese por exemplo no caso do Cântico de Salomão tem causado alguns equívocos Na literatura hebraica posterior é muito comum encontrar a mulher representada por uma casa cuja porta representa o orifício sexual Um homem se queixa por exemplo em um caso de perda da virgindade de haver encontrado a porta aberta Assim também nesses escritos o símbolo da mesa representa a mulher Por isso uma mulher diz de seu marido Eu lhe preparei a mesa mas ele a virou Dizse que as crianças aleijadas surgem porque o homem virou a mesa Estes exemplos eu os tomei de um artigo do Dr L Levy de Brünn 1914O fato de nos sonhos também os navios representarem mulheres merece crédito pois os etimologistas nos dizem que Schiff navio era originalmente o nome de um recipiente de barro e é a mesma palavra que Schaff palavra dialetal que significa tina O fato de fogões representarem mulheres e útero é confirmado pela lenda grega de Periandro de Corinto e sua esposa Melissa O tirano segundo Heródoto faz aparecer o espírito de sua mulher a quem amara apaixonadamente e contudo assassinara por ciúmes a fim de obter dela algumas informações A mulher morta provou sua identidade dizendo que ele Periandro havia metido seu pão dentro de um forno frio como forma de disfarçar um acontecimento que só era conhecido dos dois Na revista Anthropophyteia editada por F S Krauss inestimável fonte de conhecimentos de antropologia sexual ficamos sabendo que em determinada região da Alemanha de uma mulher que deu à luz uma criança se diz que o forno dela se fez em pedaços Pegar fogo fazer fogo e tudo o que com isso se relacione está intimamente entretecido de simbolismo sexual A chama é sempre um genital masculino e a lareira o fogão é seu equivalente femininoSe os senhores puderem se surpreender com a freqüência com que as paisagens são empregadas nos sonhos para representar os genitais femininos podem aprender da mitologia geral qual o papel desempenhado pela Mãe Terra nos conceitos e cultos dos povos da Antigüidade e como sua visão da agricultura era determinada por esse simbolismo O fato de em sonhos um quarto representar uma mulher os senhores tenderão a atribuílo ao uso idiomático de nossa linguagem pelo qual Frau é substituído por Frauenzimmer o ser humano sendo substituído pelo aposento destinado a ele De forma semelhante falamos em Sublime Porte significando o sultão e seu governo Assim também o título do governante do Egito antigo Faraó significa simplesmente Grande Saguão do Paço No antigo oriente os pátios entre os duplos portões de uma cidade eram locais de encontro públicos assim como as praças do mercado do mundo clássico Essa derivação entretanto parece ser excessivamente superficial Pareceme mais provável que um aposento se tornou símbolo de mulher por ser o espaço que encerra seres humanos Já verificamos que casa é usada em sentido semelhante e a mitologia e a linguagem poética nos possibilitam acrescentar cidade cidadela castelo e fortaleza como outros símbolos para mulher Poderseia facilmente levantar a questão a respeito de sonhos de pessoas que não falam ou não entendem o idioma alemão Durante esses últimos anos tenho tratado principalmente pacientes de idioma estrangeiro e pareceme que me lembro de que também em seus sonhos Zimmer aposento significava Frauenzimmer embora em seus idiomas não tivessem uso semelhante Existem outras indicações de que a relação simbólica pode ultrapassar os limites da linguagem o que aliás foi afirmado há muito tempo por um antigo pesquisador de sonhos Schubert 1814 No entanto nenhum de meus pacientes ignorava completamente o alemão de modo que a decisão deve ser deixada aos analistas que podem coligir dados das pessoas que usam um só idioma em outros países Dificilmente alguma das representações simbólicas dos genitais masculinos não reaparece no uso anedótico vulgar ou poético especialmente junto aos dramaturgos clássicos antigos Entretanto aqui encontramos não apenas os símbolos que surgem nos sonhos porém outros mais como por exemplo utensílios usados em diversas atividades e especialmente o arado Ademais a representação simbólica da masculinidade nos leva a uma região muito extensa e muito controvertida que por motivos de economia evitaremos Gostaria no entanto de dedicar algumas palavras a um símbolo que por assim dizer se exclui dessa categoria o número 3 Permanece obscuro o fato de saber se este número deve seu caráter sagrado a essa relação simbólica O que no entanto parece certo é que numerosas coisas tripartidas existentes na natureza a folha de trevo por exemplo devem seu uso em brasões e emblemas a esse significado simbólico De maneira semelhante o lírio tripartido a chamada fleurdelis e o notável desenho heráldico de duas ilhas tão distantes uma da outra como a Sicília e a ilha de Man o tríscele três pernas meio fletidas irradiandose de um centro parecem ser versões estilizadas dos genitais masculinos As formas do órgão masculino eram consideradas na Antigüidade como o mais poderoso apotropaico meio de defesa contra más influências e por conseguinte os amuletos de nossos dias podem todos eles ser reconhecidos facilmente como símbolos genitais ou sexuais Consideremos uma coleção dessas coisas como são usadas por exemplo na forma de pequenos berloques de prata pendentes trevo de quatro folhas porco cogumelo ferraduras escada vassoura de chaminé O trevo de quatro folhas tomou o lugar do de três folhas que realmente se presta para ser um símbolo O porco é um antigo símbolo da fertilidade O cogumelo é sem dúvida um símbolo do pênis existem cogumelos fungos que devem seu nome sistemático Phallus impudicus à sua inconfundível semelhança com o órgão masculino A ferradura reproduz o contorno do orifício genital feminino ao passo que a vassoura de chaminé que se associa à escada aparece em companhia desta em face de suas funções às quais vulgarmente se compara o ato sexual Cf Anthropophyteia Conhecemos essa escada em sonhos como símbolo sexual aqui o uso idiomático alemão vem em nosso auxílio e nos mostra como a palavra steigen subir ou montar é usada no que é par excellence um sentido sexual Dizemos den Frauen nachsteigen perseguir literalmente trepar mulheres e ein alter Steiger um velho farrista literalmente trepador Em francês a palavra para degraus de uma escada é marches e encontramos um termo exatamente análogo un vieux marcheur O fato de que em muitos animais de grande porte subir ou montar na fêmea é um preliminar necessário ao ato sexual provavelmente se presta a este contextoArrancar um galho como representação simbólica da masturbação não apenas se coaduna com as descrições vulgares do ato como também possui semelhanças mitológicas amplas Mas que a masturbação ou melhor a punição correspondente a castração seja representada pela queda ou extração de dentes é fato especialmente notável pois existe na antropologia um seu equivalente o qual pode ser do conhecimento de apenas um pequeno número das pessoas que sonham Pareceme inequívoco que a circuncisão praticada por tantos povos é um equivalente e substituto da castração E agora sabemos de determinadas tribos primitivas da Austrália que realizam a circuncisão como um rito da puberdade na cerimônia em que se celebra o início da maturidade sexual de um menino enquanto outras tribos seus vizinhos próximos substituíram esse ato pela quebra de um denteA este ponto encerro minha exposição desses exemplos São apenas exemplos A respeito deste assunto conhecemos muito mais porém os senhores podem imaginar como seria mais rica e mais interessante uma coleção como essa se fosse reunida não por amadores como nós e sim por verdadeiros profissionais da mitologia antropologia filologia e do folcloreAlgumas conseqüências se impõem à nossa atenção não podem ser completas porém nos oferecem material para reflexãoEm primeiro lugar deparamos com o fato de que o sonhador tem à sua disposição uma forma simbólica de expressão que ele desconhece na vida desperta e não reconhece Isso é tão extraordinário como se os senhores viessem a descobrir que sua empregada doméstica entendesse sânscrito embora sabendo que ela nasceu numa aldeia da Boêmia e jamais o estudou Não é fácil explicar tal fato com o auxílio de nossas concepções psicológicas Apenas podemos dizer que o conhecimento do simbolismo é inconsciente naquele que sonha que pertence à sua vida mental inconsciente Contudo mesmo com essa suposição não chegamos ao cerne da questão Até agora apenas nos tem sido necessário supor a existência de esforços inconscientes isto é esforços dos quais nada sabemos temporária ou permanentemente Agora porém tratase de algo mais que isso simplesmente de parcelas inconscientes de conhecimento de conexões de pensamentos de comparação entre diferentes objetos que resultam na possibilidade de estes serem regularmente colocados um em lugar do outro Essas comparações não são recémestabelecidas em cada ocasião estão de antemão prontas para uso e são completas de uma vez por todas Isso está implícito no fato de serem concordantes quando se trata de indivíduos diferentes possivelmente na verdade concordantes apesar das diferenças de idioma Qual pode ser a origem dessas relações simbólicas O uso idiomático cobre apenas uma parte delas A multiplicidade de analogias em outras esferas de conhecimento é na maioria das vezes desconhecida da pessoa que tem o sonho nós mesmos tivemos de laboriosamente colecionálasEm segundo lugar tais relações simbólicas não constituem peculiaridade do sonhador ou da elaboração onírica através da qual elas adquirem expressão Esse mesmo simbolismo como vimos é empregado por mitos e contos de fadas pelas pessoas em seus ditados e em sua canções pelo uso idiomático coloquial e pela imaginação poética O campo do simbolismo é imensamente amplo e o simbolismo onírico constitui apenas pequena parte dele na verdade não conduz a nenhum objetivo útil atacar o problema a partir dos sonhos Muitos símbolos que são comumente usados em outros contextos aparecem no sonho muito raramente ou absolutamente não aparecem Alguns símbolos oníricos não podem ser encontrados em todas as áreas porém como os senhores viram apenas num ou noutro lugar Temse a impressão de que nos defrontamos aqui com um modo de expressão antigo porém extinto cujas diferentes partes sobreviveram em diferentes campos de fenômenos uma parte somente aqui outra somente ali uma terceira parte talvez com suas formas ligeiramente modificadas em diversas áreas E nisso recordome da fantasia de um interessante paciente psicótico que imaginou uma linguagem básica da qual todas essas relações simbólicas seriam resíduos Em terceiro lugar deve terlhes causado surpresa que o simbolismo nas outras áreas que mencionei não é absolutamente apenas simbolismo sexual ao passo que nos sonhos os símbolos são empregados quase exclusivamente para expressão de objetos e relações sexuais Isso também não se explica facilmente Deveríamos supor que os símbolos que originalmente possuíam uma significação sexual mais tarde tenham adquirido outra aplicação e que ademais disso a atenuação da representação por símbolos em outros tipos de representação pode estar em conexão com este aspecto Essas questões evidentemente não podem ser respondidas enquanto não houvermos considerado o simbolismo onírico isoladamente Podemos apenas manter firme a suspeita de que existe uma relação especialmente íntima entre símbolosverdadeiros e sexualidade Com referência a esse aspecto descobrimos importantes indícios durante esses últimos anos Um filólogo Hans Sperber 1912 de Uppsala que trabalha independentemente da psicanálise apresentou o argumento de que as necessidades sexuais desempenharam o papel principal na origem e no desenvolvimento da linguagem Segundo esse autor os sons originais da linguagem se destinavam à comunicação e atraíam o parceiro sexual a evolução ulterior das raízes lingüísticas acompanhou as atividades laborativas do homem primitivo Essas atividades prossegue ele eram executadas em comum e acompanhadas por expressões ritmicamente repetidas Assim um interesse sexual permaneceu vinculado ao trabalho O homem primitivo tornou o trabalho aceitável por assim dizer tratandoo como equivalente e substituto da atividade sexual As palavras enunciadas durante o trabalho em comum tinham pois dois significados designavam atos sexuais e também a atividade laborativa que a estes se equiparava Com o decorrer do tempo as palavras se desvincularam da significação sexual e fixaramse no trabalho Em gerações posteriores a mesma coisa aconteceu com as palavras novas que tinham significado sexual e eram aplicadas a novas formas de trabalho Desse modo numerosas raízes de palavras teriam sido formadas todas elas de origem sexual perdendo subseqüentemente sua significação sexual Se é correta a hipótese que delineei aqui ela nos possibilitaria compreender o simbolismo dos sonhos Deveríamos entender por que os sonhos que conservam algumas das condições mais primitivas mantêm um número tão extraordinariamente grande de símbolos sexuais e por que geralmente armas e utensílios representam o que é masculino ao passo que materiais e coisas que se prestam para serem transformados pelo trabalho representam o que é feminino A relação simbólica seria o resíduo de uma antiga identidade verbal coisas que numa época foram chamadas pelo mesmo nome tanto que os genitais poderiam agora servir como símbolo para os mesmos nos sonhosOs aspectos correlatos que encontramos no simbolismo onírico também nos permitem formar uma estimativa dessa característica da psicanálise que lhe permite atrair interesse geral de uma forma que nem a psicologia nem a psiquiatria conseguiram fazêlo No trabalho da psicanálise formamse vínculos com numerosas outras ciências mentais cuja investigação promete resultados do mais elevado valor vínculos com a mitologia e a filosofia com o folclore com a psicologia social e com a teoria da religião Os senhores não ficarão surpresos ao ouvir que uma revista cresceu em solo psicanalítico e seu único objetivo é fortificar esses vínculos Essa revista é conhecida pelo nome de Imago fundada em 1912 e editada por Hanns Sachs e Otto Rank Em todos esses vínculos a participação da psicanálise é em primeira instância a de doador e apenas em menor escala a de receptor É verdade que isso lhe traz a vantagem de seus estranhos achados se tornarem mais conhecidos quando constatados também em outras áreas da ciência porém em seu conjunto é a psicanálise que provê os métodos técnicos e as concepções cuja aplicação nesses outros campos deve se mostrar proveitosa A vida mental dos seres humanos quando sujeita à investigação psicanalítica oferecenos explicações com cujo auxílio conseguimos resolver numerosos enigmas da vida das comunidades humanas ou pelo menos enquadrálos num enfoque verdadeiroA propósito ainda não lhes disse absolutamente nada com respeito às circunstâncias em que podemos obter nossa mais profunda compreensão da hipotética linguagem primitiva e ao campo em que a maior parte desta sobreviveu Até virem a conhecêla os senhores não poderão formar uma opinião de sua total importância Pois esse campo é o das neuroses e seu material são os sintomas e outras manifestações dos pacientes neuróticos para cuja elucidação e tratamento a psicanálise foi de fato criada A quarta de minhas reflexões nos leva de volta ao começo e nos conduz por nosso caminho previamente determinado Eu disse ver em 1 que os sonhos ainda que não houvesse censura de sonhos não seriam facilmente inteligíveis para nós de vez que ainda teríamos de nos defrontar com a tarefa de traduzir a linguagem simbólica dos sonhos para a de nosso pensamento desperto Assim o simbolismo é um segundo e independente fator de deformação de sonhos ao lado da censura de sonhos É plausível supor porém que a censura de sonhos julga conveniente fazer uso do simbolismo porque isso conduz ao mesmo fim o caráter estranho e incompreensível dos sonhosEm breve ficará esclarecido se um estudo adicional dos sonhos não nos poderá colocar em face de um outro fator que contribui para a deformação dos sonhos Contudo eu não gostaria de abandonar o tema do simbolismo onírico sem mais uma vez ver em 1 e 2 tocar no problema sobre o modo como ele pode encontrar resistência tão acirrada em pessoas instruídas quando a ampla difusão do simbolismo nos mitos na religião na arte e na linguagem é tão inquestionável A responsável não será novamente sua conexão com a sexualidade CONFERÊNCIA XI A ELABORAÇÃO ONÍRICA SENHORAS E SENHORES Quando tiverem compreendido adequadamente a censura de sonhos e a representação por símbolos verdade é que ainda não terão dominado o assunto sobre a deformação em sonhos e não obstante estarão em condições de entender a maioria destes E para isso os senhores usarão ambas as técnicas complementares reunir as idéias que acodem à mente do sonhador até haverem compreendido desde a coisa substituta até a coisa original e fundados no próprio conhecimento dos senhores substituir os símbolos por aquilo que representam Mais adiante discutiremos algumas incertezas que surgem nessa correlaçãoPodemos agora dedicarnos mais uma vez à tarefa que tentamos executar anteriormente com recursos inadequados quando estudávamos as relações entre os elementos dos sonhos e as coisas originais que eles representam Estabelecemos quatro principais relações ou seja ver em 1 e seg relação da parte com o todo aproximação ou alusão relação simbólica e representação plástica das palavras Agora nos propomos empreender a mesma coisa em escala mais ampla comparando o conteúdo manifesto de um sonho como um todo com o sonho latente conforme este é revelado pela interpretaçãoEspero que os senhores nunca mais venham a confundir essas duas coisas uma com a outra Se alcançarem esse ponto terão conseguido compreender melhor os sonhos do que a maioria dos leitores de meu trabalho A Interpretação de Sonhos E permitamme lembrarlhes novamente que o trabalho que transforma o sonho latente no sonho manifesto se chama elaboração onírica O trabalho que opera em sentido oposto que intenta chegar ao sonho latente a partir do manifesto é nosso trabalho interpretativo Esse trabalho interpretativo procura decifrar a elaboração onírica Os sonhos de tipo infantil que reconhecemos como evidente realizações de desejos ainda assim sofreram determinado grau de elaboração onírica sofreram uma transformação de desejo em experiência real e também via de regra de pensamentos foram transformados em imagens visuais No caso deles não há necessidade de interpretação porém apenas se requer sejam desfeitas essas duas transformações A elaboração onírica adicional que ocorre em outros sonhos denominase deformação onírica e é esta que deve ser decifrada através de nosso trabalho interpretativo Tendo comparado as interpretações de numerosos sonhos estou em condições de lhes apresentar uma descrição sumária daquilo que a elaboração onírica executa com o material dos pensamentos oníricos latentes Peçolhes entretanto não procurarem entender demais acerca das coisas que lhes digo Tratarseá de uma descrição que deve ser ouvida com serena atençãoA primeira realização da elaboração onírica é a condensação Entendemos com isso que o sonho manifesto possui um conteúdo menor do que o latente e é deste uma tradução abreviada portanto Às vezes a condensação pode estar ausente via de regra se faz presente e muitíssimas vezes é enorme Jamais ocorre uma mudança em sentido inverso ou seja nunca encontramos um sonho manifesto com extensão ou com conteúdo maior do que o sonho latente A condensação se realiza das seguintes maneiras 1 determinados elementos latentes são totalmente omitidos 2 apenas um fragmento de alguns complexos do sonho latente transparece no sonho manifesto e 3 determinados elementos latentes que têm algo em comum se combinam e se fundem em uma só unidade no sonho manifestoSe preferirem podemos reservar o termo condensação apenas para o último desses processos Seus resultados podem ser demonstrados com especial facilidade Os senhores não terão dificuldade em relembrar exemplos de seus próprios sonhos em que pessoas diferentes são condensadas em um a só Um personagem composto deste tipo pode talvez assemelharse a A mas pode talvez assemelharse a A contudo pode estar vestida como B executar algo que lembre C e ao mesmo tempo podemos saber que é D Essa estrutura composta naturalmente está dando ênfase àquilo que as quatro pessoas têm em comum É possível naturalmente formar tal estrutura composta de coisas ou de lugares do mesmo modo que de pessoas contanto que as diferentes coisas e lugares tenham em comum algo que o sonho latente acentua O processo se assemelha à construção de um conceito novo e transitório que tem nesse elemento comum o seu núcleo O resultado dessa superposição de elementos separados que foram condensados conjuntamente é via de regra uma imagem difusa e vaga à semelhança daquilo que sucede quando se batem diversas fotografias sobre uma mesma chapaA produção de estruturas compostas como essas referidas deve ser de grande importância para a elaboração onírica porquanto podemos demonstrar que ali onde inicialmente faltam os elementos comuns para formálas estes são introduzidos deliberadamente por exemplo através da escolha da palavra pelas quais um pensamento é expresso Já encontramos condensações e estruturas compostas dessa espécie Desempenharam seu papel na produção de determinados lapsos de língua Os senhores se recordam do jovem senhor que se prontificou a begleitdigen begleiten acompanhar beleidigen insultar ver em 1 uma senhora E também existem anedotas cuja técnica se baseia em uma condensação desse tipo Salvo esses casos porém podese dizer que o processo é muito raro e estranho É verdade que as partes componentes destinadas a essa construção devem situarse em algumas criações de nossa imaginação que está pronta para combinar em uma unidade componentes de coisas que não formam conjunto em nossa experiência corrente nos centauros por exemplo e nos animais fabulosos que aparecem na mitologia antiga ou nos quadros de Böcklin A imaginação criativa realmente é bastante incapaz de inventar qualquer coisa ela pode apenas combinar entre si componentes que são estranhos O notável no que se refere ao processo da elaboração onírica contudo reside no que vem a seguir O material disponível à elaboração onírica consiste de pensamentos alguns deles podem ser censurados ou inaceitáveis porém são corretamente construídos e expressos A elaboração onírica dá a esses pensamentos uma outra forma e constitui fato singular e incompreensível que sendo feita tal tradução transmitindo essa mensagem digamos assim através de um outro texto da linguagem esses métodos de mistura e combinação se realizam Afinal uma tradução se esforça por preservar as diferenças constantes do texto original e especialmente por manter separadas as coisas que são apenas semelhantes A elaboração onírica muito ao contrário procura condensar dois pensamentos diferentes buscando como um chiste uma palavra ambígua na qual os dois pensamentos se possam juntar Não preisamos tentar compreender esse aspecto de uma só vez no entanto ele pode ser importante em nosso estudo crítico da elaboração onírica Embora a condensação torne os sonhos obscuros não parece darnos a impressão de ela ser efeito da censura Antes parece ser devida a um fator automático ou econômico mas em todo caso a censura lucra com elaAquilo que a condensação consegue realizar pode ser bastante extraordinário Às vezes é possível com seu auxílio combinar duas seqüências de pensamentos latentes muito diferentes em um único sonho manifesto de modo que se pode chegar a algo que parece ser uma interpretação suficiente de sonho e no entanto procedendo assim podese deixar de perceber uma possível superinterpretaçãoNo que concerne à relação entre o sonho latente e o manifesto a condensação tem como conseqüência o estabelecimento de uma relação nãosimples entre os elementos de um e de outro Um elemento manifesto pode corresponder simultaneamente a diversos elementos latentes e em sentido inverso um elemento latente pode desempenhar seu papel em diversos elementos manifestos existe por assim dizer um relacionamento entrecruzado ver em 1 Ademais ao interpretar um sonho verificamos que as associações com um único elemento manifesto nem sempre emergem em seqüência ordenada muitas vezes devemos esperar até todo o sonho ter sido interpretadoA elaboração onírica assim efetua uma espécie muito inusitada de transcrição dos pensamentos oníricos não se trata de uma tradução palavraporpalavra ou sinalporsinal e nem se trata de uma solução feita segundo normas fixas como seria no caso de se reproduzir apenas as consoantes de uma palavra e eliminar as vogais e também não é aquilo que se poderia descrever como solução representativa um elemento sendo invariavelmente escolhido para tomar o lugar de vários elementos tratase de algo diferente e muito mais complexoA segunda realização da elaboração onírica é o deslocamento Felizmente já procedemos a um exame preliminar do mesmo pois já sabemos que é inteiramente obra da censura dos sonhos Manifestase de duas maneiras na primeira um elemento latente é substituído não por uma parte componente de si mesmo mas por alguma coisa mais remota isto é por uma alusão e na segunda o acento psíquico é mudado de um elemento importante para outros sem importância de forma que sonho parece descentrado e estranhoA substituição de algo por meio de uma alusão constitui processo corrente também em nosso pensamento desperto porém existe uma diferença No pensamento desperto a alusão deve ser inteiramente inteligível e o substituto deve estar relacionado no seu tema com a coisa original que representa Também os chistes fazem uso da alusão Eles prescindem da precondição de haver uma associação no tema e a substituem por associações externas incomuns tais como semelhança de sons ambigüidade verbal e assim por diante Conservam contudo a precondição de inteligibilidade um chiste perderia toda a sua eficiência se o caminho retroativo que vai da alusão à coisa original não pudesse ser percorrido com facilidade As alusões usadas para fins de deslocamento nos sonhos estão livres de ambas essas restrições Elas estão em conexão com o elemento que substituem através das relações mais externas e remotas e são pois ininteligíveis e quando são desfeitas sua interpretação dá a impressão de serem um mau chiste ou de constituírem uma explicação aleatória e forçada tirada não se sabe de onde Pois a censura de sonhos só consegue seu objetivo quando consegue tornar impossível que se encontre o caminho desde a alusão até a coisa originalO deslocamento do acento é um método sem igual de expressar pensamentos Algumas vezes o utilizamos no pensamento desperto a fim de conseguir um efeito cômico Talvez eu possa recriar aqui a impressão de alheamento causada por esse método recordando uma anedota Numa aldeia havia um ferreiro que cometera um crime capital O júri decidiu que o crime devia ser punido porém como o ferreiro era o único na aldeia e era indispensável e como por outro lado lá viviam três alfaiates um destes foi enforcado em seu lugar A terceira realização da elaboração onírica é psicologicamente a mais interessante Consiste em transformar pensamentos em imagens visuais Deixemos claro que essa transformação não afeta tudo nos pensamentos oníricos alguns deles conservam sua forma e aparecem no sonho manifesto também como pensamentos ou conhecimentos e nem são as imagens visuais a única forma na qual os pensamentos se transformam Ainda assim eles enfeixam a essência da formação dos sonhos essa parte da elaboração onírica como já sabemos é a segunda parte mais constante ver em 1 e 2 e já nos familiarizamos com a representação gráfica das palavras no caso dos elementos oníricos isolados ver em 1 e 2Claro que essa realização não é fácil Para termos uma idéia de suas dificuldades suponhamos que os senhores tivessem assumido a tarefa de substituir um editorial político em um jornal por uma série de ilustrações Os senhores teriam de retroceder da escrita alfabética para a escrita pictográfica Em um tal artigo mencionando pessoas e objetos concretos os senhores os substituiriam com facilidade e talvez até mesmo com vantagem por meio de figuras contudo as dificuldades começariam quando se tratasse da representação de palavras abstratas e de todos aqueles componentes do discurso que indicam relações entre pensamentos tal como partículas conjunções e assim por diante No caso de palavras abstratas os senhores conseguirão recorrer a uma variedade de soluções Por exemplo os senhores se esforçariam por dar ao texto um enunciado diferente que talvez pudesse parecer menos usual porém com mais componentes concretos e possíveis de ser representados Então os senhores se lembrariam de que a maioria das palavras abstratas são palavras concretas diluídas e por essa razão teríamos que retroceder sempre que possível à significação concreta original de tais palavras Assim os senhores teriam o prazer de constatar que podem representar a possessão de um objeto pela ação real física de estar sentado sobre o mesmo E a elaboração onírica executa justamente a mesma coisa Em tais circunstâncias dificilmente poderiam esperar uma grande precisão daquilo que os senhores representassem de forma semelhante perdoariam a elaboração onírica por substituir um elemento tão difícil de traduzir em imagens como por exemplo adultério Ehebruch literalmente quebra do casamento por outra quebra a fratura de uma perna Beinbruch E dessa forma os senhores conseguiriam até certo ponto compensar a falta de habilidade expressiva da escrita pictórica que estaria supostamente substituindo a escrita alfabéticaPara representar aquelas partes do discurso que indicam relações entre pensamentos porque portanto entretanto etc os senhores não poderiam contar com semelhante ajuda à sua disposição esses constituintes do texto se perderiam à medida que a tradução os transformasse em imagens Da mesma forma a elaboração onírica reduz o conteúdo dos pensamentos oníricos à sua matériaprima de objetos e de atividade Os senhores se dariam por satisfeitos com haver uma possibilidade de por alguma forma deixar entrever através de sutis detalhes das figuras determinadas relações não em si capazes de ser representadas E é precisamente assim que a elaboração onírica consegue expressar algo do conteúdo dos pensamentos oníricos latentes por meio de peculiaridades na forma do sonho manifesto por sua clareza ou obscuridade por sua divisão em diversas partes e assim por diante O número de partes oníricas em que se divide um sonho geralmente corresponde ao número dos temas principais dos pensamentos no sonho latente Um sonho introdutório curto freqüentemente faz as vezes de prelúdio a um sonho seguinte mais detalhado o sonho principal ou pode proporcionar o motivo para o mesmo uma oração subordinada nos pensamentos oníricos será substituída pela interpolação de uma mudança de cena no sonho manifesto e assim por diante Logo a forma dos sonhos está longe de não ter alguma importância e essa mesma forma exige interpretação Quando diversos sonhos ocorrem durante a mesma noite têm freqüentemente a mesma significação e indicam que está sendo feita uma tentativa de manejar cada vez mais eficazmente um estímulo de crescente insistência Em sonhos separados um elemento especialmente difícil pode estar representado por diversos símbolos por dobletesSe fizermos uma série de comparações entre os pensamentos oníricos e os sonhos manifestos que os substituem encontraremos toda sorte de coisas para as quais estamos despreparados por exemplo que o disparate e o absurdo dos sonhos possuem seu significado Neste aspecto com efeito o contraste entre a visão médica e a psicanalítica dos sonhos apresenta uma discordância que não se encontra em qualquer outra área Segundo o ponto de vista médico os sonhos são desprovidos de sentido porque a atividade mental nos sonhos abandonou todas as suas faculdades de crítica segundo nosso ponto de vista pelo contrário os sonhos se tornam carentes de sentido quando uma parcela de crítica incluída nos pensamentos oníricos um julgamento de que isso é absurdo tem de ser representada O sonho que os senhores conhecem aquele da ida ao teatro três ingressos por 150 florim ver em 1 é um bom exemplo disso O julgamento que expressou era foi absurdo casar tão cedoDe forma semelhante no decurso de nosso trabalho interpretativo percebemos o que é que corresponde às dúvidas e incertezas que tantas vezes se expressam nos sonhos dúvidas sobre saber se determinado elemento ocorreu em um sonho se foi isso ou se pelo contrário foi alguma outra coisa Via de regra nos pensamentos oníricos latentes não há nada correspondente a essas dúvidas e incertezas estas se devem à atividade da censura de sonhos e devem ser identificadas como tentativas de eliminação que não tiveram muito êxitoEntre os achados mais surpreendentes encontrase a maneira como a elaboração onírica trata os contrários que ocorrem nos sonhos latentes Já sabemos ver em 1 e 2 que as semelhanças no material latente são substituídas por condensações no sonho manifesto Pois bem os contrários são tratados da mesma forma que as semelhanças e existe uma especial preferência por expressálos pelo mesmo elemento manifesto Assim um elemento no sonho manifesto capaz de ter o seu contrário com igual facilidade pode estar se expressando a si próprio ou seu contrário ou ambos conjuntamente apenas o sentido pode decidir qual a versão que se deve escolher Isto se vincula com o fato adicional de que nos sonhos não se encontrará uma representação para não ou de qualquer modo uma representação isenta de ambigüidadeUma oportuna analogia com esse estranho comportamento da elaboração onírica nos é proporcionada com a evolução da linguagem Alguns filólogos têm afirmado que nos idiomas mais antigos os contrários tais como fortefraco claroescuro grandepequeno são expressos pelas mesmas raízes verbais É o que denominamos significação antitética de palavras primitivas Assim no idioma egípcio antigo ken originalmente significava forte e fraco No falar evitamse os equívocos provenientes do uso dessas palavras ambivalentes através de diferenças de entonação e de gestos concomitantes e no escrever pelo acréscimo de algo chamado determinativo uma figura que não se destina a ser falada Por exemplo ken com a significação de forte era escrito com a figura de um homenzinho na vertical após os sinais alfabéticos quando ken representava fraco o que se seguia era a figura de um homem instavelmente agachado Foi somente mais tarde por meio de ligeiras modificações da palavra homóloga original que se chegou a duas representações distintas para expressar os contrários nela incluídos Foi assim que de ken fortefraco derivaram ken forte e kan fraco Os remanescentes dessa significação antitética antiga parecem ter sido conservados não somente nas mais recentes evoluções dos idiomas mais primitivos como também nos idiomas mais novos e até mesmo em algumas línguas ainda vivas Aqui estão algumas provas disso retiradas de K Abel 1884No latim palavras que permaneceram ambivalentes são altus alto e profundo e sacer sagrado e malditoComo exemplos de modificações da mesma raiz posso mencionar clamare chorar clam macio sossegado secreto siccus seco succus suco E em alemão Stimme voz stumm mudoSe compararmos línguas afins encontraremos numerosos exemplos Em inglês to lock fechar em alemão Loch buraco e Lücke fresta Em inglês to cleave em alemão kleben aderirA palavra inglesa without que é realmente withwithout com sem é empregada atualmente apenas como without sem O with além de seu sentido de combinar originalmente tinha também o de remover isso ainda se percebe nos compostos withdraw remover e withhold reter De maneira semelhante em alemão wieder junto com e wider contraOutra característica da elaboração onírica também tem seu correspondente na evolução da linguagem No antigo idioma egípcio assim como em outras línguas menos primitivas a ordem dos sons numa palavra pode ser invertida ao mesmo tempo conservando a mesma significação Constituem exemplos disso no inglês e no alemão Topf pot panela boat barco tub banheira barco para prática de remo hurry pressa Ruhe rest descanso Balken beam viga Kloben log tora madeira e club clava wait esperar täuwen tarry esperar demorarse De maneira semelhante encontramos no latim e no alemão capere packen pegar ren Niere rimInversões como essas que ocorrem aqui em palavras isoladas efetuamse de várias maneiras na elaboração onírica Já conhecemos a inversão de significado a substituição de algo pelo seu oposto ver em 1 e 2 Ademais disso nos sonhos encontramos diversões de situações da relação entre duas pessoas um mundo virado de pernas para o ar Muito freqüentemente em sonhos é a caça que atira no caçador Ou então encontramos uma inversão na ordem dos eventos de modo que aquilo que precede causalmente um evento ocorre depois do mesmo no sonho como uma produção teatral realizada por uma companhia de terceira categoria na qual o herói cai morto e o tiro que o matou não é detonado nos bastidores senão bem depois E também há sonhos nos quais a ordem total dos elementos se encontra invertida de forma que para se obter sentido quando de sua interpretação devemos tomar o último elemento em primeiro lugar e o primeiro em último Os senhores também recordam de quando estudamos o simbolismo dos sonhos que entrar ou cair na água significa o mesmo que sair dela isto é dar à luz ou nascer ver em 1 e que subir uma escadaria ou uma escada é a mesma coisa que descêla ver em 1 Não é difícil ver qual a vantagem que a deformação onírica pode auferir desta liberdade de representaçãoEstes aspectos da elaboração onírica podem ser descritos como arcaicos São igualmente característicos dos sistemas antigos de expressão falada e escrita e importam nas mesmas dificuldades que teremos de abordar mais adiante em um sentido críticoAgora mais algumas considerações No caso da elaboração onírica tratase claramente da questão de transformar os pensamentos latentes que são expressos em palavras em imagens sensoriais a maioria na forma de imagens visuais Ora nossos pensamentos originalmente surgiram de imagens sensoriais desta espécie seu primeiro material e seus estádios preliminares foram impressões dos sentidos ou mais propriamente imagens mnêmicas dessas impressões Somente mais tarde as palavras foram vinculadas a essas impressões e as palavras por sua vez vincularamse a pensamentos Assim a elaboração onírica submete os pensamentos a um tratamento regressivo e desfaz a sua evolução e no decorrer da regressão tem de ser eliminado tudo o que foi acrescido como aquisição nova no decorrer da evolução das imagens mnêmicas para pensamentosTal parece ser pois a elaboração onírica Em comparação com os processos que nela vimos a conhecer o interesse pelo sonho manifesto deve perder muito de sua importância Mas dedicarei alguns comentários a este último pois é dele somente que temos conhecimento imediatoÉ natural devermos perder algo do interesse pelo sonho manifesto Para nós será indiferente se ele está bem composto ou se está fracionado em uma série de quadros separados e desconexos Mesmo quando possui um exterior aparentemente inteligível sabemos que isso somente se fez pela deformação onírica e pode ter tão pouca relação orgânica com o conteúdo interno do sonho como a fachada de uma igreja italiana com uma estrutura e sua planta Outras ocasiões há em que esta fachada do sonho tem sua significação e reproduz um importante componente dos pensamentos oníricos latentes com pouca ou nenhuma deformação Mas isso não podemos saber sem primeiro termos submetido o sonho à interpretação e podermos formar um julgamento a partir dessa interpretação do grau de deformação que se realizou Dúvida semelhante surge quando dois elementos em um sonho parecem ter entrado em relação íntima um com o outro Isso talvez nos forneça um valioso indício de que podemos juntar também no sonho latente aquilo que corresponde a esses elementos Em outras ocasiões porém podemos nos convencer de que aquilo que é da mesma classe nos pensamentos oníricos foi disposto separadamente no sonhoEm geral devese evitar a tentativa de explicar uma parte do sonho manifesto por outra como se o sonho tivesse sido concebido coerentemente e fosse uma narrativa com ordenação lógica Pelo contrário via de regra é como um pedaço de brecha composto de diversos fragmentos de rocha unidos por um cimento de modo que os desenhos que nele aparecem não pertencem às rochas originais inclusas E há realmente uma parte da elaboração onírica conhecida como elaboração secundária cuja função é conferir um aspecto de unidade e maior ou menor coerência aos produtos primários da elaboração onírica No transcorrer desta o material é arranjado segundo o que amiúde é um sentido totalmente confuso e onde parece necessário são feitas interpolações Por outro lado não devemos superestimar a elaboração onírica e atribuirlhe demasiada importância As suas realizações que citei resumem toda a sua atividade ela não pode fazer mais que condensar deslocar representar em forma plástica e submeter o todo a uma elaboração secundária O que no sonho aparece como expressão de julgamento crítica surpresa ou interferência nada disso são realizações da elaboração onírica e muito raramente são expressões de pensamentos subseqüentes referentes ao sonho na sua maioria são parcelas de pensamentos oníricos que passaram para o sonho manifesto com maior ou menor grau de modificação e adaptação ao contexto E a elaboração onírica não consegue formar discursos Com algumas exceções destacadas os discursos nos sonhos são cópias e combinações de discursos que alguém ouviu ou enunciou para si próprio no dia anterior ao sonho e que foram incluídos nos pensamentos latentes ou como material ou como instigadores dos sonhos A elaboração onírica também é incapaz de efetuar cálculos Estes quando surgem no sonho manifesto são na maioria combinações de números cálculos simulados muito desprovidos de sentido enquanto cálculos e mais uma vez apenas cópias de cálculos dos pensamentos oníricos latentes Nessas circunstâncias não é de admirar se o interesse que se havia voltado para a elaboração onírica logo tende a se deslocar desta para os pensamentos oníricos latentes que se revelam deformados em grau maior ou menor através do sonho manifesto Mas não existe justificativa para levar tão longe essa mudança de interesse a ponto de considerando o assunto teoricamente substituir o sonho completamente pelos pensamentos oníricos latentes e afirmar sobre aquele alguma coisa que se aplica exclusivamente a estes É estranho que os achados da psicanálise possam prestarse a um mau uso que possibilite confusões Não se pode dar o nome de sonho a nenhuma outra coisa que não seja produto da elaboração onírica isto é a forma em que os pensamentos latentes foram transmutados pela elaboração onírica ver em 1 e segsA elaboração onírica é um processo de tipo muito singular do qual ainda não se tem conhecido similar na vida mental Condensações deslocamentos transformações regressivas de pensamentos em imagens eis os novos fatos cuja descoberta premiou abundantemente os esforços da psicanálise E os senhores podem constatar uma vez mais a partir das comparações com a elaboração onírica as conexões que se revelaram entre os estudos psicanalíticos e outros campos do conhecimento especialmente os referentes à evolução da linguagem e do pensamento Somente poderão formar uma idéia da transcendente importância destas descobertas quando aprenderem que o mecanismo da construção onírica é o modelo segundo o qual se formam os sintomas neuróticosTambém estou cônscio de que ainda não estamos em condições de fazer um apanhado geral do total das novas aquisições com que estes estudos contribuíram para a psicologia Apenas quero assinalar as recentes provas que eles proporcionaram da existência de atos mentais inconscientes pois é isto que são os pensamentos oníricos latentes e assinalar quão inimaginável e amplo acesso a um conhecimento da vida mental inconsciente nos promete a interpretação de sonhosAgora contudo sem dúvida chegou a minha ocasião de demonstrarlhes dentre uma variedade de pequenos exemplos de sonhos para que fim estive preparando os senhores no decorrer destes comentários CONFERÊNCIA XII ALGUMAS ANÁLISES DE AMOSTRAS DE SONHOS SENHORAS E SENHORES Não devem ficar desapontados se mais uma vez apresentolhes fragmentos de interpretações de sonhos em vez de convidálos a tomar parte na interpretação de um lindo e grande sonho Os senhores argumentarão que após tantos preparativos têm esse direito e expressarão sua convicção de que depois de tantos milhares de sonhos terem sido exitosamente interpretados já há muito tempo deveria ter sido possível haver juntado uma coleção de excelentes amostras de sonhos sobre as quais todas as nossas assertivas referentes à elaboração onírica e aos pensamentos oníricos pudessem ser demonstradas Certo As dificuldades que se opõem à realização do desejo dos senhores todavia são muitas Em primeiro lugar devo admitir que ninguém efetua interpretação de sonhos como sua atividade principal Como ocorre então que as pessoas os interpretam Ocasionalmente sem nenhum objetivo em vista alguém pode se interessar por sonhos de um conhecido seu ou alguém pode esquadrinhar seus próprios sonhos durante algum tempo a fim de prepararse para o trabalho psicanalítico mas na maior parte das vezes aquilo com que se tem de lidar são os sonhos de pacientes neuróticos que estão em tratamento psicanalítico Esses sonhos constituem excelente material e de modo algum são inferiores aos de pessoas sadias a técnica do tratamento porém requer que subordinemos a interpretação de sonhos aos objetivos terapêuticos e temos de permitir que bom número de sonhos tenha sido examinado até havermos extraído dos mesmos alguma coisa de utilidade para o tratamento Alguns sonhos que ocorrem durante o tratamento escapam inteiramente a uma análise completa de vez que se originam de um grande acervo de material que ainda nos é desconhecido é impossível entendêlos antes de o tratamento chegar ao término Se eu fosse relatar sonhos deste tipo seria obrigado a desvendar também todos os segredos de uma neurose e isto não nos servirá pois foi precisamente a fim de prepararnos para o estudo das neuroses que enfrentamos o problema dos sonhos Os senhores entretanto gostariam de dispensar essa parte e prefeririam que lhes fosse dada uma explanação dos sonhos de pessoas sadias ou de sonhos dos senhores mesmos Isto contudo não pode ser feito por causa de seu conteúdo É impossível submeter seja a si mesmo seja qualquer outra pessoa de cuja confiança se desfruta a uma exposição impiedosa que adviria a da análise detalhada de seus sonhos os quais como os senhores já sabem referemse à parte mais íntima da personalidade Mas existe ainda outra dificuldade que se opõe afora a de fornecer material Os senhores sabem que os sonhos apresentam uma aparência estranha para o próprio sonhador e ainda mais estranha para quem quer que não o conheça pessoalmente Nossa bibliografia não é pobre de boas e detalhadas análises de sonhos Eu mesmo publiquei algumas dentro do quadro referencial dos casos clínicos Talvez o melhor exemplo de interpretação de um sonho seja o que foi relatado por Otto Rank 1910b consistindo em dois sonhos interrelacionados tidos por uma jovem que ocupam cerca de duas páginas impressas mas sua análise vai a setenta e seis páginas Assim eu deveria necessitar de cerca de um semestre inteiro para conduzilos através de um único trabalho dessa espécie Se se tomar qualquer sonho relativamente longo e muito deformado há que fornecer tantas explicações do mesmo levantar tanto material que surge no curso das associações e das recordações seguir tantas vias secundárias que uma conferência a respeito dele seria muito confusa e insatisfatória Devo portanto pedirlhes que se contentem com o que se pode ter com mais facilidade uma descrição de pequenas parcelas de sonhos de pacientes neuróticos em que é possível reconhecer este ou aquele ponto isoladamente O que é mais fácil de demonstrar são os símbolos oníricos e depois destes algumas características da representação regressiva nos sonhos No caso de cada um dos sonhos que se seguem indicarei o motivo por que penso valer a pena relatálo 1 Este sonho consiste em apenas dois quadros breves O tio dele estava fumando um cigarro embora fosse sábado Uma mulher o acariciava e o acarinhava ao sonhador como se fosse seu filho Com referência ao primeiro quadro a pessoa que sonhou um judeu comentou que seu tio era um homem piedoso que nunca fizera e jamais poderia fazer algo assim pecaminoso No que concerne à mulher no segundo quadro não lhe ocorreu nada à mente exceto sua mãe Esses dois quadros ou pensamentos devem evidentemente ser vistos um em relação ao outro Mas como Visto que ele negou expressamente a realidade da ação de seu tio é plausível inserir um se Se meu tio este homem piedoso viesse a fumar um cigarro em dia de sábado então eu também poderia permitirme ser acarinhado pela minha mãe Isto significa evidentemente que trocar carícias com sua mãe se constituía em algo não permissível como não seria permissível a um judeu piedoso fumar no sábado Os senhores se lembram de que eu lhes disse ver em 1 e 2 que no decurso da elaboração onírica todas as relações entre os pensamentos oníricos são eliminadas elas se dissipam dentro da matériaprima destes e compete à interpretação reinserir as relações omitidas 2 Em conseqüência de minhas publicações sobre sonhos torneime em certo sentido consultor público sobre assuntos referentes a eles e por muitos anos venho recebendo comunicações das mais variadas origens em que sonhos me são relatados ou submetidos a meu julgamento Naturalmente sou grato a todo aquele que acrescenta ao sonho material suficiente para possibilitar uma interpretação ou que dá ele próprio uma interpretação O sonho que se segue sonhado por um estudante de medicina de Munique e datando do ano de 1910 enquadrase nesta categoria Apresentoo para lhes mostrar como em geral é impossível compreender um sonho enquanto o sonhador não nos der as informações pertinentes Pois suspeito que no fundo os senhores pensam que o método ideal de interpretação de sonhos consistiria em preencher a significação dos símbolos e que gostariam de prescindir da técnica de obter associações com os sonhos e estou desejoso de dissuadilos desse equívoco nocivo13 de julho de 1910 Pela manhã tive este sonho Eu estava andando de bicicleta por uma rua de Tübingen quando um cão rasteiro de cor marrom se lançou ao meu encalço e me atacou no calcanhar Logo desci da bicicleta sentei num degrau e comecei a espancar o animal que me mordia com firmeza Não tive qualquer sentimento desagradável nem pela mordida nem pela cena como um todo Algumas senhoras mais idosas estavam sentadas no outro lado da rua em frente e riam de mim mostrando os dentes Então acordei e como tantas vezes me aconteceu no momento da transição para o despertar o sonho todo se me tornou claro Aqui os símbolos são de pouca ajuda O mesmo estudante porém relatou Recentemente me apaixonei por uma jovem mas apenas pude vêla na rua e não tive meios de falarlhe O cão rasteiro poderia ser o meio mais agradável de conseguir isso especialmente porque tenho grande afeição por animais e gostei dessa mesma característica na jovem Acrescentou que ele repetidamente havia intervindo em furiosas brigas de cães com grande habilidade e muitas vezes para surpresa dos circunstantes Sabemos também que a jovem pela qual ele se sentia atraído sempre era vista na companhia de seu cão de estimação No que tange o sonho manifesto porém a jovem foi omitida e somente restou o cão que ele associava a ela As senhoras de idade que se riam dele talvez possam estar em lugar da jovem Seus outros comentários não esclareceram adequadamente este ponto O fato de no sonho ele estar andando de bicicleta é uma repetição direta da situação recordada Ele nunca encontrou a jovem com o cão a não ser quando ele estava andando de bicicleta 3 Quando se perde alguém que é de nossas relações e nos é caro surgem sonhos de um tipo especial durante algum tempo após nos quais o conhecimento da morte chega às mais estranhas conciliações com a necessidade de trazer novamente à vida a pessoa morta Em alguns desses sonhos a pessoa que morreu está morta e ao mesmo tempo permanece viva porque não sabe que está morta somente se soubesse morreria completamente Em outros a pessoa está meio morta e meio viva e cada um desses estados vem indicado por uma forma particular Não devemos descrever esses sonhos como simplesmente absurdos pois ser devolvido novamente à vida não é mais inconcebível nos sonhos do que o é por exemplo em contos de fadas nos quais isso ocorre como fato muito rotineiro Sempre que pude avaliar tais sonhos constatei que eles são passíveis de uma solução racional contudo o piedoso desejo de fazer retornar à vida a pessoa morta conseguiu operar pelos mais estranhos meios Apresentarlhesei agora um sonho desse tipo que parece tão esquisito e absurdo e no entanto sua análise lhes mostrará muitas coisas para as quais nossas explicações teóricas os terão preparado É o sonho de um homem que havia perdido seu pai vários anos antes Seu pai estava morto mas havia sido exumado e parecia estar mal Tinha estado vivendo desde então e o homem no sonho fazia todo o possível para evitar que o pai percebesse O sonho continuava com outros assuntos aparentemente muito diferentes Seu pai estava morto sabemos disso O ter sido exumado não corresponde à realidade e não havia nada de realidade em tudo o que se seguia O sonhador porém relatou que após ter voltado dos funerais do pai um de seus dentes começou a doer Ele queria tratar o dente segundo o preceito da doutrina judaica Se teu dente incomoda arrancao E ele foi ao dentista Mas o dentista disse Não se arranca um dente Devese ter paciência com ele Porei dentro dele algo que o mate volte em três dias e eu o extrairei Esse extrair disse o homem que teve o sonho é exumar Será que o homem estava certo do que dizia Isso apenas se adapta mais ou menos não completamente pois não foi extraído o dente foi extraído apenas algo nele que morrera No entanto imprecisões deste tipo podem com prova em outras experiências ser atribuídas à elaboração onírica Sendo assim o homem que teve este sonho condensara seu pai morto e o dente que havia sido morto porém conservado ele os fundiu numa unidade Não é de causar admiração portanto que algo de absurdo emergisse no sonho manifesto de vez que afinal nem tudo que se disse do dente poderia ajustarse a seu pai Onde pode haver talvez um tertium comparationis ver em 1 anterior entre o dente e seu pai para que se tornasse possível a condensação Entretanto sem dúvida ele deve ter tido razão pois prosseguiu dizendo que sabia que sonhar com a queda de um dente significa que se vai perder um membro da família Essa interpretação popular como sabemos é incorreta ou pelo menos correta somente em sentido grosseiro Todos ficaremos muito surpresos por encontrar pois o assunto assim abordado reaparecendo agora em outras partes do conteúdo do sonhoEste sonhador sem nenhum outro encorajamento começou a falar na doença e na morte de seu pai bem como a respeito de suas próprias relações com ele Seu pai esteve doente durante longo tempo e os cuidados e o tratamento tinhamlhe custado ao filho grande soma de dinheiro Não obstante nunca era demais ele jamais se impacientou jamais desejou que afinal tudo pudesse logo chegar ao fim Orgulhavase de sua verdadeira dedicação filial judaica para com o pai de sua estrita obediência à lei judaica E aqui nos surpreendemos com uma contradição existente nos pensamentos pertinentes ao sonho Ele havia identificado o dente com seu pai Devia proceder com o dente segundo a lei judaica que lhe ordenava arrancálo se lhe causasse dor ou incômodo Desejava também proceder do mesmo modo com seu pai segundo os preceitos da lei neste caso porém ela lhe ordenava não poupar gastos nem atribulações assumir todo o encargo sobre si mesmo e não permitir que alguma intenção hostil emergisse contra o objeto que lhe estava causando sofrimento Será que as duas atitudes não teriam sido conciliadas muito mais convincentemente se ele tivesse realmente desenvolvido sentimentos para com seu pai doente semelhantes àqueles com relação a seu dente doente isto é se tivesse desejado que a morte se antecipasse e pusesse fim à sua existência desnecessária dolorosa e custosa Não duvido de que era esta realmente sua atitude para com seu pai durante a fatigante doença e que suas altivas afirmações de amor filial se destinavam a desviálo dessas lembranças Sob essas condições o desejo de morte contra um pai está pronto a entrar em atividade e esconderse sob o disfarce dessas reflexões caridosas tais como seria um feliz alívio para ele Mas por favor observem que nisso ultrapassamos uma barreira existente nos próprios pensamentos oníricos latentes Sem dúvida a primeira parte dos mesmos esteve inconsciente apenas temporariamente isto é durante a construção do sonho seus impulsos hostis contra o pai contudo devem ter sido permanentemente inconscientes Podem terse originado de cenas de sua infância e ocasionalmente emergiram como conscientes tímida e disfarçadamente durante a doença do pai Isto podemos afirmar com grande certeza acerca de outros pensamentos latentes que contribuíram inequivocamente para o conteúdo do sonho Nada realmente deve ser descoberto no sonho sobre seus impulsos hostis para com seu pai Se porém procurarmos na infância as raízes dessa hostilidade contra um pai nos recordaremos de que o medo ao pai tem início nos primeiros anos de vida porque este se opõe às atividades sexuais do menino exatamente como terá de acontecer mais uma vez por motivos sociais após a idade púbere Essa relação com o pai aplicase também a esse nosso sonhador o amor pelo pai incluía uma estranha mescla de reverência e temor que tinha sua origem no fato de quando menino por meio de ameaças ter sido tolhido em sua atividade sexualAs frases restantes do sonho manifesto podem ser explicadas agora em relação ao complexo da masturbação Ele parecia estar mal é realmente uma alusão a uma outra observação do dentista no sentido de que parece mau alguém perder um dente nessa parte da boca mas referese ao mesmo tempo ao parecer estar mal pelo qual um jovem na puberdade revela ou receia revelar sua atividade sexual excessiva Não foi sem alívio para seus próprios sentimentos que no conteúdo manifesto este que sonhou deslocou o parecer estar mal de si mesmo para seu pai um dos tipos de inversão feitos pela elaboração onírica que os senhores já conhecem ver em 1 Tinha estado com vida desde então coincide com o desejo de trazer de volta à vida assim como coincide com a promessa do dentista de que o dente sobreviveria A frase o sonhador fazia todo o possível para evitar que ele o pai percebesse é muito sutilmente arquitetada para nos desorientar fazendonos pensar que ela deveria ser completada com as palavras que ele estava morto A única completação entretanto que faz sentido provém uma vez mais do complexo de masturbação em relação a isto é evidente que o jovem fez tudo quanto pôde para ocultar de seu pai sua vida sexual E finalmente lembremse de que sempre devemos interpretar os chamados sonhos com um estímulo dental como sendo relacionados com masturbação e com o temido castigo correspondente ver em 1 Agora podem ver como esse sonho incompreensível se efetuou Fezse produzindo uma condensação estranha e desorientadora desprezando todos os pensamentos que estavam no centro do processo de pensamentos latentes e criando substitutos ambíguos para os mais profundos e cronologicamente mais remotos desses pensamentos4 Já tentamos repetidamente chegar a compreender os sonhos triviais e comuns que nada têm de absurdo ou estranho em sua aparência mas nos fazem perguntar por que alguém iria sonhar com matéria tão indiferente assim ver em 1 2 e 3 Por isso lhes ofereço outro exemplo deste tipo três sonhos em interconexão tidos por uma jovem senhora em uma só noitea Ela estava caminhando pelo salão de sua casa e bateu com a cabeça num lustre que pendia a baixa altura e começou a sangrar Nenhuma reminiscência nada que lhe houvesse realmente acontecido As informações que deu em resposta ao sonho conduziram a direções bem diferentes O senhor sabe como meu cabelo está caindo Minha filha disseme ontem minha mãe use isso continua desse jeito você vai ficar com a cabeça tão lisa como um traseiro Dessa forma aqui a cabeça está em lugar da outra extremidade do corpo Podemos entender o lustre sem qualquer ajuda como sendo um símbolo todos os objetos capazes de serem encompridados são símbolos do órgão masculino ver em 1 Tratavase portanto da questão do sangramento na extremidade inferior do corpo decorrência de contato com o pênis Isto ainda poderia ser ambíguo Suas posteriores associações mostraram que estava em questão algo referente à crença de que o sangramento menstrual se origina da relação sexual com um homem um fragmento de teoria sexual que conta com muitas crentes fiéis entre jovens imaturas b Ela via no parreiral um buraco fundo que ela sabia ter sido causado pelo arrancamento de uma árvore Acrescentou um comentário de que a árvore estava faltando Ela quis dizer que não tinha visto a árvore no sonho mas as mesmas palavras serviram para exprimir um outro pensamento que tornou a interpretação de símbolos muito certa O sonho se referia a uma outra parte da teoria sexual a crença de que as meninas originalmente tinham os mesmos genitais que os meninos e que sua forma ulterior foi conseqüência da castração o arrancamento de uma árvore c Ela estava de pé em frente à gaveta de sua escrivaninha que ela conhecia tão bem a ponto de poder dizer imediatamente se alguém ali havia penetrado Como todas as gavetas cofres e caixas a gaveta da escrivaninha significava os genitais femininos ver em 1 Ela sabia que os sinais de relação sexual e segundo pensava de tocar podiam ser observados nos genitais e por muito tempo havia temido tal descoberta Em todos estes três sonhos penso que a ênfase deve ser posta no conhecimento Ela estava recordando o período de suas investigações sexuais quando era criança de cujo resultado naqueles tempos muito se orgulhava5 Aqui se apresenta mais um pouco de simbolismo Desta vez porém devo começar com um breve preâmbulo da situação psíquica Um cavalheiro que havia passado a noite mantendo relações sexuais com uma mulher descreveua como uma dessas personagens maternas em quem o desejo por um filho irrompe irresistivelmente na relação com um homem As circunstâncias desse encontro no entanto exigiam uma precaução que impedisse o sêmen fertilizante de atingir o útero da mulher Ao acordar após essa noite a mulher relatou o seguinte sonho Um oficial com uma capa vermelha corria atrás dela na rua Ela fugia dele e subiu correndo os degraus e ele sempre atrás Ofegante chegou a sua casa bateu a porta atrás de si e trancoua Ele permaneceu do lado de fora e quando ela olhou através da vigia da porta ele estava sentado num banco e chorava Sem dúvida os senhores reconhecerão a perseguição pelo oficial com a capa vermelha e a subida ofegante dos degraus da escada como representação do ato sexual ver em 1 O fato de ter sido a própria mulher do sonho que se trancou a si mesma para se livrar de seu perseguidor servirá como exemplo das inversões tão comumente utilizadas nos sonhos ver em 1 pois foi o homem quem evitara a consumação do ato sexual Da mesma maneira a tristeza dela tinha sido deslocada para o homem pois era este quem chorava no sonho e isto era simultaneamente uma representação da emissão de sêmen Estou certo de que os senhores ouviram uma vez ou outra a psicanálise afirmar que todo sonho tem uma significação sexual Pois bem os senhores mesmos estão em condições de formar um julgamento da incorreção dessa acusação Os senhores vieram a conhecer sonhos plenos de desejos que lidam com a satisfação das necessidades mais óbvias fome e sede e ânsia de liberdade sonhos de conveniência e de impaciência e também sonhos puramente gananciosos e egoístas Mas ao mesmo tempo os senhores deveriam ter em mente como um dos resultados da investigação psicanalítica que sonhos grandemente deformados proporcionam expressão principalmente embora também não exclusivamente a desejos sexuais 6 Tenho um motivo especial para colecionar exemplos do uso dos símbolos nos sonhos Em nossa primeira conferência ver em 1 e segs eu lamentava a dificuldade de proporcionar demonstrações e assim de conferir convicção ao dar ensinamentos sobre psicanálise E não tenho dúvidas de que os senhores desde então tenham concordado comigo As diversas teses da psicanálise estão contudo em tão íntima conexão que as provas podem com facilidade ser estendidas de um único ponto até um ponto maior do todo Da psicanálise poderseia dizer que se alguém lhe mostra um só dedo mínimo ela imediatamente lhe agarra a mão inteira E mesmo ninguém que tenha aceito a explicação das parapraxias pode logicamente refrear sua crença em tudo o mais Uma segunda situação igualmente acessível é oferecida pelo simbolismo onírico Aqui está o sonho de uma mulher sem instrução cujo marido era um policial e que certamente jamais tinha ouvido falar qualquer coisa sobre simbolismo onírico ou psicanálise Depois julguem por si mesmos se a explicação do sonho com auxílio dos simbolismos sexuais pode ser chamada de arbitrária e forçada Então alguém penetrou na casa e ela assustouse e chamou um policial Mas ele entrara tranqüilamente numa igreja à qual se chegava por certo número de degraus acompanhado de dois vagabundos Atrás da igreja havia uma colina e acima um cerrado bosque O policial usava um capacete gola com placa de bronze e capote Tinha a barba castanha Os dois vagabundos que acompanhavam pacificamente o policial tinham aventais semelhantes a sacos atados em torno da cintura Em frente da igreja um caminho conduzia até a colina em ambos os lados cresciam relva e mato rasteiro que se tornavam cada vez mais espessos e no alto da colina se transformavam num bosque comumOs senhores não terão problemas em reconhecer os símbolos utilizados Os genitais masculinos são representados por uma tríade de personagens e os genitais femininos por um cenário com uma capela um monte e uma floresta Mais uma vez os senhores encontram degraus como símbolo do ato sexual O que no sonho é chamado de monte é também chamado de monte na anatomia o Mons Veneris o monte de Vênus7 E aqui está mais um sonho que deve ser solucionado pela inserção de símbolos É notável e convincente pelo fato de a própria pessoa que o sonhou haver traduzido todos os símbolos embora não tivesse qualquer espécie de conhecimento teórico prévio da interpretação de sonhos Tal atitude é bastante incomum e suas causas determinantes não foram precisamente compreendidasEle estava passeando a pé com seu pai num lugar que certamente deve ter sido o Prater pois viu a Rotunda com um pequeno anexo em frente à qual estava amarrado um balão cativo embora este parecesse flácido Seu pai perguntoulhe para que servia tudo isso ele ficou surpreso com a pergunta mas explicoulhe Então entraram num pátio em que havia uma grande folha de flandres estendida Seu pai quis arrancar um pedaço grande da mesma porém primeiro olhou em volta para ver se havia alguém observando Ele lhe disse que ele apenas precisava falar ao capataz e poderia levar uma parte da folha sem qualquer problema Uma escada descia desse pátio para um poço de mina cujas paredes estavam almofadadas com um material macio bem semelhante a uma poltrona de couro No fim do poço de mina havia uma comprida plataforma e depois mais outro poço de mina começava O próprio sonhador interpretouo A Rotunda eram os meus genitais e o balão cativo em frente da mesma era meu pênis de cuja flacidez tenho motivos para me queixar Entrando em maiores detalhes portanto podemos traduzir a Rotunda como o traseiro habitualmente considerado pelas crianças como fazendo parte dos genitais e o pequeno anexo em frente da mesma como o escroto Seu pai perguntoulhe no sonho para que servia tudo isso ou seja qual a finalidade e função dos genitais Pareceu plausível inverter a situação e transformar a pessoa que sonhou na pessoa que pergunta Visto como ele nunca havia feito perguntas a seu pai neste sentido temos de considerar o pensamento onírico como um desejo ou tornálo como oração condicional tal como Se eu tivesse perguntado a meu pai sobre explicações sexuais Logo mais encontraremos a continuação deste pensamento em outra parte do sonho O pátio onde estava estendida a folha de flandres não deve ser tomado simbolicamente à primeira vista Derivava dos locais de negócios do pai desse sonhador Por motivos de discrição substituí folha de flandres por outro material com que seu pai realmente lidava mas não fiz nenhuma outra alteração no sonho Ele havia entrado no negócio de seu pai e tinha feito sérias objeções às práticas um tanto duvidosas das quais dependiam em parte os lucros da firma Conseqüentemente o pensamento onírico que acabei de interpretar pode ser retomado desta maneira Se eu lhe tivesse perguntado ele me teria logrado da mesma forma como logra seus fregueses Com relação ao arrancar que serviu para representar a desonestidade de seu pai no negócio o sonhador deu uma segunda explicação ou seja que representava a masturbação Não somente há muito tempo estávamos familiarizados com essa interpretação como também havia algo para confirmála no fato de que a natureza secreta da masturbação estava representada pelo seu inverso podia ser efetuada em público Tal como era de se esperar a atividade masturbatória mais uma vez se deslocou para o pai do sonhador assim como sucedera com o aspecto de fazer perguntas na primeira cena do sonho Ele prontamente interpretou o poço de mina como sendo uma vagina tendo em conta o revestimento macio de suas paredes Acrescentei com base na minha autoridade ver em 1 que descer assim como subir em outros casos descrevia o coito na vagina O próprio personagem desta história deu uma explicação biográfica dos demais detalhes de o primeiro poço de mina ser seguido de uma plataforma comprida e de mais outro poço de mina Ele vinha mantendo relações sexuais durante certo tempo mas depois abandonouas por causa de inibições e agora esperava conseguir reencetálas com o auxílio do tratamento8 Os dois sonhos seguintes foram sonhados por um estrangeiro que vivia numa situação altamente polígama Reproduzoos para os senhores como prova de minha afirmação ver em 1 de que o próprio ego de quem o sonhou aparece em cada um de seus sonhos ainda que escondido no conteúdo manifesto As malas nestes sonhos eram símbolos de mulheresa Ele estava iniciando uma viagem sua bagagem era levada à estação numa carruagem numerosas malas empilhadas e entre elas duas malas pretas semelhantes a malas de amostras Ele disse a alguém em tom de consolo Bem elas só vão comigo até a estaçãoEle realmente viajava com grande quantidade de bagagem mas também trazia consigo para o tratamento muitíssimas histórias referentes a mulheres As duas malas pretas correspondiam a duas mulheres negras que nessa época estavam desempenhando o principal papel na sua vida Uma delas quis acompanhálo a Viena e por orientação minha ele havia telegrafado para ela não virb Uma cena que se passa na alfândega Um outro viajante abriu seu baú e fumando indiferentemente um cigarro disse Não há nada aí dentro O funcionário aduaneiro pareceu acreditar nele mas voltou a apalpar o interior do baú e encontrou algo muito especialmente proibido O viajante disse com voz resignada O que é que se vai fazerEle próprio era o viajante eu era o funcionário da alfândega Via de regra ele era muito franco em admitir determinadas coisas mas tencionava comigo manter silêncio a respeito de uma ligação recente que havia iniciado com uma senhora porque com razão supunha que ela não me fosse desconhecida Ele deslocou para um estranho a desagradável situação de ser descoberto de modo que ele próprio parecia não surgir no sonho 9 Aqui está um exemplo de um símbolo que ainda não mencionei Ele encontrou sua irmã em companhia de duas amigas que eram também elas irmãs Cumprimentou com um aperto de mão a ambas mas não a sua irmã Nenhuma conexão com alguma ocorrência real Seus pensamentos porém o levaram de volta isto sim a um período no qual suas observações fizeramno refletir quão tardiamente se desenvolviam os seios das meninas Assim as duas irmãs eram seios ele teria desejado agarrálos com sua mão desde que não se tratasse de sua irmã 10 E agora um exemplo de simbolismo da morte num sonho Ele estava caminhando com duas pessoas cujos nomes sabia mas esquecera ao acordar por uma ponte de ferro muito alta e íngreme De repente elas desapareceram e ele viu um homem parecido com um fantasma envolto numa capa e numa roupagem de linho Perguntoulhe se ele era o mensageiro do telégrafo Não Era ele o cocheiro Não Então continuou andando Enquanto ainda estava sonhando sentia uma aguda ansiedade e após haver acordado continuou o sonho com uma fantasia de que a ponte de ferro se rompia de repente e ele caía no espaço Pessoas de quem se insiste em dizer que são desconhecidas ou cujos nomes não são lembrados são na sua maioria pessoas próximas Este sonhador tinha um irmão e uma irmã e se ele desejasse que estes dois estivessem mortos não seria mais que justo que em troca ele devesse ser vítima do medo da morte Sobre o mensageiro do telégrafo comentou que uma pessoa assim sempre traz más notícias Pelo seu uniforme poderia igualmente ter sido o acendedor de lampião entretanto ele também os apaga da mesma forma como o Espírito da Morte apaga a chama da vida O cocheiro fêlo pensar no poema de Uhland sobre a Viagem do Rei Carlos e fêlo recordarse de uma perigosa viagem por mar com dois companheiros durante a qual ele tinha feito a parte do rei no poema A ponte de ferro levouo a pensar num recente desastre e no tolo ditado A vida é uma ponte pênsil 11 O sonho seguinte pode contarse como mais uma entre as representações da morteUm cavalheiro desconhecido entregoulhe um cartão de visitas tarjado de negro12 Os senhores estarão interessados no seguinte sonho por diversos motivos embora um estado neurótico na pessoa que o sonhou tenha sido uma de suas precondiçõesEle estava viajando de trem O trem fez uma parada em campo aberto Pensou que estava por suceder um desastre e que devia tratar de fugir Percorreu todos os carros do trem e matou a todos que encontrou o guarda o maquinista e assim por dianteCom relação a isto ele pensou em uma história que lhe contara um amigo Um louco estava sendo conduzido em um vagão de trem na Itália contudo por descuido deixouse que um viajante ficasse com ele no mesmo compartimento O louco matou o viajante Assim ele estava identificandose com o louco e seu motivo de agir assim ele o baseou em uma obsessão que o atormentava de tempos em tempos de que ele devia livrarse de todas as testemunhas cúmplices Ele próprio porém então encontrou um motivo melhor e isso foi o que levou à causa desencadeante do sonho A noite anterior no teatro mais uma vez viu a jovem com quem desejara casar mas havia desistido porque ela lhe dera motivos para ciúme Em face da intensidade atingida por seu ciúme pensou ele estaria realmente louco para querer casar com ela Isto significava que ele a considerava tão indigna de confiança que em seu ciúme ele teria de matar todos os que estivessem no seu caminho Já encontramos o caminhar através de uma série de quartos aqui carros do trem como símbolo de casamento uma inversão de monogamiaCom relação à parada do trem em campo aberto e ao medo de acidente disse que certa vez quando se encontrava numa viagem de trem tinha havido uma súbita parada nessas circunstâncias quando não estavam na estação Uma jovem senhora que viajava com ele dissera que podia ser iminente uma colisão e que o mais seguro era manter as pernas levantadas Este manter as pernas levantadas tinha tido contudo seu papel nos muitos passeios a pé e excursões pelo campo que ele tinha feito com a outra jovem nos primeiros dias felizes de seu amor Este era um novo argumento para pensar que ele estava louco para casar com ela agora Meu conhecimento da situação deume a certeza de que não obstante ele desejava estar suficientemente louco para casar com ela CONFERÊNCIA XIII ASPECTOS ARCAICOS E INFANTILISMO DOS SONHOS SENHORAS E SENHORES Comecemos mais uma vez partindo da conclusão a que chegamos de que a elaboração onírica sob a influência da censura dos sonhos transpõe a ordem dos pensamentos oníricos latentes para um modo de expressão diferente Os pensamentos latentes não diferem dos nossos conhecidos pensamentos conscientes da vida desperta O novo modo de expressão nos é incompreensível devido a muitos de seus aspectos Temos dito que ele retorna a estados de nossa evolução intelectual que há muito foram suplantados à linguagem por imagens às conexões simbólicas a condições que talvez existiram antes de se desenvolver nossa linguagem de pensamento Temos descrito por essa razão o modo de expressão da elaboração onírica como arcaico ou regressivo ver em 1 e seg Os senhores podem concluir com isto que se estudarmos mais a elaboração onírica deveremos conseguir lograr valioso esclarecimento dos poucos conhecidos inícios de nosso desenvolvimento intelectual Espero que assim seja contudo este trabalho até agora não foi iniciado A préhistória à qual a elaboração onírica nos faz retroceder é de duas espécies de um lado à préhistória do indivíduo sua infância e de outro lado até onde cada indivíduo de alguma maneira recapitula em forma abreviada todo o desenvolvimento da espécie humana também à préhistória filogenética Conseguiremos distinguir qual parte dos processos mentais latentes deriva do período préhistórico do indivíduo e qual a parte proveniente da préhistória filogenética Penso não ser impossível conseguilo A mim por exemplo pareceme que as conexões simbólicas que o indivíduo jamais adquiriu por aprendizado podem com razão exigir serem consideradas como herança filogenética Esta porém não é a única característica arcaica do sonho Naturalmente os senhores todos conhecem bem a extraordinária amnésia da infância Quero dizer com isso que os primeiros anos de vida até a idade de cinco seis ou oito anos não deixaram atrás de si em nossa memória marcas como as das experiências posteriores Aqui e ali é verdade encontramos pessoas que se podem gabar de uma memória contínua desde os primeiros começos até o dia de hoje mas a outra alternativa de lacunas na memória é de longe a mais freqüente Em minha opinião não tem havido suficiente surpresa com referência a esse fato Na época em que uma criança tem dois anos de idade ela consegue falar bem e logo mostra que está à vontade em situações mentais complicadas e faz comentários que se lhe forem referidos muitos anos mais tarde ela mesma terá esquecido Ademais disso a memória é mais eficiente em tenra idade pois está menos sobrecarregada do que estará mais tarde E não existe qualquer motivo para considerar a função da memória uma atividade mental especialmente elevada ou difícil pelo contrário podemos encontrar uma boa memória em pessoas de nível intelectual muito baixoUm segundo fato notável para o qual devo chamar sua atenção e que se aflora do primeiro é que de permeio ao vazio de memórias que abrange os primeiros anos da infância sobressaem algumas recordações bem preservadas na maioria percebidas em forma plástica que não podem explicar sua sobrevivência Nossa memória lida com o conteúdo das impressões que nos atingem posteriormente na vida fazendo uma seleção das mesmas Ela retém o que possui alguma importância e elimina o que carece de importância Isto porém não procede para as lembranças da infância que foram conservadas Elas não correspondem necessariamente às experiências importantes dos anos da infância nem mesmo àquelas experiências que devem ter parecido importantes do ponto de vista da criança Freqüentemente são tão banais e insignificantes que apenas podemos nos perguntar surpresos por que esse detalhe especial escapou ao esquecimento Há muito tempo com auxílio da análise procurei enfrentar o enigma da amnésia infantil e das memórias residuais que a interrompem e cheguei à conclusão de que mesmo no caso de crianças malgrado tudo é verdade que somente permanece na memória aquilo que é importante Pelos processos que os senhores já conhecem de condensação e mais especialmente de deslocamento aquilo que é importante é contudo substituído na memória por alguma outra coisa que parece sem importância Por essa razão denominei a essas lembranças da infância lembranças encobridoras e com uma análise minuciosa pode ser extraído delas tudo o que foi esquecido Nos tratamentos psicanalíticos invariavelmente nos defrontamos com a tarefa de preencher essas lacunas na memória da infância e na medida em que o tratamento de alguma forma tem êxito ou seja muito freqüentemente também temos êxito em trazer à luz o conteúdo desses anos da infância esquecidos Tais impressões realmente jamais foram esquecidas eram apenas inacessíveis latentes e tinham formado parte do inconsciente Pode suceder porém elas emergirem do inconsciente espontaneamente e isto sucede em relação aos sonhos Parece que a vida onírica sabe como obter acesso a essas experiências latentes infantis Excelentes exemplos disto foram relatados na literatura e eu mesmo pude trazer uma contribuição desse teor Uma vez sonhei em certa circunstância com uma pessoa que devia terme prestado um serviço e que vi claramente à minha frente Era um homem com um olho só de baixa estatura forte e com a cabeça profundamente enterrada nos ombros Pelo contexto concluí que se tratava de um médico Felizmente pude perguntar a minha mãe que ainda vivia com quem se parecia o médico da minha terra natal que eu deixara quando tinha três anos de idade e eu soube por ela que ele tinha um olho só era baixo forte e tinha a cabeça enterrada fundo nos ombros e também soube qual o acidente em decorrência do qual ele viera em meu auxílio e que eu mesmo havia esquecido Esse fato de os sonhos terem à sua disposição o material esquecido dos primeiros anos da infância é pois mais um aspecto arcaicoEssa mesma parcela de informação pode ademais ser aplicada a um outro enigma com que nos temos defrontado Os senhores se recordam do assombro causado pela nossa descoberta de que os sonhos são provocados por desejos ativamente maus e extravagantemente sexuais que tornaram necessária a censura e a deformação dos sonhos ver em 1 e segs Ao interpretarmos um sonho desse tipo àquele que o sonhou e se na melhor das hipóteses o sonhador não atacar realmente a interpretação ele ainda assim regularmente levanta a questão da proveniência desses desejos de vez que estes lhe parecem alheios e aquilo de que está cônscio é o oposto desses desejos Não devemos hesitar em assinalar a origem dos mesmos Esses impulsos de desejos maus são originários do passado e freqüentemente de um passado não tão remoto Podese demonstrar que houve uma época em que eles eram corriqueiros e conscientes embora atualmente não o sejam mais Uma mulher cujo sonho significava que desejava ver sua filha única agora com dezessete anos de idade morta em sua presença verificou com nosso auxílio que ela realmente em certa época abrigava esse desejo de morte A filha era fruto de um casamento infeliz que logo se dissolvera De certa feita quando ainda trazia essa filha em seu ventre num acesso de raiva e após uma cena violenta com seu marido ela golpeara com seus próprios punhos seu corpo a fim de matar a criança que estava dentro Quantas mães que amam seus filhos ternamente hoje em dia talvez com excessiva ternura conceberamnos contra a vontade e à época desejaram que o ser vivo dentro delas não mais se desenvolvesse Podem até mesmo ter expresso esse desejo em ações diversas felizmente inofensivas Assim seu desejo de morte contra alguém que amam desejo que depois é tão misterioso originase dos primeiros dias de seu relacionamento com essa pessoaDa mesma forma um pai teve um sonho que legitimou a interpretação de que ele desejava a morte de seu filho predileto o mais velho Ele também foi levado a recordar que houvera uma época em que tal desejo não lhe era estranho Quando o filho era ainda uma criança de colo este pai descontente com a esposa que escolhera amiúde pensava que se a pequena criatura que nada significava para ele viesse a morrer mais uma vez ficaria livre e faria melhor uso de sua liberdade A mesma origem pode ser demonstrada no caso de grande número de impulsos de ódio semelhantes são recordações de algo pertencente ao passado que numa época foi consciente e desempenhou seu papel na vida mental Os senhores tenderão a disso concluir que esses desejos e esses sonhos não deveriam aparecer naqueles casos em que nunca ocorreram transformações desse tipo nas relações com alguém em que o relacionamento foi do mesmo tipo desde o início Estou disposto a admitir esse fato devo porém lembrarlhes que precisam ter em consideração não o enunciado do sonho mas seu sentido após o sonho haver sido interpretado É possível que um sonho manifesto com a morte de alguma pessoa amada simplesmente tenha assumido uma máscara aterradora e possa significar algo muito diferente ou que a pessoa amada sirva como substituto destinado a confundir a identidade de alguma outra pessoa Este mesmo tema pode contudo sugerir uma outra questão muito mais séria Ainda que os senhores dirão este desejo de morte se encontrasse presente em determinada época e seja confirmado pela lembrança isso ainda não constitui explicação Afinal há muito que foi ultrapassado e atualmente só pode estar presente no inconsciente como alguma outra recordação qualquer desprovida de conteúdo emocional e não como um impulso poderoso Nada fala em favor desta última possibilidade Por que então foi recordado no sonho Esta pergunta pode surgir e com razão Uma tentativa de respondêla nos levaria demasiado longe e exigiria que assumíssemos uma posição em um dos pontos mais importantes da teoria dos sonhos Vejome no entanto obrigado a manterme dentro do quadro de referências de nossa exposição e usar de moderação Assim preparemse para uma desistência provisória Contentemonos com a evidência efetiva de esse desejo que ficou para trás poder ser demonstrado como sendo o causador do sonho e prossigamos com nossa investigação para saber se outros desejos maus podem de modo semelhante ser remontados ao passadoDeternosemos nesses desejos de eliminar alguém os quais em sua maioria podem ser atribuídos ao desenfreado egoísmo do sonhador Um desejo desse tipo muito amiúde pode ser apontado como o maquinador de um sonho Sempre que alguém no decurso da vida se interpõe no caminho de uma pessoa e como é freqüente isso acontecer face à complexidade dos relacionamentos de uma pessoa um sonho logo se prontifica a matar esse alguém mesmo que se trate do pai ou da mãe do irmão ou da irmã do marido ou da esposa Essa maldade da natureza humana surgiunos para grande surpresa nossa e decididamente não estávamos propensos a aceitar sem indagações esse resultado da interpretação de sonhos No entanto assim que fomos levados a procurar a origem desses desejos no passado descobrimos o período do passado do indivíduo quando não havia ainda nada de estranho em tal egoísmo e em tais impulsos plenos de desejos dirigidos até mesmo contra os parentes mais próximos São as crianças e precisamente nesses primeiros anos mais tarde velados pela amnésia que freqüentemente manifestam um tal egoísmo em grau extremamente marcado e invariavelmente mostram evidentes rudimentos ou expressandose com maior correção resíduos dele As crianças amam em primeiro lugar a si próprias e apenas mais tarde é que aprendem a amar os outros e a sacrificar algo de seu ego aos outros As próprias pessoas a quem uma criança parece amar desde o início no começo são amadas pela criança porque esta necessita delas e não pode dispensálas por motivos egoístas mais uma vez Somente mais tarde o impulso de amar se torna independente do egoísmo É literalmente verdadeiro que seu egoísmo ensinou a amar Neste consenso será interessante comparar a atitude da criança com relação a seu irmãos e irmãs com sua atitude para com seus pais Uma criança pequena não ama necessariamente seus irmãos e irmãs muitas vezes obviamente não os ama Sem dúvida ela os odeia como rivais seus e é fato sabido que esta atitude freqüentemente persiste por muitos anos até ser atingida a maturidade ou mesmo até mais tarde sem interrupção Com efeito muito amiúde esta atitude é substituída ou melhor digamos é encoberta por outra mais cordial Mas a que é hostil em geral parece ser a que surge primeiro Essa atitude hostil pode ser observada com muita facilidade em crianças com idade entre dois e meio e quatro ou cinco anos quando um novo irmãozinho ou irmãzinha aparece Geralmente encontra uma recepção muito inamistosa São muito comuns os comentários como não gosto dele a cegonha pode levar embora de novo Depois aproveitamse de todas as oportunidades para rebaixar o recémchegado e se fazem tentativas de machucálo e até mesmo se conhecem casos de ataques mortíferos Se a diferença de idade é menor na época em que a atividade mental da criança se aviva em determinado grau de intensidade ela já encontra aí seu competidor e a ele se adapta Sendo maior a diferença o novo bebê pode desde o início despertar alguma simpatia como um objeto interessante uma espécie de boneca viva e quando a diferença de idade é de oito ou mais anos já podem manifestarse impulsos solícitos maternais especialmente em meninas Contudo falando honestamente se alguém encontrar em sonho um desejo de morte contra um seu irmão ou irmã raramente há que considerálo um enigma e sem dificuldades pode situar seu protótipo no início da infância e vezes mais seguidas também nos anos subseqüentes do companheirismo fraternoProvavelmente não há quarto de crianças sem violentos conflitos entre seus ocupantes Os motivos de tais desavenças são a rivalidade pelo amor dos pais pelas posses comuns pelo espaço vital Os impulsos hostis são dirigidos contra membros da família mais velhos e também mais novos Foi Bernard Shaw segundo penso quem comentou Via de regra só existe uma pessoa que uma menina inglesa odeia mais do que a sua mãe é a sua irmã mais velha Neste comentário existe porém algo que nos parece estranho Poderíamos quando muito achar compreensíveis o ódio e a competição entre irmãos e irmãs Mas como podemos supor que sentimentos de ódio venham a surgir nas relações entre filha e mãe entre pais e filhosEsta relação é sem dúvida uma relação mais favorável também do ponto de vista dos filhos É o que exigem as nossas expectativas achamos que uma ausência de amor é muito mais censurável entre pais e filhos do que entre irmãos e irmãs No primeiro caso teríamos tornado esta relação sagrada ao passo que no segundo isso teria permanecido profano Já a observação corrente pode nos mostrar quão freqüentemente as relações afetivas entre os pais e seus filhos adultos deixam de atingir o ideal estabelecido pela sociedade quanta hostilidade está pronta para manifestarse e se manifestaria se não fosse contida por um misto de devoção filial e impulsos afetuosos Os motivos dessa hostilidade geralmente são conhecidos e sua tendência é separar os do mesmo sexo a filha de sua mãe e o pai de seu filho A filha encontra em sua mãe a autoridade que restringe sua vontade e que está incumbida da tarefa de imporlhe a renúncia à liberdade sexual renúncia que também a sociedade exige em alguns casos a filha encontra em sua mãe até mesmo uma competidora que luta por não ser suplantada A mesma coisa se repete entre filho e pai e de forma ainda mais flagrante Aos olhos do filho o pai representa todas as restrições sociais relutantemente toleradas o pai lhe impede o exercício da vontade o prazer sexual incipiente e nas famílias em que existe propriedade comum o desfrute desta No caso de um herdeiro do trono essa espera da morte do pai atinge as raias do trágico Parece haver perigo menor para a relação entre pai e filha ou mãe e filho Esta última proporciona os mais puros exemplos de uma afeição imutável não prejudicada por quaisquer considerações egoístasPor que estou eu falando nestas coisas que afinal são banais e conhecidas universalmente Porque há uma inequívoca tendência a negarlhes a importância que têm na vida e a fazer crer que o ideal imposto pela sociedade é atingido muito mais freqüentemente do que o é na realidade É melhor pois que a verdade deva ser dita pelos psicólogos de preferência a deixar tal tarefa a cargo de cínicos E aliás essa negação se aplica somente à vida real As obras narrativas e dramáticas da imaginação podem livremente jogar com os temas que surgem de um distúrbio deste ideal Portanto não há motivos para surpresas se em muitas pessoas os sonhos revelam seu desejo de eliminar seus pais e especialmente o genitor do mesmo sexo Podemos supor que esse desejo também esteja presente na vida desperta e até mesmo seja consciente às vezes quando pode estar mascarado por algum outro motivo como foi o caso do sonhador do Exemplo 3 ver em 1 acima em que foi substituído pela compaixão pelos inúteis sofrimentos do pai É raro que apenas a hostilidade domine o relacionamento muito mais freqüentemente ela se encontra nos bastidores de impulsos mais afetuosos pelos quais é suprimida e pode por assim dizer esperar até que um sonho venha a isolála O que parecenos ter uma dimensão enorme em um sonho por ter sido isolado reduzse mais uma vez quando nossa interpretação o situa no contexto da vida real Hanns Sachs Contudo encontramos este desejo onírico também na vida real onde não adquire qualquer relevância e onde o adulto jamais deseja admitilo na vida desperta A razão disso é que os motivos mais profundos e mais invariáveis de desavenças especialmente entre duas pessoas do mesmo sexo já se fizeram sentir no início da infânciaO que tenho em mente é a rivalidade no amor com nítida ênfase no sexo do indivíduo Quando é ainda uma criança um filho já começa a desenvolver afeição particular por sua mãe a quem considera como pertencente a ele começa a sentir o pai como rival que disputa sua única posse E da mesma forma uma menininha considera sua mãe como uma pessoa que interfere na sua relação afetuosa com o pai e que ocupa uma posição que ela mesma poderia muito bem ocupar A observação nos mostra a quão precoces anos essas atitudes remontam A essas atitudes chamamos de complexo de Édipo visto que a lenda de Édipo materializa com apenas uma leve atenuação os dois desejos extremos originários na situação do filho matar o pai e tomar a mãe como esposa Não pretendo afirmar que o complexo de Édipo engloba toda a relação dos filhos com os pais esta pode ser muito mais complexa O complexo de Édipo ademais disso pode estar desenvolvido em maior ou menor intensidade pode até mesmo estar invertido mas constitui fator constante e importante na vida mental de uma criança e existe maior risco de antes subestimarmos do que superestimarmos sua influência e a dos desenvolvimentos que nele se originam Aliás as crianças freqüentemente reagem em sua atitude edipiana a um estímulo proveniente de seus pais que amiúde se deixam levar nas suas preferências pela diferença do sexo de modo que o pai escolherá a filha e a mãe escolherá o filho como favorito ou no caso de um esfriamento conjugal como um substituto de um objeto de amor que perdeu seu valorNão se pode dizer que o mundo tenha demonstrado muita gratidão à investigação psicanalítica por sua revelação do complexo de Édipo Ao contrário a descoberta provocou a mais violenta oposição entre adultos e aqueles que não se interessaram por tomar parte no repúdio a este relacionamento emocional proscrito e tabu compensaram seu débito mais tarde subtraindo a este complexo o seu valor por meio de reinterpretações tortuosas Permanece inalterada minha convicção de que não há o que negar ou encobrir Devemos nos congratular com o fato de ter sido reconhecido pela própria lenda grega como destino inevitável Mais uma vez é interessante o fato de o complexo de Édipo que tem sido repudiado na vida real ter sido deixado a cargo dos escritos imaginativos ter sido colocado por assim dizer livremente à sua disposição Otto Rank 1912b demonstrou em cuidadoso estudo como o complexo de Édipo proporcionou aos autores dramáticos uma riqueza de temas com infindáveis modificações atenuações e disfarces isto é com distorções do tipo que já conhecemos como obra de uma censura Portanto podemos também atribuir este complexo de Édipo às pessoas que sonham e foram suficientemente felizes para escapar a conflitos com seus pais em sua vida posterior E em íntima conexão com o mesmo encontramos aquilo a que chamamos de complexo de castração a reação às ameaças contra a criança destinadas a pôr um fim a suas primeiras atividades sexuais ameaças atribuídas a seu paiO que já aprendemos de nosso estudo da vida mental das crianças fará com que esperemos encontrar uma explicação semelhante para o outro grupo de desejos oníricos proibidos os impulsos sexuais excessivos Assim encorajamonos a realizar um estudo da evolução da vida sexual das crianças e com base em muitas informações chegamos ao que se segue Primeiro e acima de tudo é um erro injustificável negar que as crianças têm uma vida sexual e supor que a sexualidade somente inicia na puberdade com a maturação dos genitais Pelo contrário bem desde o início as crianças têm uma intensa vida sexual que difere em muitos pontos daquilo que mais tarde é considerado normal Aquilo que na vida adulta é descrito como perverso difere do normal por estes aspectos primeiro porque despreza a barreira da espécie o abismo entre o homem e o animal segundo por transpor a barreira contra a repugnância terceiro a barreira contra o incesto proibição contra a busca da satisfação sexual em relações consangüíneas próximas quarto a barreira contra pessoas do mesmo sexo e quinto por transferir a outros órgãos e áreas do corpo o papel desempenhado pelos genitais Nenhuma destas barreiras existia desde o começo foram estabelecidas apenas gradualmente no decorrer do desenvolvimento e da educação Crianças de tenra idade são livres delas Não reconhecem qualquer abismo assustador entre seres humanos e animais a soberba com que os homens se distanciam dos animais não emerge senão mais tarde Inicialmente as crianças não mostram qualquer repugnância pelas excreções porém adquiremna lentamente sob a pressão da educação Não dão importância especial à distinção entre os sexos mas atribuem a ambos a mesma conformação dos genitais dirigem seus primeiros desejos sexuais e sua curiosidade àqueles que lhes são mais próximos e por outras razões mais caros os pais irmãos e irmãs ou babás e finalmente demonstram e isto mais tarde irrompe novamente no clímax de uma relação amorosa que esperam obter prazer não somente a partir de seus órgãos sexuais mas que muitas outras partes do corpo exibem a mesma sensibilidade proporcionamlhes sensações análogas de prazer e em decorrência podem desempenhar o papel de genitais Assim podese descrever as crianças como perversos polimorfos e se estes impulsos apenas mostram traços de atividade isso ocorre por um lado porque eles têm intensidade menor quando comparados com os da vida posterior e por outro lado porque todas as manifestações sexuais de uma criança são prontamente energicamente suprimidas pela educação Esta supressão por assim dizer se estende à teoria pois os adultos se esforçam por não ver uma parte das manifestações sexuais das crianças e por disfarçar uma outra parte interpretandolhes erroneamente a natureza sexual conseguindo assim negála em sua totalidade Freqüentemente são estas exatamente as mesmas pessoas que no trato com as crianças se enfurecem com qualquer traquinagem sexual sua e depois em seus escritos defendem a pureza sexual das mesmas crianças Quando abandonadas a si próprias ou sob a influência de sedução amiúde as crianças realizam proezas consideráveis na área da atividade sexual perversa Os adultos naturalmente têm razão ao não levar isto muito a sério e considerálo como criancice ou brincadeira de vez que as crianças não podem ser condenadas como inteiramente capazes ou inteiramente responsáveis seja perante o tribunal da moralidade seja perante a lei não obstante essas coisas existem Têm sua importância não apenas como indicações da constituição inata de uma criança e como causas e encorajamentos para desenvolvimentos ulteriores também nos proporcionam informações acerca da vida sexual das crianças e assim acerca da vida sexual humana em geral Se portanto mais uma vez encontramos todos estes impulsos plenos de desejos perversos por trás de nossos sonhos deformados isto somente significa que também neste campo os sonhos deram um passo atrás ao estado de infância Entre esses desejos proibidos merecem especial ênfase os desejos incestuosos isto é aqueles que objetivam a relação sexual com pais irmãos e irmãs Os senhores conhecem o horror que se sente ou ao menos se manifesta na sociedade humana diante de tal relação e o acento com que se tonificam as proibições contra a mesma Esforços tremendos têm sido dispendidos para explicar esse horror ao incesto Algumas pessoas supuseram que considerações referentes à reprodução por parte da natureza tivessem encontrado representação psíquica nesta proibição pois os acasalamentos consangüíneos prejudicariam as características raciais Outros afirmaram que como conseqüência da vida em comum do início da infância em diante o desejo sexual desviouse das pessoas em questão Em ambos estes casos podese observar um evitar do incesto estaria assegurado automaticamente e não se esclareceria por que se exigem essas proibições severas as quais indicariam antes a presença de um intenso desejo incestuoso As pesquisas psicanalíticas têm demonstrado inequivocamente que a escolha incestuosa de um objeto de amor é pelo contrário a primeira e a invariável escolha e senão mais tarde é que a resistência contra ela se manifesta sem dúvida não é impossível descobrir a origem desta resistência na psicologia individual Reunamos agora tudo aquilo com que nossas pesquisas acerca da psicologia da criança têm contribuído para nossa compreensão dos sonhos Não somente constatamos que o material das vivências esquecidas da infância tem acesso aos sonhos como também vimos que a vida mental das crianças com todas as suas características seu egoísmo sua escolha incestuosa de objetos de amor e assim por diante ainda persiste nos sonhos isto é no inconsciente e que os sonhos nos levam de volta todas as noites a esse nível infantil Confirmase assim o fato de que na vida mental o que é inconsciente é também o que é infantil A estranha impressão de haver tanta maldade nas pessoas começa a reduzirse Esta maldade temida é simplesmente a inicial e primitiva parte infantil da vida mental que podemos encontrar em real atuação nas crianças à qual contudo em parte não damos importância nas crianças devido ao pequeno tamanho delas e em parte não a levamos a sério porque das crianças não esperamos elevado padrão ético algum Visto os sonhos regredirem a esse nível eles dão a impressão de terem revelado o mal que existe em nós Esta todavia é uma aparência enganadora pela qual nos temos deixado atemorizar Não somos tão maus como tenderíamos a supor a partir da interpretação dos sonhosSe esses impulsos maus nos sonhos são meros fenômenos infantis um retorno aos inícios de nossa evolução ética de vez que os sonhos simplesmente nos transformam novamente em crianças em nossos pensamentos e sentimentos não temos se formos racionais necessidade de nos envergonhar desses sonhos de maldade Aquilo que é racional porém constitui apenas uma parte da vida mental inúmeras outras coisas se passam na vida mental e não são racionais e assim sucede irracionalmente estarmos envergonhados desses sonhos Sujeitamolos à censura dos sonhos envergonhamonos e nos irritamos se por exceção um desses desejos consegue irromper na consciência em forma tão indisfarçada que somos obrigados a reconhecêlo com efeito às vezes nos envergonhamos tanto de um sonho deformado como se o compreendêssemos Basta pensar no indignado julgamento que aquela excelente senhora de meiaidade emitiu a propósito de seu sonho não interpretado sobre os serviços de amor ver em 1 O problema assim ainda não está esclarecido e ainda é possível que outras considerações sobre a perversidade nos sonhos possam nos levar a formar outro julgamento e chegar a uma outra avaliação da natureza humana Como resultado de nossas pesquisas atenhamonos a duas descobertas embora apenas signifiquem o começo de novos enigmas e de novas dúvidas Em primeiro lugar a regressão da elaboração onírica não é apenas formal mas também material Não só traduz nossos pensamentos em uma forma primitiva de expressão revive também as características de nossa vida mental primitiva a antiga dominância do ego os primeiros impulsos de nossa vida sexual e realmente até mesmo nossa antiga propriedade intelectual caso assim possam ser consideradas as conexões simbólicas E em segundo lugar tudo isso que é antigo e infantil e que em certa época foi dominante e dominante sozinho hoje deve ser atribuído ao inconsciente acerca do qual nossas idéias agora se estão modificando e ampliando Inconsciente já não é mais o nome daquilo que é latente no momento o inconsciente é um dos reinos da mente com seus próprios impulsos plenos de desejos seu modo de expressão próprio e com seus mecanismos mentais específicos que não vigoram em outros setores No entanto os pensamentos oníricos latentes que descobrimos ao interpretar sonhos não pertencem a este reino são ao contrário pensamentos iguais àqueles que poderíamos ter pensado na vida desperta Não obstante são inconscientes Como então se pode solucionar esta contradição Começamos a suspeitar que aqui deve ser estabelecida uma distinção Alguma coisa que deriva de nossa vida consciente e compartilha de suas características nós a denominamos resíduos diurnos combinase com alguma outra coisa proveniente dos domínios do inconsciente a fim de se construir um sonho A elaboração onírica se realiza entre estes dois componentes A influência exercida sobre os resíduos diurnos pela adição do inconsciente está sem dúvida entre os determinantes da regressão Esta é a mais profunda compreensão que podemos obter aqui da natureza essencial dos sonhos até havermos investigado outras regiões da mente Logo contudo advirá a época de dar outro nome ao caráter inconsciente dos pensamentos oníricos latentes a fim de diferenciálo do inconsciente oriundo dos domínios do infantilPodemos naturalmente levantar uma outra questão paralela Que coisa força a atividade psíquica durante o sono a fazer esta regressão Por que não remove os estímulos mentais que perturbam o sono sem causar esta regressão E se para fins de censura de sonhos tem de fazer uso de disfarce utilizandose do modo de expressão antigo agora ininteligível qual o motivo de reviver também os impulsos desejos e traços de caráter mentais antigos que hoje em dia estão superados de fazer uso da regressão material além da regressão formal A única resposta que poderia nos satisfazer é que apenas desta forma pode um sonho ser construído e que não seria dinamicamente possível o estímulo do sonho ser eliminado de outra maneira Por enquanto não temos o direito de dar tal resposta contudo CONFERÊNCIA XIV REALIZAÇÃO DE DESEJO SENHORAS E SENHORES Deverei fazêlos lembraremse mais uma vez dos assuntos sobre os quais discorremos até aqui De como quando começamos a aplicar nossa técnica defrontamonos com a deformação dos sonhos de como pensávamos a respeito da natureza essencial dos sonhos a partir dos sonhos de crianças De como após munidos daquilo que aprendêramos dessa pesquisa acometemos diretamente a deformação onírica e segundo espero vencemola passo a passo Somos levados a admitir entretanto que as coisas que descobrimos por uma e por outra via não se harmonizam inteiramente Será nossa tarefa juntar as duas séries de descobertas e ajustálas entre si Verificamos partindo de ambas as fontes de informação que a elaboração onírica consiste essencialmente na transformação dos pensamentos em uma experiência alucinatória É por demais misterioso o modo pelo qual isso pode acontecer é contudo um problema de psicologia geral que propriamente não nos interessa aqui Ficamos sabendo pelos sonhos de crianças que a intenção da elaboração onírica é eliminar o estímulo mental perturbador do sono por meio da realização de um desejo Dos sonhos deformados não podíamos dizer nada semelhante até descobrirmos como interpretálos Desde o início porém nossa expectativa era a de podermos considerar os sonhos deformados sob o mesmo prisma que os sonhos de crianças A primeira confirmação desta expectativa nos foi dada pela descoberta de que na realidade todos os sonhos são sonhos de crianças que eles operam com o mesmo material infantil com os impulsos e mecanismos mentais da infância Agora que acreditamos haver superado a deformação onírica devemos prosseguir e investigar se nossa visão a respeito dos sonhos como realização de desejos também é válida para os sonhos deformadosHá pouco tempo submetemos uma série de sonhos à interpretação porém deixamos completamente fora de cogitação a realização de desejos Estou certo de que os senhores repetidamente devem ter sido levados a se perguntarem de si para si Onde porém está a realização de desejos que se supõe ser o objetivo da elaboração onírica A pergunta é importante porque é aquela levantada por nossos críticos leigos Os seres humanos como os senhores sabem possuem uma tendência natural a repelir inovações intelectuais Uma das formas pelas quais se manifesta esta tendência é a imediata redução da novidade às suas menores proporções comprimindoa se possível em um simples verbete Realização de desejo tornouse o verbete para a nova teoria dos sonhos O leigo pergunta Onde está a realização de desejo Instantaneamente tendo ouvido falar que se supõe serem os sonhos realizações de desejos no próprio ato de emitir a pergunta ele a responde com uma rejeição Imediatamente pensa em inumeráveis experiências suas com sonhos nas quais o sonho foi acompanhado por sentimentos que vão desde o desagradável até uma acentuada ansiedade de modo que a afirmação feita pela teoria psicanalítica dos sonhos parecelhe muitíssimo improvável Não temos dificuldade em responder que nos sonhos deformados a realização de desejo pode não estar evidente porém deve ser buscada de modo que é impossível evidenciarse depois que o sonho for interpretado Sabemos também que os desejos nesses sonhos deformados são desejos proibidos rejeitados pela censura e a existência desses desejos justamente foi a causa da deformação onírica o motivo da intervenção da censura dos sonhos Contudo é difícil fazer o crítico leigo entender que antes de um sonho ser interpretado não se pode investigar a respeito da realização do desejo desse sonho Ele continuará esquecendo este aspecto Sua rejeição da teoria da realização de desejo realmente não é mais que uma conseqüência de censura dos sonhos um substituto da rejeição dos desejos oníricos censurados e uma decorrência da mesma Naturalmente também sentimos a necessidade de explicar a nós próprios por que existem tantos sonhos de conteúdo aflitivo e especialmente por que existem sonhos de ansiedade Aqui pela primeira vez encontramos o problema dos afetos nos sonhos mereceria uma monografia à parte porém infelizmente não o adentraremos Se os sonhos são realizações de desejos deveria ser impossível surgirem neles os sentimentos desagradáveis então pareceria que as críticas leigas teriam razão Devese contudo levar em conta três tipos de complicações de que ainda não se havia cogitado 1 Em primeiro lugar pode ser que a elaboração onírica não tenha conseguido criar uma realização de desejo assim parte do afeto aflitivo dos pensamentos oníricos ficou excedente no sonho manifesto Nesse caso a análise teria de demonstrar que estes pensamentos oníricos eram muito mais desagradáveis do que o sonho que foi construído a partir deles Que sempre se pode provar muita coisa Sendo assim devemos admitir que a elaboração onírica atingiu seu objetivo em grau não maior do que o sonho com beber o qual formado em resposta ao estímulo da sede não conseguiu aplacar a sede ver em 1 e seg Aquele que tem um tal sonho permanece com sede e tem de acordar para tomar algo Não obstante era um sonho verdadeiro e não perdera nada da natureza essencial de um sonho Podemos apenas dizer Ut desint vires tamen est laudanda voluntas A intenção pelo menos que pode ser definidamente reconhecida merece ser valorizada Tais casos de fracasso não são eventos raros Concorre para isto o fato de que é muito mais difícil a elaboração onírica alterar o sentido dos afetos de um sonho do que o seu conteúdo os afetos às vezes são altamente resistentes O que então acontece é a elaboração onírica transformar o conteúdo aflitivo dos pensamentos oníricos na realização de um desejo ao passo que o afeto desagradável persiste inalterado Em sonhos dessa espécie o afeto é bastante inadequado ao conteúdo e nossos críticos podem dizer que os sonhos tão distante estão de serem realizações de desejos que mesmo mantendo um conteúdo inócuo podem ser sentidos como aflitivos Podemos responder a este comentário superficial assinalando que é precisamente em sonhos dessa natureza que o propósito realizador de desejos da elaboração onírica aparece mais claramente por ter sido isolado O erro surge porque àqueles que não estão familiarizados com as neuroses se lhes afigura demasiado íntimo o vínculo entre conteúdo e afeto e portanto não podem imaginar que o conteúdo seja alterado sem uma alteração simultânea da expressão do afeto ligado a ele2 Um segundo fator muito mais importante e de grande alcance contudo igualmente negligenciado pelos leigos apresentase a seguir Não há dúvida de que uma realização de desejo deve proporcionar prazer mas então surge a pergunta A quem À pessoa que tem o desejo naturalmente Mas como sabemos a relação do sonhador para com seus desejos é uma relação muito especial Ele os repudia e os censura não tem nenhuma simpatia por eles em suma De modo que sua realização não lhe dará prazer e sim o oposto e a experiência mostra que este oposto aparece sob a forma de ansiedade um fato ainda a explicar Assim aquele que sonha em sua relação com seus desejos oníricos só pode ser comparado à amálgama de duas pessoas separadas que estão ligadas por algum forte elemento em comum Em vez de estenderme sobre isto recordarei para os senhores um conhecido conto de fadas no qual encontrarão a mesma situação repetida Uma fada boa prometeu a um casal pobre assegurarlhe a realização dos seus três primeiros desejos Eles ficaram jubilosos e puseramse a pensar em como escolher cuidadosamente seus três desejos Mas um cheiro de lingüiça frita proveniente da casa próxima tentou a mulher a desejar algumas lingüiças Num relâmpago ali estavam as lingüiças e esta foi a primeira realização de desejo Mas o marido se enfureceu e em sua raiva desejou que as lingüiças ficassem dependuradas no nariz da mulher E foi isto o que também aconteceu e não havia como retirálas dessa nova posição Esta foi a segunda realização de desejo mas o desejo era do homem e a sua realização foi muito desagradável para sua mulher Os senhores sabem o restante da história Visto que afinal eles eram de fato um marido e mulher o terceiro desejo não podia ser senão o de que as lingüiças se desprendessem do nariz da mulher Este conto de fadas poderia ser usado em relação a muitas outras coisas mas aqui serve apenas para ilustrar a possibilidade de que se duas pessoas não estão de acordo uma com a outra a realização de um desejo de uma delas não pode senão causar desprazer à outra Agora não nos será difícil conseguir compreender melhor ainda os sonhos de ansiedade Apresentaremos uma nova observação e então nos decidiremos a adotar a hipótese a favor da qual há muito que dizer A observação consiste em que os sonhos de ansiedade freqüentemente possuem um conteúdo por assim dizer que escapou à censura Um sonho de ansiedade muitas vezes é a realização indisfarçada de um desejo não naturalmente de um desejo inaceitável mas de um desejo repudiado A geração da ansiedade assumiu o lugar da censura Ao passo que de um sonho infantil podemos dizer ser ele a realização franca de um desejo permitido e de um sonho deformado como sendo a realização disfarçada de um desejo reprimido a única fórmula adequada a um sonho de ansiedade consiste em que este é a realização franca de um desejo reprimido A ansiedade é um sinal de que o desejo reprimido se mostrou mais forte que a censura que ele levou a cabo ou está a ponto de levar a cabo sua realização de desejo apesar da censura Percebemos que aquilo que para o desejo é uma realização de desejo para nós só pode ser de vez que estamos do lado da censura motivo de sentimentos angustiantes e de repulsa ao desejo A ansiedade que emerge nos sonhos é se preferem ansiedade face à força destes desejos que normalmente estão sob controle A razão por que esta repulsa aparece na forma da ansiedade não pode ser descoberta apenas a partir do estudo dos sonhos a ansiedade deve ser estudada evidentemente em outro contextoPodemos supor que aquilo que é verdadeiro para os sonhos de ansiedade nãodeformados também se aplica àqueles parcialmente deformados assim como a outros sonhos desprazíveis nos quais os sentimentos desagradáveis provavelmente correspondem a uma aproximação da ansiedade Sonhos de ansiedade via de regra são também sonhos que fazem despertar habitualmente interrompemos nosso sono antes que o desejo reprimido no sonho tenha executado a realização completa apesar da censura Nesse caso a função do sonho fracassou mas sua natureza essencial não foi modificada com isto Temos comparado os sonhos com o vigia noturno ou guardião do sono que procura proteger nosso sono contra perturbações ver em 1 O vigia noturno também pode chegar ao ponto de acordar a pessoa que dorme se sente que é por demais fraco para sozinho afugentar a perturbação ou o perigo Ainda assim às vezes conseguimos continuar nosso sono mesmo quando o sonho começa a ficar inseguro e a transformarse em ansiedade Dizemos a nós mesmos em nosso sono afinal é apenas um sonho e continuamos dormindoQuando ocorre que um desejo onírico consegue sobrepujar a censura A condição necessária para isto pode ser preenchida tanto pelo desejo onírico como pela censura do sonho O desejo devido a uma causa desconhecida pode ser excessivamente forte em uma ocasião mas temse a impressão de que com mais freqüência a conduta da censura do sonho é a responsável por este deslocamento de suas forças relativas Já vimos ver em 1 que a censura atua com intensidade variável em cada caso particular que ela trata cada elemento de um sonho com um grau diferente de severidade Agora podemos acrescentar mais uma hipótese no sentido de que em geral a censura é muito variável e não emprega igual severidade para com cada elemento censurável Caso suceda em dada ocasião sentirse sem forças contra um desejo onírico que ameaça tomála de surpresa em vez da deformação ela se utiliza de seu último recurso restante e abandona o estado de sono ao mesmo tempo gerando ansiedadeNessa conexão surpreendenos o fato de ainda ignorarmos tanto por que esses desejos maus repudiados se tornam ativos justamente à noite e nos perturbam durante o sono A resposta praticamente não pode deixar de se fundamentar em alguma hipótese relativa à natureza do estado de sono Durante o dia uma pesada censura os oprime e via de regra lhes torna impossível manifestarse em qualquer atividade À noite esta censura assim como todos os demais interesses da vida mental provavelmente está afastada ou pelo menos muito reduzida em benefício apenas do desejo de dormir É a essa diminuição da censura à noite que os desejos proibidos devem agradecer por poderem se tornar novamente ativos Há alguns pacientes neuróticos que são incapazes de dormir e admitem que sua insônia foi inicialmente intencional Não ousavam dormir porque temiam os seus sonhos isto é temiam os resultados do enfraquecimento da censura Os senhores constatarão com facilidade entretanto que a despeito disto o afastamento da censura não importa em grande desorganização O estado de sono paralisa nossa capacidade motora Se nossas intenções más começam a perturbar elas podem afinal causar nada mais do que simplesmente um sonho que é inócuo do ponto de vista prático É esta consideração apaziguadora a base de comentário altamente inteligente feito por aquele que está sonhando à noite é verdade mas não formando parte da vida onírica Afinal é apenas um sonho Deixemos que ele siga seu caminho continuemos dormindo3 Em terceiro lugar se os senhores se recordarem de nossa idéia de que o sonhador lutando contra seus próprios desejos pode ser comparado à soma de duas pessoas separadas embora de algum modo em íntima conexão uma com a outra compreenderão mais uma possibilidade Porque existe uma possibilidade de que a realização de um desejo venha a causar algo nada prazeroso ou seja uma punição Aqui novamente podemos utilizar como ilustração o conto de fadas dos três desejos As lingüiças fritas em um prato eram realização direta do desejo da primeira pessoa a mulher As lingüiças grudadas em seu nariz eram a realização do desejo da segunda pessoa o marido contudo eram ao mesmo tempo uma punição pelo desejo tolo da mulher Nas neuroses descobriremos o motivo do terceiro desejo o último que restava no conto de fadas Existem várias dessas tendências punitivas na vida mental dos seres humanos são muito poderosas e podemos atribuirlhes a responsabilidade de alguns dos sonhos aflitivos Agora talvez os senhores dirão que com isto resta muito pouco da famosa realização de desejo Ao considerarem a questão mais detidamente porém admitirão que se enganaram Comparada com a multiplicidade que mencionarei mais adiante de coisas que os sonhos podem ser e segundo muitas autoridades realmente são nossa solução realização de desejo realização de ansiedade realização de punição é muito restrita Podemos acrescentar que a ansiedade é o oposto direto do desejo que os opostos se encontram muito próximos um do outro nas associações e que no inconsciente eles se unem ver em 1 e segs e ademais que a punição também é a realização de um desejo do desejo da outra pessoa a que censura No conjunto portanto não fiz concessão à objeção dos senhores contra a teoria da realização de desejo Competenos porém sermos capazes de indicar a realização de desejo em todo sonho deformado que pudermos encontrar e por certo não fugiremos à tarefa Retornemos ao sonho que já interpretamos o sonho dos três ingressos ruins por 1 florim e meio ver em 1 e 2 do qual já aprendemos tanto Espero que se recordem dele Uma senhora cujo marido lhe havia dito durante o dia que sua amiga Elise que era só três meses mais nova que ela havia noivado sonhou que estava no teatro com seu marido Um dos lados da primeira fila de cadeiras estava quase vazio Seu marido dizialhe que Elise e seu noivo também tinham desejado ir ao teatro mas não puderam pois apenas tinham conseguido lugares ruins três por 1 florim e meio Ela pensou que não teria havido nenhum prejuízo se tivessem ido Verificamos que os pensamentos oníricos estavam relacionados à sua irritação por haver casado tão cedo e à sua insatisfação com seu marido Talvez tenhamos a curiosidade de descobrir como estes pensamentos sombrios se transformaram numa realização de desejo e onde se pode encontrar algum vestígio do mesmo no conteúdo manifesto do sonho Já sabemos que o elemento muito cedo apressadamente foi eliminado do sonho pela censura ver em 1 e 2 As cadeiras vazias eram uma alusão a esse elemento O misterioso três por 150 florim agora se nos torna mais inteligível com a ajuda do simbolismo com o qual nesse meio tempo nos familiarizamos O 3 realmente significa um homem ou marido e o elemento manifesto é fácil de traduzir comprar um marido com o dote dela Eu poderia ter conseguido um dez vezes melhor com meu dote Casar está claramente substituído por ir ao teatro Comprar os ingressos cedo demais é realmente um substituto imediato de casar cedo demais Esta substituição é porém obra da realização de um desejo Essa mulher nem sempre estava tão insatisfeita com seu casamento precoce como estava no dia em que recebeu a notícia do noivado de sua amiga Em certa época tinha estado orgulhosa do seu casamento e consideravase em vantagem sobre sua amiga Como se sabe moças ingênuas depois de haverem noivado freqüentemente expressam seu contentamento por poderem em breve ir ao teatro a todas as peças que até então foram proibidas e terem permissão de ver tudo O prazer de olhar ou a curiosidade que nisto se revela era sem dúvida originalmente um desejo sexual de olhar escopofilia dirigido para os eventos sexuais e especialmente para os pais das moças daí haverse tornado poderoso motivo para induzilas a um casamento precoce Assim sendo freqüentar o teatro tornouse mediante uma alusão um substituto óbvio de estar casada Por tanto essa senhora que sonhou em sua atual irritação com seu casamento precoce retrocedeu ao tempo em que o casamento precoce constituía a realização de um desejo porque satisfazia a sua escopofilia e levada por esse antigo impulso pleno de desejo substituiu casamento por ir ao teatroNão posso ser acusado de ter selecionado especialmente o exemplo mais conveniente para provar uma oculta realização de desejo O procedimento haveria de ter sido o mesmo no caso de outros sonhos deformados Não posso demonstrarlhes isto agora e apenas expressarei minha convicção de que sempre poderia ser executado com êxito Entretanto determeei um pouco mais neste ponto teórico A experiência ensinoume que este é um dos pontos mais expostos a ataque em toda a teoria dos sonhos e que muitas contradições e equívocos se originam nele Ademais disso os senhores talvez ainda se encontrem sob a impressão de que já retirei parte da minha afirmação ao dizer que um sonho é um desejo realizado ou o oposto de um desejo realizado ou uma ansiedade ou uma punição realizada e os senhores podem pensar que esta é uma oportunidade para me forçarem a outras restrições Também tenho sido censurado por apresentar coisas que me parecem óbvias sob forma por demais concisa e em conseqüência nãoconvincente Quando alguém nos acompanhou até aqui na interpretação dos sonhos e aceitou tudo que foi apresentado até este ponto amiúde sucede que faz uma pausa na realização de desejo e diz Já que os sonhos sempre tem um sentido e este sentido pode ser descoberto pela técnica da psicanálise por que deve este sentido com todas as evidências em contrário ser enquadrado à força dentro da fórmula da realização de desejo Por que não deveria o sentido deste pensar noturno ser de tantas espécies quantas são o do pensar diurno Ou seja por que não deveria um sonho muitas vezes corresponder a um desejo realizado às vezes como o senhor mesmo o diz ao oposto desse desejo ou a um medo realizado mas às vezes exprimir uma intenção uma advertência uma reflexão com os seus prós e contras ou uma reprovação um escrúpulo de consciência uma tentativa de se preparar para uma tarefa urgente e assim por diante Por que deve ser sempre apenas um desejo ou quando muito o oposto do desejo Poderseia pensar que uma diferença de opinião neste ponto não tem importância se se concorda no restante Poderseia dizer que basta havermos descoberto o sentido dos sonhos e a maneira de reconhecêlo é de somenos importância se parecemos definir de maneira muito restrita esse sentido Não é isso porém Um equívoco neste ponto afeta a essência de nossas descobertas sobre os sonhos e põe em perigo o valor das mesmas para a compreensão das neuroses Além disso um acordo dessa espécie que é muito cogitado na vida comercial como sendo uma cortesia não tem acolhida em assuntos científicos por ser prejudicial Minha primeira resposta à pergunta de saber por que os sonhos não possuem numerosas significações no sentido indicado é a que costumo dar em tais casos Não sei por que não possuem Não teria o que objetar Na parte que me interessa poderia ser assim Existe apenas um detalhe nessa questão de um conceito mais vasto e mais cômodo dos sonhos é que na realidade não é assim Minha segunda resposta seria que a hipótese de que os sonhos correspondem a uma variedade de formas de pensar e de operações intelectuais não me é estranha a mim próprio Já certa vez relatei um sonho em um de meus casos clínicos o qual apareceu por três noites sucessivas e depois nunca mais e expliquei essa conduta com o fato de que o sonho correspondia a uma intenção e não necessitava repetirse depois de a intenção ter sido realizada Mais tarde publiquei um sonho que corresponde a uma aprovação Portanto como poderei contradizerme e afirmar que os sonhos jamais são outra coisa senão um desejo realizadoFaçoo porque não deixarei passar um equívoco tolo que pode nos roubar o fruto de nossos esforços com os sonhos um equívoco que confunde o sonho com os pensamentos oníricos latentes e afirma acerca daquele algo que se aplica somente a este Pois é bastante correto dizer que o sonho pode representar e ser substituído por tudo aquilo que os senhores há pouco enumeraram uma intenção uma advertência uma reflexão uma preparação uma tentativa de solucionar um problema e assim por diante Se examinarem atentamente verão todavia que tudo isso se aplica somente aos pensamentos oníricos latentes que foram transformados em sonho Os senhores sabem das interpretações de sonhos que o pensar inconsciente das pessoas centrase nessas intenções preparações reflexões e assim por diante a partir das quais a elaboração onírica então forma os sonhos Se no momento os senhores não estão interessados na elaboração onírica estiverem contudo muito interessados na atividade ideativa inconsciente das pessoas então os senhores eliminam a elaboração onírica e dizem do sonho o que na prática é bastante correto que ele corresponde a uma advertência uma intenção e assim por diante O que freqüentemente acontece na atividade psicanalítica é que nossos esforços se dirigem principalmente para a eliminação da forma onírica e visam a inserir no contexto em vez da forma onírica os pensamentos latentes com os quais o sonho foi feitoAssim bastante incidentalmente constatamos de nosso exame dos pensamentos oníricos latentes que todos estes atos mentais altamente complexos que citamos podem realizarse inconscientemente uma descoberta tão grandiosa quanto surpreendenteMas voltando atrás os senhores somente estarão corretos enquanto tiverem plena consciência de haver usado uma forma abreviada de expressão e enquanto não acreditarem que a multiplicidade que descreveram deve estar relacionada à natureza essencial dos sonhos Quando falam de sonho devem querer significar ou o sonho manifesto isto é o produto da elaboração onírica ou no máximo também a própria elaboração onírica isto é o processo psíquico que forma o sonho manifesto a partir dos pensamentos oníricos latentes Qualquer outro uso da palavra significa confusão de idéias e só pode levar a maus resultados Quando estiverem fazendo afirmações acerca dos pensamentos latentes por trás do sonho façamno diretamente e não obscureçam o problema dos sonhos com uma forma negligente de falar Os pensamentos oníricos latentes são o material que a elaboração onírica transforma em sonho manifesto Por que teriam de confundir o material com a atividade que o forma Com isto que vantagem os senhores teriam sobre aqueles que apenas conheceram o produto dessa atividade e não puderam explicar de onde veio ou como foi feitoA única coisa essencial a respeito de sonhos é a elaboração onírica que modificou o material ideativo Não temos o direito de ignorála em nossa teoria ainda que a negligenciemos em algumas situações práticas A observação analítica demonstra também que a elaboração onírica nunca se limita a traduzir esses pensamentos em um modo de expressão arcaico ou regressivo que os senhores conhecem Ademais regularmente se apossa de mais alguma coisa que não faz parte dos pensamentos latentes do dia anterior mas que é a verdadeira força propulsora da construção do sonho Este acréscimo indispensável é o desejo igualmente inconsciente para cuja realização o conteúdo do sonho recebe sua nova forma Portanto um sonho pode ser qualquer espécie de coisas desde que os senhores estejam apenas tomando em consideração os pensamentos que representa uma advertência uma intenção uma preparação e assim por diante mas também é sempre a realização de um desejo inconsciente e se os senhores o considerarem produto da elaboração onírica ele é isto somente Assim sendo um sonho nunca é simplesmente uma intenção ou uma advertência mas sempre uma intenção etc traduzida para o modo arcaico de pensamento mediante o auxílio de um desejo inconsciente e transformada para realizar esse desejo Ver em 1 Esta característica a de realização de desejo é a característica invariável as demais podem variar Pode por seu turno mais uma vez ser um desejo e neste caso o sonho com auxílio de um desejo inconsciente representará como realizado um desejo latente do dia anteriorEu consigo compreender tudo isto muito claramente mas não posso dizer se consegui tornálo inteligível também para os senhores E também tenho dificuldade em lho demonstrar Isso não pode ser feito sem cuidadosamente analisar muitíssimos sonhos e por outro lado esse aspecto tão importante e tão crítico de nosso conceito dos sonhos não pode ser convincentemente apresentado sem nos referirmos àquilo que vem depois É impossível supor de vez que tudo é intimamente interrelacionado que se possa penetrar profundamente na natureza de uma coisa sem que se tenha levado em conta coisas de natureza semelhante Como ainda não sabemos nada dos parentes mais próximos dos sonhos os sintomas neuróticos mais uma vez devemos contentarnos neste ponto com o que temos conseguido Quero apenas darlhes só mais um exemplo ilustrativo e exporlhes uma nova idéia Retomemos o sonho ao qual retornamos tantas vezes o sonho dos três ingressos de teatro por 1 florim e meio Posso assegurarlhes que inicialmente escolhi este exemplo sem qualquer propósito especial em vista Os senhores conhecem os pensamentos oníricos latentes irritação por ter tido tanta pressa de casar o que surgiu quando ela ouviu a notícia de que sua amiga só então acabava de noivar atribuindo pouco valor a seu marido e a idéia de que poderia ter conseguido um marido melhor se ela ao menos tivesse esperado Já conhecemos o desejo que fez desses pensamentos um sonho era o desejo de olhar de poder ir ao teatro muito provavelmente uma derivação de sua antiga curiosidade de descobrir afinal o que realmente acontece quando uma pessoa casa Esta curiosidade conforme sabemos as crianças dirigemna regularmente à vida sexual dos pais tratase de curiosidade infantil e na medida em que ainda persiste mais tarde de um impulso instintual com raízes que remontam à infância A notícia que a sonhadora recebeu durante o dia não proporcionou a ocasião de despertar este desejo de olhar mas apenas despertou irritação e desgosto Este impulso pleno de desejo não se encontrava à primeira vista em conexão com os pensamentos oníricos latentes e poderíamos incluir o resultado da interpretação do sonho na análise sem levar em conta esse impulso A irritação de per se contudo não era capaz de criar um sonho Um sonho não poderia surgir a partir dos pensamentos de que foi absurdo casar tão cedo a não ser quando estes despertaram o antigo desejo de ver até que enfim o que acontece no casamento Este desejo então deu ao conteúdo do sonho a sua forma substituindo casamento por ir ao teatro e a forma foi a de uma anterior realização de desejo Toma agora eu posso ir ao teatro e vez tudo o que é proibido e tu não podes Estou casada e tu tens que esperar Desse modo sua presente situação foi transformada em seu oposto um velho triunfo se colocou no lugar de sua recente frustração E aliás a satisfação de sua escopofilia misturouse à satisfação de sua tendência competitiva egoística Esta satisfação determinou então o conteúdo manifesto do sonho no qual a situação real consistia em que ela estava no teatro ao passo que a amiga não conseguia obter ingresso ao mesmo As partes do conteúdo do sonho atrás das quais os pensamentos oníricos latentes ainda permanecem escondidos foram superpostas a essa situação de satisfação como modificação equívoca e ininteligível da mesma A interpretação do sonho teve de desprezar tudo quanto serviu para representar a realização de desejos e de restabelecer os pensamentos oníricos latentes aflitivos diferenciandoos desses obscuros indícios remanescentesA nova idéia que desejo apresentarlhes é atrair sua atenção para os pensamentos oníricos latentes que agora se colocaram em primeiro plano Peçolhes que não se esqueçam de que em primeiro lugar eles são inconscientes para o sonhador e em segundo lugar de que ele são completamente racionais e coerentes de modo que podem ser compreendidos como reações naturais à causa precipitante do sonho e em terceiro lugar de que eles podem ser o equivalente de qualquer impulso mental ou operação intelectual Agora descreverei estes pensamentos mais estritamente do que antes como resíduos diurnos admitaos ou não a pessoa que teve o sonho E farei a distinção entre os resíduos diurnos e os pensamentos oníricos latentes e de conformidade com o uso que fizermos anteriormente designarei como pensamentos oníricos latentes tudo o que constatamos na interpretação do sonho enquanto os resíduos diurnos constituem apenas uma parte dos pensamentos oníricos latentes Pensamos pois que alguma coisa se acrescenta aos resíduos diurnos algo que também fazia parte do inconsciente um impulso pleno de desejos poderoso porém reprimido e é este somente que torna possível a construção do sonho A influência deste impulso pleno de desejos sobre os resíduos diurnos cria a outra parte dos pensamentos oníricos latentes essa parte que já não necessita parecer racional e inteligível como se fosse derivada da vida despertaTenho usado de uma analogia para ilustrar a relação entre os resíduos diurnos e o desejo inconsciente e aqui posso apenas repetila Em todo empreendimento é preciso haver um capitalista que cobre as despesas e um entrepreneur que tem a idéia e sabe como pôla em prática Na construção dos sonhos o papel do capitalista é sempre desempenhado apenas pelo desejo inconsciente este prove a energia psíquica para a construção do sonho O entrepreneur é o resíduo diurno que decide como deve ser usado este dispêndio de energia Naturalmente é possível o próprio capitalista ter a idéia e o conhecimento técnico ou o próprio entrepreneur ter o capital Isto simplifica a situação prática porém dificulta a compreensão teórica Em economia a mesma pessoa se encontra constantemente dividida em seus dois aspectos de capitalista e de entrepreneur e isto restabelece a situação fundamental em que se baseou nossa analogia Na construção onírica as mesmas flutuações acontecem e deixo que os senhores as complementemNeste ponto não podemos progredir mais pois os senhores provavelmente há muito têm sido perturbados por uma dúvida e esta merece atenção Os resíduos diurnos os senhores me perguntarão são realmente inconscientes no mesmo sentido que o desejo inconsciente que deve ser acrescentado a eles a fim de tornálos capazes de produzir um sonho A suposição dos senhores está correta Este é o ponto saliente em todo este assunto Não são inconscientes no mesmo sentido O desejo onírico pertence a um inconsciente diferente àquele inconsciente que já reconhecemos como tendo uma origem infantil e mecanismos peculiares ver em 1 e 2 Seria muito oportuno distinguir essas duas espécies de inconscientes por meio de nomes diferentes Preferiríamos porém esperar até nos familiarizarmos com a área dos fenômenos das neuroses As pessoas consideram um tanto fantástico haver um só inconsciente Que dirão quando confessarmos que temos de nos haver com doisVamos interromper neste ponto Mais uma vez os senhores ouviram somente algo incompleto No entanto não é promissor pensar que este conhecimento tem uma continuação que ou nós mesmos ou outras pessoas iremos elucidar E nós mesmos já não aprendemos tantas coisas novas e surpreendentes CONFERÊNCIA XV INCERTEZAS E CRÍTICAS SENHORAS E SENHORES Não deixaremos o tema dos sonhos sem abordarmos as dúvidas e incertezas mais comuns que nossas inovações e nossas teorias originaram até aqui Os senhores mesmos ouvintes atentos terão coligido algumas junto ao material de que tratamos 1 Os senhores podem ter tido a impressão de que embora a técnica seja corretamente executada as descobertas de nosso trabalho interpretativo de sonhos admitem tantas incertezas que chegam a invalidar qualquer tradução segura do sonho manifesto para os pensamentos oníricos latentes Em apoio a isso os senhores argumentarão que em primeiro lugar nunca se sabe se um determinado elemento do sonho deve ser entendido no seu sentido realçou na qualidade de símbolo pois as coisas empregadas como símbolos não deixam de por este motivo ser elas mesmas Se no entanto não se dispõe de indício objetivo para resolver isto a interpretação nesse ponto deve ser deixada à escolha arbitrária do interpretador Ademais em conseqüência do fato de que na elaboração onírica os contrários se fundem sempre permanece indeterminado se certo elemento deve ser compreendido em sentido positivo ou negativo como sendo ele próprio ou como sendo o seu contrário ver em 1 Aqui está uma nova oportunidade de o interpretador exercer uma escolha arbitrária Em terceiro lugar em conseqüência de inversões de toda espécie tão ao gosto dos sonhos ver em 1 é facultado ao interpretador efetuar uma inversão dessas em relação a qualquer passagem do sonho que venha a escolher E por fim comentarão que ouviram dizer que jamais se tem certeza de que a interpretação que se encontrou para um sonho é a única possível Corremos o risco de passar por alto uma superinterpretação perfeitamente admissível do mesmo sonho ver em 1 Nestas circunstâncias concluirão os senhores deixase tanta margem para a decisão arbitrária do interpretador que esta se torna incompatível com a certeza objetiva dos dados Ou alternativamente podem supor que a falha não se situa nos sonhos mas que as inexatidões de nossa interpretação de sonhos devem ser atribuídas a erros em nossos pontos de vista e em nossas premissasTodos os elementos que os senhores apresentam são indiscutíveis porém segundo penso não justificam suas conclusões em dois aspectos ou seja que a interpretação de sonhos como insistem os senhores esteja à mercê da escolha arbitrária e que a falta de resultados lance dúvidas sobre a correção de nosso método Se em lugar da escolha arbitrária feita pelo interpretador os senhores se referissem à sua habilidade à sua experiência e à sua compreensão eu concordaria com os senhores Naturalmente não podemos dispensar um fator pessoal como este especialmente nos problemas mais difíceis da interpretação de sonhos A situação não é porém nada diferente em outras áreas científicas Não há como evitar que uma pessoa faça melhor uso de uma técnica que de outra Em outros termos aquilo que dá a impressão de casualidade na interpretação de sonhos por exemplo é desfeito pelo fato de via de regra a interconexão entre pensamentos oníricos ou a conexão entre o sonho e a vida de quem sonha ou a situação psíquica global em que ocorre o sonho selecionar uma só entre as soluções possíveis apresentadas dispensando as demais como inservíveis A conclusão de que por causa das imperfeições na interpretação de sonhos nossas hipóteses seriam incorretas é invalidada assinalandose que ao contrário a ambigüidade ou a indefinição é uma característica dos sonhos que era de se prever necessariamenteRecordemos haver dito que a elaboração onírica executa uma versão dos pensamentos oníricos segundo um modo de expressão primitivo semelhante à escrita pictográfica ver em 1 e segs No entanto todos esses sistemas primitivos de expressão se caracterizam por indefinição e ambigüidade semelhante não justificando que lancemos dúvidas sobre sua serventia A fusão dos contrários na elaboração onírica é como sabem análoga à chamada significação antitética das palavras primitivas nos idiomas mais antigos Realmente Abel 1884 o filólogo ao qual devemos essa linha de pensamento nos pede não supormos que as comunicações feitas por uma pessoa a outra com a ajuda de tais palavras ambivalentes sejam por essa razão ambíguas Pelo contrário entonação e gestos devem têlas feito muito precisas no contexto do discurso indicando qual dos dois contrários o interlocutor tencionava comunicar Na escrita onde o gesto está ausente seu lugar era ocupado por um sinal pictográfico que não se destinava a ser falado por exemplo pela figura de um homenzinho agachado e cambaleando ou firmemente ereto conforme o hieróglifo ken devesse significar fraco ou forte Assim apesar da ambigüidade dos sons e sinais evitavase o equívoco Ver em 1 e 2 anteriores Os antigos sistemas de expressão por exemplo a escrita dos idiomas mais antigos revelam vaguidade em uma variedade de formas tal que não toleraríamos em nossa escrita atual Assim em algumas escritas semíticas somente estão indicadas as consoantes das palavras O leitor deve inserir as vogais omitidas segundo seus conhecimentos e o contexto A escrita hieroglífica se comporta de forma similar embora não precisamente da mesma maneira e por este motivo permanece desconhecida para nós a pronúncia do antigo idioma egípcio A escrita sagrada dos egípcios é importante também em outros aspectos Por exemplo compete à decisão arbitrária do escriba dispor as figuras da direita para a esquerda ou da esquerda para a direita A fim de proceder à sua leitura devese seguir a regra de ler em direção aos rostos das figuras pássaros e assim por diante Porém o escriba também podia ordenar os sinais pictográficos em colunas verticais e ao fazer inscrições em objetos comparativamente pequenos permitia que considerações de decoração e espaço o influenciassem no sentido de alterar a seqüência dos sinais de outras maneiras O que mais perturba na escrita hieroglífica é sem dúvida o fato de não haver separação entre as palavras As figuras são dispostas na página separadas por distâncias iguais em geral é impossível dizer se um sinal ainda faz parte da palavra precedente ou se forma o começo de uma nova palavra Na escrita cuneiforme persa por outro lado uma cunha oblíqua serve para separar as palavras Idioma e escrita extremamente antigos o chinês ainda é usado por quatrocentos milhões de pessoas Os senhores não devem supor que eu absolutamente o entenda somente obtive algumas informações sobre o mesmo porque esperava encontrar nele analogias com a imprecisão dos sonhos E minha expectativa não sofreu desapontamento O idioma chinês está cheio de exemplos de imprecisão que poderiam nos deixar muito alarmados Como se sabe compõese de numerosos sons silábicos que são falados isolados ou combinados aos pares Um dos principais dialetos possui uns quatrocentos destes sons Como o vocabulário deste dialeto é calculado em cerca de quatro mil palavras porém concluise que cada som tem em média dez significados diferentes alguns menos mas outros em troca têm mais Existem numerosos métodos de evitar a ambigüidade pois não se pode inferir apenas a partir do contexto qual dos dez significados do som silábico a pessoa tenciona transmitir ao ouvinte Entre esses métodos estão aqueles que consistem em combinar dois sons em uma palavra composta e em utilizar quatro diferentes tons na pronúncia das sílabas Do ponto de vista de nossa comparação é ainda mais interessante verificar que este idioma praticamente não tem gramática É impossível dizer se uma das palavras monossilábicas é um substantivo ou um verbo ou um adjetivo e não há flexões verbais pelas quais se possa reconhecer gênero número desinência tempo e modo Assim a linguagem consta poderia dizerse apenas de matériaprima assim como nossa linguagempensamento fica reduzida através da elaboração onírica à sua matériaprima e se omite qualquer expressão de relação No idioma chinês a solução do sentido em todos os casos cabe ao entendimento de quem ouve e nisto a pessoa se guia pelo contexto Tomei nota de um exemplo de um provérbio chinês que traduzido literalmente reza assimPouca visão muita maravilhaNão é difícil compreender isto Pode significar Quanto menos alguém viu mais tem com que se maravilhar ou De muita coisa se admira aquele que viu pouco Naturalmente não há maneira de diferenciar entre estas duas versões que diferem apenas gramaticalmente Apesar desta imprecisão foinos assegurado que o idioma chinês é um veículo bastante eficiente de expressão do pensamento Assim a imprecisão não deve necessariamente produzir ambigüidadeNaturalmente devese admitir que o sistema de expressão por meio de sonhos ocupa uma posição muito mais desfavorável do que qualquer desses idiomas e escritas antigos Pois afinal destinamse estes fundamentalmente à comunicação ou seja por qualquer método e com qualquer recurso destinamse a serem compreendidos Precisamente esta característica porém está ausente nos sonhos Um sonho não pretende dizer nada a ninguém Não é um veículo de comunicação pelo contrário destinase a permanecer nãocompreendido Por essa razão não devemos nos surpreender ou ficar perplexos ao verificarmos que permanecem sem solução numerosas ambigüidades e obscuridades dos sonhos O único lucro certo que auferimos de nossa comparação é a descoberta de que esses pontos de incerteza que as pessoas tentaram usar como objeções à solidez de nossas interpretações de sonhos são ao contrário características constantes de todos os sistemas primitivos de expressãoA questão de saber até onde alcança a inteligibilidade dos sonhos somente pode ser respondida pela prática e pela experiência Muito longe creio e minha opinião é confirmada ao compararmos os resultados produzidos por analistas de formação correta O público leigo inclusive o público leigo científico como se sabe gosta de promover uma demonstração de ceticismo quando se defronta com as dificuldades e incertezas de uma realização científica Penso que nisto não têm razão Talvez nem todos os senhores estejam cientes de que uma situação semelhante surgiu na história da decifração das inscrições assíriobabilônicas Houve época em que a opinião pública esteve muito inclinada a considerar visionários os decifradores da escrita cuneiforme e a totalidade de suas pesquisas uma impostura Mas em 1857 a Royal Asiatic Society fez uma experiência decisiva Solicitou a quatro dos peritos mais altamente respeitados em escrita cuneiforme Rawlinson Hincks Fox Talbot e Oppert para remeterem em envelopes lacrados traduções independentes de uma inscrição recentemente descoberta e após uma comparação entre os quatro trabalhos pôde anunciar que a concordância entre estes peritos era suficiente para justificar o crédito que até então se havia dado e a confiança em posteriores realizações A zombaria por parte do mundo leigo culto diminuiu gradualmente após isto e desde então tem aumentado enormemente a certeza na leitura dos documentos cuneiformes2 Um segundo grupo de dúvidas está em conexão íntima com a impressão à qual certamente nem os senhores escaparam de que determinadas soluções em direção às quais nos sentimos compelidos ao interpretar sonhos parecem ser forçadas artificiais arranjadas por imposição isto é arbitrárias ou até mesmo cômicas anedóticas Comentários nesse sentido são tão freqüentes que escolherei ao acaso o último que me foi relatado Ouçam pois Na Suíça livre o diretor de uma instituição de ensino recentemente foi afastado do cargo por causa de seu interesse pela psicanálise Ele entrou com um protesto e um jornal de Berna publicou a versão das autoridades da escola sobre sua apelação Selecionarei algumas frases desse documento referentes à psicanálise Além de tudo estamos surpresos com o aspecto forçado e artificial de muitos dos exemplos que também podem ser encontrados na obra do Dr Pfister de Zurique a qual é citada Por conseguinte é realmente surpreendente que o diretor de uma instituição de ensino aceite sem críticas todas essas assertivas e provas forjadas Estas frases são expostas como uma decisão a que chegou uma pessoa após um julgamento sereno Penso que esta serenidade isto sim é que é artificial Examinemos essas observações mais detidamente na expectativa de que uma leve reflexão e um pouco de conhecimento especializado não constituirão nenhuma desvantagem mesmo para um julgamento sereno É verdadeiramente reconfortante verificar com que rapidez e infalibilidade uma pessoa pode chegar a julgar determinados problemas delicados de psicologia profunda após ter sua primeira impressão sobre a mesma As interpretações lhe parecem artificiais e forçadas elas não lhe agradam assim elas são falsas e todo esse assunto de interpretação não tem valor E nem dedica à outra possibilidade uma idéia passageira de que existem bons motivos para essas interpretações só poderem ter esta aparência e daí a outra questão ou seja quais são esses bons motivosO assunto em questão referese essencialmente aos resultados do deslocamento que os senhores já conhecem como o mais poderoso instrumento da censura de sonhos Com auxílio do deslocamento a censura de sonhos cria estruturas substitutivas que temos descrito como alusões Mas tratase de alusões que não são facilmente reconhecíveis como tais cujo caminho inverso até a coisa original não é fácil de estabelecer e que se correlacionam com a coisa original por meio das associações mais estranhas incomuns e superficiais Em todos estes casos no entanto tratase de coisas que interessa sejam mantidas ocultas condenadas ao ocultamento pois é isto que objetiva a censura de sonhos Não devemos contudo esperar que uma coisa que foi mantida escondida venha a ser encontrada em seu lugar próprio em sua localização adequada As comissões de controle de fronteira que funcionam atualmente são mais habilidosas neste aspecto do que as autoridades escolares suíças Em sua busca de documentos e anotações não se contentam com examinar carteiras e pastas de documentos mas admitem a possibilidade de que os espiões e contrabandistas possam ter essas coisas proibidas nas partes mais secretas do vestuário onde sua presença seria totalmente imprópria por exemplo entre as solas duplas das botas Se as coisas ocultas estão aí certamente será possível dizer que são artificiais mas também é verdade que com isso muito se terá achadoAo reconhecermos que as conexões entre um elemento onírico latente e o seu substituto manifesto podem ser da natureza mais remota e especial às vezes parecendo cômicas e às vezes assemelhandose a um chiste estamos nos fundamentando em abundante experiência de exemplos que via de regra nós mesmos não solucionamos Amiúde é impossível dar tais interpretações por nossa própria conta nenhuma pessoa sensata poderia adivinhar qual a conexão Aquele que teve o sonho nos dá a tradução toda de uma vez por meio de uma associação direta ele é capaz disso pois foi ele quem produziu o substituto ou então fornece tanto material que a solução não exige mais nenhuma sagacidade mas se apresenta por assim dizer como algo muito natural no contexto Se o sonhador deixa de prestar esta ajuda numa ou noutra destas duas formas o elemento manifesto que pretendemos examinar permanecerá para sempre ininteligível para nós Permitamme darlhos um exemplo que me ocorreu há pouco Uma de minhas pacientes perdeu seu pai durante o tratamento Desde então ela aproveitou todas as ocasiões para trazêlo à vida em seus sonhos Num destes seu pai apareceu em conexão com algo sem maior importância e disse São onze e quinze são onze e meia são quinze para as doze Ao tentar a interpretação desta singularidade tudo o que lhe acudiu à mente foi que seu pai gostava que seus filhos adultos chegassem pontualmente às refeições da família Sem dúvida isto se relacionava ao elemento onírico mas não elucidou nada de sua origem Havia uma suspeita baseada na situação imediata do tratamento de que uma revolta crítica cuidadosamente suprimida contra seu pai querido e honrado desempenhava um papel no sonho No decorrer das associações seguintes aparentemente distantes do sonho ela contou como no dia anterior tinha havido um bocado de conversa sobre psicologia em sua presença e um seu parente havia comentado O Urmensch homem primitivo sobrevive em todos nós Isto pareceu darnos a explicação Fora para ela uma excelente oportunidade para trazer à vida o pai falecido No sonho ela o transformou no Uhrmensch homem do relógio fazendoo anunciar os quartos de hora do meiodiaNão há como evitar a semelhança deste exemplo com um chiste e freqüentemente tem acontecido um chiste do sonhador ser considerado como chiste de quem interpreta Há outros casos em que não tem sido nada fácil decidir se aquilo que estamos abordando é um chiste ou um sonho Os senhores se lembrarão contudo de que a mesma dúvida surgiu no caso de algumas parapraxias lapsos de língua ver em 1 e seg Um homem referiu como sonho seu que um seu tio lhe havia dado um beijo enquanto estavam sentados no seu auto móvel Ele mesmo muito rapidamente acrescentou a interpretação significava autoerotismo um termo da teoria da libido indicando satisfação obtida sem qualquer objeto externo Estava o homem querendo fazer uma brincadeira conosco e estaria ele transmitindo um chiste de que se lembrava como um sonho Penso que não creio que ele realmente teve o sonho Mas qual é a origem dessa enigmática semelhança Esta questão em certa época desvioume temporariamente do meu caminho forçandome a fazer dos chistes mesmos o tema de uma investigação detalhada Aí ficou demonstrado como se originam os chistes uma seqüência de pensamentos préconsciente é abandonada por um momento para ser trabalhada no inconsciente e deste ela emerge como chiste Sob a influência do inconsciente é sujeita aos efeitos dos mecanismos que ali imperam condensação e deslocamento os mesmos processos que vimos em ação na elaboração onírica e é a este aspecto comum que se deve atribuir a semelhança quando ocorre entre chistes e sonhos O chiste onírico involuntário não tem nada da graça de uma verdadeira anedota Os senhores podem vir a saber por quê se se aprofundarem no estudo dos chistes Um chiste onírico se nos apresenta como anedota sem graça não nos faz rir deixanos friosNisso entretanto estamos palmilhando os caminhos da interpretação de sonhos da Antigüidade que ao lado de muita coisa imprestável deixounos alguns bons exemplos de interpretação de sonhos que nós mesmos não poderíamos superar Repetirei para os senhores um sonho que teve importância histórica e que Plutarco e Artemidoro de Daldis ver em 1 anterior com ligeiras variações referiram acerca de Alexandre Magno Quando o rei estava sitiando a obstinadamente defendida cidade de Tiro 322 a C sonhou que via um sátiro dançando Aristandro o interpretador de sonhos que se encontrava presente junto com o exército interpretou o sonho dividindo a palavra Satyros em sa TuroV sa Turos tua é Tiro e portanto prometeu que ele iria triunfar sobre a cidade Por esta interpretação Alexandre foi levado a continuar o cerco e finalmente capturou Tiro A interpretação que possui uma aparência bastante artificial indubitavelmente era a correta3 Bem posso imaginar que os senhores ficarão especialmente impressionados quando ouvirem dizer que as objeções aos nossos pontos de vista dos sonhos têm sido feitas até mesmo por pessoas que estiveram elas próprias como psicanalistas dedicandose por tempo considerável a interpretar sonhos Seria demais esperar que este tão forte encorajamento a novos erros como o que oferece esta teoria tivesse sido negligenciado e assim em conseqüência de confusões conceituais e generalizações injustificadas foram feitas afirmações que não estão muito longe da visão médica acerca dos sonhos no que esta tem de incorreta Os senhores já conhecem uma delas Diznos que os sonhos constituem tentativas de adaptação atuais e tentativas de solucionar problemas futuros que eles têm um propósito prospectivo Maeder 1912 Já temos demonstrado ver em 1 que esta asserção se baseia numa confusão entre sonho e pensamentos oníricos latentes e por conseguinte se baseia no fato de se omitir a elaboração onírica Esta como caracterização da atividade intelectual inconsciente da qual os pensamentos oníricos latentes fazem parte não constitui novidade por um lado e por outro não esgota o assunto de vez que a atividade mental inconsciente está ocupada com muitas outras coisas além da preparação para o futuro Uma confusão muito pior parece estar subjacente à afirmação de que a idéia de morte pode ser encontrada por trás de todo sonho Stekel 1911 34 Não tenho uma noção clara acerca do que se pretende dizer com esta fórmula Suspeito porém que ela esconde uma confusão entre o sonho e a personalidade global daquele que sonhou Cf I de S Vol V pág 424Uma generalização injustificável baseada em alguns poucos exemplos está contida na afirmação de que todo sonho admite duas interpretações uma que concorda com nossa descrição psicanalítica e outra anagógica que não leva em conta os impulsos instintuais e objetiva representar as funções superiores da mente Silberer 1914 Existem sonhos deste tipo porém os senhores tentarão inutilmente estender esta concepção à maioria dos sonhos E mais após tudo o que eu lhes disse os senhores acharão bastante incompreensível uma afirmação de que todos os sonhos devem ser interpretados bissexualmente como confluência de duas correntes descritas como masculina e feminina Adler 1910 Cf I de S Vol V págs 4234 podem constatar posteriormente que eles se constróem como alguns dos sintomas histéricos A razão por que mencionei todas essas descobertas de novas características universais dos sonhos é para que os senhores estejam prevenidos quanto às mesmas ou ao menos para que não tenham dúvidas a respeito do que penso delas4 Um dia o valor objetivo da investigação sobre sonhos pareceu ser posto em xeque por uma observação de que os pacientes em tratamento analítico ordenam o conteúdo dos sonhos conforme as teorias prediletas de seu médicos alguns sonhando predominantemente com impulsos instintuais sexuais outros com a luta pelo poder e ainda outros até mesmo com renascimento Stekel O peso destas observações entretanto diminuiu com a reflexão de que os seres humanos tinham sonhos antes que houvesse qualquer tratamento psicanalítico que pudesse dar a esses sonhos uma direção e que as pessoas que agora se encontram em tratamento costumavam sonhar também durante o período anterior ao início do tratamento O que havia de verdade nesta inovação logo se podia ver que era evidente por si mesmo e sem importância para a teoria dos sonhos Os resíduos diurnos que suscitam os sonhos são elementos postos de lado devido a poderosos interesses durante a vida desperta Quando as observações feitas pelo médico e os indícios que este fornece adquirem importância para o paciente eles entram para o círculo dos resíduos diurnos e podem prover estímulos psíquicos para a construção dos sonhos como quaisquer outros interesses emocionalmente significativos do dia precedente que não foram atendidos e podem atuar como os estímulos somáticos que incidem sobre o sono de uma pessoa que venha a sonhar As seqüências de pensamentos postas em marcha pelo médico assim como esses outros instigadores dos sonhos surgem no conteúdo manifesto de um sonho ou se revelam em seu conteúdo latente Na verdade sabemos que um sonho pode ser produzido experimentalmente ou expressandonos em termos mais corretos uma parte do material onírico pode ser introduzida no sonho Ao produzir esses efeitos em seus pacientes um analista está executando um papel não diferente de um experimentador que como Mourly Vold coloca em determinadas posturas os membros de pessoas em suas experiências ver em 1 anterioresFreqüentemente é possível influenciar uma pessoa acerca do que ela vai sonhar mas nunca aquilo que sonhará O mecanismo da elaboração onírica e o desejo onírico inconsciente estão isentos de qualquer influência externa Ao tratar dos sonhos com estímulo somático já verificamos ver em 1 e seg que a natureza característica e a independência da vida onírica são mostradas na reação com que os sonhos respondem aos estímulos somáticos ou mentais que são postos em ação A tese que estivemos discutindo e que procura lançar dúvidas sobre a objetividade da pesquisa referente aos sonhos mais uma vez está baseada numa confusão desta vez entre o sonho e o material dos sonhosIsto pois era o que tinha a dizerlhes senhoras e senhores a respeito dos problemas dos sonhos Como poderão perceber há muitas coisas que tive de omitir e verificarão que em quase todos os pontos o que disse ficou necessariamente incompleto Isso naturalmente se deve à conexão entre os fenômenos dos sonhos e os das neuroses Temos estudado os sonhos como introdução à teoria das neuroses e isso foi certamente um procedimento mais correto do que se tivéssemos feito o oposto Mas assim como os sonhos preparam o caminho para uma compreensão das neuroses também por outro lado uma verdadeira apreciação dos sonhos só pode ser realizada depois de se conhecer os fenômenos neuróticosNão sei dizer o que os senhores pensarão porém devo assegurarlhes que não lamento terlhes exigido tanto do seu interesse e do tempo de que dispusemos para os problemas dos sonhos Não existe nenhuma outra coisa mais a partir da qual se possa tão rapidamente obter certeza da correção da tese pela qual a psicanálise resiste ou perece Trabalho muito sério por meses e até mesmo por anos é o que se exige para demonstrar que os sintomas de um caso de doença neurótica têm um sentido servem a um propósito e se originam das experiências de vida do paciente Por outro lado um esforço de apenas umas poucas horas pode ser suficiente para provar que o mesmo procede para um sonho que e de início confuso a ponto de ser ininteligível e para dessa maneira confirmar todas as premissas da psicanálise a natureza inconsciente dos processos mentais os mecanismos especiais a que estes obedecem e as forças instintuais que neles se expressam E quando temos em mente a extraordinária analogia entre a estrutura dos sonhos e a dos sintomas neuróticos e ao mesmo tempo consideramos a rapidez com que uma pessoa que tem um sonho se transforma em um homem vigil e racional adquirimos a certeza de que também as neuroses se baseiam apenas em uma modificação do jogo de forças entre os poderes da vida mental
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Conferências introdutórias sobre psicanálise Partes I e II VOLUME XV 19151916 Dr Sigmund Freud CONFERÊNCIAS INTRODUTÓRIAS SOBRE PSICANÁLISE 191617 191517 INTRODUÇÃO DO EDITOR INGLÊS VORLESUNGEN ZUR EINFÜHRUNG IN DIEPSYCHOANALYSE a EDIÇÕES ALEMÃS 1916 Parte I em separado Die Fehlleistungen Leipzig e Viena Heller 1916 Parte II em separado Der Traum Mesmos editores 1917 Parte III em separado Allgemeine Neurosenlehre Mesmos editores 1917 Os títulos acima as três partes em um só volume Mesmos editores viii 545 págs 1918 2ª ed Com índice e inserção de lista de 40 corrigendas Mesmos editores viii 553 págs 1920 3ª ed Reimpressão corrigida da edição anterior Leipzig Viena e Zurique Internationaler Psychoanalytischer Verlag viii 553 págs 1922 4ª ed Reimpressão corrigida da edição anterior Mesmos editores viii 554 págs Também as Partes II e III em separado sob os títulos de Vorlesungen über den Traum e Allgemeine Neurosenlehre 1922 Ed de bolso Sem índice Mesmos editores iv 495 págs 1922 Ed de bolso 2ª ed corrigida e com índice Mesmos editores iv 502 págs 1924 GS 7 483 págs 1926 5ª ed Reimpressão das GS IPV 483 págs 1926 Ed de bolso 3ª ed Mesmos editores 1930 Ed em 8 pequenos vols I PV 501 págs 1933 Com autorização Berlim Kiepenheuer 524 págs 1940 GW 11 495 págs b TRADUÇÕES INGLESAS A General Introduction to Psychoanalysis 1920 Nova Iorque Boni Liveright x 406 págs Tradutor não especificado Prefácio de G Stanley Hall Introductory Lectures on PsychoAnalysis 1922 Londres Allen Unwin 395 págs Trad de Joan Riviere sem prefácio de Freud com prefácio de Ernest Jones 1929 2a ed revista Mesmos editores 395 págs A General Introduction to Psychoanalysis 1935Nova Iorque Liveright 412 págs A ed de Londres com o título da anterior de Nova Iorque Trad de Joan Riviere com prefácios de Ernest Jones e G Stanley Hall incluído o prefácio de Freud A presente tradução inglesa é nova e da autoria de James Strachey Esta obra teve uma circulação maior do que qualquer outra obra de Freud com exceção talvez de The Psychopathology of Everyday Life Também se distingue pela quantidade de erros de impressão nela existentes Como ficou assinalado acima quarenta foram corrigidos na segunda edição porém havia ainda muitos mais e pode ser observado um número considerável de pequenas variações no texto das diversas edições A presente tradução inglesa segue o texto dos Gesammelte Werke que é de fato idêntico ao texto dos Gesammelte Schriften e somente foram registradas as discordâncias mais importantes das primeiras versões A data real de publicação das três partes não está definida A Parte I certamente surgiu antes do fim de julho de 1916 como se verifica por uma referência que a ela se faz em uma carta de Freud a Lou AndreasSalomé de 27 de julho de 1916 cf Freud 1960a Na mesma carta ele também fala na Parte II como estando prestes a aparecer Uma carta de 18 de dezembro de 1916 que Freud escreveu a Abraham sugere que com efeito ela apenas apareceu no fim do ano cf Freud 1965a A Parte III parece ter sido publicada em maio de 1917 O ano acadêmico da Universidade de Viena se dividia em dois períodos um período ou semestre de inverno que ia de outubro a março e um período de verão de abril a julho As conferências publicadas neste livro foram proferidas por Freud em dois períodos de inverno sucessivos durante a Primeira Guerra Mundial 191516 e 191617 Os relatos mais completos das circunstâncias que conduziram à sua publicação serão encontrados no segundo volume da biografia escrita por Ernest Jones 1955 pág 255 e seguintes Embora como o próprio Freud observara em seu prefácio às New Introductory Lectures sua qualidade de membro da Universidade de Viena tivesse sido apenas periférica desde os tempos de sua indicação como Privatdozent Livre Docente da Universidade em 1885 e como Professor Extraordinarius Professor Assistente em 1902 havia realizado muitos ciclos de conferências na Universidade Estes ficaram sem registro embora alguns relatos dos mesmos possam ser encontrados por exemplo os de Hanns Sachs 1945 pág 39 e segs e Theodor Reik 1942 pág 19 e segs bem como os de Ernest Jones 1953 pág 375 e segs Freud decidiu que a série que começava no outono de 1915 deveria ser a última e foi por sugestão de Otto Rank que Freud concordou com sua publicação Em seu prefácio às New Introductory Lectures há pouco citado Freud nos refere que a primeira metade da série atual a série inicial foi improvisada e escrita logo depois e que esboços da segunda metade foram feitos durante as férias do verão intermediário em Salzburg e passados para o papel palavra por palavra no inverno seguinte Acrescenta que naquela época ainda possuía o dom de uma memória fotográfica pois por mais cuidadosamente que suas conferências pudessem ter sido preparadas na realidade invariavelmente as proferia de improviso e geralmente sem anotações Existe concordância geral no tocante à sua técnica de dar conferências que ele nunca era retórico e que seu tom era sempre o de uma conversação tranqüila e mesmo íntima Contudo não se deve supor por isso que houvesse algo de desleixo ou desordem nessas conferências Elas quase sempre tinham uma forma definida início meio e fim e podiam freqüentemente dar ao ouvinte a impressão de possuírem uma unidade estética Foi mencionado Reik 1942 19 que ele não gostava de dar conferências no entanto é difícil conciliar essa afirmação não apenas com a quantidade de conferências que proferiu no decurso de sua vida mas também com a quantidade notavelmente elevada de seus trabalhos efetivamente publicados que estão sob a forma de conferências Existe entretanto uma possível explicação para essa discordância Um exame mostra que entre suas publicações são predominantemente os trabalhos expositivos que aparecem como conferências por exemplo a conferência inicial sobre The Aetiology of Hysteria 1896c a que surgiu um pouco depois Sobre a Psicoterapia 1905a assim como naturalmente as Cinco Lições proferidas na América 1910a e a presente série Contudo além disso quando empreendeu anos depois uma exposição das mais recentes evoluções de seus pontos de vista ele sem qualquer motivo evidente mais uma vez as colocou na forma de conferências e publicou suas New Introductory Lectures 1933a embora jamais houvesse qualquer possibilidade de serem dadas à luz como tais Assim Freud se socorreu evidentemente das conferências como método de expor suas opiniões mas apenas sob uma condição particular ele devia estar em vívido contato com seu auditório real ou suposto Os leitores do presente volume descobrirão como é constante Freud manter esse contato quão regularmente ele coloca objeções na boca de seus ouvintes e quão freqüentemente existem debates imaginários entre ele e seus ouvintes Na verdade ele estendia esse método de formular suas exposições a alguns de seus trabalhos que absolutamente não são conferências a totalidade de The Question of Lay Analysis 1926e e a maior parte de O Futuro de uma Ilusão 1927c tomaram a forma de diálogos entre o autor e um ouvinte que faz críticas Contrariamente talvez a certas noções errôneas Freud era inteiramente avesso à exposição de suas opiniões em forma autoritária e dogmática Não o direi aos senhores ele diz à sua audiência em uma passagem adiante pág 433 mas insistirei em que o descubram por si mesmos As objeções não eram para ser abafadas mas esclarecidas e examinadas E isso afinal não era mais que um prolongamento de um aspecto essencial da técnica da própria psicanálise As Conferências Introdutórias podem ser verdadeiramente consideradas como um inventário das conceituações de Freud e da posição da psicanálise na época da Primeira Guerra Mundial As dissidências de Adler e Jung já eram história passada o conceito de narcisismo já tinha alguns anos de vida o caso clínico do Wolf Man que marcou época tinha sido escrito com exceção de duas passagens um ano antes do começo das conferências embora não fosse publicado senão mais tarde E também a grande série de artigos metapsicológicos sobre a teoria fundamental tinha sido ultimada alguns meses antes ainda que apenas três deles tivessem sido publicados Mais dois deles surgiram logo após as conferências porém os sete restantes desapareceram sem deixar vestígio Essas últimas atividades e sem dúvida também a realização das conferências tinham sido facilitadas pela diminuição do trabalho clínico de Freud imposta pelas condições da guerra Parecia haverse chegado a um divisor de águas e era como se houvesse chegado a época para uma pausa De fato porém estavam em preparação idéias novas que deviam vir à luz em Além do Princípio de Prazer 1920g Psicologia de Grupo 1921c e O Ego e o Id 1923b Em verdade a linha não deve ser traçada com tanta exatidão Por exemplo já podem ser detectados indícios da noção da compulsão à repetição págs 2923 e os começos da análise do ego estão bastante evidentes págs 423 e 4289 ao passo que as dificuldades referentes aos múltiplos sentidos da palavra inconsciente ver em 1 preparam o caminho para uma nova descrição estrutural da mente Em seu prefácio a estas conferências Freud fala um pouco depreciativamente da falta de novidade em seu conteúdo No entanto ninguém embora muito tenha lido de literatura psicanalítica precisa sentir receio de se entediar com estas conferências e ainda poderá achar nelas muitas coisas que não se encontrarão em outro lugar As discussões sobre ansiedade Conferência XV e sobre fantasias primitivas Conferência XXIV que Freud mesmo no prefácio aponta como material recente não são as únicas que ele podia ter mencionado A revisão do simbolismo na Conferência X é provavelmente a mais completa que fez Em nenhuma outra parte fornece tão claro resumo da formação dos sonhos como nas últimas páginas da Conferência XIV Sobre as perversões não há comentários mais inteligíveis do que aqueles encontrados nas Conferências XX e XXI Finalmente não existe absolutamente qualquer tópico que se iguale à análise dos processos de terapia psicanalítica feita na última conferência E mesmo onde os assuntos pareceriam estar surrados como o mecanismo das parapraxias e dos sonhos a abordagem é feita a partir de direções inesperadas lançando nova luz sobre o que poderia ter parecido terreno por demais conhecido As Conferências Introdutórias seguramente merecem sua popularidade PREFÁCIO 1917 O que ao público agora ofereço como uma Introdução à Psicanálise não se destina a competir de forma alguma com determinadas descrições gerais desse campo de conhecimento como aquelas já existentes e dentre as quais citamse por exemplo as de Hitschmann 1913 Pfister 1913 Kaplan 1914 Régis e Hesnard 1914 e Meijer 1915 Este volume é uma reprodução fiel das conferências que proferi na Universidade durante as duas temporadas de inverno de 191516 e 191617 perante um auditório de médicos e leigos de ambos os sexos Quaisquer peculiaridades deste livro que possam surpreender os leitores são devidas às condições em que ele se originou Em minha apresentação não foi possível preservar a tranqüila serenidade de um tratado científico Pelo contrário o conferencista tinha de se empenhar em evitar que a atenção de seu auditório declinasse durante uma sessão de quase duas horas de duração As necessidades do momento muitas vezes tornaram impossível evitar repetições ao tratar de um determinado assunto poderiam emergir uma vez por exemplo em relação à interpretação de sonhos e mais tarde de novo em relação aos problemas das neuroses Também em conseqüência da maneira como o material foi ordenado alguns tópicos importantes o inconsciente por exemplo não puderam ser exaustivamente debatidos em um só ponto mas tiveram de ser retomados repetidamente e outra vez abandonados até que surgisse nova oportunidade para acrescentar alguma informação adicional a respeito Aqueles que estão familiarizados com a literatura psicanalítica encontrarão nesta Introdução pouca coisa que não lhes seja conhecida já a partir de outras publicações muito mais detalhadas Não obstante a necessidade de completar e resumir algum tema compeliu o autor em certos pontos a etiologia da ansiedade e as fantasias histéricas a apresentar material que até então havia retido FREUD VIENA primavera de 1917 PREFÁCIO DA TRADUÇÃO HEBRAICA 1930 Estas conferências foram proferidas em 1916 e 1917 proporcionaram uma descrição muito pormenorizada da posição da jovem ciência naquela época e continham mais do que seu título indicava Proporcionaram não apenas uma introdução à psicanálise mas abrangeram a maior parte de seu conteúdo temático Isso naturalmente já não é mais verdade Nesse meio tempo houve progressos em sua teoria e importantes acréscimos à mesma como a divisão da personalidade em ego superego e id uma modificação radical na teoria dos instintos bem como descobertas referentes à origem da consciência e do sentimento de culpa Assim sendo estas conferências se tornaram em grande parte incompletas na verdade somente agora é que se tornaram realmente introdutórias Porém em outro sentido mesmo hoje elas não foram suplantadas nem se tornaram obsoletas O que contêm ainda é acreditado e pensado afora algumas poucas modificações nos institutos de formação psicanalítica Os leitores de hebraico e especialmente os jovens ávidos de conhecimento se defrontarão neste volume com a psicanálise vestida com o antigo idioma que tem sido despertado para uma vida nova pela vontade do povo judeu O autor bem pode imaginar o problema que se propôs seu tradutor E nem pode suprimir a dúvida quanto a saber se Moisés e os Profetas teriam julgado inteligíveis estas conferências em hebraico Pede entretanto aos descendentes deles entre os quais ele próprio se inclui a quem este livro se destina para que não reajam demasiado prontamente a seus primeiros impulsos de crítica e enfado rejeitandoo A psicanálise revela tantas coisas novas e em meio a tudo isso tantas coisas que contraditam opiniões tradicionais e tanto fere sentimentos profundamente arraigados que não pode deixar de provocar contestação O leitor se deixar em suspenso seu julgamento e permitir que a psicanálise como um todo provoque nele sua impressão talvez se torne receptivo à convicção de que mesmo essa indesejada novidade é digna de se conhecer e indispensável para todo aquele que deseja compreender a mente e a vida humana VIENA dezembro de 1930 PARTE I PARAPRAXIAS 1916 1915 CONFERÊNCIA I INTRODUÇÃO SENHORAS E SENHORES Não posso dizer quanto conhecimento sobre psicanálise cada um dos senhores já adquiriu pelas leituras que fez ou por ouvir dizer Mas o título de meu programa Introdução Elementar à Psicanálise obrigame a tratálos como se nada soubessem e estivessem necessitados de algumas informações preliminares Posso no entanto seguramente supor que sabem ser a psicanálise uma forma de executar o tratamento médico de pacientes neuróticos E aqui já lhes posso dar um exemplo de como nessa atividade numerosas coisas se passam de forma diferente e muitas vezes realmente de forma oposta de como ocorrem em outros campos da prática médica Quando em outra situação apresentamos ao paciente uma técnica que lhe é nova de hábito minimizamos os inconvenientes desta e lhe damos confiantes promessas de êxito do tratamento Penso estarmos justificados de assim proceder de vez que desse modo estamos aumentando a probabilidade de êxito Quando porém tomamos em tratamento analítico um paciente neurótico agimos diferentemente Mostramoslhe as dificuldades do método sua longa duração os esforços e os sacrifícios que exige e quanto a seu êxito lhe dizemos não nos ser possível prometêlo com certeza que depende de sua própria conduta de sua compreensão de sua adaptabilidade e de sua perseverança Temos boas razões naturalmente para manter essa conduta aparentemente obstinada no erro como talvez os senhores virão a verificar mais adiante Não se aborreçam então se começo por tratálos da mesma forma como a esses pacientes neuróticos Seriamente eu os advirto de que não venham ouvirme uma segunda vez Para corroborar esta advertência explicarei quão incompleto deve necessariamente ser qualquer conhecimento da psicanálise e que dificuldades surgem no caminho dos senhores ao formarem um julgamento próprio a respeito dela Mostrarlhesei como toda a tendência de sua educação prévia e todos os seus hábitos de pensamento estão inevitavelmente propensos a fazer com que se oponham à psicanálise e quanto teriam de superar dentro de si mesmos para obter o máximo de vantagem dessa natural oposição Não posso certamente predizer quanto entendimento de psicanálise obterão das informações que lhes dou contudo posso prometerlhes isto que ouvindoas atentamente não terão aprendido como efetuar uma investigação psicanalítica ou como realizar um tratamento No entanto na hipótese de que um dos senhores não se sentisse satisfeito com um ligeiro conhecimento da psicanálise mas estivesse inclinado a entrar em relação permanente com ela não apenas eu o dissuadiria de agir assim como ativamente também o admoestaria para não fazêlo Da maneira como estão as coisas no momento tal escolha de profissão arruinaria qualquer possibilidade de obter sucesso em uma universidade e se começou na vida como médico clínico iria encontrarse numa sociedade que não compreenderia seus esforços que o veria com desconfiança e hostilidade e que despejaria sobre ele todos os maus espíritos que estão à espreita dentro dessa mesma sociedade E os acontecimentos que acompanham a guerra que agora assola a Europa lhes darão talvez alguma noção de que legiões desses maus espíritos podem existir Não obstante há bom número de pessoas para as quais a despeito desses inconvenientes algo que promete trazerlhes uma nova parcela de conhecimento tem ainda seu atrativo Se alguns dos senhores pertencerem a essa espécie de pessoas e malgrado minhas advertências novamente aqui comparecerem para minha próxima conferência serão bemvindos Todos porém têm o direito de saber da natureza das dificuldades da psicanálise às quais aludi Iniciarei por aquelas dificuldades vinculadas ao ensino à formação em psicanálise Na formação médica os senhores estão acostumados a ver coisas Vêem uma preparação anatômica o precipitado de uma reação química a contração de um músculo em conseqüência da estimulação de seus nervos Depois pacientes são demonstrados perante os sentidos dos senhores os sintomas de suas doenças as conseqüências dos processos patológicos e mesmo em muitos casos o agente da doença isolado Nos departamentos cirúrgicos são testemunhas das medidas ativas tomadas para proporcionar socorro aos pacientes e os senhores mesmos podem tentar pôlas em execução Na própria psiquiatria a demonstração de pacientes com suas expressões faciais alteradas com seu modo de falar e seu comportamento propicia aos senhores numerosas observações que lhes deixam profunda impressão Assim um professor de curso médico desempenha em elevado grau o papel de guia e intérprete que os acompanha através de um museu enquanto os senhores conseguem um contato direto com os objetos exibidos e se sentem convencidos da existência dos novos fatos mediante a própria percepção de cada um Na psicanálise ai de nós tudo é diferente Nada acontece em um tratamento psicanalítico além de um intercâmbio de palavras entre o paciente e o analista O paciente conversa fala de suas experiências passadas e de suas impressões atuais queixase reconhece seus desejos e seus impulsos emocionais O médico escuta procura orientar os processos de pensamento do paciente exorta dirige sua atenção em certas direções dálhe explicações e observa as reações de compreensão ou rejeição que ele analista suscita no paciente Os desinformados parentes de nossos pacientes que se impressionam apenas com coisas visíveis e tangíveis preferivelmente por ações tais como aquelas vistas no cinema jamais deixam de expressar suas dúvidas quanto a saber se algo não pode ser feito pela doença que não seja simplesmente falar Essa naturalmente é uma linha de pensamento ao mesmo tempo insensata e incoerente Essas são as mesmas pessoas que se mostram assim tão seguras de que os pacientes estão simplesmente imaginando seus sintomas As palavras originalmente eram mágicas e até os dias atuais conservaram muito do seu antigo poder mágico Por meio de palavras uma pessoa pode tornar outra jubilosamente feliz ou levála ao desespero por palavras o professor veicula seu conhecimento aos alunos por palavras o orador conquista seus ouvintes para si e influencia o julgamento e as decisões deles Palavras suscitam afetos e são de modo geral o meio de mútua influência entre os homens Assim não depreciaremos o uso das palavras na psicoterapia e nos agradará ouvir as palavras trocadas entre o analista e seu paciente Contudo nem isso podemos fazer A conversação em que consiste o tratamento psicanalítico não admite ouvinte algum não pode ser demonstrada Um paciente neurastênico ou histérico pode naturalmente como qualquer outro ser apresentado a estudantes em uma conferência psiquiátrica Ele fará uma descrição de suas queixas e de seus sintomas porém apenas isso As informações que uma análise requer serão dadas pelo paciente somente com a condição de que ele tenha uma ligação emocional especial com seu médico ele silenciaria tão logo observasse uma só testemunha que ele percebesse estar alheia a essa relação Isso porque essas informações dizem respeito àquilo que é mais íntimo em sua vida mental a tudo aquilo que como pessoa socialmente independente deve ocultar de outras pessoas e ademais a tudo o que como personalidade homogênea não admite para si próprio Portanto os senhores não podem estar presentes como ouvintes a um tratamento psicanalítico Este pode apenas serlhes relatado e no mais estrito sentido da palavra é somente de ouvir dizer que chegarão a conhecer a psicanálise Como conseqüência do fato de receberem seus conhecimentos em segunda mão por assim dizer os senhores estarão em condições bem incomuns para formar um julgamento Isto obviamente dependerá em grande parte do quanto de crédito podem dar a seu informante Suponhamos por um momento que os senhores estivessem ouvindo uma conferência não sobre psiquiatria mas sobre história e que o conferencista lhes estivesse expondo a vida e os feitos militares de Alexandre Magno Que fundamentos teriam para acreditar na verdade do que ele referisse Num primeiro relance a situação pareceria ser ainda mais desfavorável do que no caso da psicanálise pois o professor de história teve tanta participação nas campanhas de Alexandre quanto os senhores O psicanalista pelo menos reporta coisas nas quais ele próprio tomou parte Porém na devida oportunidade chegamos aos elementos que confirmam aquilo que o historiador lhes disse Ele poderia remetêlos aos relatos dos escritores da Antigüidade que ou foram eles próprios contemporâneos dos eventos em questão ou de qualquer forma estavam mais próximos dos mesmos ele poderia remetêlos digamos às obras de Diodoro Plutarco Arriano e outros Poderia colocar à frente dos senhores reproduções de moedas e estátuas do rei que sobreviveram e poderia passar às suas mãos uma fotografia do mosaico de Pompéia representando a batalha de Isso Estritamente falando contudo todos esses documentos apenas provam que as gerações anteriores já acreditavam na existência de Alexandre e na realidade de seus feitos e as críticas dos senhores poderiam começar novamente nesse ponto Os senhores descobririam então que nem tudo aquilo que foi relatado sobre Alexandre merece crédito ou pode ser confirmado em seus detalhes não obstante não posso supor que os senhores viessem a deixar a sala de conferência com dúvidas sobre a realidade de Alexandre Magno A decisão dos senhores seria determinada essencialmente por duas considerações primeiro que o conferencista não tem qualquer motivo imaginável para garantirlhes a realidade de algo que ele próprio não julga ser real e em segundo lugar que todos os livros de história disponíveis descrevem os acontecimentos em termos aproximadamente semelhantes Se continuassem a examinar as fontes antigas teriam em conta os mesmos fatores os possíveis motivos dos informantes e a conformidade das testemunhas entre si O resultado da pesquisa sem dúvida lhes traria uma confirmação no caso de Alexandre no entanto provavelmente seria diferente quando se tratasse de personagens como Moisés ou Nemrod Outras oportunidades revelarão muito claramente que dúvidas os senhores podem ter a respeito da credibilidade do seu informante psicanalítico Mas os senhores têm o direito de fazer outra pergunta Se não há verificação objetiva da psicanálise nem possibilidade de demonstrála como pode absolutamente alguém aprender psicanálise e convencerse da veracidade de suas afirmações É verdade que a psicanálise não pode ser aprendida facilmente e que não são muitas as pessoas que a tenham aprendido corretamente Naturalmente porém existe um método que se pode seguir apesar de tudo Aprendese psicanálise em si mesmo estudandose a própria personalidade Isso não é exatamente a mesma coisa que a chamada autoobservação porém pode se necessário estar nela subentendido Existe grande quantidade de fenômenos mentais muito comuns e amplamente conhecidos que após conseguido um pouco de conhecimento da técnica podem se tornar objeto de análise na própria pessoa Dessa forma adquirese o desejado sentimento de convicção da realidade dos processos descritos pela análise e da correção dos pontos de vista da mesma Não obstante há limites definidos ao progresso por meio desse método A pessoa progride muito mais se ela própria é analisada por um analista experiente e vivencia os efeitos da análise em seu próprio eu self fazendo uso da oportunidade de assimilar de seu analista a técnica mais sutil do processo Esse excelente método é naturalmente aplicável apenas a uma única pessoa e jamais a todo um auditório de estudantes reunidos A psicanálise não deve ser acusada de uma segunda dificuldade na relação dos senhores com ela devo fazêlos aos senhores mesmos responsáveis por isso senhoras e senhores pelo menos na medida em que foram estudantes de medicina A educação que receberam previamente deu uma direção particular ao pensar dos senhores que conduz para longe da psicanálise Foram formados para encontrar uma base anatômica para as funções do organismo e suas doenças a fim de explicálas química e fisicamente e encarálas do ponto de vista biológico Nenhuma parte do interesse dos senhores contudo tem sido dirigida para a vida psíquica onde afinal a realização desse organismo maravilhosamente complexo atinge seu ápice Por essa razão as formas psicológicas de pensamento têm permanecido estranhas aos senhores Cresceram acostumados a encarálas com suspeita a negarlhes a qualidade científica a abandonálas em poder de leigos poetas filósofos naturalistas e místicos Essa limitação é sem dúvida prejudicial à sua atividade médica pois como é a regra em todos os relacionamentos humanos os pacientes dos senhores começam mostrandolhes sua façade mental e temo que sejam obrigados como punição a deixar parte da influência terapêutica que os senhores estão procurando aos praticantes leigos aos curandeiros e aos místicos que os senhores tanto desprezam Não ignoro a excusa de que devemos tolerar esse defeito em sua educação Não existe nenhuma ciência filosófica auxiliar que possa servir às finalidades médicas dos senhores Nem a filosofia especulativa nem a psicologia descritiva nem o que é chamado de psicologia experimental que está estritamente aliada à fisiologia dos órgãos dos sentidos tal como são ensinadas nas universidades estão em condições de dizerlhes algo de utilizável pertinente à relação entre corpo e mente ou de lhes proporcionar uma chave para a compreensão dos possíveis distúrbios das funções mentais É verdade que a psiquiatria como parte da medicina se empenha em descrever os distúrbios mentais que observa e em agrupálos em entidades clínicas porém em momentos favoráveis os próprios psiquiatras duvidam de que suas hipóteses puramente descritivas mereçam o nome de ciência Nada se conhece da origem do mecanismo ou das mútuas relações dos sintomas dos quais se compõem essas entidades clínicas ou não há alterações observáveis no órgão anatômico da mente que correspondam a esses sintomas ou há alterações nada esclarecedoras a respeito deles Esses distúrbios mentais apenas são acessíveis à influência terapêutica quando podem ser reconhecidos como efeitos secundários daquilo que de outro modo constitui uma doença orgânica Essa é a lacuna que a psicanálise procura preencher Procura dar à psiquiatria a base psicológica de que esta carece Espera descobrir o terreno comum em cuja base se torne compreensível a conseqüência do distúrbio físico e mental Com esse objetivo em vista a psicanálise deve manterse livre de toda hipótese que lhe é estranha seja de tipo anatômico químico ou fisiológico e deve operar inteiramente com idéias auxiliares puramente psicológicas e precisamente por essa razão temo que lhes parecerá estranha de início Não considerarei os senhores ou sua educação ou sua atitude mental responsáveis pela próxima dificuldade Duas das hipóteses da psicanálise são um insulto ao mundo inteiro e têm ganho sua antipatia Uma delas encerra uma ofensa a um preconceito intelectual a outra a um preconceito estético e moral Não devemos desprezar em demasia esses preconceitos são coisas poderosas são precipitados da evolução do homem que foram úteis e na verdade essenciais Sua existência é mantida por forças emocionais e a luta contra eles é árdua A primeira dessas assertivas impopulares feitas pela psicanálise declara que os processos mentais são em si mesmos inconscientes e que de toda a vida mental apenas determinados atos e partes isoladas são conscientes Os senhores sabem que pelo contrário temos o hábito de identificar o que é psíquico com o que é consciente Consideramos a consciência sem mais nem menos como a característica que define o psíquico e a psicologia como o estudo dos conteúdos da consciência Na verdade parecenos tão natural os igualar dessa forma que qualquer contestação à idéia nos atinge como evidente absurdo A psicanálise porém não pode evitar o surgimento dessa contradição não pode aceitar a identidade do consciente com o mental Ela define o que é mental enquanto processos como o sentir o pensar e o querer e é obrigada a sustentar que existe o pensar inconsciente e o desejar não apreendido Dizendo isso de saída e inutilmente ela perde a simpatia de todos os amigos do pensamento científico solene e incorre abertamente na suspeita de tratarse de uma doutrina esotérica fantástica ávida de engendrar mistérios e de pescar em águas turvas Contudo as senhoras e os senhores naturalmente não podem compreender por agora que direito tenho eu de descrever como preconceito uma afirmação de natureza tão abstrata como o que é mental é consciente E nem podem os senhores conjecturar que evolução seja essa que chegou a levar a uma negação do inconsciente se é que isso existe e que vantagem pode ter havido em tal negação A questão de saber se devemos fazer coincidir o psíquico com o consciente ou aumentar a abrangência daquele soa como uma discussão vazia em torno de palavras mas posso assegurarlhes que a hipótese de existirem processos mentais inconscientes abre o caminho para uma nova e decisiva orientação no mundo e na ciência Os senhores não podem sequer ter qualquer noção de quão íntima é a conexão entre essa primeira mostra de coragem por parte da psicanálise e a segunda da qual devo agora falarlhes Essa segunda tese que a psicanálise apresenta como uma de suas descobertas é uma afirmação no sentido de que os impulsos instintuais que apenas podem ser descritos como sexuais tanto no sentido estrito como no sentido mais amplo do termo desempenham na causação das doenças nervosas e mentais um papel extremamente importante e nunca até o momento reconhecido Ademais afirma que esses mesmos impulsos sexuais também fornecem contribuições que não podem ser subestimadas às mais elevadas criações culturais artísticas e sociais do espírito humano Em minha experiência a antipatia que se volta contra esse resultado da pesquisa psicanalítica é a mais importante fonte de resistência que ela encontrou Gostariam de ouvir como explicamos esse fato Acreditamos que a civilização foi criada sob a pressão das exigências da vida à custa da satisfação dos instintos e acreditamos que a civilização em grande parte está sendo constantemente criada de novo de vez que cada pessoa assim que ingressa na sociedade humana repete esse sacrifício da satisfação instintual em benefício de toda a comunidade Entre as forças instintuais que têm esse destino os impulsos sexuais desempenham uma parte importante nesse processo eles são sublimados isto é são desviados de suas finalidades sexuais e dirigidos a outras socialmente mais elevadas e não mais sexuais Esse arranjo contudo é instável os instintos sexuais são imperfeitamente subjugados e no caso de cada indivíduo que se supõe juntarse ao trabalho da civilização há um risco de seus instintos sexuais se rebelarem contra essa destinação A sociedade acredita não existir maior ameaça que se possa levantar contra sua civilização do que a possibilidade de os instintos sexuais serem liberados e retornarem às suas finalidades originais Por esse motivo a sociedade não quer ser lembrada dessa parte precária de seus alicerces Não tem interesse em reconhecer a força dos instintos sexuais nem interesse pela demonstração da importância da vida sexual para o indivíduo Ao contrário tendo em vista um fim educativo temse empenhado em desviar a atenção de todo esse campo de idéias É por isso que não tolerará esse resultado da pesquisa psicanalítica e nitidamente prefere qualificálo como algo esteticamente repulsivo e moralmente repreensível ou como algo perigoso Entretanto as objeções dessa espécie são ineficazes contra aquilo que se ergueu como produto objetivo de um exemplo de trabalho científico se a contestação se fizer em público então deve ser expressa novamente em termos intelectuais Ora é inerente à natureza humana ter uma tendência a considerar como falsa uma coisa de que não gosta e ademais é fácil encontrar argumentos contra ela Assim a sociedade transforma o desagradável em falso Rebate as verdades da psicanálise com argumentos lógicos e concretos estes porém surgem de fontes emocionais e ela mantém essas objeções na forma de preconceitos opondose a toda tentativa de as contestar Nós porém senhoras e senhores podemos afirmar que ao expor esta controvertida tese não temos em vista qualquer objetivo tendencioso Desejamos simplesmente dar expressão a um assunto que acreditamos ter demonstrado mediante nossos conscienciosos trabalhos Afirmamos também o direito de rejeitar sem restrição qualquer interferência motivada em considerações práticas no trabalho científico mesmo antes de nos termos perguntado se o medo que procura impornos essas considerações é justificado ou não Essas pois são algumas das dificuldades que se erguem contra o interesse dos senhores pela psicanálise São talvez mais que suficientes para um começo Porém se puderem vencer a impressão que lhes causam prosseguiremos CONFERÊNCIA II PARAPRAXIAS SENHORAS E SENHORES Não começaremos com postulados e sim com uma investigação Escolhamos como tema determinados fenômenos muito comuns e muito conhecidos os quais porém têm sido muito pouco examinados e de vez que podem ser observados em qualquer pessoa sadia nada têm a ver com doenças São o que se conhece como parapraxias às quais todos estão sujeitos Pode acontecer por exemplo que uma pessoa que tenciona dizer algo venha a usar em vez de uma palavra outra palavra um lapso de língua Versprechen ou possa fazer a mesma coisa escrevendo podendo ou não perceber o que fez Ou uma pessoa pode ler algo seja impresso ou manuscrito diferentemente do que na realidade está diante de seus olhos um lapso de leitura Verlesen ou ouvir errado algo que lhe foi dito um lapso de audição Verhören na hipótese naturalmente de não haver qualquer perturbação orgânica de sua capacidade auditiva Outro grupo desses fenômenos tem como sua base o esquecimento Vergessen não no entanto um esquecimento permanente mas apenas um esquecimento temporário Assim uma pessoa pode ser incapaz de se lembrar de uma palavra que conhece apesar de tudo e que reconhece de imediato ou pode esquecer de executar uma intenção embora dela se lembre mais tarde tendoa esquecido apenas naquele determinado momento Em um terceiro grupo o caráter temporário está ausente por exemplo no caso de extravio Verlegen quando a pessoa colocou uma coisa em algum lugar e não consegue encontrála novamente ou no caso precisamente igual de perda Verlieren Aqui temos um esquecimento que tratamos diferentemente de outras formas de esquecimento um caso em que ficamos surpresos ou aborrecidos em vez de considerálo compreensível Além de tudo isso há determinadas espécies de erros Irrtümer nos quais o caráter temporário está presente mais uma vez pois no caso destes por um certo espaço de tempo acreditamos saber algo que antes ou depois desse período na realidade não sabemos E existem numerosos outros fenômenos semelhantes conhecidos por diversos nomes Todas essas são ocorrências cuja afinidade interna recíproca é expressa pelo fato de em alemão sua designação começar com a sílaba ver Quase todas carecem de importância na maioria são muito transitórias e são destituídas de muita importância na vida humana Apenas raramente como no caso da perda de um objeto um fenômeno desses assume certo grau de importância prática Também por esse motivo chamam pouco a atenção fazem surgir nada mais que tênues emoções e assim por diante É para esses fenômenos também que agora proponho chamar a atenção dos senhores Porém irão protestar com certo enfado Há tantos problemas ingentes no amplo universo assim como dentro dos estreitos limites de nossas mentes tantas maravilhas no campo dos distúrbios mentais que exigem e merecem elucidação que parece realmente injustificado investir trabalho e interesse em tais trivialidades Se o senhor puder fazernos compreender por que uma pessoa com olhos e ouvidos sãos pode ver e ouvir em plena luz do dia coisas que não se encontram ali por que outra pessoa subitamente pensa estar sendo perseguida pelas pessoas das quais foi até então muito amiga ou apresenta os mais engenhosos argumentos em apoio de suas crenças delirantes que qualquer criança poderia ver que são disparatadas então deveríamos ter algum apreço pela psicanálise Entretanto se ela não pode fazer mais que nos pedir para considerarmos por que um orador num banquete emprega uma palavra em vez de outra ou por que uma dona de casa extraviou suas chaves e futilidades semelhantes então saberemos como empregar melhor nosso tempo e interesse Eu responderia Paciência senhoras e senhores Penso que suas críticas perderam o rumo É verdade que a psicanálise não pode vangloriarse de jamais haverse ocupado de trivialidades Pelo contrário o material para sua observação é geralmente proporcionado pelos acontecimentos banais postos de lado pelas demais ciências como sendo bastante insignificantes o refugo poderíamos dizer do mundo dos fenômenos Porém não estão os senhores fazendo confusão em suas críticas entre a vastidão dos problemas e a evidência que aponta para eles Não existem coisas muito importantes que sob determinadas condições e em determinadas épocas só se podem revelar por indicações bastante débeis Eu não encontraria dificuldade para fornecerlhes diversos exemplos de tais situações Se o senhor por exemplo é um homem jovem não será a partir de pequenos indícios que concluirá haver conquistado os favores de uma jovem Esperaria uma expressa declaração de amor ou um abraço apaixonado Ou não seria suficiente um olhar que outras pessoas mal perceberiam um ligeiro movimento o prolongamento por um segundo da pressão de sua mão E se fosse um detetive empenhado em localizar um assassino esperaria achar que o assassino deixou para trás sua fotografia no local do crime com seu endereço assinalado Ou não teria necessariamente de ficar satisfeito com vestígios fracos e obscuros da pessoa que estivesse procurando Assim sendo não subestimemos os pequenos indícios com sua ajuda podemos obter êxito ao seguirmos a pista de algo maior Ademais penso como os senhores que os grandes problemas do universo e da ciência são aqueles que mais exigem nosso interesse É porém muito raro alguém manter a expressa intenção de se devotar à pesquisa deste ou daquele grande problema Ficase então sem poder saber qual o primeiro passo a dar É mais promissor no trabalho científico atacar o que quer que esteja imediatamente à nossa frente e ofereça uma oportunidade à pesquisa Agindo dessa forma realmente com afinco e sem preconceito ou sem prevenções e tendose sorte então desde que tudo se relaciona com tudo inclusive as pequenas coisas com as grandes podese mesmo partindo de um trabalho despretensioso ter acesso ao estudo dos grandes problemas É isso que eu devia dizer a fim de manter o interesse dos senhores quando tratamos dessas trivialidades tão evidentes como o são as parapraxias de pessoas sãs Peçamos agora auxílio a alguém que nada saiba de psicanálise e perguntemoslhe como explica essas ocorrências Sua primeira resposta certamente será Ora não há o que explicar não passam de pequenos acontecimentos ao acaso O que o amigo quer dizer com isso Estará afirmando existirem ocorrências embora pequenas que escapam à concatenação universal dos fatos ocorrências que tanto poderia haver como não haver Se alguém comete uma infração desse tipo no determinismo dos eventos naturais em um só ponto significa que atirou fora toda a Weltanschauung da ciência A própria Weltanschauung da religião podemos lembrarlhe se comporta de maneira mais coerente porque dá explícita garantia de que nenhum pardal cai do telhado sem a vontade de Deus Penso que nosso amigo hesitará em tirar a conclusão lógica dessa primeira resposta mudará de opinião e dirá que afinal quando vir a estudar essas coisas poderá encontrar explicações para elas O que está em questão são pequenas falhas no funcionamento imperfeições na atividade mental cujos determinantes podem ser especificados Um homem que em geral consegue falar corretamente pode cometer um lapso de língua 1 se está ligeiramente indisposto e cansado 2 se está excitado e 3 se está excessivamente ocupado com outras coisas É fácil comprovar essas afirmações Os lapsos de língua realmente acontecem com especial freqüência quando se está cansado quando se tem dor de cabeça ou quando se está ameaçado de enxaqueca Nas mesmas circunstâncias os nomes próprios são esquecidos com facilidade Algumas pessoas estão acostumadas a reconhecer a aproximação de um ataque de enxaqueca quando nomes próprios lhes escapam dessa forma Quando estamos excitados também amiúde cometemos erros com palavras assim como com coisas e seguese um ato descuidado Intenções são esquecidas e numerosos outros atos não premeditados se tornam perceptíveis se estamos distraídos isto é propriamente falando se estamos concentrados em alguma coisa Um conhecido exemplo de tal distração é o professor em Fliegende Blätter que perde seu guardachuva e pega o chapéu errado porque está pensando nos problemas que terá de abordar no livro seguinte Todos nós podemos recordar de nossa própria experiência exemplos de como nos é possível esquecer intenções que tivemos e promessas que fizemos por termos nesse entremeio passado por alguma experiência absorvente Tal coisa soa bastante razoável e parece não ser passível de contradição embora possa afigurarse não muito interessante talvez e não ser o que esperávamos Vejamos mais de perto essas explicações sobre parapraxias As supostas precondições para a ocorrência desses fenômenos não são todas da mesma espécie Estar doente e ter distúrbios de circulação fornecem um motivo fisiológico de deterioração do funcionamento normal a excitação a fadiga e a distração são fatores de outra espécie que poderiam ser descritos como psicofisiológicos Esses últimos comportam fácil tradução para a teoria Tanto a fadiga como a distração e talvez também a excitação geral realizam uma divisão da atenção que pode resultar em que seja dirigida atenção insuficiente para a função em apreço Nesse caso a função pode ser perturbada com especial facilidade ou executada com descuido Uma ligeira doença ou mudanças no suprimento sangüíneo ao órgão nervoso central podem ter o mesmo efeito influenciando de modo similar o fator determinante a divisão da atenção Em todos esses casos portanto seria uma questão de efeito de um distúrbio da atenção de causas orgânicas ou físicas Isso parece não prometer muito ao nosso interesse psicanalítico Poderíamos sentirnos tentados a abandonar o tema Se no entanto examinarmos as observações mais atentamente o que vemos não se harmoniza inteiramente com essa teoria da atenção das parapraxias ou pelo menos naturalmente não se regula por ela Descobrimos que as parapraxias desse tipo e o esquecimento dessa espécie ocorrem em pessoas que não estão fatigadas ou distraídas ou excitadas mas que estão sob todos os aspectos em seu estado normal a menos que decidamos atribuir ex post facto às pessoas em questão puramente por conta de suas parapraxias uma excitação que entretanto elas mesmas não comportam Nem pode simplesmente tratarse do caso de uma função ser garantida através de um incremento da atenção dirigida a ela e ser comprometida se essa atenção é reduzida Há grande número de ações efetuadas de forma puramente automática com muito pouca atenção não obstante com total segurança Um caminhante que mal sabe aonde está indo mantémse no caminho certo malgrado isso e pára em seu destino sem se haver perdido vergangen Ora em todos os casos isso é como uma regra Um exímio pianista toca as teclas certas sem pensar Pode naturalmente cometer um erro ocasional porém se o tocar automático aumentasse o risco de errar esse risco seria máximo para um virtuose cuja forma de tocar em conseqüência de prolongada prática se tornou inteiramente automática Sabemos pelo contrário que muitas ações são efetuadas com um grau de precisão muito especial se não são objeto de um nível especialmente elevado de atenção e que o infortúnio de uma parapraxia está fadado a ocorrer precisamente quando se atribui importância especial ao funcionamento correto portanto deveras sem que houvesse distração da atenção necessária Poderseia argüir que isso é o resultado da excitação porém é difícil enxergar por que a excitação não deveria inversamente aumentar a atenção dirigida para aquilo que tão intensamente é desejado Se por um lapso de língua alguém diz o oposto do que pretende em um importante discurso ou comunicação oral dificilmente isso pode ser explicado pela teoria psicofisiológica ou da atenção Existem ademais numerosos pequenos fenômenos secundários no caso das parapraxias os quais não compreendemos e a cujo respeito as explicações dadas até agora não trouxeram nenhuma luz Por exemplo se temporariamente esquecemos um nome aborrecemonos com isso fazemos tudo para recordálo e não podemos nos resignar Por que nesses casos é tão extremamente raro lograrmos orientar nossa atenção pois enfim estamos ansiosos por fazêlo à palavra que como dizemos está na ponta da língua e que reconhecemos de pronto quando é dita para nós Ou ainda há casos em que as parapraxias se multiplicam formam cadeias e se substituem umas às outras Numa primeira ocasião alguém perdeu um compromisso Na ocasião seguinte quando se decidiu firmemente não esquecer desta vez verificase que se faz anotação da hora errada Ou tentase chegar por vias indiretas a uma palavra esquecida e nisso escapa uma segunda palavra que poderia ter ajudado a encontrar a primeira Procurandose por essa segunda palavra uma terceira desaparece e assim por diante Como bem se sabe o mesmo acontece com os erros de impressão que devem ser considerados as parapraxias do compositor Um teimoso erro de impressão dessa espécie segundo se conta certa vez esgueirouse para dentro de um jornal socialdemocrata A notícia que dava de uma cerimônia incluía as palavras Entre os que estavam presentes podiase notar Sua Alteza o Kornprinz No dia seguinte fezse uma tentativa de correção O jornal pedia desculpas e dizia Devíamos naturalmente ter dito o Knorprinz Em tais casos as pessoas falam de um demônio dos erros de impressão ou um demônio da composição tipográfica expressões que pelo menos vão além de qualquer teoria psicofisiológica dos erros de impressão Talvez lhes seja também conhecido o fato de ser possível provocar lapsos de língua produzilos digamos assim por sugestão Uma anedota ilustra esse fato Tinha sido confiado a um estreante dos palcos o importante papel em Die Jungfrau von Orleans de Schiller do mensageiro que anuncia ao rei de der Connétable schickt sein Schwert zurück o Condestável devolve sua espada Um primeiro ator divertiase durante os ensaios com induzir repetidamente o nervoso jovem a dizer em vez das palavras do texto der Komfortabel schickt sein Pferd zurück o cocheiro devolve seu cavalo Conseguiu seu intento o desventurado principiante realmente fez sua estréia na representação com a versão corrompida apesar de haver sido admoestado de não fazêlo ou talvez porque tenha sido admoestado Nenhuma luz é lançada sobre esses pequenos aspectos das parapraxias com a teoria da falta de atenção Porém não significa necessariamente que a teoria seja errônea em face dessa explicação ela simplesmente pode estar carecendo de algo de algum acréscimo para que venha a ser completamente satisfatória Contudo algumas das parapraxias também podem ser consideradas por outro prisma Tomemos os lapsos de língua como o tipo de parapraxia mais adequado a nossos propósitos embora pudéssemos igualmente ter escolhido lapsos de escrita ou lapsos de leitura Devemos ter em mente que até aqui apenas perguntamos quando sob que condições as pessoas cometem lapsos de língua e apenas para essa pergunta tivemos uma resposta Poderíamos porém dirigir nosso interesse para outro aspecto e indagar por que razão o erro ocorreu dessa determinada forma e não de outra e poderíamos considerar o que é que emerge no lapso propriamente dito Os senhores observarão que enquanto essa pergunta não for respondida e nada for respondido e nada for elucidado sobre o lapso o fenômeno permanece como evento casual do ponto de vista psicológico embora dele se tenha dado uma explicação fisiológica Se eu cometesse um lapso de língua poderia obviamente fazêlo em número infinito de formas a palavra certa poderia ser substituída por alguma palavra entre milhares de outras ser distorcida em incontáveis direções diferentes Existe pois algo que no caso particular me compele a cometer o lapso de uma determinada forma ou isso continua sendo uma questão de acaso de escolha arbitrária e se trata talvez de uma pergunta a que não se pode dar qualquer resposta sensata Dois escritores Meringer e Mayer um filólogo o outro psiquiatra de fato tentaram em 1895 atacar o problema das parapraxias por esse ângulo Coligiram exemplos e começaram por abordálos de maneira puramente descritiva Isso naturalmente até aqui não oferece nenhuma explicação embora possa preparar o caminho para alguma Distinguem os diversos tipos de distorções que o lapso impõe ao discurso pretendido como transposições présonâncias antecipações póssonâncias perseverações fusões contaminações e substituições Eu lhes darei alguns exemplos desses principais grupos propostos pelos autores Um exemplo de transposição seria dizer a Milo de Vênus em vez de a Vênus de Milo transposição da ordem das palavras um exemplo de présonância antecipação seria es war mir auf der Schwest auf der Brust so schwer e uma póssonância perseveração seria exemplificada pelo conhecido brinde que saiu errado Ich fordere Sie auf auf das Wohl unseres Chefs aufzustossen em vez de anzustossen Essas três formas de lapso de língua não são propriamente comuns Os senhores encontrarão exemplos muito mais numerosos nos quais o lapso resulta de contração ou fusão Assim por exemplo um cavalheiro dirigese a uma senhora na rua com as seguintes palavras Se me permite senhora gostaria de a begleitdigen A palavra composta que se juntou a begleiten acompanhar evidentemente escondeu em si beleidigen insultar Digase de passagem o jovem provavelmente não teve muito êxito com a senhora Como exemplo de substituição Meringer e Mayer citam o caso de alguém que diz Ich gebe die Präparate in den Briefkasten em vez de Brütkasten A explicação em que esses autores tentaram basear sua coleção de exemplos é especialmente inadequada Acreditam que os sons e as sílabas de uma palavra têm uma valência determinada e que a inervação de um elemento de alta valência pode exercer uma influência perturbadora em outro de menor valência Com isso estão evidentemente se baseando nos raros casos de présonância e póssonância essas preferências de uns sons a outros se é que de fato existem podem não ter absolutamente qualquer relação com outros casos de lapsos de língua Afinal os lapsos de língua mais comuns ocorrem quando em vez de dizermos uma palavra dizemos uma outra muito semelhante e essa semelhança é para muitos explicação suficiente de tais lapsos Por exemplo um professor declarou em sua aula inaugural Não estou geneigt inclinado em vez de geeignet qualificado a valorizar os serviços de meu mui estimado predecessor Ou então outro professor observava No caso dos órgãos genitais femininos apesar de muitas Versuchungen tentações me desculpem Versuche tentativas O tipo mais comum e ao mesmo tempo mais notável de lapsos de língua no entanto são aqueles em que se diz justamente o oposto do que se pretendia dizer Aqui naturalmente estamos muito longe de relações entre sons e os efeitos de semelhança e em vez disso podemos apelar para o fato de que os contrários têm um forte parentesco conceitual uns com os outros e mantêm entre si uma associação psicológica especialmente próxima Há exemplos históricos de tais ocorrências Um presidente da câmara dos deputados de nosso parlamento certa vez abriu a sessão com as palavras Senhores observo que está presente a totalidade dos membros e por isso declaro a sessão encerrada Qualquer outra associação conhecida pode atuar da mesma forma insidiosa como um contrário e emergir em circunstâncias bastante inadequadas Assim contase que por ocasião de uma celebração em honra do casamento de um filho de Hermann von Helmholtz com uma filha de Werner von Siemens o conhecido inventor e industrial a incumbência de saudar à felicidade do jovem par coube ao famoso fisiologista Du BoisReymond Sem dúvida este fez um discurso brilhante porém encerrou com as palavras Portanto longa vida à nova firma Siemens e Haeske Essa era naturalmente a denominação da antiga firma A justaposição dos dois nomes deve ter sido tão familiar a um berlinense como Fortnum e Mason o seria a um londrino Devemos portanto incluir entre as causas das parapraxias não apenas relações entre sons e semelhança verbal como também a influência das associações de palavras Isso porém não é tudo Em numerosos casos parece impossível explicar um lapso de língua a não ser que levemos em conta algo que tinha sido dito ou mesmo simplesmente pensado em uma frase anterior De novo temos aqui um caso de perseveração como aqueles em que insistia Meringer porém de origem mais remota Devo confessar que sinto na totalidade como se estivéssemos mais longe do que nunca de compreender os lapsos de língua Não obstante espero não estar equivocado ao dizer que durante essa última pesquisa todos nós tivemos uma nova impressão desses exemplos de lapsos de língua e que pode valer a pena considerar um pouco mais detidamente essa impressão Examinamos as condições sob as quais em geral os lapsos de língua ocorrem e depois as influências que determinam o tipo de distorção produzida pelo lapso Até agora no entanto não dedicamos nada de nossa atenção ao produto do lapso considerado em si mesmo sem referência à sua origem Se decidimos fazêlo não podemos deixar de encontrar no final coragem para dizer que em alguns exemplos aquilo que resulta do lapso de língua tem um sentido próprio O que queremos dizer com tem um sentido Que o produto do lapso de língua pode talvez ele próprio ter o direito de ser considerado como ato psíquico inteiramente válido que persegue um objetivo próprio como uma afirmação que tem seu conteúdo e seu significado Até aqui temos sempre falado em parapraxias atos falhos porém agora é como se às vezes o ato falho fosse ele mesmo um ato bastante normal que simplesmente tomou o lugar de outro que era o ato que se esperava ou desejava O fato de a parapraxia ter um sentido próprio parece em determinados casos evidente e inequívoco Quando o presidente da câmara dos deputados com suas primeiras palavras encerrou a sessão em vez de abrila sentimonos inclinados em vista de nosso conhecimento das circunstâncias em que o lapso de língua ocorreu a reconhecer que a parapraxia tem um sentido O presidente não esperava nada de bom da sessão e ficaria satisfeito se pudesse darlhe um fim imediato Não temos qualquer dificuldade em chamar a atenção para o sentido desse lapso de língua ou por outras palavras de interpretálo Ou então suponhamos que uma mulher diga a outra em tom de aparente admiração Esse lindo chapéu novo suponho que você mesma o aufgepatzt palavra não existente em lugar de aufgeputzt enfeitou não Ora não existe decoro científico que possa impedirnos de ver por trás desse lapso de língua as palavras Esse chapéu é uma Patzerei droga Ou noutro caso contamnos que uma senhora conhecida por seus modos enérgicos certa ocasião observava Meu marido perguntou a seu médico qual dieta devia seguir mas o médico lhe disse que não precisava de dieta ele podia comer e beber o que eu quero Também nesse caso o lapso de língua tem seu inconfundível outro lado estava expressando um programa coerentemente planejado Se viesse a acontecer senhoras e senhores que tivessem um sentido não apenas alguns exemplos de lapsos de língua e de parapraxias em geral mas considerável número deles o sentido das parapraxias do qual até agora nada ouvimos se tornaria seu aspecto mais importante e deslocaria qualquer outra consideração para um plano secundário Poderíamos então pôr de lado todos os fatores fisiológicos e psicofisiológicos e dedicarnos à investigação exclusivamente psicológica do sentido isto é da significação ou do propósito das parapraxias Por conseguinte nos ocuparemos em testar essa hipótese em grande número de observações Antes porém de levar a cabo essa intenção gostaria de convidálos a seguirme ao longo de outra pista Repetidamente tem acontecido haver um escritor criativo feito uso de um lapso de língua ou de alguma outra parapraxia como meio de produzir um efeito pleno de imaginação Esse fato isoladamente deve demonstrarnos que ele considera a parapraxia o lapso de língua por exemplo como possuidora de um sentido de vez que a produziu deliberadamente Pois o que sucedeu não foi o autor ter cometido um lapso de escrita acidental e assim permitido o uso do mesmo por um de seus personagens na qualidade de lapso de língua ele tenciona trazer algo à nossa atenção mediante o lapso de língua e podemos indagar sobre que algo é esse se talvez queira sugerir que o personagem em questão esteja distraído e fatigado ou esteja prestes a ter um ataque de enxaqueca Se o autor emprega o lapso como se este tivesse um sentido nós naturalmente não temos vontade de exagerar a importância disso Afinal um lapso poderia realmente não ter sentido ser um evento psíquico casual ou poderia ter um sentido apenas em casos bastante raros contudo ainda assim o autor teria o direito de intelectualizálo fornecendo a ele um sentido a fim de empregálo segundo suas finalidades próprias E não seria de surpreender se tivéssemos mais a aprender sobre lapsos de língua com escritores criativos do que com filólogos e psiquiatras Um exemplo desse tipo pode ser encontrado em Wallenstein Piccolomini Ato I Cena 5 de Schiller Na cena anterior Max Piccolomini esposou ardentemente a causa do Duque de Wallenstein e esteve descrevendo apaixonadamente os benefícios da paz dos quais se tornou cônscio no decurso de uma viagem enquanto acompanhava a filha de Wallenstein ao campo Quando ele deixa o palco seu pai Octavio e Questenbergs o emissário da Corte estão mergulhados em consternação A Cena 5 continua QUESTENBERG Ai de mim e continua assimComo amigo deixamolo partirNeste delírio deixálo partirNão chamálo de volta imediatamentenão abrirSeus olhos sem perda de tempo OCTAVIO saindo de uma meditação profunda Ele vem de abrir meus olhosE enxergo mais do que me apraz QUEST Que é isso OCT Amaldiçoem essa viagem QUEST Mas por quê Que se passa OCT Vem vamos juntos amigos Preciso seguirA execrável rota imediatamente Meus olhosAgora estão abertos e devo usálos VemAtrai Q e o leva consigo QUEST Que está havendo Aonde vais então OCT Até ela QUEST Até OCT corrigindose Até o Duque Vem partamosConforme a tradução inglesa de Coleridge Otávio quis dizer até ele ao Duque Comete porém um lapso de língua e dizendo até lá ao menos revela a nós que reconheceu claramente a influência que o jovem guerreiro causou em um entusiasta da paz Um exemplo ainda mais impressionante foi descoberto por Otto Rank 1910a em Shakespeare Está em O Mercador de Veneza na famosa cena em que o venturoso amante escolhe entre os três cofres e talvez o melhor é ler para os senhores a breve descrição de Rank Um lapso de língua ocorre em O Mercador de Veneza de Shakespeare Ato III Cena 2 e é do ponto de vista dramático causado de maneira extremamente sutil e empregado com técnica brilhante Semelhante ao lapso existente em Wallenstein para o qual Freud chamou a atenção mostra que os dramaturgos possuem uma clara compreensão do mecanismo e do significado desse tipo de parapraxia e supõem que o mesmo seja verdadeiro para sua platéia Pórcia que por vontade de seu pai teve de escolher um marido por sorteio escapou até então de todos os seus indesejados pretendentes por um feliz acaso Tendo enfim encontrado em Bassanio o pretendente de sua preferência tem motivos para temer que também ele venha a escolher o cofre errado Ela desejaria muito dizerlhe que mesmo assim ele poderia ter certeza de seu amor porém isso lhe é vedado em virtude do juramento Nesse conflito íntimo o poeta faz com que ela diga ao pretendente preferido Por favor não vos apresseis esperai um ou dois dias antes de consultar a sorte pois se escolherdes mal perco vossa companhia assim pois aguardai um pouco Alguma coisa me diz mas não é o amor que não quereria perdervos Eu poderia ensinarvos como escolher bem mas então seria perjura e não o serei jamais Podeis pois fracassar porém se fracassardes farmeeis deplorar não haver cometido o pecado de perjúrio Malditos sejam vossos olhosEncantaramme e partiramme em duas partes uma é vossa e outra é meia vossa quero dizer minha mas sendo minha é vossa e desse modo sou toda vossa A coisa da qual ela desejava dar a ele apenas um indício muito sutil porque devia escondêla dele de qualquer maneira ou seja que ela mesmo antes de ele fazer a escolha era inteiramente dele e o amava é precisamente isso que o poeta com uma maravilhosa sensibilidade psicológica faz irromper abertamente em seu lapso de língua e com essa solução artística logra aliviar tanto a incerteza intolerável do amante como o suspense do compreensivo auditório diante do resultado de sua escolha Observem também com que habilidade Pórcia no fim reconcilia as duas afirmações contidas em seu lapso de língua como resolve a contradição entre elas e como finalmente mostra ser o lapso o que estava correto Mas sendo minha é vossae desse modo sou toda vossa Ocasionalmente tem acontecido que um pensador cuja atividade se situa fora da medicina haja revelado por algo que falou o sentido de uma parapraxia e se tenha antecipado a nossos esforços de explicála Os senhores todos ouviram falar no espirituoso satirista Lichtenberg 174299 de quem Goethe disse Onde ele faz uma pilhéria se esconde um problema Às vezes a pilhéria também traz à luz a solução do problema Nos Witzige und Satirische Einfälle Witty and Satirical Thoughts 1853 de Lichtenberg encontramos o seguinte Ele tanto leu Homero que sempre lia Agamemnon em vez de angenommen suposto Aqui temos toda a teoria dos lapsos de leitura Na próxima vez precisamos ver se podemos concordar com esses escritores em suas opiniões CONFERÊNCIA III PARAPRAXIAS continuação SENHORAS E SENHORES Chegamos na última vez à idéia de considerar as parapraxias não em relação à desejada função que elas perturbavam mas à sua própria descrição e tivemos a impressão de que em casos especiais pareciam revelar um sentido próprio Refletimos então que se pudesse ser obtida a confirmação em uma escala mais ampla de que as parapraxias têm um sentido seu sentido logo ficaria mais interessante que a investigação das circunstâncias em que ocorrem Vamos mais uma vez chegar a um acordo sobre o que se deve entender por sentido de processo psíquico Queremos dizer com isso tãosomente a intenção à qual serve e sua posição em uma continuidade psíquica Na maioria de nossas investigações podemos substituir sentido por intenção ou propósito Tratavase então simplesmente de uma ilusão enganadora ou de uma exaltação poética das parapraxias quando pensamos reconhecer nelas uma intenção Continuaremos a tomar lapsos de língua como nossos exemplos Se agora examinarmos atentamente numerosas observações desse tipo encontraremos categorias completas de casos em que a intenção o sentido do lapso é inteiramente visível Antes de tudo existem aqueles nos quais o que se pretendia é substituído por seu contrário O presidente da câmara dos deputados ver em 1 disse em seu discurso de abertura Declaro a sessão encerrada Isso não é nada ambíguo O sentido e intenção de seu lapso era encerrar a sessão Er sagt es ja selbst é o que estamos tentados a citar é apenas uma questão de aceitar suas palavras Não me interrompam neste ponto objetando que isso é impossível que sabemos que ele não queria encerrar a sessão e sim abrila e que ele mesmo a quem nós reconhecemos como a única suprema corte de apelação poderia confirmar o fato de que queria abrila Os senhores estão se esquecendo de que fizemos o acordo de começarmos considerando as parapraxias no que concerne à sua própria descrição sua relação com a intenção que elas perturbaram não será discutida senão mais adiante De outro modo os senhores serão culpados de um erro de lógica simplesmente por fugirem do problema ora em exame por algo que é chamado em inglês begging the question Em outros casos nos quais o lapso não expressa o exato contrário não obstante um sentido oposto pode ser expresso por ele Não estou geneigt inclinado a valorizar os serviços de meu predecessor ver em 1 Geneigt não é o contrário de geeignet qualificado mas exprime claramente algo que contrasta nitidamente com a situação na qual o discurso devia ser feito Já em outros casos o lapso de língua apenas acrescenta um segundo sentido àquele que se pretendia A frase então soa como uma contração uma abreviação ou condensação de diversas frases Assim quando a enérgica senhora dizia Ele pode comer e beber o que eu quero ver em 1 é bem como se ela tivesse dito Ele pode comer e beber o que ele quer mas o que ele tem a ver com querer Eu é que quero em vez dele Um lapso de língua muitas vezes dá a impressão de ser uma abreviação desse tipo Por exemplo um professor de anatomia ao fim de uma conferência sobre as cavidades nasais perguntou se seu auditório havia compreendido o que ele disse e após geral assentimento prosseguiu Dificilmente posso acreditar nisso pois mesmo em uma cidade com milhões de habitantes aqueles que entendem das cavidades nasais podem ser contados em um dedo desculpemme nos dedos de uma mão A frase abreviada também possui um sentido a saber que existe apenas uma pessoa que delas entende Contrastando com esses grupos de casos nos quais a parapraxia por si mesma revela seu sentido existem outros em que a parapraxia não produz nada que tenha algum sentido próprio e que por conseguinte contrariam nitidamente nossas expectativas Se alguém deturpa um nome próprio através de um lapso de língua ou agrupa uma série anormal de sons esses eventos muito comuns isoladamente considerados parecem dar uma resposta negativa à nossa pergunta sobre se todas as parapraxias têm alguma espécie de sentido Um exame mais detido desses exemplos porém mostra que essas distorções são facilmente compreendidas e que absolutamente não existe diferença tão grande entre esses casos mais obscuros e os anteriores mais claros Um homem a quem se perguntou a respeito da saúde de seu cavalo respondeu Bem ele draut uma palavra sem sentido ele dauert vai durar mais um mês talvez Quando lhe foi perguntando o que realmente quis dizer explicou haver pensado que isso era uma traurige triste história A combinação de dauert e traurig produziu draut Outro homem falando de uns acontecimentos que condenava prosseguiu Mas então os fatos vieram a Vorschwein palavra não existente em vez de Vorschein luz Respondendo a indagações confirmou o fato de que havia considerado essas ocorrências Schweinereien repugnantes literalmente porcarias Vorschein e Schweinereien combinaramse para produzir a estranha palavra Vorschwein Por certo recordamse do caso do jovem senhor que perguntou à senhora desconhecida se ele a podia begleitdigen ver em 1 Aventuramonos a dividir esta forma verbal em begleiten acompanhar e beleidigen insultar e nos sentimos muito certos dessa interpretação sem precisarmos de qualquer confirmação Os senhores verão a partir desses exemplos que mesmo esses casos mais obscuros de lapsos de língua podem ser explicados por uma convergência uma interferência recíproca entre duas elocuções desejadas as diferenças entre esses casos de lapsos surgem meramente do fato de em algumas ocasiões uma intenção tomar completamente o lugar da outra uma substitui a outra como nos lapsos de língua que exprimem o contrário ao passo que em outras ocasiões uma intenção se satisfaz distorcendo ou modificando a outra de modo que se produzem estruturas compostas que fazem sentido em maior ou menor grau por sua própria conta Parecemos agora haver desvendado o segredo de grande número de lapsos de língua Se retivermos na memória essa descoberta seremos capazes de compreender também outros grupos que até agora se constituíram em enigma para nós Nos casos de distorção de nomes por exemplo não podemos supor que se trate sempre de uma questão de competição entre dois nomes semelhantes mas diferentes Não é difícil no entanto entrever a segunda intenção A distorção de um nome ocorre muito freqüentemente sem haver lapsos de língua procura dar ao nome um tom ofensivo ou fazêlo soar como algo inferior e é um costume conhecido ou mau costume destinado a insultar que as pessoas civilizadas cedo aprendem a abandonar porém relutam em abandonar Muitas vezes ainda é permitida como brincadeira embora brincadeira pouco digna Como exemplo notório e deselegante dessa forma de distorcer nomes posso mencionar que nos dias atuais da Primeira Guerra Mundial o nome do presidente da República Francesa Poincaré foi transformado em Schweinskarré Portanto é plausível supor que a mesma intenção insultuosa esteja presente nesses lapsos de língua e procure encontrar expressão na distorção de um nome Explicações semelhantes acodem ao espírito na mesma ordem de coisas quando se trata de certos exemplos de lapsos de língua com efeitos cômicos ou absurdos Eu os convido a arrotar aufzustossen à saúde de nosso Chefe ver em 1 Aqui uma atmosfera de cerimônia é inesperadamente perturbada pela intromissão de uma palavra que evoca uma idéia condenável e à maneira de certas frases insultuosas e ofensivas mal podemos evitar a suspeita de que uma intenção procurava encontrar expressão e estava em violenta contradição com as palavras ostensivamente respeitosas O que o lapso de língua parece ter estado dizendo era mais ou menos isto Não acreditem Isso não é a sério Pouco me importa esse sujeito Quase a mesma coisa se aplica a lapsos de língua que transformam palavras inocentes em outras indecentes ou obscenas Assim Apopos em vez de à propos ou Eischeissweibchen por EiweissscheibchenMuitas pessoas como sabemos tiram alguma satisfação de um costume como esse de distorcer deliberadamente palavras inocentes em obscenas tais distorções são vistas como engraçadas e ao ouvirmos uma delas devemos de fato primeiro indagar do interlocutor se a disse intencionalmente como brincadeira ou se ela ocorreu como lapso de língua Bem está parecendo como se tivéssemos resolvido o problema das parapraxias e com bem pouca dificuldade Não são eventos casuais porém atos mentais sérios têm um sentido surgem da ação concorrente ou talvez da ação de mútua oposição de duas intenções diferentes Agora contudo vejo também que os senhores estão se preparando para apresentarme uma avalanche de perguntas e de dúvidas que terão de ser respondidas e abordadas antes de podermos apreciar esse primeiro resultado de nosso trabalho Certamente não tenho qualquer desejo de forçar os senhores a decisões apressadas Vamos tomálas na devida ordem uma após outra e dedicarlhes uma tranqüila atenção O que é que os senhores desejam perguntarme Penso eu que essa explicação se aplica a todas as parapraxias ou apenas a determinado número delas Pode este mesmo ponto de vista ser estendido aos muitos outros tipos de parapraxias aos lapsos de leitura aos lapsos de escrita ao esquecimento aos atos descuidados aos extravios e assim por diante Em vista da natureza psíquica das parapraxias que significação resta aos fatores de fadiga excitação distração e interferência na atenção E mais é claro que das duas intenções rivalizantes de uma parapraxia uma delas sempre está manifesta porém a outra nem sempre Que fazemos então para descobrir essa outra E se pensamos têla descoberto como provamos que se trata não apenas de uma intenção provável mas da única que é a correta para o caso Existe algo mais que desejam perguntarme Se não vou prosseguir Os senhores se lembrarão de que não damos muito valor às parapraxias em si mesmas e tudo o que queremos é aprender partindo de seu estudo algo que possa resultar em benefício da psicanálise Por conseguinte eu lhes apresento esta questão Que intenções ou que propósitos são esses capazes de perturbar outros dessa maneira E quais são as relações entre as intenções que perturbam e as intenções que são perturbadas Logo o problema não é resolvido a menos que recomecemos nosso trabalho Assim pois em primeiro lugar é essa a explicação para todos os casos de lapsos de língua Estou muito inclinado a pensar que sim e meu motivo é que sempre ao se investigar um exemplo de lapso de língua surge uma explicação desse tipo No entanto realmente também não há maneira de provar que um lapso de língua não possa ocorrer sem esse mecanismo Pode ser assim mas teoricamente é uma questão sem interesse para nós de vez que permanecem as conclusões que desejamos tirar para nossa introdução à psicanálise embora este não é certamente o caso nossa opinião seja válida apenas para uma minoria dos casos de lapsos de língua À questão seguinte saber se podemos estender a outros tipos de parapraxias nosso ponto de vista responderei de antemão com um sim Os senhores serão capazes de se convencer disso ao virmos examinar exemplos de lapsos de escrita de atos descuidados e outros mais Por motivos técnicos porém sugiro que adiemos essa tarefa até havermos abordado os lapsos de língua de forma ainda mais completa Exigese uma resposta mais detalhada à pergunta sobre que significação resta aos fatores postos em evidência pelos autores mencionados distúrbios da circulação fadiga excitação distração e a teoria da perturbação da atenção se aceitamos o mecanismo psíquico dos lapsos de língua que descrevemos Observem que não estamos negando esses fatores Em geral não é muito comum a psicanálise negar algo que outras pessoas afirmam via de regra ela apenas acrescenta algo novo embora sem dúvida vez e outra sucede esse algo que até então foi negligenciado e é agora apresentado como um acréscimo novo ser de fato a essência do assunto A influência das condições fisiológicas sobre a produção dos lapsos de língua mediante uma ligeira doença distúrbios da circulação ou estados de exaustão deve ser reconhecida de imediato a experiência cotidiana e pessoal os convencerá disso Mas que pouca coisa elas explicam Antes de tudo elas não são precondições necessárias das parapraxias Lapsos de língua ocorrem com a mesma possibilidade em perfeita saúde e em estado normal Esses fatores somáticos portanto apenas servem para facilitar e favorecer o especial mecanismo mental dos lapsos de língua Certa vez usei de uma analogia para descrever essa relação e vou repetila aqui porquanto posso supor não haver outra melhor que a substitua Suponhamos que numa noite escura eu fosse a um local ermo e ali fosse atacado por um meliante que carregasse com meu relógio e minha carteira Como não visse claramente o rosto do ladrão faria minha queixa no posto policial mais próximo com as palavras Isolamento e escuridão roubaram meus pertences O funcionário da polícia poderia então dizerme Pelo que o senhor diz parece estar adotando injustificadamente uma opinião extremamente esquemática Seria melhor apresentar os fatos assim Valendose da escuridão e favorecido pelo isolamento do lugar um ladrão desconhecido roubou os pertences do senhor Em seu caso me parece que a tarefa principal é que devemos encontrar o ladrão Talvez então sejamos capazes de recuperar o produto do roubo Esses fatores psicofisiológicos como a excitação a distração e os distúrbios da atenção muito pouco nos vão ajudar com vistas a uma explicação Eles são apenas frases vazias são biombos atrás dos quais não devemos nos sentir impedidos de lançar um olhar A pergunta deveria ser o que foi causado pela excitação pela distração especial da atenção Ademais devemos reconhecer a importância da influência dos sons da semelhança das palavras e das associações habituais suscitadas pelas palavras Estas facilitam os lapsos de língua por apontarem os caminhos que esses lapsos podem tomar Contudo se tenho um caminho aberto diante de mim esse fato automaticamente decide que eu o tomaria Preciso de um motivo a mais antes de me resolver por ele e além disso de uma força que me impulsione pelo caminho Assim essas relações de sons e palavras constituem também do mesmo modo como as condições somáticas exclusivamente coisas que favorecem os lapsos de língua e não podem proporcionar a verdadeira explicação para eles Considerem apenas isso em uma imensa quantidade de casos meu falar não é perturbado pela circunstância de as palavras que estou usando lembrarem outras com som semelhante de serem intimamente vinculadas a seus contrários ou de associações correntes delas derivarem E talvez pudéssemos encontrar uma saída acompanhando o filósofo Wundt quando diz que os lapsos de língua surgem se em conseqüência de exaustão física a tendência a associar prevalece sobre aquilo que a pessoa tenciona dizer Seria muito convincente se não fosse contrariado pela experiência que mostra que numa série de casos os fatores somáticos facilitadores dos lapsos de língua estão ausentes e que em outra série de casos os fatores associativos que os facilitam estão igualmente ausentes Entretanto estou particularmente interessado em sua pergunta seguinte Como se descobrem as duas intenções que se interferem mutuamente Os senhores provavelmente não percebem como é importante a pergunta Uma das duas intenções aquela que é perturbada naturalmente é inequívoca a pessoa que comete o lapso de língua conhecea e a admite É somente a outra a intenção que perturba que pode dar origem à dúvida e à hesitação Ora já temos visto e sem dúvida os senhores não o esqueceram que em numerosos casos essa outra intenção é igualmente evidente É indicada pelo efeito do lapso bastando que tenhamos a coragem de reconhecer nesse efeito uma validade própria Seja o caso do presidente da câmara dos deputados cujo lapso de língua disse o contrário do tencionado E claro que desejava abrir a sessão porém é igualmente claro que também desejava encerrála Isso é tão óbvio que não nos deixa nada por interpretar Nos outros casos contudo nos quais a intenção perturbadora apenas distorce a intenção original sem que ela mesma consiga completa expressão como é que partindo da distorção chegamos à intenção perturbadora Em um primeiro grupo de casos isso se faz de maneira bastante simples e segura com efeito da mesma maneira como se tem a intenção perturbada Fazemos o interlocutor darnos a informação diretamente Depois do lapso de língua ele prontamente diz as palavras que originalmente pretendia Draut não dauert vai durar mais um mês talvez ver em 1 Pois bem exatamente da mesma forma o fazemos dizer qual a intenção que perturba Por que lhe perguntamos o senhor disse draut Ele responde Eu queria dizer É uma traurige triste história De maneira semelhante em outro caso em que o lapso de língua era Vorschwein ver em 1 a pessoa confirma o fato de que desejava inicialmente dizer É uma Schweinerei porcaria porém se controlou e saiuse com outro comentário Aqui pois a intenção que distorce fica estabelecida tão seguramente como aquela que foi distorcida Minha escolha desses exemplos não foi sem propósito de vez que sua origem e sua solução não procedem nem de mim nem de meus seguidores E em ambos esses casos medidas ativas de alguma espécie foram necessárias para se chegar à solução Foi preciso perguntar ao orador por que cometera o lapso e o que poderia dizer sobre o mesmo De outro modo seu lapso poderia terlhe passado despercebido sem desejar explicálo Quando porém foi indagado a respeito deu a explicação com a primeira coisa que lhe ocorreu E agora por favor observem que esse pequeno passo positivo e seu resultado bemsucedido já são uma psicanálise e constituem um modelo para todas as investigações psicanalíticas que empreenderemos daqui por diante Serei demais desconfiado porém se suspeito que exatamente no momento em que a psicanálise faz seu aparecimento perante os senhores a resistência a ela desperta simultaneamente Não se sentem os senhores inclinados a objetar que a informação dada pela pessoa a quem foi feita a pergunta a pessoa que cometeu o lapso de língua não é totalmente conclusiva Ela estava naturalmente desejosa pensam os senhores de atender à solicitação de explicar o lapso e assim disse a primeira coisa que lhe veio à cabeça e que parecia capaz de fornecer tal explicação Isso porém não é nenhuma prova de que o lapso realmente ocorreu dessa maneira Pode ter sido assim contudo também pode ter sucedido de outra forma E poderia terlhe ocorrido mais alguma coisa que seria também apropriada ou talvez até mesmo mais bem ajustada É estranho quão pouco respeito os senhores no fundo têm por um ato psíquico Imaginem que alguém tivesse empreendido a análise química de determinada substância e encontrado determinado peso para um de seus componentes tantos e tantos miligramas Determinadas inferências seriam deduzidas desse peso Ora supõem os senhores que alguma vez ocorreria a um químico criticar essas inferências com base no fato de que a substância isolada poderia igualmente ter tido algum outro peso Todos se curvarão ante o fato de que o peso era esse e nenhum outro e confiantemente tirarão daí suas ulteriores conclusões No entanto quando os senhores se defrontam com o fato psíquico de que determinada coisa ocorreu à mente da pessoa interrogada não querem admitir a validade do fato alguma outra coisa poderia terlhe ocorrido Os senhores acalentam a ilusão de haver uma coisa como liberdade psíquica e não querem desistir dela Lamento dizer que discordo categoricamente dos senhores a este respeito Perante isso irão interromperse porém apenas para retomar sua resistência em outro ponto E prosseguirão Constitui técnica especial da psicanálise segundo entendemos tomarem análise as próprias pessoas a fim de obter a solução de seus problemas ver em 1 adiante Agora tomemos um novo exemplo aquele em que um orador convocando a um brinde de homenagem numa ocasião de cerimônia convidou seus ouvintes a arrotar aufzustossen à saúde do chefe ver em 1O senhor diz ver em 1 e 2 que a intenção perturbadora nesse caso era uma intenção de insultar era essa que estava opondose à expressão de respeito do orador É contudo mera interpretação da parte do senhor baseada em observações não relacionadas com o lapso de língua Se nesse exemplo o senhor interrogasse a pessoa responsável pelo lapso ela não confirmaria a idéia do senhor de que ela tencionava um insulto ao contrário ela repudiaria isso energicamente Por que em face desse claro desmentido não abandona sua improvável interpretação Sim Os senhores encontraram um argumento poderoso desta vez Posso imaginar o desconhecido proponente do brinde Provavelmente é subordinado do chefe do departamento a quem está sendo feita a homenagem talvez ele mesmo já seja professorassistente um homem jovem com excelentes projetos de vida Procuro forçálo a admitir que ele pode não obstante ter tido uma sensação de que nele havia algo se opondo ao brinde em honra do chefe Entretanto isso me põe em maus lençóis Ele fica impaciente e de repente irrompe Pare de querer me interrogar se não vou ficar grosseiro O senhor vai arruinar toda a minha carreira com suas suspeitas Apenas falei aufstossen arrotar em vez de anstossen brindar porque antes disse auf duas vezes na mesma frase É o que Meringer chama de perseveração e não há nada mais para ser interpretado nisso Está entendendo Basta Hum Que reação surpreendente uma negação realmente enérgica Vejo que não há nada mais a tratar com o homem Porém também constato que ele mostra intenso interesse pessoal em insistir em que sua parapraxia não tem um sentido Os senhores também podem sentir que existe algo de errado em ele ser assim tão rude com uma indagação puramente teórica Entretanto pensarão depois de tudo dito e feito ele deve saber o que quis e o que não quis dizer Mas será que sabe mesmo Talvez seja essa ainda a questão Agora porém julgam que me têm à mercê dos senhores Então essa é sua técnica ouçoos dizer Quando alguém que cometeu um lapso de língua diz alguma coisa a respeito que satisfaz ao senhor o senhor o declara autoridade decisiva e final no assunto É ele mesmo quem diz ver em 1 Quando o que ele diz não se ajusta ao livro do senhor então tudo quanto o senhor diz é que ele não tem importância não há necessidade de acreditar nele Isso é bastante verdadeiro Mas posso trazerlhes um exemplo semelhante no qual ocorre o mesmo espantoso evento Quando alguém acusado de um delito confessa ao juiz sua ação o juiz acredita em sua confissão porém se nega o juiz não acredita nele Se fosse de outra forma não haveria aplicação de justiça e apesar de erros ocasionais devemos convir em que o sistema funciona O senhor é um juiz então E uma pessoa que cometeu um lapso de língua é trazida à sua presença sob acusação Quer dizer que cometer um lapso de língua é um delito não é Talvez não precisemos rejeitar a comparação Eu contudo pedirlhesia observarem que profundas diferenças de opinião atingimos após uma pequena investigação do que pareciam ser esses inocentes problemas concernentes às parapraxias diferenças que no momento não vemos como atenuar Proponho uma conciliação provisória com base na analogia entre juiz e réu Penso que os senhores convirão comigo em que não pode haver dúvida de que a parapraxia tenha um sentido se a própria pessoa o admite Em troca eu vou convir em que não podemos chegar a uma prova direta do suspeito sentido se a pessoa nos recusa informações e também naturalmente se não está em condições de nos fornecer as informações Portanto como no caso da aplicação da justiça somos obrigados a voltarnos para a prova circunstancial que pode tornar uma decisão mais fundamentada em alguns casos e menos em outros Nos tribunais de justiça pode ser necessário por motivos práticos considerar um réu culpado com base em provas circunstanciais Não temos necessidade disso nem estamos contudo também obrigados a prescindir de provas circunstanciais Seria um erro supor que uma ciência consista inteiramente de teses estritamente comprovadas e seria injusto exigir isso Somente uma pessoa inclinada a uma paixão por autoridade fará essa exigência alguém com um desejo insaciável de substituir seu catecismo religioso por outro embora científico A ciência tem apenas algumas poucas proposições apodícticas em seu catecismo o resto são asserções promovidas por ela a um certo grau de probabilidade Atualmente constitui sinal de modo científico de pensamento contentarse com essas aproximações da certeza e ser capaz de dedicarse a um trabalho construtivo mais além apesar da ausência de confirmação final No entanto se a pessoa mesma não nos dá a explicação do sentido de uma parapraxia onde iremos encontrar os pontos de partida para nossa interpretação a prova circunstancial Em diversas direções Em primeiro lugar a partir de analogias com fenômenos outros que não as parapraxias quando por exemplo afirmamos que distorcer um nome isso ocorrendo como lapso de língua tem o mesmo sentido insultuoso que a deturpação deliberada de um nome Ademais também a partir da situação psíquica na qual ocorreu a parapraxia do caráter da pessoa que comete a parapraxia e das impressões que a pessoa recebeu antes da parapraxia e às quais a parapraxia talvez seja uma reação O que sucede via de regra é a interpretação ser efetuada segundo princípios gerais começar por onde existe apenas uma suspeita uma hipótese de interpretação e então encontramos uma confirmação ao examinarmos a situação psíquica Às vezes temos de esperar também por eventos subseqüentes que de certa maneira se anunciaram pela parapraxia antes de nossa suspeita ser confirmada Não posso facilmente darlhes ilustrações desse aspecto se me limito ao campo dos lapsos de língua embora nele mesmo se possa encontrar alguns bons exemplos O jovem senhor que queria begleitdigen uma senhora ver em 1 certamente era uma personalidade tímida A mulher cujo marido podia comer e beber o que ela quisesse ver em 1 é o que eu conheço como uma dessas enérgicas senhoras que mandam em casa Ou então tomemos o seguinte exemplo Na assembléia geral do Concordia um jovem membro fez um discurso de violenta oposição no decorrer do qual se referiu à diretoria como Vorschussmitglieder membros do empréstimo uma palavra que parece ter sido formada de Vorstand diretoria e Ausschuss comissão Suspeitaremos de que alguma intenção perturbadora estivesse operando nele trabalhando contra sua violenta oposição baseada em algo referente a um empréstimo E com efeito soubemos de nosso informante que o orador estava constantemente em dificuldades financeiras e justamente nessa época se havia inscrito para um empréstimo A intenção perturbadora podia por conseguinte ser substituída pelo pensamento Modere sua posição estas são as mesmas pessoas que irão aprovar seu empréstimo Contudo tenho condições de darlhes um extenso conjunto de provas circunstanciais desse tipo se me desloco para o vasto campo das outras parapraxias Se alguém esquece um nome próprio que lhe é normalmente familiar ou se malgrado todos os seus esforços acha difícil lembrálo é plausível supor que tenha algo contra a pessoa que usa o nome de modo que prefere não pensar nela Considerem por exemplo o que aprendemos sobre a situação psíquica em que ocorreu a parapraxia nos casos que agora examinaremos Herr Y apaixonouse por uma senhora porém não teve sucesso e logo depois ela se casou com Herr X Depois disso Herr Y apesar de ter conhecido Herr X por muito tempo e mesmo ter assuntos de negócios com ele esquecia seu nome repetidamente de forma que por diversas vezes tinha de perguntar a outras pessoas qual era o nome quando precisava corresponderse com Herr X Herr Y evidentemente nada queria saber de seu rival mais afortunado jamais pensar sobre sua existência Ou esse outro Uma senhora indagou a seu médico sobre notícias de uma conhecida de ambos porém mencionoua por seu nome de solteira Ela havia esquecido o nome de casada de sua amiga Admitiu depois que ficara muito desgostosa com o casamento e se antipatizava com o marido de sua amiga Teremos muito a dizer sobre esquecimento de nomes em outros contextos ver em 1 e seg adiante no momento interessanos principalmente a situação psíquica na qual ocorre o esquecimento O esquecimento de intenções pode geralmente ser atribuído a uma corrente oposta de pensamento que reluta em executar a intenção Essa opinião porém não é sustentada apenas por nós psicanalistas é opinião geral aceita por todos em sua vida diária e negada somente quando se torna teoria Um protetor que dá a seu protégé a desculpa de haver esquecido seu pedido não precisa justificarse O protégé logo pensa Não significa nada para ele é verdade que prometeu mas na realidade não quer fazêlo Por essa razão o esquecimento é interdito em certas circunstâncias da vida comum a diferença entre a opinião popular e a opinião psicanalítica acerca dessas parapraxias parece haver desaparecido Imaginem a dona da casa recebendo seu convidado com as palavras O quê O senhor veio hoje Esquecime totalmente de havêlo convidado para hoje Ou imaginem um jovem senhor confessando a sua noiva que ele se esqueceu de comparecer ao último encontro Ele certamente não o confessará preferirá inventar de improviso os mais improváveis obstáculos que o impediram de comparecer a tempo e que depois o impossibilitaram de avisála Todos sabemos também que na vida militar a desculpa de se haver esquecido algo em nada ajuda e não constitui proteção contra punição e certamente todos sentimos que essa conduta se justifica Aqui de repente todos se unem no pensar que uma determinada parapraxia tem um sentido e no saber que sentido é esse Por que não são suficientemente coerentes para estender seu conhecimento às outras parapraxias e admitilas plenamente Para essa pergunta existe naturalmente também uma resposta Visto como os leigos têm tão poucas dúvidas sobre o sentido do esquecimento de intenções os senhores não ficarão nada surpresos ao encontrarem escritores empregando essa espécie de parapraxia no mesmo sentido Qualquer um dos senhores que tenha visto ou lido Caesar and Cleopatra de Bernard Shaw se lembrará de que na última cena César ao deixar o Egito é perseguido pela idéia de que há alguma coisa mais que tencionara fazer porém esqueceu No fim vemse a saber o que era esquecerase de dizer adeus a Cleópatra O dramaturgo mediante esse pequeno expediente engenhoso procura atribuir ao grande César a superioridade que na realidade ele não possui e que jamais desejou Fontes históricas lhes contarão que César fez Cleópatra acompanhálo a Roma que ela vivia lá com seu pequeno Caesarion quando César foi assassinado e que ela logo depois fugiu da cidade Casos de esquecimento de uma intenção em geral são tão claros que não servem muito a nosso objetivo obter a partir da situação psíquica uma prova circunstancial do sentido de uma parapraxia Voltemonos portanto para um tipo de parapraxia especialmente ambíguo e obscuro a perda e o extravio Os senhores não terão dúvida em achar inacreditável que nós próprios podemos desempenhar um papel intencional em coisa tão freqüente como o é o doloroso acidente de perder algo Existem contudo numerosas observações semelhantes à que se segue Um jovem senhor perdeu um lápis de grande valor estimativo para ele No dia anterior recebera uma carta de seu cunhado a qual terminava com estas palavras Não tenho atualmente nem disposição nem tempo para encorajálo em sua futilidade e preguiça O lápis de fato lhe fora dado pelo mesmo cunhado Sem essa coincidência não poderíamos naturalmente ter afirmado que nessa perda um papel foi desempenhado pela intenção de se desfazer do objeto Casos semelhantes são muito comuns Perdemos um objeto se nos desentendemos com a pessoa de quem o ganhamos e não queremos nos lembrar dela ou então se não gostamos mais do objeto em si mesmo e queremos uma desculpa para conseguir um outro melhor em seu lugar A mesma intenção dirigida contra um objeto também naturalmente pode ter um desempenho nos casos de deixar cair de quebrar e de destruir coisas Podemos considerar obra do acaso quando uma criança em idade escolar imediatamente antes do aniversário estraga ou despedaça algum de seus pertences pessoais como sua mochila ou seu relógio Sequer qualquer um que já tenha sofrido suficientes vezes o tormento de não poder encontrar algo guardado por ele mesmo se sentirá inclinado a acreditar que existe um objetivo em extraviar coisas Não são nada raros os casos em que as circunstâncias concomitantes do extravio indicam uma intenção de se desfazer temporária ou permanentemente do objeto O que se segue talvez seja o melhor exemplo de tal situação Um homem ainda bem jovem contoume o seguinte caso Há alguns anos havia desentendimentos entre mim e minha esposa Achavaa muito fria e embora de bom grado reconhecesse suas excelentes qualidades convivíamos sem quaisquer sentimentos ternos Um dia voltando de uma caminhada deume um livro que havia comprado porque pensou que me interessaria Agradecilhe esse gesto de atenção prometi ler o livro e o pus de parte Depois disso jamais consegui encontrálo Passaramse meses durante os quais casualmente eu me lembrava do livro perdido e fazia vãs tentativas de encontrálo Uns seis meses mais tarde minha querida mãe que não morava conosco caiu doente Minha esposa deixou a casa para ir cuidar de sua sogra A condição da paciente agravouse e deu à minha mulher uma oportunidade de revelar o melhor lado de si mesma Uma noite eu regressava a casa cheio de entusiasmo e gratidão pelo que minha esposa tinha realizado Aproximeime de minha escrivaninha e sem qualquer intenção definida embora com uma espécie de certeza de sonâmbulo abri uma das gavetas Ali bem à vista encontrei o livro que há muito eu extraviara Com a extinção do motivo o extravio do objeto também cessou Senhoras e senhores poderia multiplicar indefinidamente essa coleção de exemplos mas não o farei aqui De qualquer forma os senhores encontrarão uma profusão de material para estudo das parapraxias em Psychopathology of Everyday Life publicado pela primeira vez em 1901 Todos esses exemplos conduzem ao mesmo resultado indicam a probabilidade de as parapraxias terem um sentido e mostram aos senhores como esse sentido é descoberto ou confirmado pelas circunstâncias concomitantes Hoje serei mais breve pois adotamos o objetivo limitado de usar o estudo desses fenômenos como auxílio para uma preparação à psicanálise Há apenas dois grupos de observações nos quais preciso adentrarme mais completamente neste ponto as parapraxias acumuladas e combinadas e a confirmação de nossas interpretações por acontecimentos subseqüentes As parapraxias acumuladas e combinadas são sem dúvida a fina flor de sua espécie Se estivéssemos apenas interessados em provar que as parapraxias têm um sentido nos teríamos limitado a elas logo de saída de vez que em seu caso o sentido é inconfundível até mesmo para um pobre de espírito e se impõe ao julgamento mais crítico Um acúmulo desses fenômenos revela uma persistência que quase nunca constitui característica de eventos casuais a qual porém se ajusta muito bem a algo intencional Finalmente a permutabilidade recíproca entre diferentes espécies de parapraxias demonstra que coisa na parapraxia é importante e característica não é sua forma nem o método que empregam mas sim o propósito a que servem possível de se atingir das mais variadas formas Por essa razão fornecerlhesei um exemplo de esquecimento repetido Ernest Jones 1911 483 contanos que por motivo que ele desconhece certa vez deixou por vários dias uma carta sobre sua escrivaninha Por fim decidiu expedila a carta porém retornou a ele pelo Dead Letter Office pois havia se esquecido de sobrescritála Depois de colocado o endereço levoua ao correio mas desta vez ela não tinha selo Então por fim foi obrigado a admitir sua completa relutância em enviar a carta Em outro caso um ato descuidado aparece combinado com um exemplo de extravio Uma senhora viajou para Roma com seu cunhado que era um artista famoso O visitante foi recebido com grandes honras pela comunidade alemã de Roma e entre outros presentes deramlhe uma antiga medalha de ouro A senhora ficou agastada porque seu cunhado não apreciou suficientemente o valioso objeto Quando regressava a sua casa o lugar onde estava em Roma ficou ocupado por sua irmã ao desfazer as malas ela descobriu que havia trazido a medalha consigo como ela não sabia Imediatamente enviou a seu cunhado uma carta com a notícia informando que no dia seguinte devolveria para Roma o objeto que levara consigo Porém no dia imediato a medalha foi extraviada de forma tão astuta que não pôde ser encontrada e remetida e foi nesse ponto que a senhora começou a compreender o significado de sua distração ela queria guardar o objeto para si mesma Já lhes dei um exemplo de combinação de um esquecimento com um erro o caso de alguém que se esquece de um compromisso e numa segunda ocasião aparece na hora errada tendo antes decidido firmemente não esquecêlo desta vez ver em 1 Um caso exatamente semelhante foime referido de sua própria experiência por um amigo que possui interesses literários e científicos Há alguns anos contoume permiti que me elegessem para a diretoria de certa sociedade literária pois pensava que a organização algum dia pudesse ser capaz de me ajudar a ter minha peça produzida e embora sem muito interesse participei regularmente das reuniões que se realizavam todas as sextasfeiras Há poucos meses deramme a promessa de uma produção no teatro de F e desde então tenho me esquecido regularmente das reuniões da sociedade Ao ler seu livro sobre o assunto sentime envergonhado de minha negligência Reproveime com a idéia de que distanciarme era uma conduta indigna de minha parte de vez que agora eu não estava precisando mais dessas pessoas e resolvi a qualquer custo não me esquecer da próxima sextafeira Persisti em lembrarme dessa resolução até quando a pus em execução e parei diante da porta da sala onde as reuniões se realizavam Para minha surpresa estava fechada a reunião havia terminado Eu havia realmente cometido um engano quanto ao dia era sábado Seria adequado acrescentar outros exemplos semelhantes Devo prosseguir contudo e mostrarlhes num relance os casos em que nossa interpretação tem de esperar pelo futuro para ser confirmada A condição dominante nesses casos como se verificará é que a situação psíquica presente nos é desconhecida ou inacessível a nossas pesquisas Nossa interpretação por conseguinte não é mais que uma suspeita à qual nós próprios não atribuímos muita importância Mais tarde no entanto sucede algo que nos revela quão acertada fora nossa interpretação Certa vez fui hóspede de um jovem casal recémcasado e ouvi a jovem senhora descrever com risos sua última experiência No dia após o regresso da luademel convidara sua irmã solteira para acompanhála às compras como costumava fazer enquanto seu marido ia para o trabalho De repente reparou em um cavalheiro no outro lado da rua e cutucando sua irmã exclamou Olha aí vai Herr L Ela se havia esquecido de que esse cavalheiro era seu marido há algumas semanas Estremeci quando ouvi a história contudo não ousei tirar uma conclusão O pequeno incidente só acudiu à minha memória alguns anos depois quando o casamento havia chegado a um triste fim Maeder contanos de uma senhora que na véspera de suas núpcias se esquecera de provar o vestido de casamento e para desespero de seu costureiro apenas se lembrou quando já era tarde à noite Correlaciona essa negligência com o fato de que ela em breve se divorciava de seu marido Conheço uma senhora atualmente divorciada de seu marido a qual ao tratar de assuntos de dinheiro freqüentemente assinava documentos com seu nome de solteira muitos anos antes de o reassumir de fato Sei de outras mulheres que perderam suas alianças de casamento durante a luademel e também que a história de seus casamentos conferiu um sentido ao acidente E agora eis mais um exemplo evidente porém com um final mais feliz Contase essa história de um famoso químico alemão cujo casamento não se realizou porque ele se esqueceu da hora da cerimônia nupcial tendo ido ao laboratório em vez de ir à igreja Foi muito prudente por se haver contentado com uma só tentativa morreu em avançada idade solteiro Talvez possa ter ocorrido aos senhores a idéia de que nesses exemplos as parapraxias assumiram o lugar dos presságios ou dos augúrios dos antigos E com efeito alguns presságios nada mais eram que parapraxias como por exemplo quando alguém tropeçava ou caía Outros é verdade tinham o caráter de acontecimentos objetivos e não de atos subjetivos Os senhores contudo dificilmente acreditariam quão difícil às vezes é decidir se determinado evento pertence a um ou a outro grupo Um ato muito amiúde sabe como se disfarçar como uma experiência passiva Aqueles dentre nós que podem recordar uma experiência de vida comparativamente longa provavelmente admitirão que nos teríamos poupado muitos desapontamentos e surpresas dolorosas se tivéssemos encontrado coragem e determinação para interpretar como augúrios pequenas parapraxias experimentadas em nossos contatos humanos e para fazer uso delas como indícios de intenções que ainda estavam ocultas Via de regra não ousamos fazêlo isso nos levaria a sentirnos como se após uma jornada através da ciência estivéssemos ficando supersticiosos novamente Nem todos os augúrios se realizam e os senhores compreenderão a partir de nossas teorias que nem todos precisam realizarse CONFERÊNCIA IV PARAPRAXIAS conclusão SENHORAS E SENHORES Podemos considerar como resultado de nossos esforços até agora desenvolvidos e como base de nossas ulteriores investigações o fato de as parapraxias terem um sentido Permitamme mais uma vez insistir em que não estou afirmando para nossos objetivos não há necessidade de fazêlo que toda parapraxia que ocorre individualmente tem um sentido embora eu pense que provavelmente seja esse o caso Já nos satisfaz mostrarmos esse sentido em um número relativamente freqüente de diferentes formas de parapraxias Ademais a esse respeito as diferentes formas aqui mencionadas se comportam de modo diverso Casos de lapsos de língua e de lapsos de escrita e outros podem ocorrer mediante uma causa puramente fisiológica Não posso acreditar que isso ocorra nos tipos que dependem de esquecimento esquecimento de nomes ou de intenções extravios etc É muito provável haver casos de perda que podem ser considerados como nãointencionados De um modo geral é verdade que apenas uma parcela dos erros que ocorrem na vida comum pode ser julgada segundo nosso ponto de vista Os senhores devem ter em mente essas limitações quando de ora em diante dermos por estabelecido o fato de que as parapraxias são atos psíquicos e surgem de mútua interferência entre duas intenções Esse é o primeiro produto da psicanálise A psicologia até o momento atual nada sabia da existência dessas interferências recíprocas ou da possibilidade de que pudessem resultar em tais fenômenos Ampliamos consideravelmente o mundo dos fenômenos psíquicos e conquistamos para a psicologia fenômenos que anteriormente não eram nele incluídos Façamos uma pausa mais detida sobre a afirmação de que as parapraxias são atos psíquicos Será que isso envolve uma coisa além daquilo que já dissemos que elas possuem um sentido Penso que não Penso antes que a afirmação anterior de que são atos psíquicos é mais indefinida e mais facilmente passível de compreensão errônea Tudo o que é observável na vida mental pode ocasionalmente ser descrito como fenômeno mental A questão nesse caso é saber se o fenômeno mental específico teve origem imediata em influências somáticas orgânicas e materiais e assim sua investigação não fará parte da psicologia ou se ele em primeira instância deriva de outros processos mentais em alguma parte além daquela onde começa a série das influências orgânicas É essa última situação que temos em vista quando descrevemos um fenômeno como processo mental sendo por isso mais adequado encerrar nossa afirmação desta forma o fenômeno tem um sentido Por sentido entendemos significação intenção propósito e posição em um contexto psíquico contínuo ver em 1 Existem inúmeros outros fenômenos muito semelhantes às parapraxias para eles porém esse nome não mais se ajusta Nós os denominamos ações casuais e ações sintomáticas Estas possuem igualmente a peculiaridade de não ter motivo serem insignificantes e não importantes contudo têm um acréscimo explicitamente o de serem desnecessárias Distinguemse das parapraxias porque lhes falta uma segunda intenção capaz de lhes fazer oposição e de ser perturbada por elas Por outro lado elas se confundem insensivelmente com os gestos e movimentos que consideramos expressões das emoções Essas ações casuais incluem toda classe de manipulações com nossas roupas ou com partes de nosso corpo ou com objetos ao nosso alcance executadas como que por brincadeira e aparentemente sem finalidade e incluem ademais a omissão dessas manipulações ou além disso melodias que murmuramos para nós mesmos Penso que todos esses fenômenos têm um sentido e podem ser interpretados da mesma forma como as parapraxias que eles são pequenas indicações de processos mentais mais importantes e atos psíquicos inteiramente válidos Não me proponho contudo demorarme sobre essa recente expansão do campo dos fenômenos mentais voltarei às parapraxias em relação às quais importantes problemas para a psicanálise podem ser equacionados com muito maior clareza Talvez sejam essas as questões mais interessantes que levantamos a respeito das parapraxias e que ainda não foram respondidas Dissemos serem as parapraxias o produto de mútua interferência entre duas intenções diferentes das quais uma pode ser chamada de intenção perturbada e a outra intenção perturbadora As intenções perturbadas não ensejam outras questões porém no que se refere às intenções perturbadoras gostaríamos de saber em primeiro lugar que espécie de intenções são essas capazes de perturbar outras e em segundo lugar qual é a relação das intenções perturbadoras com as perturbadas Se me permitem mais uma vez tomarei lapsos de língua como representantes da classe inteira e responderei à segunda questão antes de responder à primeira Em um lapso de língua a intenção perturbadora pode em seu conteúdo custar relacionada à intenção perturbada caso em que ela a contradiz corrige ou suplementa Ou então caso esse mais obscuro e mais interessante o conteúdo da intenção perturbadora pode não ter nada a ver com o conteúdo da intenção perturbada Não teremos qualquer dificuldade em encontrar provas da relação citada em primeiro lugar em exemplos que já conhecemos e em outros parecidos Em quase todos os casos nos quais um lapso de língua inverte o sentido a intenção perturbadora expressa o contrário da intenção perturbada e a parapraxia representa um conflito entre duas tendências incompatíveis Declaro aberta a sessão porém preferiria que já estivesse encerrada é o sentido do lapso de língua do presidente ver em 1 Uma revista política acusada de corrupção se defende em um artigo cujo clímax deveria ter sido Nossos leitores serão testemunhas do fato de que sempre agimos da maneira mais desinteressada pelo bem da comunidade O editor a quem fora confiada a preparação do artigo porém escreveu da maneira mais interesseira Quer dizer ele estava pensando Isso é o que estou obrigado a escrever porém tenho idéias diferentes Um membro do parlamento alemão que insistia em que se devia dizer a verdade ao imperador rückhaltlos sem reservas evidentemente ouviu uma voz interior sobressaltada com sua ousadia e por um lapso de língua mudou a palavra para rückgratlos sem espinha dorsal sem coragem Nos exemplos já conhecidos dos senhores os quais dão uma impressão de serem contrações ou abreviações o que temos diante de nós são correções acréscimos ou continuações por meio dos quais uma segunda intenção se faz sentir ao lado da primeira Os fatos vieram a Vorschein a luz melhor dizer de uma vez eram Schweinereien porcarias pois bem então os fatos vieram a Vorschwein ver em 1 Os que entendem disso podem ser contados nos dedos de uma mão não existe realmente apenas uma pessoa que entende disso portanto pode ser contada em um só dedo ver em 1 Ou Meu marido pode comer e beber o que quer Mas como sabem eu não me submeto à sua vontade em nada absolutamente então ele pode comer e beber o que eu quero ver em 1 Em todos esses casos o lapso de língua surge pois do conteúdo da própria intenção perturbada ou está em conexão com ela A outra espécie de relação entre as duas intenções mutuamente interferentes parece enigmática Se a intenção perturbadora não tem nada a ver com a intenção perturbada de onde pode terse originado e por que se faz notar como uma perturbação nesse determinado ponto A observação que por si só é capaz de darnos a resposta para isso mostra que a perturbação surge de uma seqüência de idéias que pouco antes se apossou da pessoa referida e produz esse efeito subseqüente havendo ou não já sido expressa no discurso Portanto na realidade deve ser descrita como uma perseveração embora não necessariamente como a perseveração das palavras faladas Também nesse caso está presente um elo associativo entre as intenções perturbadora e perturbada porém não é situado em seu conteúdo e sim construído artificialmente muitas vezes através de vias associativas extremamente tortuosasAqui está um exemplo simples desse aspecto derivado de minha própria experiência Certa vez encontrei nas aprazíveis Dolomitas duas senhoras vienenses vestidas em trajes de passeio Acompanheias parte do caminho e conversamos sobre as delícias e também as atribulações de passar um feriado daquela maneira Uma das senhoras admitiu que passar assim o dia tinha como conseqüência uma boa dose de desconforto Certamente não é de todo agradável dizia quando se esteve o dia inteiro perambulando ao sol e transpirando até pela blusa e a camisa Nesta frase ela teve de vencer uma leve hesitação em determinado ponto E prosseguiu Mas então quando se vai nach Hose e se pode mudar Esse lapso de língua não foi analisado contudo espero que possam compreendêlo facilmente A intenção da senhora fora obviamente a de dar uma lista mais completa de suas roupas blusa camisa e Hose calças Razões de decoro levaramna a omitir qualquer menção às Hose Porém na frase seguinte com seu conteúdo bastante independente a palavra não dita emergiu como uma distorção da outra de som semelhante nach Hause para casa Agora porém podemos voltar à questão principal que por muito tempo adiamos que espécie de intenções são essas que encontram expressão nessa forma incomum como perturbadoras de outras intenções Bem evidentemente elas são de espécies muito diferentes entre as quais devemos procurar o fator comum Com isso em mente se examinarmos determinado número de exemplos esses logo se enquadrarão em três grupos O primeiro grupo contém aqueles casos nos quais a intenção perturbadora é do conhecimento de quem fala e além disso foi por este percebida antes de cometer o lapso de língua Assim no lapso do Vorschwein ver em 1 a pessoa que falava admitiu não somente haver feito o julgamento Schweinereien sobre os fatos em questão mas também admitiu que tivera a intenção da qual depois recuou de expressar seu julgamento em palavras Um segundo grupo é formado por outros casos nos quais a intenção perturbadora é igualmente reconhecida como tal pela pessoa que fala porém nestes casos a pessoa não se apercebia de que a intenção estava atuando dentro dela tão logo acabou de cometer o lapso Desse modo ela aceita nossa interpretação de seu lapso ainda assim permanece surpresa com o mesmo Exemplos desse tipo de atitude talvez possam ser encontrados em outras espécies de parapraxias mais facilmente do que nos lapsos de língua Em um terceiro grupo a interpretação da intenção perturbadora é vigorosamente rejeitada por aquele que incorreu no lapso não apenas nega que essa intenção estava atuante nele antes de cometer o lapso mas procura sustentar a afirmação de que tal intenção lhe é inteiramente estranha Recordamse do exemplo do arroto ver em 1 e 2 e da vigorosa contestação que me foi apresentada pelo orador pelo fato de eu revelar sua intenção perturbadora Como os senhores sabem até agora em nossas opiniões ainda não chegamos a um acordo a respeito desses casos Eu não daria maior importância à contestação formulada pelo proponente do brinde e persistiria serenamente em minha interpretação ao passo que os senhores suponho ainda afetados pelo protesto daqueles levantam a questão de saber se não deveríamos desistir de interpretar parapraxias dessa espécie e considerálas como atos puramente fisiológicos no sentido préanalítico Bem posso imaginar que coisa os intimida Minha interpretação abriga a hipótese de que quando uma pessoa fala podem ser expressas intenções das quais ela própria nada sabe e que eu contudo posso inferir a partir de provas circunstanciais Os senhores se detêm ao arrostar essa hipótese nova e momentosa Posso entender isso e lhes dou razão nesse ponto No entanto uma coisa é certa Se os senhores querem aplicar coerentemente a compreensão das parapraxias confirmada por tantos exemplos terão de se decidir a aceitar a estranha hipótese que mencionei Caso não possam fazêlo mais uma vez precisarão abandonar o entendimento das parapraxias que os senhores vêm de adquirir Consideremos por um momento que coisa é essa que une os três grupos o que é aquilo que os três mecanismos dos lapsos de língua têm em comum Isso felizmente é um fato inequívoco Nos dois primeiros grupos a intenção perturbadora é reconhecida pela pessoa que comete o lapso ademais no primeiro grupo essa intenção se revela imediatamente antes do lapso Porém em ambos os casos ela é repelida O orador decide não expressála verbalmente e após isso ocorre o lapso de língua após isso quer dizer que a intenção que foi repelida é expressa em palavras contra a vontade de quem fala seja alterando a expressão da intenção permitida seja confundindose com essa expressão ou realmente tomando seu lugar Este é pois o mecanismo do lapso de língua Em minha opinião posso fazer com que aquilo que acontece no terceiro grupo se harmonize completamente com o mecanismo que descrevi Apenas tenho de supor ser o diferente grau em que a intenção é repelida aquilo que distingue esses três grupos um dos outros No primeiro grupo a intenção existe e se faz notar antes de o orador expressála só então é rejeitada e faz sua desforra no lapso de língua No segundo grupo a rejeição vai além a intenção já deixou de ser perceptível antes de a pessoa expressála no lapso De modo muito estranho isso absolutamente não impede que ela tenha sua parte na causa do lapso Essa conduta porém nos facilita a explicação do que acontece no terceiro grupo Eu me aventuraria a supor que uma intenção também possa conseguir expressarse em uma parapraxia quando foi repelida e não foi percebida durante um tempo considerável talvez por um tempo muito longo e pode por essa razão ser negada francamente pelo orador Conquanto os senhores ponham de lado o problema do terceiro grupo não podem deixar de concluir a partir das observações que fizemos nos outros casos que a supressão da intenção de alguém que fala de dizer algo é a condição indispensável para que ocorra um lapso de língua Agora podemos pretender havermos feito maiores progressos em nossa compreensão das parapraxias Sabemos não apenas que elas são atos mentais nos quais podemos detectar sentido e intenção sabemos não apenas que acontecem por mútua interferência entre duas intenções diferentes porém além disso sabemos que uma dessas intenções deve ter sido de alguma forma coagida a não ser posta em execução antes de poder manifestarse como uma perturbação da outra intenção Deve ter sido perturbada antes de poder ser um elemento perturbador Isso não significa naturalmente que já tenhamos conseguido uma completa explicação dos fenômenos que denominamos parapraxias Vemos aflorarem imediatamente novas interrogações e geralmente suspeitamos que quanto mais se estende nossa compreensão mais ocasiões haverá para surgirem novas questões Podemos perguntar por exemplo da razão por que as coisas não poderiam ser mais simples Se o propósito é repelir determinada intenção em vez de colocála em execução o ato de repelir deveria ser bemsucedido de modo que a intenção absolutamente não se manifestasse ou por outro lado a repulsa poderia falhar de forma que a intenção que devia ter sido repelida se manifestaria completamente As parapraxias porém são o resultado de um acordo constituem um meioêxito e um meiofracasso para cada uma das duas intenções a intenção que está sendo desafiada não é completamente suprimida salvo em casos especiais nem é levada a cabo em sua íntegra Podemos concluir que determinadas condições especiais devem prevalecer para que uma interferência ou ajuste desse tipo aconteçam no entanto não podemos formar nenhuma idéia sobre que condições são essas E não penso que poderíamos descobrir esses fatores desconhecidos penetrando mais a fundo no estudo das parapraxias Será necessário isto sim examinar primeiramente outras regiões obscuras da vida mental somente a partir das analogias que aí obtivermos encontraremos a coragem de estabelecer as hipóteses necessárias para lançar uma luz mais penetrante sobre as parapraxias E acrescento mais uma coisa Trabalhar com base em pequenos indícios como constantemente temos o hábito de fazer nessa área tem seus próprios perigos Existe uma doença mental a paranóia combinatória na qual a exploração de pequenos indícios como esses é levada a graus ilimitados e naturalmente não pretendo afirmar que as conclusões construídas sobre tais fundamentos sejam invariavelmente corretas Podemos tãosomente nos precaver desses riscos pela ampla base de nossas observações pela repetição de impressões semelhantes originárias das mais variadas esferas da vida mental Nesse ponto portanto vamos abandonar a análise das parapraxias Existe contudo mais um ponto para o qual chamaria a atenção dos senhores Eu lhes pediria que fixassem na memória como um modelo a maneira como temos tratado esses fenômenos Os senhores podem aprender desse exemplo quais os objetivos de nossa psicologia Buscamos não apenas descrever e classificar fenômenos mas entendêlos como sinais de uma ação recíproca de forças na mente como manifestação de intenções com finalidade trabalhando concorrentemente ou em oposição recíproca Interessanos uma visão dinâmica dos fenômenos mentais Em nossa opinião os fenômenos que são percebidos devem ceder lugar em importância a tendências que são apenas hipotéticas Por conseguinte não nos aprofundaremos mais nas parapraxias contudo ainda podemos realizar um rápido reconhecimento da extensão dessa área no decorrer do qual mais uma vez encontramos coisas que já conhecemos mas que também revelarão algumas novidades Nesse reconhecimento manterei a divisão em três grupos que propus inicialmente lapsos de língua reunidos com suas formas cognatas lapsos de escrita lapsos de leitura e lapsos de audição esquecimento subdividido segundo os objetos de esquecimento nomes próprios palavras estrangeiras intenções e impressões e atos descuidados extravio e perda Os erros no aspecto que nos interessa situamse em parte entre os esquecimentos e em parte nos atos descuidados Já abordamos bastante detalhadamente os lapsos de língua contudo existem mais alguns pontos a acrescentar Os lapsos de língua são acompanhados por determinados fenômenos emocionais menores não de todo destituídos de interesse Ninguém aprecia cometer lapsos de língua e assiduamente deixamos de ouvir nossos próprios lapsos embora jamais deixemos de ouvir os de outras pessoas Os lapsos de língua também são em certo sentido contagiosos absolutamente não é fácil falar sobre lapsos de língua sem cometer alguns lapsos de língua próprios As formas mais triviais desses lapsos precisamente aquelas não consignadas a projetar uma luz especial sobre os processos mentais ocultos possuem razões que não obstante não são difíceis de discernir Por exemplo se alguém pronunciou com emissão breve uma vogal longa em virtude de um distúrbio que afeta a palavra por uma ou outra razão logo após pronunciará como longa uma vogal subseqüente breve cometendo assim um novo lapso de língua para compensar o anterior Da mesma forma se a pessoa pronuncia um ditongo incorreta e descuidadamente por exemplo pronunciar um eu ou i como ei procurará compensar isso trocando um ei subseqüente por um eu ou oi Aqui o fator decisivo parece ser uma consideração para com a impressão causada nos ouvintes estes não deveriam supor que para o orador é indiferente a maneira como trata sua línguamãe A segunda distorção a que compensa a primeira realmente tem o propósito de dirigir a atenção do ouvinte para a primeira e de lhe assegurar que o orador também a percebeu Os lapsos de língua mais comuns simples e triviais são contrações e antecipações ver em 1 e 2 ocorrentes em partes insignificantes do falar Por exemplo em uma frase um tanto longa podese cometer um lapso de língua que antecipa a última palavra do que se pretende dizer Isso causa uma impressão de impaciência por ver terminada a frase e em geral constitui evidência de uma certa antipatia contra o ato de comunicar a frase ou contra o todo do comentário que se está fazendo Chegamos assim a casos marginais em que as diferenças entre a opinião psicanalítica a respeito de lapsos de língua e a opinião fisiológica comum se fundem uma na outra É de supor que nestes casos esteja presente um propósito de perturbar a intenção do discurso porém tal propósito apenas consegue fazer notar sua presença e não aquilo a que ele próprio visa A perturbação que ele produz se faz então segundo certas influências fonéticas ou atrações associativas pode ser considerada resultado de a atenção ter sido desviada da intenção do discurso Contudo nem essa perturbação da atenção nem as tendências à associação que se tornaram atuantes atingem a essência do processo Este apesar de tudo se mantém como a indicação da existência de uma intenção que é perturbadora da intenção do discurso embora a natureza dessa intenção perturbadora não possa ser avaliada a partir de suas conseqüências conforme é possível fazêlo em todos os casos de lapsos de língua mais bem definidos Os lapsos de escrita aos quais passaremos agora são tão afins dos lapsos de língua que nada de novo podemos esperar deles Talvez possamos acrescentar algum pequeno ponto adicional Os pequenos lapsos de escrita extremamente comuns contrações e antecipações de palavras que deveriam vir depois especialmente de palavras do fim de frases indicam mais uma vez um desprazer geral de escrever e impaciência por ver o trabalho terminado Determinados produtos mais marcantes de lapsos de escrita possibilitam reconhecer a natureza e o objetivo da intenção perturbadora Ao encontrar um lapso de escrita em uma carta sabese geralmente que havia algo de diferente com seu autor porém não se pode sempre descobrir o que se passava com ele Um lapso de escrita passa despercebido da pessoa responsável com a mesma freqüência com que sucede com os lapsos de língua A seguinte observação é digna de nota Como sabemos há pessoas que tem o hábito de reler todas as cartas que escrevem antes de enviálas Outras não via de regra porém quando excepcionalmente o fazem sempre encontram alguns lapsos de escrita que chamam a atenção e que elas podem corrigir então Como se explica isso É como se essas pessoas soubessem que haviam cometido um erro ao escrever a carta Podemos realmente acreditar nesse fato Um problema interessante diz respeito à importância prática dos lapsos de escrita Os senhores certamente podem recordar o caso de um assassino H que encontrou os meios de obter de instituições científicas culturas de bactérias patogênicas altamente perigosas apresentandose como bacteriologista Usou então essas culturas com a finalidade de se desfazer de suas ligações próximas através desse método moderníssimo Ora certa ocasião esse homem se queixou aos diretores de um desses institutos que as culturas a ele enviadas eram ineficazes porém cometeu um lapso de escrita e em vez de escrever em meus experimentos com camundongos ou porquinhosdaíndia escreveu muito claramenteem meus experimentos com homens Os cientistas do instituto ficaram chocados com o lapso contudo pelo que sei daí não tiraram qualquer conclusão Pois bem o que pensam os senhores Não deveriam os cientistas pelo contrário ter tomado o lapso de escrita como uma confissão e iniciado uma investigação que teria posto um fim imediato às atividades do assassino Por ignorarem nossas opiniões sobre parapraxias não foram responsáveis nesse caso por uma omissão de importância prática Ora penso que um lapso de escrita como esse deveras me pareceria muito suspeito porém algo de grande importância se opõe a que seja qualificado como confissão O assunto não é tão simples assim O lapso certamente era uma prova circunstancial mas não era suficiente por si mesmo para dar início a uma investigação É verdade que o lapso de escrita disse que ele estava ocupado com idéias de infectar pessoas entretanto não tornou possível decidir se essas idéias deveriam ser tomadas como clara intenção de causar dano ou como uma fantasia sem importância prática É mesmo possível que um homem que tivesse cometido um lapso como esse teria todas as justificativas objetivas para negar a fantasia e a repudiaria como algo inteiramente estranho para ele Os senhores compreenderão ainda melhor essas possibilidades quando mais adiante viermos a considerar a diferença entre realidade psíquica e material Assim esse é mais um exemplo de parapraxia que adquire importância a partir de eventos subseqüentes ver em 1 e seg acima Com os lapsos de leitura chegamos a uma situação psíquica que difere sensivelmente daquela encontrada em lapsos de língua ou em lapsos de escrita Aqui uma das duas intenções em mútua competição é substituída por uma estimulação sensorial e talvez por isso resiste menos O que a pessoa vai ler não é um derivado de sua própria vida mental como algo que se propõe escrever Em grande número de casos portanto um lapso de leitura consiste em uma substituição completa Substituise por outra a palavra que deve ser lida sem haver necessariamente qualquer conexão de conteúdo entre o texto e o produto do lapso de leitura o qual depende via de regra de semelhança verbal O melhor exemplo desse grupo é o de Lichtenberg Agamemnon por angenommen ver em 1 acima Se quisermos descobrir a intenção perturbadora que produziu o lapso de leitura devemos deixar inteiramente de lado o texto que foi lido erroneamente e podemos começar a investigação analítica com duas perguntas qual é a primeira associação ao produto do lapso de leitura e em que situação ocorreu o lapso de leitura Às vezes o conhecimento dessa situação é por si só suficiente para explicar o lapso de leitura Por exemplo um homem sob a pressão de uma necessidade urgente vagava por uma cidade estranha quando viu a palavra ClosetHouse numa grande tabuleta no primeiro andar de um prédio Mal teve tempo suficiente para se surpreender com o fato de a tabuleta estar colocada tão alta quando descobriu que estritamente falando o que devia ter lido era CorsetHouse Em outros casos um lapso de leitura precisamente do tipo que é muito independente do conteúdo do texto requer uma análise detalhada impossível de se efetuar sem a prática da técnica de psicanálise e sem seu apoio Como regra entretanto não é tão árduo encontrar a explicação para um lapso de leitura a palavra substituída imediatamente revela como no exemplo Agamemnon o círculo de idéias do qual surgiu a perturbação Na atual época de guerra por exemplo é coisa muito comum os nomes de cidades e de generais e de termos militares que estão constantemente zumbindo à nossa volta serem lidos onde quer que nossos olhos encontrem palavras semelhantes Tudo aquilo que nos interessa e nos preocupa se põe no lugar do que é estranho e ainda destituído de interesse Imagens residuais de pensamentos anteriores perturbam novas percepções Com os lapsos de leitura também não faltam os casos de outra espécie nos quais o texto daquilo que se lê desperta por si mesmo a intenção perturbadora a qual de imediato o transforma em seu contrário O que devíamos ler era alguma coisa de indesejado e a análise nos convencerá de que um intenso desejo de rejeitar o que estávamos lendo deve ter sido responsável por sua alteração Nos casos mais freqüentes de lapsos de leitura que mencionamos no início inexistiam os dois fatores aos quais consignamos um importante papel no mecanismo das parapraxias o conflito entre dois propósitos e a repulsa a um deles que faz sua represália produzindo a parapraxia Não que algo em contrário ocorra no lapso de leitura A proeminência da idéia que leva ao lapso de leitura é contudo muito mais perceptível do que a repulsa que essa idéia pode ter percebido previamente São esses dois fatores os que encontramos com mais evidência nas diferentes situações em que ocorrem parapraxias de esquecimento O esquecimento de intenções é bem livre de ambigüidades como já vimos ver em 1 sua interpretação não é objeto de controvérsias nem mesmo por parte de leigos O propósito que perturba a intenção é em todos os casos uma contraintenção uma relutância e tudo o que nos resta saber a seu respeito é por que ele não se expressou em alguma forma diversa e menos disfarçada No entanto a presença dessa contravontade é inquestionável Vez e outra também conseguimos entrever algo dos motivos que compelem essa contravontade a ocultarse agindo subrepticiamente por intermédio da parapraxia ela sempre atinge seu objetivo ao passo que seria seguramente repudiada se emergisse como franca oposição Se alguma importante modificação na situação psíquica se realiza entre a formação da intenção e sua execução em conseqüência do que não mais existe a cogitação de executar a intenção então o esquecimento da intenção se exclui da categoria das parapraxias Já não parece mais estranho havêla esquecido e nos apercebemos de que teria sido desnecessário lembrarmonos dessa intenção depois disso ela se extingue em forma permanente ou temporária O esquecimento de uma intenção somente pode ser denominado parapraxia quando não pudermos acreditar que a intenção tenha sido interrompida desse último modo Os casos de esquecimento de uma intenção geralmente são tão uniformes e tão evidentes que por essa mesma razão não interessam à nossa investigação Assim mesmo existem dois pontos em que algo de novo podemos aprender a partir de um estudo dessas parapraxias O esquecimento de uma intenção isto é a omissão de executála revela como dissemos uma contravontade que lhe é hostil Sem dúvida esse fato procede nossas investigações porém mostram que a contravontade pode ser de dois tipos direto e indireto O que dou a entender com este último é ilustrado mais adequadamente com um ou dois exemplos Se um benfeitor se esquece de interceder junto a uma terceira pessoa em benefício de seu protégé isso pode acontecer porque não está realmente muito interessado no protégé e portanto não tem grande desejo de falar em benefício deste De qualquer forma é esse o modo como o protégé entenderá o esquecimento de seu protetor ver em 1 Contudo as coisas podem ser mais complexas No protetor a contravontade opondose à execução da intenção pode ter outra origem e pode ser voltada em direção a um ponto bem diferente Pode não ter nada a ver com o protégé mas talvez pode ser dirigida contra a terceira pessoa junto a quem a recomendação devia ter sido feita Assim a partir disso os senhores mais uma vez verificam ver em 1 as dúvidas que se erguem como obstáculo a uma aplicação prática de nossas interpretações Apesar da interpretação correta do esquecimento o protégé corre o risco de ser demasiado desconfiado e de fazer grave injustiça ao seu protetor Ou suponhamos que alguém se esqueça de um compromisso que prometeu manter com alguma outra pessoa a razão mais freqüente para isso será sem dúvida uma franca rejeição ao encontro com essa pessoa Contudo em um caso assim a análise poderia demonstrar que a intenção perturbadora não se referiu a essa pessoa mas estava dirigida contra o lugar planejado para o encontro e foi evitado por conta de uma lembrança desagradável referente ao lugar Ou ainda se alguém se esquece de pôr uma carta no correio o contrapropósito pode basearse no conteúdo da carta de modo algum porém se exclui a hipótese de a carta poder ser inocente em si mesma e poder apenas estar sujeita ao contrapropósito de vez que algo referente a ela faz lembrar uma outra carta escrita em alguma ocasião anterior que ofereceu à contravontade um ponto direto de ataque Podese dizer portanto que aqui a contravontade foi transferida da carta anterior que a justificou à carta atual em relação à qual não havia motivos de preocupação Os senhores verificam então que devemos ser moderados e previdentes ao aplicar nossas interpretações e isso se justifica as coisas que são psicologicamente equivalentes podem na prática ter grande variedade de significados Fenômenos como esses últimos podem parecer muito inusitados para os senhores e talvez se inclinarão a supor que uma contravontade indireta já indica tratarse de um processo patológico Posso assegurarlhes contudo que ela ocorre também dentro dos limites do que é normal e sadio Ademais não devem me interpretar mal Estou longe de admitir que nossas interpretações analíticas sejam indignas de confiança As ambigüidades no esquecimento de intenções que venho mencionando existem apenas enquanto não tenhamos feito uma análise do caso e apenas quando fazemos nossas interpretações com base em nossas hipóteses gerais Se efetuarmos uma análise na pessoa em questão invariavelmente descobrimos com suficiente certeza se a contravontade é direta ou que outra origem possa ter O segundo ponto que tenho em mente ver em 1 é o seguinte Se em uma grande maioria de casos encontramos confirmação do fato de que o esquecimento de uma intenção remonta a uma contravontade podemos ousar estender a solução a um outro grupo de casos nos quais a pessoa em análise não confirma e sim nega a contravontade que inferimos Tomem como exemplo disso eventos tão extremamente comuns como esquecer de devolver livros que se tomaram emprestados ou de pagar contas ou dívidas Com a pessoa em questão nos aventuraremos a insistir em que nela existe uma intenção de conservar consigo os livros e de não pagar as dívidas a pessoa negará essa situação porém não será capaz de fornecer qualquer outra explicação para sua conduta Com isso prosseguiremos dizendolhe que tem essa intenção mas sem nada saber da mesma embora para nós isso seja suficiente porquanto nos revela a presença da intenção que origina nela o esquecimento A pessoa pode repetirnos que deveras se esqueceu Agora reconhecerão a situação como uma tal em que nós mesmos anteriormente nos encontramos ver em 1 e 2 Se quisermos prosseguir com nossas interpretações das parapraxias tão freqüentemente comprovadas como acertadas até uma conclusão coerente somos compelidos à inevitável hipótese de que nas pessoas existem propósitos capazes de se tornar atuantes sem que elas saibam da existência deles Isto contudo nos leva a contrariarmos todas as opiniões dominantes tanto na vida comum como na psicologia O esquecimento de nomes próprios e de nomes estrangeiros tanto como o de palavras estrangeiras pode semelhantemente ser rastreado até uma contraintenção que se volta direta ou indiretamente contra o nome em questão Já lhes apresentei diversos exemplos de aversão direta ver em 1 e 2 A causação indireta é contudo particularmente freqüente nesses casos e em geral apenas pode ser estabelecida por meio de análises cuidadosas Por exemplo durante a guerra atual que nos obrigou a abandonar tantos dos nossos divertimentos anteriores nossa capacidade de recordar nomes sofreu muito em conseqüência das mais estranhas associações Há pouco tempo atrás verifiquei que eu era incapaz de reproduzir o nome de Bisenz pacata cidade da Morávia e a análise demonstrou que aquilo que era responsável pelo fato não era nenhuma hostilidade direta contra ela senão sua similitude no som com o nome do Palazzo Bisenzi em Orvieto que tive o prazer de visitar repetidas vezes no passado Aqui pela primeira vez descobrimos nessa razão de se opor à recordação de um nome um princípio que depois irá revelar sua enorme importância na causação dos sintomas neuróticos a memória tem aversão por recordar tudo que está em conexão com sentimentos de desprazer e com a reprodução daquilo que renova o desprazer Essa intenção de evitar o desprazer emergente da lembrança ou de outros atos psíquicos essa fuga psíquica do desprazer pode ser reconhecida como a causa atuante fundamental não apenas do esquecimento de nomes mas também de muitas outras parapraxias como as omissões os erros e assim por dianteO esquecimento de nomes entretanto parece ser sobremodo facilitado psicofisiologicamente e por esse motivo há casos em que não se pode confirmar a interferência de um motivo de desprazer Se alguém tem determinada tendência para esquecer nomes a investigação analítica mostrará que os nomes lhe fogem não apenas porque em si não os aprecia ou porque lhe lembram algo desagradável porém também porque nesse caso o nome pertence a outro círculo de associações com as quais a pessoa está mais intimamente relacionada O nome está digamos ali ancorado e se mantém fora de contato com outras associações que foram momentaneamente ativadas Se os senhores se recordarem dos truques mnemotécnicos verificarão com certa surpresa que as mesmas cadeias associativas deliberadamente estabelecidas para evitar que nomes sejam esquecidos também podem nos levar a esquecêlos O mais notável exemplo desse fato é o que se refere aos nomes próprios de pessoas os quais naturalmente possuem importância psíquica bastante diferente para diferentes pessoas Para ilustrálo tomemos um primeiro nome como Teodoro Para alguns dos senhores ele não terá qualquer significação especial para outro será o nome de seu pai do irmão ou de um amigo ou seu próprio nome Assim a experiência analítica lhes mostrará que a primeira dessas pessoas não corre nenhum risco de se esquecer de que algum estranho usa esse nome ao passo que as outras terão constantemente a tendência de negar a estranhos um nome que lhes parece reservado a ligações íntimas Ora se os senhores considerarem que essa inibição associativa pode coincidir com a atuação do princípio de desprazer e ademais com um mecanismo indireto estarão em condições de formar uma idéia adequada das complexidades existentes na causação do esquecimento temporário de um nome Uma análise apropriada irá porém desemaranharlhes uma dessas meadas O esquecimento de impressões e de experiências demonstra de forma muito mais clara e exclusiva do que o esquecimento de nomes a atuação da intenção de manter coisas desagradáveis fora da memória Naturalmente nem toda a área desse tipo de esquecimento se situa dentro da categoria das parapraxias mas apenas casos tais como aqueles que medidos pelo padrão de nossa experiência habitual nos parecem admiráveis e inexplicáveis por exemplo quando o esquecimento atinge impressões que são muito recentes ou importantes ou quando a lembrança perdida abre uma brecha naquilo que é por seu lado uma bemmemorizada cadeia de acontecimentos Por que e de que modo somos capazes de esquecer em geral e entre outras coisas esquecer experiências que certamente deixaram em nós uma impressão mais profunda tal como os acontecimentos dos anos mais remotos de nossa infância isso constitui outro problema no qual querer evitar impulsos desagradáveis desempenha determinado papel e contudo está longe de constituir a explicação completa É fato inequívoco que as impressões desagradáveis são facilmente esquecidas Diversos psicólogos o observaram e o grande Darwin se impressionava tanto com isso que tornou regra de ouro anotar com cuidado especial quaisquer observações que parecessem desfavoráveis à sua teoria de vez que se havia convencido de que precisamente elas não permaneceriam em sua memória Uma pessoa que pela primeira vez ouve falar nesse princípio do afastamento de lembranças desagradáveis por meio do esquecimento raramente deixa de objetar que pelo contrário em sua experiência as coisas aflitivas são especialmente difíceis de esquecer e insistem em retornar contra sua vontade a fim de atormentála lembranças por exemplo de insultos e humilhações Isso também é um fato verídico contudo a objeção não procede É importante e oportuno começar a levar em conta o fato de que a vida mental é a arena e o campo de batalha de intenções que se opõem reciprocamente ou para dizêlo de modo nãodinâmico que se constitui de contradições e de pares de contrários A prova da existência de determinado propósito não é argumento contra a existência de um propósito oposto há lugar para ambos É apenas uma questão de saber como se colocam esses contrários um em relação ao outro e que efeitos são produzidos por um e por outro Perda e extravio são de particular interesse para nós devido aos vários significados que podem ter isto é devido à multiplicidade das intenções que podem se servir dessas parapraxias Todos os casos têm em comum o fato de ter existido um desejo de perder algo diferem quanto à origem e quanto ao objetivo desse desejo Perdemos uma coisa quando está gasta quando pretendemos substituíla por outra melhor quando não gostamos mais dela quando ela procedeu de alguém com quem não estamos nos relacionando bem ou quando a adquirimos em circunstâncias que não desejamos mais rememorar ver em 1 e 2 Deixar cair danificar ou quebrar um objeto podem servir à mesma finalidade Na esfera da vida social segundo se diz a experiência demonstrou que as crianças indesejadas e ilegítimas são muito mais frágeis do que aquelas concebidas legitimamente Não é necessário atingir a crua técnica das criadeiras profissionais de crianças para chegar a tal resultado determinada dose de negligência no trato com as crianças deve ser suficiente A preservação de coisas pode estar sujeita às mesmas influências que o cuidado com as crianças No entanto as coisas podem ser condenadas a serem perdidas sem que seu valor tenha sofrido qualquer diminuição isto é quando há uma intenção de sacrificar algo ao Destino a fim de se proteger de uma outra perda que se teme A análise nos revela que entre nós ainda é muito comum exorcizar o Destino dessa maneira e assim nossa perda muitas vezes é um sacrifício voluntário Da mesma forma a perda também pode servir à intenção de desafio ou autopunição Para resumir são incontáveis as mais remotas razões para a intenção de se desfazer de uma coisa por meio de sua perda Os atos descuidados assim como outros erros muitas vezes são usados para satisfazer desejos que uma pessoa deveria negar existirem em si própria Neles a intenção se dissimula em um auspicioso acidente Por exemplo como aconteceu a um de meus amigos um homem pode ser obrigado obviamente contra sua vontade a viajar de trem para visitar alguém perto da cidade em que vive e em uma estação onde deve fazer baldeação então pode por engano embarcar num trem que o leva de volta ao local de onde veio Ou alguém numa viagem pode estar desejoso de fazer uma parada em uma estação intermediária porém estar impedido de fazêlo devido a outras obrigações podendo assim negligenciar ou perder uma conexão de modo que em última análise é obrigado a interromper sua viagem da maneira como queria Ou o que sucedeu a um de meus pacientes eu lhe havia proibido telefonar à moça de quem estava apaixonado e quando quis telefonar para mim pediu o número errado por engano ou enquanto estava pensando em alguma outra coisa e de repente se viu com o número do telefone da moça Um bom exemplo de descuido cabal com repercussão prática é proporcionado pela observação feita por um engenheiro em seu relato dos fatos que antecederam um caso de danos materiais Há algum tempo atrás eu trabalhava com diversos estudantes no laboratório da escola técnica numa série de complexas experiências sobre elasticidade um trabalho que tínhamos assumido voluntariamente e contudo começava a exigir mais tempo de que prevíramos Um dia quando retornava ao laboratório com meu amigo F este comentou como o aborrecia perder tanto tempo justamente naquele dia quando tinha tantas outras coisas para fazer em casa Não pude deixar de concordar com ele e com algum gracejo referindome a um acidente na semana anterior acrescentei Esperemos que a máquina falhe novamente pois assim poderemos parar com o trabalho e ir para casa cedo Ao distribuir o trabalho sucedeu que a F coube a regulagem da válvula da prensa isto é estava incumbido de abrir cuidadosamente a válvula para deixar o fluido sob pressão sair lentamente do acumulador para o cilindro da prensa hidráulica O homem que conduzia a experiência colocouse junto ao manômetro e quando se atingiu a pressão correta ordenou em voz alta Pare À palavra de comando F agarrou a válvula e torceua com toda a força para a esquerda Todas as válvulas sem exceção fechamse girando para a direita Isso fez com que a pressão total do acumulador passasse subitamente para a prensa um esforço para o qual não estavam destinados os canos de ligação de forma que um desses canos imediatamente explodiu um acidente bastante inócuo para a máquina porém suficiente para nos obrigar a suspender o trabalho por esse dia e irmos para casa O surpreendente aliás é que quando estávamos discutindo o caso algum tempo depois meu amigo F não tinha a mínima recordação de meu comentário que eu recordava fielmente Isso pode levar os senhores a suspeitar de que não é apenas um inocente acaso que transforma as mãos de nossas empregadas domésticas em perigosos inimigos de nossos objetos de casa E os senhores também podem se perguntar se é obra do acaso quando as pessoas se machucam e arriscam sua própria segurança Essas são noções cuja validade os senhores surgindo a ocasião podem se dedicar a comprovar analisando suas próprias observações Senhoras e senhores isso está longe de ser tudo quanto se poderia dizer a respeito de parapraxias Muita coisa resta a examinar e discutir Fico contudo satisfeito se nossa discussão do assunto até aqui de certa forma agitou suas opiniões anteriores e os deixou um tanto mais preparados para aceitar outras novas Contentome de resto com deixálos defrontandose com uma situação não esclarecida Não podemos estabelecer nossas doutrinas a partir de um estudo das parapraxias e não estamos obrigados a extrair nossas provas a partir apenas desse material O grande valor das parapraxias para os objetivos que almejamos consiste no fato de serem fenômenos muito comuns que além de tudo podem ser observados com facilidade em cada um e ocorrer sem absolutamente implicar em doença Existe apenas uma das questões dos senhores não respondida a qual eu antes de terminar gostaria de verbalizar Conforme verificamos em muitos exemplos se as pessoas chegam tão próximo de uma compreensão das parapraxias e tão amiúde se comportam como se apreendessem seu sentido de que modo lhes é possível não obstante classificar esses fenômenos como sendo em geral eventos casuais sem sentido nem significado e poder oporse tão vigorosamente à elucidação psicanalítica dessas mesmas parapraxias Os senhores têm razão Esse é um fato notável e exige uma explicação No entanto não lhes darei tal explicação Em vez disso eu os levarei gradualmente a áreas de conhecimento a partir das quais a explicação irá se impor aos senhores sem qualquer contribuição de minha parte PARTE II SONHOS1916 191516 CONFERÊNCIA V DIFICULDADES E ABORDAGENS INICIAIS SENHORAS E SENHORES Um dia descobriuse que os sintomas patológicos de determinados pacientes neuróticos têm um sentido Nessa descoberta fundamentouse o método psicanalítico de tratamento Acontecia que no decurso desse tratamento os pacientes em vez de apresentar seus sintomas apresentavam sonhos Com isso surgiu a suspeita de que também os sonhos teriam um sentido Não seguiremos contudo esse caminho histórico e sim prosseguiremos na direção oposta Demonstraremos o sentido dos sonhos como forma de preparação para o estudo das neuroses Essa inversão se justifica de vez que o estudo dos sonhos não apenas é a melhor preparação para o estudo nas neuroses como também porque os sonhos por si mesmos são um sintoma neurótico que nos oferece ademais a inestimável vantagem de ocorrer em todas as pessoas sadias Na verdade supondose que todos os seres humanos fossem normais contanto que sonhassem nós partindo de seus sonhos poderíamos chegar a quase todas as descobertas a que nos levou a investigação das neuroses Os sonhos portanto se tornaram tema de pesquisa psicanalítica mais uma vez fenômenos comuns aos quais se tem atribuído pouco valor e aparentemente sem nenhum uso prático como as parapraxias com as quais na realidade têm em comum o fato de ocorrerem em pessoas sadias Afora isso porém as condições para nosso trabalho são aqui bem menos favoráveis As parapraxias simplesmente tinham sido negligenciadas pela ciência pouca atenção lhes havia sido dada contudo pelo menos não havia nenhum prejuízo em alguém se interessar por elas Sem dúvida dirseia há coisas mais importantes Alguma coisa no entanto talvez possa resultar daí Ademais alguém se interessar por sonhos não é apenas pouco prático e desnecessário é positivamente ignominioso Traz consigo a reprovação geral de não ser científico e desperta a suspeita de uma inclinação pessoal pelo misticismo Imaginem um profissional da medicina dedicandose a sonhos quando há tantas coisas mais sérias mesmo na neuropatologia e na psiquiatria tumores da dimensão de maçãs comprimindo o órgão da mente hemorragias inflamação crônica onde em todos as alterações dos tecidos podem ser demonstrados ao microscópio Não os sonhos são excessivamente triviais e indignos de ser objeto de pesquisa E existe algo mais que por sua própria natureza frustra os requisitos da pesquisa exata Ao investigar os sonhos nem mesmo se está seguro do objeto da pesquisa que se faz Um delírio por exemplo apresentase de forma inequívoca e com seus contornos definidos Eu sou o imperador da China diz o paciente sem qualquer dissimulação Mas sonhos Via de regra não se pode fazer nenhum relato de sonhos Se alguém faz um relato de um sonho existe alguma garantia de que seu relato foi correto ou pelo contrário não poderia ter alterado seu relato à medida que o fazia e ter sido compelido a inventar algum acréscimo para compensar a obscuridade de suas recordações A maioria dos sonhos não pode absolutamente ser lembrada e é esquecida salvo pequenos fragmentos E de que modo a interpretação de material desse tipo pode servir como base de uma psicologia científica ou como método de tratar pacientes Um excesso de críticas pode despertar nossas suspeitas Essas objeções aos sonhos como objeto de pesquisa obviamente foram longe demais Já tratamos da questão da nãoimportância em relação às parapraxias ver 1 e seg Dissemos que as grandes coisas podem ser reveladas através de pequenos indícios No que concerne à sua indefinição esta é uma característica dos sonhos como outra qualquer não podemos estabelecer para as coisas quais as características que devem ter Aliás também existem sonhos claros e distintos Ademais há outros assuntos de pesquisa psiquiátrica que padecem da mesma característica de indefinição em muitos casos por exemplo as obsessões e estas têm em última análise sido abordadas por psiquiatras respeitáveis e conceituados Recordome do último desses casos que encontrei em minha atividade médica Era uma paciente que se apresentou com estas palavras Tenho uma espécie de sentimento como se eu tivesse ferido ou desejasse ferir uma criatura viva uma criança não mais como se fosse um cachorro como se a tivesse jogado de uma ponte ou alguma outra coisa Podemos conseguir superar a deficiência da incerteza ao relembrar sonhos se decidimos que deve ser considerado como sonho seu tudo aquilo que nos relata a pessoa que sonhou sem levar em conta o que possa ter esquecido ou tenha alterado ao recordálo E finalmente nem mesmo se pode continuar afirmando tão indiscriminadamente que os sonhos são coisas sem importância Sabemos por nossa própria experiência que o estado de ânimo em que uma pessoa acorda de um sonho pode perdurar o dia inteiro os médicos têm observado casos nos quais uma doença mental começou com um sonho e nos quais persistiu um delírio originário de um sonho têm sido relatados casos de personagens históricos que em resposta a sonhos se aventuraram a importantes empreendimentos Podemos pois indagar qual deve ser a verdadeira origem do desprezo no qual são mantidos os sonhos nos círculos científicos Acredito que se trata de uma reação contra a supervalorização dos sonhos em épocas antigas A reconstrução do passado como sabemos é tarefa nada fácil contudo podemos supor com certeza se é que posso expressálo como brincadeira que há três mil anos ou mais nossos ancestrais já tinham sonhos como os nossos Até onde sabemos todos os povos da Antigüidade atribuíram grande importância aos sonhos e pensavam que estes podiam ser usados para fins práticos Deduziram a partir deles sinais para ler o futuro e neles procuravam os augúrios Para os gregos e para outros povos orientais pode ter havido época em que as campanhas militares sem interpretadores de sonhos pareciam tão impossíveis como nos dias atuais pareceria impossível uma campanha sem reconhecimento aéreo Quando Alexandre Magno iniciou suas conquistas seu séquito incluía os mais famosos interpretadores de sonhos A cidade de Tiro que naquele tempo ainda se erguia sobre uma ilha ofereceu ao rei tão dura resistência que ele pensou na possibilidade de levantar o cerco Então uma noite ele teve um sonho em que um sábio parecia dançar em triunfo e quando o relatou a seus interpretadores de sonhos estes o informaram de que o sonho predizia sua conquista da cidade Ordenou um assalto e capturou Tiro Entre os etruscos e os romanos estavam em uso outros métodos de prever o futuro porém durante todo o período helênicoromano a interpretação de sonhos era praticada e altamente conceituada Da literatura que trata do assunto o principal trabalho pelo menos sobreviveu o livro de Artemidoro de Daldis que provavelmente viveu durante o período do imperador Adriano Não sei dizerlhes como aconteceu que depois disso a arte de interpretar sonhos sofreu um declínio e os sonhos caíram em descrédito A difusão da instrução não pode ter tido muita coisa a ver com isso porquanto muitas coisas mais absurdas do que a interpretação de sonhos da Antigüidade foram ciosamente preservadas nas trevas da Idade Média Resta o fato de que o interesse pelos sonhos caiu gradualmente ao nível de superstição e pôde sobreviver apenas entre as classes não instruídas O abuso final da interpretação de sonhos foi atingido em nossos dias com tentativas de descobrir a partir dos sonhos os números destinados a serem premiados no jogo do loto Por outro lado a ciência exata de hoje repetidamente se ocupou de sonhos mas sempre com o único objetivo de aplicar a eles suas teorias fisiológicas Os médicos naturalmente consideraram os sonhos como atos nãopsíquicos como a expressão na vida mental de estímulos somáticos Binz 1878 35 enunciou que os sonhos são processos somáticos que em todos os casos são inúteis e em muitos casos positivamente patológicos em relação aos quais a alma do universo e a imortalidade são tão excelsamente superiores como o céu azul sobre um areal plano infestado de ervas Maury 1878 50 compara os sonhos aos desordenados movimentos da dança de São Vito em contraste com os movimentos coordenados de um homem sadio Consoante velha analogia os conteúdos de um sonho são semelhantes aos sons produzidos quando os dez dedos de um homem que nada sabe de música vagueiam sobre as teclas de um piano Strümpell 1877 84 Interpretar significa achar um sentido oculto em algo naturalmente não haverá como fazêlo se adotarmos essa última opinião sobre a função dos sonhos Reparem na descrição dos sonhos feita por Wundt 1874 Jodl 1896 e outros filósofos mais recentes Eles se contentam com enumerar os aspectos em que a vida onírica difere do pensamento desperto sempre num sentido que deprecia os sonhos enfatizando o fato de que as associações se rompem que a faculdade de criticar deixa de funcionar que todo o conhecimento é eliminado bem como outros sinais de diminuição do funcionamento A única contribuição de valor aos conhecimentos sobre sonhos que temos a agradecer às ciências exatas referese ao efeito produzido no conteúdo dos sonhos pelo impacto de estímulos somáticos durante o sono Um autor norueguês recentemente falecido J Mourly Vold publicou dois alentados volumes de pesquisas experimentais sobre sonhos edição alemã 1910 e 1912 que se dedicam quase que exclusivamente às conseqüências das alterações na postura dos membros Foramnos recomendados como modelos de pesquisa exata sobre sonhos Os senhores podem imaginar o que diria a ciência exata se soubesse que desejamos fazer uma tentativa de descobrir o sentido dos sonhos Talvez ela já o tenha dito Porém não nos deixaremos atemorizar com isso Se foi possível às parapraxias ter um sentido os sonhos podem ter algum também e em muitos e muitos casos as parapraxias têm um sentido que à ciência exata passou despercebido Assim abracemos o preconceito dos antigos e do povo e sigamos as pegadas dos interpretadores de sonhos da Antigüidade Devemos começar por encontrar nossos propósitos na tarefa à nossa frente e fazer um reconhecimento geral do campo dos sonhos Então o que é um sonho É difícil responder em uma só frase Porém não tentaremos uma definição quando só basta que se chame a atenção para algo que é conhecido de todos Devemos entretanto pôr em evidência o aspecto essencial dos sonhos Este onde é que se pode encontrálo porém São tão grandes as diferenças dentro do âmbito em que se inscreve nosso assunto diferenças em todas as direções O aspecto essencial provavelmente será algo que podemos apontar como sendo comum a todos os sonhos A primeira coisa que é comum a todos os sonhos pareceria ser naturalmente o fato de que estamos dormindo durante os sonhos O sonhar é evidentemente vida mental durante o sono algo que tem certas semelhanças com a vida mental desperta mas que por outro lado se distingue dela por grandes diferenças Essa era há muito tempo a definição de Aristóteles Talvez existam ainda conexões mais estreitas entre sonhos e sono Podemos ser acordados por um sonho muito freqüentemente temos um sonho quando acordamos espontaneamente ou quando somos tirados à força do sono Assim os sonhos parecem ser um estado intermediário entre o sono e a vigília De modo que nossa atenção se volta para o sono Bem então o que é o sono Esse é um problema fisiológico sobre o qual ainda existe muita controvérsia Quanto a esse respeito não podemos chegar a qualquer conclusão penso porém que devemos tentar descrever as características psicológicas do sono O sono é um estado no qual não desejo saber de nada do mundo externo um estado no qual retirei do mundo externo meu interesse Ponhome a dormir retraindome do mundo externo e mantendo afastados de mim seus estímulos Também vou dormir quando estou fatigado dele De modo que quando vou dormir digo ao mundo externo Deixeme em paz quero dormir As crianças ao contrário dizem Eu não vou dormir agora não estou cansado e quero ter mais algumas experiências A finalidade biológica do sono parece ser portanto a recuperação e sua característica psicológica a suspensão do interesse pelo mundo Nossa relação com o mundo ao qual viemos tão a contragosto parece incluir também nossa impossibilidade de tolerálo ininterruptamente Assim de tempos em tempos nos retiramos para o estado de prémundo para a existência dentro do útero A todo custo conseguimos para nós mesmos condições muito parecidas com aquelas que então possuímos calor escuridão e ausência de estímulos Alguns de nós se embrulham formando densa bola e para dormir assumem uma postura muito parecida com a que ocupavam no útero Parece que o mundo não possui completamente sequer mesmo aqueles dentre nós que são adultos mas apenas até os dois terços um terço de nós ainda é como se não fora nascido Cada vez que acordamos pela manhã é como que um novo nascimento Com efeito ao falar em nosso estado após o sono dizemos que nos sentimos como se tivéssemos acabado de nascer Ao dizer isso aliás estamos demonstrando o que provavelmente é uma suposição muito falsa acerca das sensações gerais de uma criança recémnascida que parece ao contrário se sentir provavelmente muito sem conforto Falamos também do nascer como ver pela primeira vez a luz do dia Se é isso o sono os sonhos possivelmente não fazem parte do seu programa parecendo ao contrário ser um indesejável acréscimo ao sono Também ao nosso ver um sono sem sonhos é o melhor o único apropriado Não deveria existir qualquer atividade mental no sono se este começa a ficar inquieto é por que não conseguimos atingir o estado fetal de repouso não fomos inteiramente capazes de evitar os remanescentes da atividade mental Os sonhos consistiriam nesses remanescentes Contudo se fosse assim realmente pareceria não haver necessidade de os sonhos terem algum sentido Com as parapraxias era diferente elas afinal eram atividades durante a vida desperta Se porém estou dormindo e cessei minha atividade mental completamente e simplesmente não consegui suprimir alguns resíduos dessa atividade então não há necessidade alguma de esses resíduos terem algum sentido Nem sequer posso fazer uso de um tal sentido de vez que o restante de minha vida mental está dormindo Assim realmente só pode tratarse de uma questão de reações à maneira de repuxões dos fenômenos mentais como resultado direto de um estímulo somático Por conseguinte os sonhos seriam remanescentes da atividade mental desperta perturbadores do sonho e faríamos bem em decidir abandonar de vez o assunto por ser inadequado à psicanálise No entanto ainda que os sonhos fossem supérfluos eles existem e podemos tentar explicar sua existência Por que a vida mental não consegue dormir Provavelmente porque existe algo que não quer conceder paz à mente Os estímulos incidem sobre a mente e ela deve reagir a eles Um sonho pois é a maneira como a mente reage aos estímulos que a atingem no estado de sono E nisso vemos uma via de acesso à compreensão dos sonhos Podemos tomar diferentes sonhos e tentar descobrir qual o estímulo que procurou perturbar o sono e contra o qual a reação foi um sonho Nosso exame da primeira coisa que é comum a todos os sonhos parece ternos levado até esse ponto Existe algo mais que é comum a todos eles Sim algo que é inconfundível porém muito mais difícil de apreender e descrever Os processos mentais no sono têm um caráter bastante diferente daqueles que se realizam em vigília Nos sonhos experimentamos toda sorte de coisas e acreditamos nelas ao passo que não obstante nada experimentamos exceto talvez o estímulo perturbador isolado Nós o experimentamos predominantemente sob a forma de imagens visuais sentimentos também podem estar presentes assim como pensamentos que nisso se entrelaçam Os outros sentidos também podem experimentar algo porém mesmo assim se trata principalmente de uma questão de imagens Parte da dificuldade de fornecer uma descrição dos sonhos se deve ao fato de termos de traduzir essas imagens em palavras Eu poderia desenhálo diznos muitas vezes uma pessoa que sonhou mas não sei como dizêlo Não se trata porém de uma atividade mental reduzida como a de uma pessoa oligofrênica comparada com a de um gênio é qualitativamente diferente embora seja difícil dizer onde está a diferença G T Fechner 1860 certa vez exprimiu a suspeita de que o cenário da ação dos sonhos na mente fosse diferente daquele da vida ideativa desperta Conquanto não o compreendamos e não saibamos o que fazer disso na verdade reproduz a impressão de estranheza que a maioria dos sonhos nos causa A comparação entre a atividade do sonho e os efeitos de uma mão nãomusical no piano ver em 1 não nos auxilia nesse ponto O piano afinal de contas responde com as mesmas notas embora não com melodias quando suas teclas são tocadas ao acaso Guardemos cuidadosamente na memória essa segunda coisa comum a todos os sonhos embora possamos não têla compreendido Existem mais outras coisas comuns a eles Não posso descobrir nenhuma não posso ver senão diferenças em todos os aspectos em sua duração aparente assim como em sua clareza na quantidade de afeto que os acompanha na possibilidade de retêlos na memória e assim por diante Essa variedade não é realmente o que poderíamos esperar encontrar em uma simples reação defensiva a um estímulo algo mecanicamente imposto uma coisa vazia como os repuxões da dança de São Vito No que concerne às dimensões dos sonhos alguns são muito curtos e compreendem apenas uma única imagem ou umas poucas imagens um único pensamento ou mesmo uma única palavra outros são extraordinariamente ricos em seu conteúdo apresentam novelas inteiras e parecem durar longo tempo Há sonhos tão claros como a experiência vigil tão claros que bastante tempo após havermos acordado não percebemos que eram sonhos e outros existem que são indescritivelmente obscuros vagos e borrados Na realidade em um mesmo sonho partes muito definidas podem se alternar com outras de uma vaguidade que mal se pode discernir Há sonhos inteiramente plenos de sentido ou pelo menos coerentes humorísticos mesmo ou fantasticamente belos outros ademais são confusos imbecis por assim dizer absurdos muitas vezes positivamente loucos Há sonhos que nos deixam praticamente frios e outros em que se manifestam afetos de todos os tipos sofrimento a ponto de fazer chorar ansiedade a ponto de nos acordar surpresa encantamento etc Os sonhos são de hábito esquecidos facilmente após o despertar ou podem perdurar através do dia lembrados mais e mais indistintamente até o fim do dia outros ainda por exemplo sonhos da infância são tão bem preservados que trinta anos após permanecem na memória como se fossem experiência recente Os sonhos à semelhança de pessoas podem aparecer somente em uma única ocasião para nunca mais ou retornar na mesma aparência não modificada ou com pequenas dessemelhanças Em suma esse fragmento da vida mental durante a noite tem um imenso repertório à sua disposição é capaz de fato de tudo aquilo que a mente cria no período diurno e contudo jamais é a mesma coisa Poderíamos tentar explicar essas muitas variações dos sonhos supondo que correspondem a diferentes fases intermediárias entre o sono e a vigília graus diferentes de sono incompleto Está bem mas se assim fosse o valor o conteúdo e a clareza de um produto onírico e também a consciência de se tratar de um sonho teriam de crescer naqueles sonhos em que a mente estava próxima do despertar e não seria possível uma parte clara e racional de sonho ser seguida imediatamente de outra que é obscura e não tem sentido e esta por sua vez ser acompanhada de outra parte de boa qualidade A mente por certo não poderia modificar a profundidade de seu sono assim tão rapidamente Logo essa explicação não nos auxilia não há como sair da dificuldade Por agora deixaremos de lado o sentido dos sonhos e tentaremos chegar a uma melhor compreensão dos mesmos a partir daquilo que verificamos terem eles em comum Inferimos da relação entre os sonhos e o estado de sono que os sonhos são a reação a um estímulo que perturba o sono Aprendemos que esse é também o único ponto no qual a psicologia experimental exata pode vir em nosso auxílio fornecenos provas de que os estímulos que incidem durante o sono fazem seu aparecimento nos sonhos Muitas investigações desse tipo foram realizadas sendo as mais recentes as de Mourly Vold que já mencionei ver em 1 e 2 e cada um de nós sem dúvida tem estado em condições de confirmar estes achados a partir de observações pessoais Selecionarei algumas das primeiras experiências Maury 1878 realizou algumas experiências consigo próprio Foilhe dado para cheirar um pouco de água de colônia durante o sono Sonhou que estava no Cairo na loja de Johann Maria Farina e houve mais algumas aventuras absurdas Em outra ocasião deramlhe um leve beliscão no pescoço sonhou que lhe era aplicado um cataplasma de mostarda e sonhou com um médico que o havia tratado quando era criança Ou ainda pingaram uma gota dágua em sua testa estava na Itália transpirava violentamente e bebia vinho branco de Orvieto O notável nesses sonhos produzidos experimentalmente será talvez mais visível ainda em outra série de sonhos produzidos por estímulos São três sonhos relatados por um observador inteligente Hildebrandt 1875 todos eles reações à campainha de um despertador Sonhei então que certa manhã de primavera eu saía a passeio e vagava pelos verdes campos até chegar a uma aldeia próxima onde vi os aldeões em suas melhores roupas com seus livros de cânticos debaixo do braço reunindose na igreja Evidente Era domingo e o culto do início da manhã logo estaria começando Decidi assistir ao culto mas antes eu estava um tanto acalorado de caminhar entrei no cemitério que circundava a igreja para refrescar Enquanto lia algumas das lápides dos túmulos ouvi o sineiro subindo a torre da igreja e lá no alto via agora o pequeno sino da aldeia que logo daria o sinal para o início das devoções Por um momento eu o vi pendente ali sem movimento depois começou a balançar e subitamente seu repicar começou a soar claro e penetrante tão claro e penetrante que pôs fim ao meu sono Porém o que estava soando era o despertador Aqui está outro exemplo Era um dia claro de inverno e as ruas estavam cobertas de espessa camada de neve Eu tinha decidido comparecer a uma festa em viagem de trenó contudo tive de esperar por longo tempo até virem me dizer que o trenó estava à porta E então se seguiram os preparativos para embarcar a manta de pele estendida o abrigo para os pés já colocado e por fim estava sentado em meu lugar Ainda assim o momento da partida foi retardado até que um puxão nas rédeas deu o sinal aos cavalos De imediato partiram e em sacudidas violentas os cincerros do trenó romperam seu tilintar conhecido deveras com tal violência que num momento a teia do meu sonho se havia rompido E uma vez mais era apenas o som estridente do despertador E agora um terceiro exemplo Via uma empregada doméstica com várias dúzias de pratos empilhados uns sobre os outros andando pelo corredor que dava para a sala de jantar A pilha de louça em seus braços me pareceu estar prestes a perder o equilíbrio Cuidado exclamei eu senão você vai deixar cair tudo Seguiuse devidamente a inevitável resposta ela estava acostumada àquela espécie de tarefa e assim por diante E entrementes meu olhar ansioso seguia a figura que avançava Então justamente como eu esperava ela tropeçou na soleira e a frágil louça escapuliu e numa verdadeira sinfonia de ruídos espatifouse em mil pedaços no chão Mas o barulho prosseguiu sem cessar e logo não pareceu mais o ruído característico do espatifar de louças transformandose no som de uma campainha e este som como o meu eu self desperto agora percebia era apenas o despertador desempenhando sua tarefa Esses são sonhos muito bonitos inteiramente plenos de sentido e pelo menos não tão incoerentes como costumam ser os sonhos Não estou fazendo objeção a eles a esse respeito O que eles têm em comum é a situação em cada caso terminar com um barulho que quando o sonhador acorda é reconhecido como sendo causado pelo despertador Assim vemos aqui como se produz um sonho aprendemos porém algo mais que isso O sonho não reconhece o despertador e sequer este aparece no sonho mas substitui o ruído do despertador por outro interpreta o estímulo que está pondo fim ao sono contudo o interpreta de forma diferente em cada uma das vezes Por que faz isso Não há resposta parece questão de capricho Compreender o sonho significaria poder dizer por que esse determinado ruído e não outro foi escolhido para interpretar o estímulo proveniente do despertador Objeção análoga podemos fazer às experiências de Maury podemos verificar bem claramente que o estímulo incidente aparece no sonho porém por que teve de tomar essa forma particular isso não nos é dito e não parece em absoluto ser devido à natureza do estímulo que perturbou o sono Nas experiências de Maury geralmente aparece também uma série de outros materiais dos sonhos que se juntam ao efeito direto do estímulo por exemplo as aventuras absurdas no sonho da água de colônia que não podem encontrar explicação E agora considerem que os sonhos do despertar oferecem a melhor oportunidade de estabelecer a influência dos estímulos externos perturbadores do sono Em muitos outros casos será mais difícil Nem todos os sonhos nos levam a acordar e se na manhã seguinte nos lembramos de um sonho da noite anterior como iremos descobrir um estímulo perturbador que talvez possa ternos causado um impacto durante a noite Certa vez consegui identificar um estímulo sonoro desse tipo de modo retrospectivo naturalmente porém apenas devido a circunstâncias especiais Acordei certa manhã em uma localidade das montanhas do Tirol sabendo que havia tido um sonho em que o papa havia morrido Não pude explicar a mim mesmo o sonho entretanto mais tarde minha esposa me perguntou se eu tinha ouvido o tremendo barulho do repicar dos sinos pela manhã que irrompera de todas as igrejas e capelas Não eu nada tinha ouvido meu sono é mais resistente que o dela mas graças à sua informação eu compreendi meu sonho Quantas vezes estímulos dessa espécie podem provocar sonhos em uma pessoa que dorme sem que esta venha a saber deles depois Talvez muito freqüentemente mas talvez não Se os estímulos não podem mais ser identificados não podemos nos convencer de sua existência E em todo caso mudamos nossa opinião com relação à importância dos estímulos externos que perturbam o sono pois aprendemos que podem explicar apenas uma pequena parte do sonho e não o total da reação onírica Não há necessidade para em virtude disso abandonar de todo essa teoria Ademais ela pode ser ampliada Obviamente não importa saber o que é que perturba o sono ou leva a mente a sonhar Como não pode invariavelmente tratarse de estímulo sensorial vindo de fora pode haver em substituição o que se chama de estímulo somático que surge dos órgãos internos Essa é uma idéia muito plausível e concorda com a muito popular opinião sobre a origem dos sonhos os sonhos vêm da indigestão dizem as pessoas freqüentemente Infelizmente aqui também devemos suspeitar muitas vezes que existem casos em que um estímulo somático atuado sobre uma pessoa em sono durante a noite não mais se manifesta após o despertar e portanto não se pode provar que tenha ocorrido Não desprezaremos porém o sem números de claras experiências que apóiam a origem dos sonhos em estímulos somáticos Em geral não pode haver dúvida de que as condições dos órgãos internos possam influenciar os sonhos A relação entre o conteúdo de alguns sonhos e uma bexiga muito cheia ou um estado de excitação dos órgãos genitais é tão simples que não pode causar malentendidos Esses casos evidentes levam a outros nos quais o conteúdo dos sonhos dá origem à justificada suspeita de que houve um impacto causado por estímulos somáticos porque no conteúdo existe algo que pode ser visto como uma superelaboração atuante uma representação ou interpretação de tais estímulos Scherner 1861 que realizou pesquisas com sonhos argumentava com vigor especial a favor da derivação dos sonhos a partir de estímulos orgânicos e apresentava alguns bons exemplos pertinentes Por exemplo em um sonho ele viu duas fileiras de rapazes elegantes com lindos cabelos e pele delicada enfrentandose em formação de combate fazendo uma investida atacando uma à outra e após retirandose e voltando novamente à posição anterior em seguida começando toda a manobra mais uma vez Sua interpretação dessas duas fileiras de rapazes como sendo dentes é plausível em si mesma e parece inteiramente confirmada quando sabemos que após essa cena do sonho a pessoa arrancou de sua mandíbula um comprido dente Identicamente a interpretação de corredores longos estreitos e ventosos como derivados de um estímulo intestinal parece válida e confirma a asserção de Scherner de que os sonhos procuram sobretudo representar o órgão que emite o estímulo por objetos que se lhes assemelham Por conseguinte devemos estar preparados para admitir que os estímulos internos podem desempenhar nos sonhos o mesmo papel que os externos Qualquer estimativa acerca de sua importância infelizmente é passível das mesmas objeções Em numerosos casos uma interpretação que aponte para um estímulo somático é incerta e improvável Não são todos os sonhos mas apenas determinado número deles que dão lugar a uma suspeita de que os estímulos orgânicos internos tivessem parte na origem deles E por fim os estímulos somáticos internos são como os estímulos sensoriais externos tão pouco capazes de explicar mais aspectos de um sonho do que aquilo que neste corresponde a uma reação direta ao estímulo Continua obscuro saber de onde vem o restante do sonho Observemos no entanto uma peculiaridade da vida onírica que vem à luz neste estudo dos efeitos dos estímulos Os sonhos não fazem simplesmente reproduzir o estímulo eles o vertem fazem alusões a ele o incluem em algum contexto o substituem por alguma outra coisa Esse é um aspecto da elaboração onírica que não pode deixar de nos interessar porque pode talvez nos aproximar mais da essência dos sonhos Quando uma pessoa constrói algo em conseqüência de um estímulo o estímulo não necessita por isso levar a cabo todo o trabalho O Macbeth de Shakespeare por exemplo foi uma pièce doccasion composta para celebrar a elevação ao trono do rei que foi o primeiro a unir as coroas dos três reinos Essa ocasião histórica imediata porém abrangeria todo o conteúdo da tragédia Explica todas as suas grandezas e os seus enigmas Pode ser que os estímulos externos e internos também atingindo a pessoa em sono sejam apenas provocadores do sonho e por conseguinte nada nos revelem de sua essência A segunda coisa comum aos sonhos sua peculiaridade psíquica ver em 1 e seg é por um lado difícil de compreender e por outro não nos oferece ponto de partida para ulterior investigação Nos sonhos via de regra experimentamos coisas sob formas visuais Podem os estímulos esclarecer algo a esse respeito O que experimentamos é realmente o estímulo Nesse caso porém por que a experiência é visual se é apenas em casos muito raros que a estimulação óptica provoca o sonho Ou se sonhamos palavras faladas poderá ser demonstrado que durante o sonho uma conversação ou algum ruído que lhe seja semelhante teve acesso aos nossos ouvidos Eu me aventuraria a desprezar essa possibilidade decisivamente Se não podemos progredir com aquilo que é comum aos sonhos vejamos se nos é possível valernos das diferenças Naturalmente os sonhos muitas vezes são sem sentido confusos e absurdos contudo também existem os sonhos plenos de sentido práticos e sensatos Verifiquemos se os últimos os que são plenos de sentido podem elucidar aqueles carentes de sentido Aqui está o último sonho sensato que me foi relatado Foi sonhado por um jovem Fui dar um passeio pela Kärntnerstrasse encontrei ali Herr X e estive com ele por certo tempo Depois entrei num restaurante Duas senhoras e um cavalheiro chegaram e se sentaram à minha mesa Aborrecime com isso inicialmente e não queria olhar para eles Então olhei realmente e constatei que eram muito amáveis A pessoa que teve esse sonho comentou a propósito que na tarde anterior ao sonho de fato passara pela Kärntnerstrasse que é o caminho que geralmente segue e que ali encontrara Herr X A outra parte do sonho não era uma recordação direta e apenas tinha alguma semelhança com determinada experiência de uma época consideravelmente anterior E aqui está outro sonho trivial desta vez o sonho de uma senhora O marido dela lhe perguntou Você não acha que devemos mandar afinar o piano E ela replicou Não vale a pena de qualquer maneira os martelos precisam de recondicionamento Este sonho repetia sem muita modificação uma conversação mantida entre ela e seu marido no dia anterior ao sonho O que entendemos desses dois sonhos sensatos Nada senão que contêm repetições extraídas da vida diária ou coisas a esta vinculadas Já seria alguma coisa se dos sonhos em geral se pudesse dizer algo semelhante Esse porém não é o caso aplicase apenas a uma minoria e na maioria dos sonhos não existe sinal de uma conexão com o dia anterior com isso se elucidam os sonhos sem sentido e absurdos Apenas mostra que encontramos sem esperar uma nova tarefa Desejamos não apenas saber o que um sonho diz mas se ele fala claramente como o faz nesses exemplos também queremos saber por que e com que finalidade esse material corriqueiro experimentado tão recentemente foi repetido no sonho Penso que como eu os senhores devem estar cansados de prosseguir com investigações como as que estivemos fazendo até aqui Todo o interesse por um problema é evidentemente insuficiente a menos que se conheça bem uma via de abordagem que leve à sua solução Ainda não encontramos um tal caminho A psicologia experimental nada nos proporciona salvo algumas informações muito valiosas sobre a importância dos estímulos como incentivadores do sonhar Da filosofia nada podemos esperar exceto que uma vez mais nos salientará orgulhosamente a inferioridade intelectual do objeto de nosso estudo Também não temos desejo algum de tomar qualquer coisa emprestada das ciências ocultas A história e a opinião popular nos dizem que os sonhos têm um sentido e um significado que eles perscrutam o futuro o que é difícil de aceitar e certamente impossível de provar Assim nosso esforço inicial nos deixa em completa incerteza Inesperadamente nos chega a indicação de uma direção em que até agora não havíamos olhado O uso idiomático que não é algo casual porém constitui o precipitado de antigas descobertas embora para estarmos seguros não deva ser empregado descuidadamente portanto nossa linguagem está familiarizada com coisas que levam o estranho nome de devaneios Os devaneios são fantasias produtos da imaginação são fenômenos muito generalizados observáveis mais uma vez tanto nas pessoas sadias como nas doentes e são facilmente acessíveis ao estudo em nossa própria mente A coisa mais notável a respeito dessas estruturas imaginárias é que lhes foi dado o nome de devaneios de vez que nelas não há qualquer traço dos dois elementos comuns aos sonhos ver em 1 e segs Sua relação com o sono já é negada em seu próprio nome e no concernente à segunda coisa comum aos sonhos nelas não experimentamos nem alucinamos algo mas imaginamos alguma coisa sabemos que estamos tendo uma fantasia não vemos mas pensamos Esses devaneios surgem no período prépúbere freqüentemente ainda na parte final da infância persistem até a maturidade ser alcançada e então ou são abandonados ou mantidos até o fim da vida O conteúdo dessas fantasias é dominado por um motivo muito inteligível São cenas e eventos em que as necessidades egoísticas de ambição e poder da pessoa ou seus desejos eróticos encontram satisfação Em homens jovens as fantasias ambiciosas são as mais proeminentes nas mulheres cuja ambição se dirige ao êxito no amor as fantasias é que o são Também nos homens contudo as necessidades eróticas estão muito freqüentemente presentes nos bastidores todos os seus feitos heróicos e seus êxitos parecem ter como único alvo a admiração e o favor das mulheres Em outros aspectos esses devaneios são de tipos muito diferentes e passam por vicissitudes modificadoras Todos eles cada qual por sua vez ou são abandonados após pouco tempo e substituídos por outros novos ou mantidos tecidos em longas histórias e adaptados às modificações que surgem nas circunstâncias da vida da pessoa Eles se acomodam aos tempos por assim dizer e recebem uma marca da época que testemunha a influência da nova situação São a matériaprima da produção poética pois o escritor criativo usa seus devaneios com determinadas remodelações disfarces e omissões para construir as situações que introduz em seus contos novelas ou peças O herói dos devaneios é sempre a própria pessoa seja diretamente seja por uma óbvia identificação com alguma outra pessoa Talvez os devaneios atribuam seu nome ao fato de terem a mesma relação com a realidade para indicar que seu conteúdo é para ser considerado não menos irreal do que o dos sonhos No entanto talvez partilhem esse nome por causa de alguma característica psíquica dos sonhos que ainda nos é desconhecida alguma característica que estamos investigando Também é possível que estejamos laborando em considerável erro ao tentarmos fazer uso dessa semelhança de nome como algo significativo Somente mais tarde será possível elucidar esse aspecto CONFERÊNCIA VI PREMISSAS E TÉCNICA DE INTERPRETAÇÃO SENHORAS E SENHORES Aquilo de que necessitamos então é um novo caminho um método que nos possibilitará estabelecer um início na investigação dos sonhos Apresentolhes uma hipótese razoável Consideremos como premissa desse ponto em diante que os sonhos não são fenômenos somáticos mas psíquicos Os senhores sabem o que isso significa contudo o que justifica que façamos essa hipótese Nada mas também nada há a impedirnos de fazêlo Esta é a situação se os sonhos são fenômenos somáticos não têm interesse para nós podem apenas nos interessar na hipótese de serem fenômenos mentais Trabalharemos com a hipótese de que realmente o são para ver o que daí se origina O resultado de nosso trabalho decidirá se devemos manter essa hipótese e se podemos tratála por sua vez como dado comprovado Entretanto a que realmente queremos chegar Que objetivo nosso trabalho está buscando Desejamos algo que é buscado em todo trabalho científico compreender os fenômenos estabelecer uma correlação entre os mesmos e como fim último aumentar se possível nosso poder sobre esses fenômenosNesse consenso prosseguimos com nosso trabalho baseados na hipótese de que os sonhos são fenômenos psíquicos Nesse caso são produtos e comunicações da pessoa que sonha porém comunicações que nada nos dizem que não entendemos Pois bem o que fazem os senhores se Ihes comunico algo ininteligível Os senhores me farão perguntas não é mesmo Por que não faríamos a mesma coisa com a pessoa que sonhou questionála sobre o que seu sonho significa Como se recordam certa vez nos encontramos na mesma situação anteriormente Quando estávamos investigando determinadas parapraxias um caso de lapso de língua Alguém havia dito ver em 1 Então os fatos vieram a Vorschwein e logo lhe perguntamos não felizmente não éramos nós e sim outras pessoas que não tinham absolutamente qualquer conexão com a psicanálise essas outras pessoas então lhe perguntaram o que quis dizer com esse comentário ininteligível E ele prontamente replicou que tinha pretendido dizer estes fatos eram Schweinereien repugnantes porém repelira essa intenção em troca da versão mais suave então os fatos vieram a Vorschein luz Naquela ocasião ver em 1 e 2 assinalei aos senhores que essa amostra de informação constituía um modelo para toda investigação psicanalítica e agora compreenderão que a psicanálise segue a técnica de fazer com que as próprias pessoas que estão sendo examinadas tanto quanto possível proporcionem a solução de seus enigmas ver em 1 Assim também é o próprio sonhador quem deve nos dizer o que seu sonho significa No entanto como sabemos com os sonhos as coisas não são tão simples Com as parapraxias funcionou tudo bem em numerosos casos houve porém outros em que a pessoa indagada nada quis dizer e até mesmo recusou indignada a resposta que lhe propusemos Com os sonhos os casos do primeiro tipo são muito escassos o sonhador sempre diz que nada sabe Não pode rejeitar nossa interpretação de vez que não temos nenhuma para lhe apresentar Devemos então desistir de nossa tentativa Como ele nada sabe e nós nada sabemos e uma terceira pessoa poderia saber menos ainda parece não haver perspectiva de descobrir a solução Nesse caso se os senhores estão propensos a desistir desistam da tentativa Porém se pensam de forma diferente podem continuar acompanhandome Porque posso lhes assegurar ser completamente possível e na realidade altamente provável que o sonhador sabe sim o que seu sonho significa apenas não sabe que sabe e por esse motivo pensa que não sabe Os senhores me assinalarão que mais uma vez estou introduzindo uma suposição já a segunda nesse breve raciocínio e que assim fazendo estou reduzindo enormemente o direito à credibilidade de meu procedimento Devido à premissa de que os sonhos são fenômenos psíquicos e devido a uma nova premissa de que há coisas mentais em uma pessoa que sabe sem saber que sabe da existência deles e assim por diante Sendo assim basta que se considere a improbabilidade intrínseca de cada uma dessas duas premissas para se poder tranqüilamente desviar o interesse de qualquer conclusão que se possa basear nelas Eu não os trouxe até aqui senhoras e senhores para iludilos ou para ocultarlhes determinadas coisas Em meu programa é verdade anunciei uma série de Conferências Elementares para Servir como Introdução à Psicanálise contudo aquilo que eu tinha em mente não era nada nos moldes de uma apresentação in usum Delphini que lhes daria uma versão agradável com todas as dificuldades cuidadosamente escamoteadas com as lacunas preenchidas e as dúvidas explicadas favoravelmente de forma que os senhores pudessem crer com a mente despreocupada que tinham aprendido algo novo Não justamente pelo motivo de os senhores serem principiantes quis mostrarlhes a nossa ciência como ela é com suas asperezas e dificuldades suas exigências e hesitações Pois sei que o mesmo se passa com todas as ciências e possivelmente não pode ser de outra forma especialmente em seus começos Sei também que em geral o ensino se dá ao trabalho de se notabilizar pelo fato de encobrir de quem aprende essas dificuldades e imperfeições Com a psicanálise porém isso não vai acontecer De modo que formulei duas premissas uma dentro da outra e se alguém acha tudo isso muito laborioso e muito inseguro ou se alguém está habituado a certezas mais garantidas e a deduções mais elegantes não deve prosseguir conosco Penso no entanto que absolutamente não deveria se meter com os problemas psicológicos porquanto é de se temer que em breve achará intransitáveis os caminhos precisos e seguros que escolheu para seguir E uma ciência que tem algo a oferecer não tem necessidade de cortejar ouvintes e adeptos Suas descobertas não podem deixar de angariar adesões e ela pode esperar até que essas descobertas tenham feito com que as atenções se voltassem para ela Para aqueles que gostariam de prosseguir com esse tema porém posso afiançar que minhas duas hipóteses não são equivalentes A primeira a de que os sonhos são fenômenos psíquicos é a premissa que procuramos demonstrar pelo resultado de nosso trabalho a segunda já foi demonstrada em outra área de conhecimento e eu simplesmente estou me aventurando a transportála dessa área para nossos próprios problemas Onde pois em que campo se pôde encontrar a prova de que existe algum conhecimento do qual a pessoa interessada apesar de tudo nada sabe conforme estamos propondo supor a respeito dos sonhos Em última análise este seria um fato estranho surpreendente um fato que viria alterar nossa visão da vida mental e que não teria por que se manter escondido um fato aliás que se neutraliza na sua própria denominação e que não obstante pretende ser algo de real uma contradição em termos Pois bem ele não se esconde Não é falta sua se as pessoas nada sabem a seu respeito ou não lhe prestam suficiente atenção Também não somos nós que devemos ser acusados de permitir que esses problemas psicológicos sejam deixados a cargo de pessoas que se mantêm distanciadas de todas as observações e experiências decisivas para a questão A comprovação foi encontrada no campo dos fenômenos hipnóticos Quando em 1889 tomei parte nas demonstrações extraordinariamente impressionantes feitas por Liébault e Bernheim em Nancy testemunhei a seguinte experiência entre outras Quando um homem era colocado em estado de sonambulismo era levado a experimentar toda espécie de coisas em forma alucinatória e depois era despertado de início parecia nada saber do que acontecera durante seu sono hipnótico Bernheim então lhe pedia sem rodeios para relatar o que lhe havia acontecido sob hipnose O homem afirmava que não conseguia lembrarse de nada Bernheim porém se mantinha firme pressionavao para falar insistia em que o homem sabia e devia recordar E eis que o homem era tomado de incerteza começava a refletir e recordava de forma indistinta uma das experiências que lhe tinham sido sugeridas e depois outra parte e a memória se tornava cada vez mais clara e mais completa e finalmente vinha à luz sem falha Como no entanto posteriormente o homem sabia o que lhe acontecera durante a experiência e como ninguém lhe havia comunicado nada nesse meio tempo achamos acertado concluir que ele também antes sabia Simplesmente lhe era inacessível ele não sabia que sabia e pensava que não sabia Ou seja a situação era exatamente igual àquela que suspeitamos existir naquele nosso sonhador Suponho que os senhores se surpreendam com que esse fato tenha sido estabelecido e me perguntarão Por que o senhor deixou de apresentar essa prova anteriormente em conexão com as parapraxias quando terminamos por atribuir a um homem que cometera um lapso de língua uma intenção de dizer coisas das quais nada sabia e que negava Se uma pessoa pensa que não sabe nada sobre experiências cuja lembrança ainda assim está dentro dela já não é mais tão improvável ela não saber nada de outros processos mentais dentro de si Esse certamente seria para nós um argumento de peso e nos teria auxiliado a compreender as parapraxias Naturalmente eu poderia têlo apresentado antes porém reserveio para outro lugar onde é mais necessário As parapraxias em parte se explicavam por si mesmas e em parte nos deixavam a impressão de que para preservar a continuidade dos fenômenos em questão seria prudente supor a existência de processos mentais dos quais a pessoa nada sabe No caso dos sonhos somos compelidos a introduzir explicações provenientes de outro lugar e ademais disso espero que no caso dos mesmos os senhores acharão mais fácil aceitar que eu transporte para cá explicações provenientes da hipnose O estado no qual uma parapraxia ocorre não pode deixar de se lhes afigurar normal não possui qualquer semelhança com o estado hipnótico Por outro lado existe um parentesco evidente entre o estado hipnótico e o estado de sonho que constitui uma condição necessária do sonho A hipnose na verdade é descrita como um sono artificial À pessoa que estamos hipnotizando pedimos que durma e as sugestões que fazemos são comparáveis aos sonhos do sono natural As situações psíquicas nos dois casos são realmente análogas No sono natural retiramos nosso interesse de todo o mundo externo e no sono hipnótico também o retiramos do mundo inteiro porém com exceção apenas da pessoa que nos hipnotizou e com a qual permanecemos em contato Digase de passagem o sono de uma mãe cuidando de seu filho permanecendo em contato com o mesmo e podendo ser acordada apenas por ele é um equivalente normal do sono hipnótico Assim não seria tão fora de propósito transpor a situação da hipnose para a do sono natural Não é inteiramente absurda a suposição de que também no sonhador esteja presente algum conhecimento a respeito de seus sonhos embora esse conhecimento lhe seja inacessível a ponto de não acreditar no mesmo Observese que nesse ponto se abre uma terceira frente de abordagem ao estudo dos sonhos vimos a dos estímulos que perturbam o sono a dos devaneios e agora temos a dos sonhos sugeridos do estado hipnótico Talvez possamos agora retornar à nossa tarefa com renovada confiança É pois provável que o sonhador tenha noção do que sonhou a única questão é saber como tornarlhe possível descobrir o conhecimento que tem e o comunicar a nós Não lhe exigimos dizernos abertamente o sentido de seu sonho porém será capaz de encontrar a origem o círculo de pensamentos e de interesses do qual surgiu tal sonho Os senhores se recordam de que no caso das parapraxias perguntouse ao homem como ele havia chegado à palavra equivocada Vorschwein e a primeira coisa que lhe ocorreu deunos a explicação Nossa técnica no que se refere aos sonhos portanto é muito simples e copiada desse exemplo Também aqui perguntaremos a quem sonhou de que modo chegou ao sonho e da mesma forma seu primeiro comentário pode ser considerado uma explicação Com isso deixamos de lado o problema da distinção entre o fato de o sonhador pensar e o de não pensar que sabe algo e tratamos ambos os casos como um só e mesmo caso Essa técnica certamente é muito simples porém temo que desencadeará a mais viva oposição dos senhores Haverão de dizer Mais uma hipótese a terceira E a mais improvável de todas Se pergunto à pessoa que sonhou o que é que lhe ocorre em relação ao sonho de que modo precisamente a primeira coisa que lhe ocorre pode nos dar a explicação que esperamos Ora pode não lhe ocorrer absolutamente nada ou sabe lá o que lhe pode ocorrer Não consigo ver em que se baseia uma expectativa desse tipo Isso realmente é mostrar demasiada confiança na divina providência em um ponto em que seria apropriado isto sim um maior exercício da faculdade crítica Ademais um sonho não é somente uma palavra errada consiste em numerosos elementos Assim sendo que associação de idéias devemos seguirOs senhores estão corretos em todos os pontos de menor importância Um sonho difere de um lapso de língua entre outras coisas pela multiplicidade de seus elementos Nossa técnica deve levar isso em consideração Portanto lhes sugiro dividirmos o sonho em seus elementos e iniciarmos uma pesquisa à parte de cada elemento ao fazermos isso a analogia com um lapso de língua se estabelece Os senhores também têm razão ao pensar que aquele que sonhou quando interrogado sobre os diversos elementos do sonho separados uns dos outros pode responder que nada lhe ocorre Há alguns exemplos nos quais deixamos passar essa resposta e mais adiante os senhores saberão que exemplos são esses ver em 1 coisa muito estranha são exemplos nos quais idéias definidas podem ocorrer em nós mesmos Porém em geral se quem sonhou afirma que nada lhe ocorre contestamos nós o pressionamos insistimos em que algo deve ocorrerlhe e tornamos a ter razão Produzirá uma idéia qualquer idéia énos indiferente qual seja O sonhador nos dará determinadas informações que podem ser descritas como históricas com especial facilidade Ele pode dizer Isso é algo que aconteceu ontem como foi o caso em nossos dois sonhos de verdade ver em 1 e 2 ou Isso me lembra algo que aconteceu há pouco tempo e dessa maneira descobriremos que os sonhos se referem a impressões do dia anterior ou dos dois últimos dias muito mais freqüentemente do que de início imaginávamos loc cit E finalmente também recordará a partir do sonho acontecimentos de épocas ainda mais anteriores e até mesmo talvez de um passado muito remoto No seu ponto principal contudo os senhores se enganam Se pensam ser arbitrário supor que a primeira coisa que ocorre ao sonhador forçosamente deva nos revelar aquilo que estamos procurando nos levar até a meta de nossa procura se pensam que aquilo que lhe vem à mente poderia ser qualquer outra coisa deste mundo e poderia não ter qualquer relação com o que procuramos e que ao esperar alguma coisa diferente estou apenas exibindo minha confiança na providência divina então os senhores estão cometendo um grande equívoco Uma vez anteriormente ver em 1 arrisqueime a dizerlhes que os senhores acalentam uma fé profundamente arraigada em acontecimentos psíquicos nãodeterminados e no livrearbítrio que isso porém é bastante anticientífico e deve ceder lugar à necessidade de um determinismo cujo princípio se estende à vida mental Peço que respeitem o fato de que aquilo foi o que veio à mente do homem e não outra coisa No entanto não estou opondo uma fé a outra Podese demonstrar que a idéia referida pelo homem não era arbitrária nem indeterminável nem isenta de relação com aquilo que procurávamos Na realidade há não muito tempo constatei posso dizer que sem atribuir muita importância ao fato que a psicologia experimental também havia obtido provas nesse sentido Tendo em vista a importância do assunto solicitarei dos senhores especial atenção Ao pedir a alguém dizerme o que lhe vem à mente em resposta a um determinado elemento do sonho estou lhe pedindo que se entregue à associação livre enquanto mantém na mente uma idéia como ponto de partida Isso exige uma atitude especial da atenção bastante diferente da reflexão e que exclui esta Algumas pessoas conseguem essa atitude com facilidade outras quando tentam conseguila mostram um grau de inabilidade incrivelmente elevado Existe no entanto um grau maior de liberdade de associação quer dizer posso eliminar a exigência de manter na memória uma idéia inicial e tãosomente estabelecer a modalidade ou tipo de associação que quero posso por exemplo exigir da pessoa em experiência que deixe vir à mente um nome próprio ou um número livremente Aquilo que então lhe ocorre presumivelmente seria ainda mais casual e mais imprevisível do que com nossa técnica anterior Pode ser demonstrado porém que é sempre algo estritamente determinado por importantes atitudes internas da mente desconhecidas de nós no momento em que atuam tão pouco conhecidas como as intenções perturbadoras das parapraxias e as intenções causadoras das ações casuais ver em 1 Eu e muitos outros depois de mim fizemos repetidamente essas experiências com nomes e com números pensados ao acaso e alguns desses experimentos foram publicados Nessas experiências o procedimento consiste em fornecer uma série de associações ao nome que emergiu essas associações subseqüentes em decorrência não são mais inteiramente livres porém possuem um vínculo assim como existe vínculo entre as associações e os elementos dos sonhos Continuase com esse procedimento até que se considere esgotado o estímulo para associar Entretanto com isso já terá sido esclarecido tanto o motivo como o significado da escolha casual do nome Essas experiências sempre conduzem ao mesmo resultado relatos referentes a elas freqüentemente abrangem copioso material e exigem amplas elucidações As associações com números escolhidos ao acaso são talvez as mais convincentes elas fluem tão rapidamente e avançam com tão incrível certeza em direção a um objetivo oculto que o efeito é realmente surpreendente Apresentarei aos senhores um exemplo de uma dessas análises de um nome de vez que lidar com isso exige uma quantidade de material convenientemente pequenaNo decurso do tratamento de um jovem tive ocasião de discutir esse assunto e mencionei a tese de que apesar de uma escolha aparentemente casual é impossível pensar em um nome ao acaso que não venha a se revelar como rigorosamente determinado pelas circunstâncias imediatas pelas características da pessoa em experiência e por sua situação no momento De vez que ele se encontrava cético sugerilhe que deveria fazer consigo mesmo uma experiência desse tipo na hora Eu sabia que ele mantinha relações particularmente numerosas de todo tipo com mulheres casadas e com moças e assim pensei que ele teria à sua disposição uma escolha especialmente ampla se fosse o caso de lhe pedir que escolhesse o nome de uma mulher Concordou em fazer a experiência Para minha surpresa ou melhor talvez para sua surpresa não fui assoberbado por nenhuma avalanche de nomes femininos permaneceu calado por um momento e então admitiu que apenas um nome lhe tinha vindo à cabeça e nenhum outro além deste Albina Que coisa curiosa Mas o que significa esse nome para o senhor Quantas Albinas o senhor conhece É estranho dizêlo ele não conhecia nenhuma mulher chamada Albina e nada mais lhe ocorreu junto com o nome Dessa forma podiase pensar que a análise havia fracassado Mas não absolutamente já estava completa e outras associações não eram necessárias O homem tinha uma pele excepcionalmente alva e em conversação durante o tratamento muitas vezes eu o chamara de albino por brincadeira Por essa época estávamos tratando de determinar os componentes femininos de sua constituição Assim era ele mesmo essa Albina a mulher que mais lhe interessava no momento Do mesmo modo podese constatar que as melodias que acodem à mente de uma pessoa de modo inesperado são determinadas por uma seqüência de idéias à qual pertencem e têm o direito de atarefar a mente sem que haja consciência de sua atividade É fácil nesses casos demonstrar que a relação com a melodia é baseada em sua letra ou em sua origem Contudo devo ter o cuidado de não estender essa asserção a pessoas realmente ligadas à música sucede que com elas não tive qualquer experiência Pode ser que para essas pessoas o conteúdo musical da melodia é que decide seu surgimento O primeiro caso é certamente o mais comum Por exemplo conheço um jovem que se sentiu durante algum tempo realmente perseguido pela melodia aliás uma melodia maravilhosa da canção de Páris de Offenbach La belle Hélène até que em sua análise ele teve sua atenção voltada para uma rivalidade em torno de sua pessoa e em benefício seu uma rivalidade entre uma Ida e uma HelenaSe então as coisas que vêm à mente de uma pessoa assim tão livremente são de tal maneira determinadas e formam parte de um todo interrelacionado sem dúvida estamos agindo acertadamente ao concluir que não podem ser menos determinadas aquelas coisas que Ihe acodem à mente com apenas um vínculo ou seja o vínculo delas com a idéia que serve como seu ponto de partida A investigação realmente mostra que afora o vínculo que lhe fornecemos com a idéia inicial essas associações são dependentes também de grupos de idéias e de interesses intensamente emocionais os complexos cuja participação não é conhecida no momento ou seja é inconscienteA ocorrência de idéias com vínculos dessa espécie tem sido objeto de pesquisas experimentais muito elucidativas que desempenharam um papel notável na história da psicanálise A escola de Wundt introduziu o que conhecemos como experiências de associação nas quais se diz à pessoa uma palavraestímulo e a pessoa tem de responder a ela tão rapidamente quanto lhe é possível com qualquer reação que lhe ocorra Nesse caso é possível estudar o intervalo de tempo que se passa entre o estímulo e a reação a natureza das respostas dadas como reação os possíveis erros quando a experiência é repetida mais tarde e assim por diante A escola de Zurique liderada por Bleuler e Jung encontrou explicação para as reações que se sucediam na experiência de associação fazendo as pessoas em experiência elucidarem suas reações por meio de associações subseqüentes no caso de essas reações terem mostrado aspectos marcantes Constatouse então que essas reações marcantes eram determinadas de forma muito definida pelos complexos da pessoa Assim Bleuler e Jung estabeleceram a primeira ponte entre a psicologia experimental e a psicanáliseTendo aprendido tantas coisas os senhores poderão dizer Agora reconhecemos que os pensamentos que livremente acodem à mente de uma pessoa são determinados e não arbitrários como supunhamos Admitimos que isso seja verdadeiro também para os pensamentos que ocorrem como resposta aos elementos dos sonhos Não é nisso porém que estamos interessados O senhor assevera que aquilo que vem à mente do sonhador como resposta ao elemento onírico é determinado pelo fundamento psíquico desconhecido para nós daquele elemento em particular Isso não nos parece estar provado Esperamos isto sim que o que ocorre ao sonhador como resposta ao elemento onírico venha a se revelar como sendo determinado por um dos complexos de quem sonhou contudo de que nos serve isso Não nos leva a uma compreensão dos sonhos e sim tal como a experiência de associação ao conhecimento desses ditos complexos Mas o que têm eles a ver com os sonhos Os senhores têm razão porém estão negligenciando um fator Ademais é precisamente devido a esse fator que não escolhi a experiência de associação como ponto de partida desta exposição Nessa experiência o único determinante da reação isto é a palavraestímulo é arbitrariamente escolhida por nós Aqui a reação é intermediária entre a palavraestímulo e o complexo despertado na pessoa Nos sonhos a palavraestímulo é substituída por algo que propriamente deriva da vida mental da pessoa de fontes que lhe são desconhecidas podendo este algo por conseguinte ser facilmente um verdadeiro derivado de um complexo Logo não é exatamente fantástico supor que as demais associações vinculadas aos elementos oníricos serão determinadas pelo mesmo complexo que o do próprio elemento e supor que conduzirão à sua descoberta Permitamme mostrarlhes com outro exemplo que os fatos são como esperamos O esquecimento de nomes próprios é realmente um excelente modelo do que acontece na análise de sonhos a diferença está apenas em que os eventos compartilhados entre duas pessoas na análise de sonhos estão combinados em uma só pessoa nas parapraxias Se esqueço temporariamente um nome mesmo assim sinto em mim alguma certeza de o saber uma certeza a que no caso da pessoa que sonhou somente chegamos pelo caminho indireto da experiência de Bernheim ver em 1 O nome que esqueci embora o saiba não é acessível para mim A experiência em breve me ensina que nada adianta pensar nele por mais que me esforce Em lugar do nome esquecido porém sempre posso recordar um ou vários nomes substitutos É somente depois de espontaneamente terme ocorrido um nome substituto desse tipo que se torna óbvio a semelhança dessa situação com a da interpretação do sonho Como esse nome substituto também o elemento onírico não é a verdadeira coisa em si porém tãosomente está em lugar de alguma outra coisa da coisa original que desconheço e devo descobrir mediante a análise do sonho Mais uma vez a única diferença é que no caso do esquecimento de um nome reconheço sem hesitação o substituto como algo nãooriginal ao passo que no caso do elemento onírico chegamos a essa constatação com mais dificuldade Pois bem no caso do esquecimento de um nome existe também um método pelo qual podemos partir do substituto e chegar à coisa inconsciente original o nome esquecido Dirigindo minha atenção para os nomes substitutos e permitindo que em resposta a estes outras idéias me advenham obtenho o nome esquecido através de rodeios mais ou menos longos ao ocorrer isso verifico que tanto o nome substituto espontâneo como os nomes que recordei estão correlacionados com o nome esquecido e foram por ele determinadosDescreverei para os senhores uma análise desse tipo Certo dia verifiquei que não conseguia recordar o nome do pequeno país da Riviera cuja capital é Monte Carlo Foi muito cansativo porém a coisa se passou assim Concentrei tudo quanto sabia a respeito desse país Pensei no Príncipe Alberto da Casa de Lusignan nos seus casamentos em sua dedicação às pesquisas em altomar e tudo o mais que pude reunir mas foi inútil Desisti assim da reflexão e deixei que me ocorressem nomes substitutos em vez do nome esquecido Vieram rapidamente a própria Monte Carlo Piemonte Albânia Montevidéu Colico Nessa série chamoume a atenção primeiramente Albânia logo substituída por Montenegro sem dúvida por causa do contraste entre branco e negro Então constatei que quatro desses nomes substitutos continham a mesma sílaba mon e com isso subitamente eu tinha a palavra esquecida e exclamei em voz alta Mônaco Os nomes substitutos assim realmente haviam surgido do nome esquecido os quatro primeiros provinham de sua primeira sílaba ao passo que o último reproduzia sua estrutura silábica e sua última sílaba inteira Ademais consegui descobrir com bastante facilidade o que me privara temporariamente desse nome Mônaco é também a palavra italiana para Munique e foi essa cidade que exerceu a influência inibitória Não há dúvida de que esse é um bom exemplo porém é simples demais Em outros casos teria sido necessário recordar extensas seqüências de idéias em resposta ao primeiro nome substituto e então a analogia com a análise de sonhos teria sido mais clara Tive experiências também desse tipo Certa ocasião um estrangeiro convidoume para tomar vinho italiano em sua companhia porém quando estávamos no restaurante sucedeu não lembrarse ele do nome do vinho que desejava pedir em virtude das recordações muito agradáveis que tinha desse vinho A partir de numerosas idéias substitutas de diferentes espécies que acudiam à sua memória em lugar do nome esquecido pude concluir que pensamentos a respeito de algo com o nome Hedwig o tinham feito esquecer o nome E ele não apenas confirmou o fato de que provara desse vinho pela primeira vez quando estava em companhia de alguém com esse nome como também auxiliado pela descoberta se lembrou do nome do vinho Presentemente ele estava sendo feliz no casamento e aquele nome Hedwig pertencia a uma época anterior que não desejava recordar Sendo possível no caso de esquecimento de um nome também na interpretação de sonhos deve ser possível prosseguir a partir do substituto ao longo da cadeia de associações ligada a ele e dessa forma obter acesso à coisa original que está sendo mantida oculta Do exemplo do nome esquecido podemos concluir que as associações com o elemento onírico serão determinadas tanto pelo elemento onírico como pela coisa original inconsciente que está por trás deste Sendo assim parece que aduzimos alguma fundamentação para nossa técnica CONFERÊNCIA VII O CONTEÚDO MANIFESTO DOS SONHOS E OSPENSAMENTOS ONÍRICOS LATENTES SENHORAS E SENHORES Como vêem nosso estudo das parapraxias não foi improfícuo Graças a nossos esforços com elas sujeitos a duas premissas que lhes expliquei conseguimos duas coisas uma concepção da natureza dos elementos oníricos e uma técnica para interpretar sonhos A concepção dos elementos oníricos nos diz serem eles coisas nãooriginais ver em 1 substitutos de alguma outra coisa desconhecida do sonhador como a intenção de uma parapraxia substitutos de algo cujo conhecimento está presente em quem sonhou que lhe é porém inacessível Temos a esperança de que será possível aplicar a mesma concepção a sonhos inteiros constituídos de tais elementos Nossa técnica baseiase em usar a associação livre para esses elementos a fim de suscitar a emergência de outras estruturas substitutivas que nos possibilitarão atingir aquilo que se oculta de nossos olhosProponho agora que devemos introduzir uma modificação em nossa nomenclatura o que nos dará maior liberdade de movimentos Em vez de falar em oculto inacessível ou nãogenuíno adotemos a descrição correta e digamos inacessível para a consciência do sonhador ou inconsciente Com isso quero dizer tãosomente aquilo que pode acudir ao espírito dos senhores quando pensam em uma palavra que lhes escapou ou na intenção perturbadora de uma parapraxia ou seja quero dizer apenas inconsciente no momento Contrastando com esse aspecto naturalmente podemos referir como conscientes os elementos oníricos propriamente ditos e as idéias substitutivas que através das associações com estes elementos são de surgimento recente Até aqui essa nomenclatura não envolve qualquer formulação teórica Não se pode estabelecer objeção alguma ao uso da palavra inconsciente como descrição adequada e de fácil compreensão Se estendemos ao sonho total nossa concepção a respeito de seus elementos isolados procede que o sonho como um todo constitui um substituto deformado de alguma outra coisa algo inconsciente e que a tarefa de interpretar um sonho é descobrir esse material inconsciente Disso logo resultam entretanto três regras importantes que devemos observar durante o trabalho de interpretação de sonhos 1 Não devemos nos preocupar com aquilo que o sonho parece dizernos seja compreensível ou absurdo claro ou confuso de vez que pode não ser o material inconsciente que estamos procurando Uma evidente limitação desta regra forçosamente irá imporse à nossa consideração mais adiante ver em 1 2 Devemos restringir nosso trabalho à recordação das idéias substitutivas de cada elemento não devemos refletir sobre elas nem considerar se contêm algo importante e não devemos nos perturbar com o grau de divergência que elas apresentam em relação ao elemento onírico 3 Precisamos aguardar até que o material inconsciente oculto o qual procuramos surja com espontaneidade exatamente como a palavra esquecida Mônaco adveio na experiência que descrevi ver em 1 Agora também podemos compreender em que grau é indiferente o fato de muita ou pouca coisa do sonho ser lembrada sobretudo se lembrada com precisão ou imprecisão Pois o sonho recordado não é o material original e sim um seu substituto deformado o qual mediante a rememoração de outras imagens substitutivas deve auxiliarnos a nos aproximarmos do material original a tornar consciente aquilo que no sonho é inconsciente Se nossa lembrança foi imprecisa portanto causou simplesmente uma deformação a mais desse substituto uma deformação que porém não se efetuou sem motivo O trabalho de interpretar pode ser executado nos sonhos de cada um ou nos sonhos de outras pessoas Na realidade aprendese mais consigo mesmo o processo impõe maior convicção Se então fizermos uma tentativa observaremos que algo se opõe ao nosso trabalho É verdade que as idéias nos ocorrem porém não permitimos que todas elas sejam levadas em consideração influências de julgamentos e de escolhas se fazem sentir No caso de uma idéia podemos dizer a nós mesmos Não isso não é importante não tem cabimento aqui No caso de outra idéia isso é demasiadamente sem sentido e no caso de uma terceira isso é totalmente sem importância E depois somos capazes de observar como com objeções dessa espécie podemos encobrir idéias e finalmente rechaçálas todas juntas sem exceção antes mesmo de se haverem tornado bastante claras Assim por um lado nos aferramos muito àquela idéia que constituiu nosso ponto de partida o próprio elemento onírico e por outro lado interferimos no resultado das associações livres ao fazer a escolha Se não somos nós mesmos enquanto interpretamos o sonho se tomamos outra pessoa para que o interprete adquirimos consciência muito nítida de mais um motivo que alegamos ao fazer essa seleção indevida porque às vezes dizemos para nós Não essa idéia é excessivamente desagradável não quero ou não posso referila Essas objeções constituem evidente ameaça ao êxito de nosso trabalho Delas devemos nos resguardar e em nosso próprio caso o fazemos resolvendo não ceder a elas Estando analisando o sonho de uma outra pessoa estabelecemos como regra inviolável a pessoa não ocultar de nós idéia alguma ainda que dê origem a uma das quatro objeções de ser demasiado sem importância ou sem sentido ou de ser irrelevante ou muito desagradável para ser referida O sonhador promete obedecer à regra e a seguir podemos ter o aborrecimento de verificar como ele cumpre mal o prometido quando lhe surge a ocasião Podemos explicar a nós mesmos o que se passa de início supondo que malgrado a garantia peremptória ele ainda não se compenetrou da razão de ser da associação livre e talvez possamos ter a idéia de primeiro convencêlo teoricamente dandolhe livros para que leia ou enviandoo a conferências que o possam converter em adepto de nossos pontos de vista sobre a associação livre Contudo de um erro assim nos manteremos à distância basta considerarmos nosso próprio caso do vigor de nossas convicções dificilmente se pode duvidar afinal de contas as mesmas objeções se apresentam a determinadas idéias e são afastadas apenas posteriormente digamos em segunda instânciaEm vez de nos aborrecermos com a desobediência do sonhador podemos lucrar com essas experiências aprendendo algo novo a partir delas algo tanto mais importante quanto menos esperamos Percebemos que o trabalho de interpretar sonhos é executado em presença de uma resistência que a ele se opõe e da qual as objeções críticas constituem manifestações A resistência independe da convicção teórica daquele que sonhou Com efeito aprendemos ainda mais Descobrimos que uma objeção crítica desse tipo jamais chega a mostrarse justificada Ao contrário as idéias que as pessoas tentam suprimir dessa maneira invariavelmente se revelam as mais importantes e decisivas em nossa busca de material inconsciente Na realidade equivale a uma marca distintiva uma idéia acompanharse de uma objeção desse tipo A referida resistência é algo inteiramente novo um fenômeno que encontramos calmamente em relação a nossas premissas ver em 1 e seg porém um fenômeno que não se incluía entre as mesmas O aparecimento desse novo fator em nossos cálculos nos alcança como determinada surpresa não de todo agradável Logo suspeitamos que ela não irá tornar mais fácil nosso trabalho Poderia desorientarnos a ponto de abandonarmos nosso completo interesse pelos sonhos algo tão sem importância como um sonho e como se não bastasse todas essas dificuldades em lugar de uma única técnica simples sem rodeios Em compensação porém as dificuldades podem precisamente agir como estímulo e fazernos suspeitar que o trabalho valerá a pena Regularmente deparamos com a resistência ao tentarmos abrir caminho desde o substituto que é o elemento onírico até o material inconsciente oculto por trás dele Podemos assim concluir que deve haver algo importante escondido por trás do substituto Se não para que servem as dificuldades que tentam manter em vigor o ocultamento Se uma criança recusa abrir sua mão fechada para mostrar o que tem escondido podemos nos sentir seguros de que se trata de algo equívoco algo que ela não devia ter No momento em que introduzimos nos fatos em questão a idéia dinâmica de uma resistência devemos simultaneamente refletir ser esse fator algo que varia em quantidade Podem existir resistências maiores e menores e estamos preparados para encontrar essas diferenças revelandose também durante nosso trabalho Talvez sejamos capazes de vincular essa experiência com outra que também encontramos durante o trabalho da interpretação de sonhos às vezes apenas uma única resposta ou não mais do que algumas são requeridas para nos conduzirem desde o elemento onírico até o material inconsciente que nele se oculta ao passo que em outras ocasiões para se realizar isso são necessárias longas cadeias de associações e a superação de muitas objeções críticas Concluiremos que essas diferenças correspondem à variável magnitude da resistência e certamente se verá que temos razão Se a resistência é pequena o substituto não pode estar muito distante do material inconsciente contudo uma resistência maior significa que o material inconsciente está muito distorcido e que será longo o caminho que se estende desde o substituto ao material inconsciente Talvez agora seja o momento de tomarmos um sonho e tentar aplicarlhe nossa técnica a fim de verificar se nossas expectativas se confirmam Sim no entanto que sonho devemos escolher para essa finalidade Os senhores não podem imaginar como julgo difícil decidir nem sequer posso esclarecer a natureza de minhas dificuldades Evidentemente deve haver sonhos que em seu conjunto foram sujeitos apenas a uma pequena deformação e o melhor plano seria começar por eles Entretanto que sonhos foram menos deformados Os inteligíveis e não confusos dos quais já lhes apresentei dois exemplos ver em 1 e 2 Isso nos faria perder o rumo A investigação mostra que tais sonhos foram sujeitos a um extraordinário grau de deformação Se entretanto eu devesse não levar em conta exigências especiais e selecionasse um sonho a esmo os senhores provavelmente ficariam muito desapontados Talvez tivéssemos de observar ou gravar tamanha profusão de idéias em resposta aos elementos oníricos isolados que seríamos incapazes de estabelecer uma visão de conjunto do trabalho Se tomamos nota por escrito de um sonho e então anotamos todas as idéias que emergem como resposta a ele podemos verificar que essas idéias são muitas vezes mais longas do que o texto do sonho O melhor plano portanto pareceria ser o de escolher alguns sonhos curtos para análise quando cada um dos quais pelo menos nos dirá algo ou confirmará algum ponto Decidiremos assim seguir esse rumo a menos que a experiência talvez nos mostre onde realmente podemos encontrar sonhos que foram apenas ligeiramente deformados No entanto posso pensar em alguma outra coisa que nos tornará as coisas mais fáceis algo ademais que está em nossa trajetória Em vez de começarmos por interpretar sonhos completos nos restringiremos a alguns elementos oníricos e descobriremos em determinado número de exemplos como esses podem ser explicados mediante aplicação de nossa técnica a Uma senhora referiu que quando criança sonhava muito freqüentemente que Deus usava na cabeça um chapéu de três bicos feito de papel O que os senhores podem fazer com esse caso sem o auxílio daquela que sonhou Parece totalmente disparatado Deixa porém de ser absurdo quando ouvirmos da senhora que ela costumava usar na cabeça um chapéu desse tipo às refeições quando era criança porque nunca podia resistir ao desejo de dar olhadas furtivas aos pratos dos irmãos e irmãs para ver se eles não tinham ganho porções maiores que a sua Assim o chapéu se destinava a funcionar como um par de óculos de proteção Isso aliás era uma parte das informações referentes à sua história ver em 1 e 2 e seg e foi fornecida sem qualquer dificuldade A interpretação desse elemento e ao mesmo tempo de todo esse breve sonho foi feita com o auxílio de mais uma idéia que lhe ocorreu Quando ouvi dizer que Deus era onisciente e via tudo disse o sonho só pode significar que eu sabia tudo e via tudo mesmo que procurassem me impedir Parece que este exemplo é simples demaisb Uma paciente que se mostrava cética neste respeito teve um longo sonho no decorrer do qual algumas pessoas Ihe falavam acerca de meu livro sobre chistes 1905c e o elogiavam muito Então surgiu algo referente a um canal talvez um outro livro que mencionava um canal ou então alguma coisa com canal ela não sabia era tudo tão indistintoSem dúvida os senhores tenderão a esperar que o elemento canal de vez que já era tão indistinto seria inacessível à interpretação Têm razão em suspeitar de uma dificuldade porém a dificuldade não resulta da indistinção tanto a dificuldade como a indistinção se originam de outra causa Nada ocorreu a essa paciente em relação a canal e eu obviamente não pude elucidálo Pouco tempo depois para dizer a verdade no dia seguinte disseme que havia pensado em alguma coisa que podia ter algo a ver com o fato Era sim um chiste um chiste que tinha ouvido No vapor entre Dover e Calais um conhecido autor entabulou conversação com um inglês Este aproveitou a ocasião para citar a frase Du sublime au ridicule il ny a quun pas Do sublime ao ridículo não vai mais que um passo Sim respondeu o autor le Pas de Calais querendo dizer que havia pensado que a França era sublime e a Inglaterra ridícula Porém o Pas de Calais é um canal o Canal Inglês Na verdade os Estreitos de Dover Os senhores me perguntarão se penso que isso tinha algo a ver com o sonho Penso que sim certamente e dá a solução do elemento enigmático do sonho Poderão duvidar de que esse chiste já antes de ocorrer o sonho estava presente na qualidade de pensamento inconsciente oculto por trás do elemento canal Podem os senhores supor que foi introduzido como invenção subseqüente A associação revelou o ceticismo que jaz oculto na admiração ostensiva da paciente e sua resistência contra a revelação desse fato era sem dúvida a causa comum tanto de sua demora em fornecer a associação como da indistinção do elemento onírico em referência Considerem a relação entre o elemento onírico e seu terreno inconsciente era como se fosse um fragmento desse terreno uma alusão ao mesmo tendose tornado ininteligível ao ser isoladoc Como parte de um sonho um tanto longo um paciente sonhou que diversos membros de sua família estavam sentados em volta de uma mesa de formato especial etc Ocorreulhe em relação à mesa que ele tinha visto um móvel desse tipo quando visitava determinada família Seus pensamentos continuaram revelando que havia um relacionamento peculiar entre pai e filho nessa família e logo acrescentou que o mesmo se passava de fato nas relações entre ele próprio e seu pai Assim a mesa passou a fazer parte do sonho a fim de assinalar esse paraleloO sonhador há muito se havia familiarizado com os requisitos da interpretação de sonhos Outras pessoas talvez pudessem fazer objeções a que detalhes tão triviais como o formato de uma mesa se tornassem objeto de investigação Na realidade porém não consideramos que algo seja casual ou indiferente em um sonho e esperamos obter informações precisamente a partir da explicação desses detalhes triviais e despropositados Os senhores talvez também se sintam surpresos com o fato de que o pensamento de que a mesma coisa era verdadeira para nós e para eles deveria ter sido expresso em especial pela escolha da forma da mesa Tisch Isso contudo também se aclara quando os senhores se dão conta de que o nome da família em questão era Tischler literalmente marceneiro Ao fazer seus parentes se sentarem a essa Tisch ele estava dizendo que também eles eram Tischlers Aliás os senhores observarão quão inevitavelmente se é levado a ser indiscreto ao referir essas interpretações de sonhos E perceberão que essa é uma das dificuldades a que aludi na escolha dos exemplos Poderia facilmente ter escolhido um outro exemplo em lugar deste provavelmente porém eu apenas teria evitado tal indiscrição e iria cometer uma outraParece haver chegado o momento para eu introduzir dois termos que poderíamos ter empregado há muito tempo Descreveremos como conteúdo manifesto do sonho aquilo que a pessoa que sonhou realmente nos conta e o material oculto que esperamos encontrar acompanhando idéias que lhe acodem à mente chamaremos de pensamentos oníricos latentes Desse modo consideramos aqui as relações entre o conteúdo manifesto do sonho e os pensamentos oníricos latentes conforme se mostrou nesses exemplos Essas relações podem ser de muitas espécies diferentes Nos exemplos a e b o elemento manifesto também é um constituinte dos pensamentos latentes embora sendo apenas uma pequena parte deles Uma pequena porção da grande e complexa estrutura psíquica dos pensamentos oníricos inconscientes também conseguiu ter acesso ao sonho manifesto um fragmento desses pensamentos ou em outros casos uma alusão aos mesmos uma manchete por assim dizer ou uma abreviação em estilo telegráfico É atribuição do trabalho de interpretação reunir esses fragmentos ou essa alusão para completar um todo o que foi conseguido de modo especialmente preciso no caso do exemplo b Assim uma forma da deformação que constitui a elaboração onírica é a substituição por um fragmento ou uma alusão No exemplo c podese observar outro tipo de relação além deste e a encontramos expressa em forma ainda mais pura e clara nos exemplos que se seguem d O sonhador estava puxando uma mulher determinada mulher conhecida sua de detrás de uma cama Ele mesmo encontrou o significado desse elemento onírico partindo da primeira idéia que lhe ocorreu Significava que estava manifestando sua preferência por essa mulhere Outro homem sonhou que seu irmão estava numa caixa Kasten Em sua primeira resposta Kasten foi substituída por Schrank armário e a segunda deu a interpretação seu irmão estava se restringindo schränkt sich einf O sonhador subia ao cume de uma montanha de onde se descortinava uma paisagem extraordinariamente ampla Este sonho parece bastante racional e os senhores poderiam supor que não há o que interpretar nele e que tudo quanto temos a fazer é interrogar sobre qual lembrança deu origem ao sonho e a razão de essa lembrança ter sido despertada Enganarseiam porém Verificouse que este sonho estava carecendo de uma interpretação tanto quanto qualquer outro mais confuso Pois não foi de nenhuma escalada de montanha que o homem se recordou na realidade pensou em um conhecido seu editor de uma Rundschau que tratava de nossas relações com as mais distantes regiões da Terra Assim o pensamento onírico latente era uma identificação desse homem com o RundschauerAqui temos um novo tipo de relação entre os elementos oníricos manifesto e latente O primeiro não é bem uma deformação do último e sim uma representação deste um retrato plástico e seu ponto de partida se localiza nas palavras Contudo precisamente por esse motivo ele é mais uma vez uma deformação porquanto de há muito temos esquecido de que imagem concreta a palavra se originou e por conseguinte deixamos de reconhecêla quando substituída pela imagem Quando os senhores consideram que o sonho manifesto é constituído predominantemente de imagens visuais e mais raramente de pensamentos e palavras podem imaginar que importância se atribui a esse tipo de relação na construção dos sonhos Os senhores também verão que assim em face de um grande número de pensamentos abstratos se torna possível criar quadros que funcionem como substitutos desses pensamentos no sonho manifesto ao passo que simultaneamente se ajustam à finalidade de ocultar Essa é a técnica das conhecidas figuras enigmáticas Por que possuem essas figuras aparência de serem brincadeiras é um problema especial com o qual não precisamos nos envolver por enquantoExiste um quarto tipo de relação entre os elementos manifesto e latente que devo continuar mantendo em segredo dos senhores até que cheguemos à sua palavrachave ao tecermos considerações sobre a técnica Mesmo assim não terei apresentado uma lista completa porém serve às nossas finalidades Os senhores se sentem agora com coragem suficiente para se aventurarem a interpretar um sonho inteiro Façamos a experiência para verificar se estamos bem equipados para a tarefa Naturalmente não selecionarei um dos mais obscuros mesmo assim será um sonho que fornecerá um quadro muito aproximado dos atributos de um sonhoPois bem vamos ao caso Uma senhora que embora ainda jovem estava casada há muitos anos teve o seguinte sonho Ela estava no teatro com seu marido Um lado da primeira fila de cadeiras estava completamente vazio Seu marido lhe disse que Elise L e seu noivo também tinham pretendido ir porém só poderiam conseguir lugares ruins três por 1 florim e 50 kreuzers e naturalmente não poderiam adquirilos Ela pensou que não teria sido realmente nenhum prejuízo se tivessem conseguidoA primeira coisa que essa senhora nos referiu foi que a causa precipitante do sonho residia em uma alusão do seu conteúdo manifesto Seu marido realmente lhe havia falado que Elise L que era aproximadamente da mesma idade dela há pouco havia contratado casamento O sonho era uma resposta a essa informação Já sabemos ver em 1 ser fácil no caso de muitos sonhos assinalar uma causa desencadeante como essa do dia anterior e que a pessoa que sonhou muitas vezes é capaz de estabelecêla para nós sem qualquer dificuldade Essa senhora no presente caso colocou à nossa disposição informações semelhantes para outros elementos do sonho manifesto também De onde veio o detalhe referente a estar vazio um dos lados das cadeiras Era alusão a um evento real da semana anterior Ela havia planejado ir assistir a determinada peça e por isso havia comprado seus ingressos com antecedência com tanta antecedência que teve de pagar uma taxa de reserva Quando foram ao teatro acabaram verificando que a pressa dela era bastante desnecessária de vez que uma parte das cadeiras da primeira fila estava quase vazia Teria sido suficiente a antecipação de comprar os ingressos se os tivesse adquirido no dia em que realmente se realizava a representação Seu marido não deixou de gracejar com ela por ter tido tanta pressa Qual era a origem do 1 florim e 50 kreuzers Surgiu de uma relação bem diferente que nada tinha a ver com a anterior mas que também aludia a algumas informações do dia anterior Sua cunhada recebera de presente 150 florins de seu marido e tinha tido muita pressa a tola de correr a uma joalheria e trocar o dinheiro por uma peça de bijuteria De onde veio o três Ela não conseguia pensar em nada referente a isso até que levamos em conta a idéia de que Elise L sua amiga que noivara recentemente era só três meses mais nova que ela embora ela própria estivesse casada há dez anos aproximadamente E a idéia absurda de adquirir três ingressos para apenas duas pessoas Ela nada tinha a dizer quanto a isso e não quis referir mais nenhuma idéia ou informação De qualquer modo porém ela nos havia fornecido tanto material nessas poucas associações que foi possível a partir destas entrever os pensamentos oníricos latentes Não pode deixar de chamarnos a atenção o fato de ocorrerem períodos de tempo em diversos pontos das informações que nos deu sobre o sonho e esses pontos proporcionam um denominador comum das diferentes partes do material Ela adquiriu os ingressos para o teatro cedo demais comprouos superapressadamente tendo de pagar mais do que o necessário assim também sua cunhada estivera com pressa de levar seu dinheiro à joalheria e com ele comprar bijuteria como se de outra maneira fosse perdêlo Se além do cedo demais e do com pressa que nos chamaram a atenção tomamos em consideração a causa desencadeante do sonho a notícia de que sua amiga embora somente três meses mais nova do que ela tinha não obstante conseguido um excelente marido e a crítica a sua cunhada expressa na idéia de que era absurdo ela estar com tanta pressa então se nos apresenta quase espontaneamente a seguinte construção dos pensamentos oníricos latentes dos quais o sonho manifesto é um substituto acentuadamente deformado Realmente foi absurdo de minha parte ter tanta pressa de casar Posso ver pelo exemplo de Elise que também eu podia arranjar um marido mais tarde Estar com pressa demais foi representado por sua própria conduta de comprar os ingressos e pela conduta de sua cunhada de comprar a bijuteria Ir ver a peça pareceu um substituto de casar Pareceria ser esse o pensamento principal Talvez possamos ir adiante embora com menos certeza pois a análise não deveria prescindir dos comentários da pessoa que sonhou nos seguintes pontos E eu poderia ter conseguido um cem vezes melhor com o dinheiro 150 florins é cem vezes mais do que 150 florim No caso de colocarmos seu dote em lugar do dinheiro significaria que seu marido foi comprado com o dote dela a peça de bijuteria assim como os ingressos ruins seriam substitutos de seu marido Seria ainda mais satisfatório se o elemento real três ingressos tivesse algo a ver com seu marido ver adiante em 1 e 2 No entanto até esse ponto ainda não chegamos por enquanto em nossa compreensão do sonho Descobrimos apenas que o sonho expressa o reduzido valor atribuído por ela a seu marido e seu pesar por ter casado tão cedo Imagino que ficaremos mais surpresos e confusos do que satisfeitos com o resultado dessa primeira interpretação de sonho Foinos dado demais numa primeira dose mais do que somos capazes de enfrentar Já podemos ver que não esgotaremos as lições dessa interpretação de um sonho Apressemonos a separar aquilo que podemos reconhecer como novas descobertas firmadas Em primeiro lugar é algo notável a ênfase principal dos pensamentos latentes residir no elemento estar com pressa demais nada disso se pode encontrar no sonho manifesto Sem a análise não suspeitaríamos de que esse fator desempenhasse algum papel Parece portanto que no sonho manifesto é possível estar ausente aquilo que de fato constitui coisa principal o centro dos pensamentos inconscientes Isso significa que deve ser fundamentalmente modificada a concepção que tivemos do sonho inteiro Em segundo lugar no sonho existe uma combinação absurda três por 150 florim Detectamos nos pensamentos oníricos a afirmação de que foi absurdo casar tão cedo Pode haver dúvida de que idéia foi absurdo é representada pela inclusão de um elemento absurdo no sonho manifesto E em terceiro lugar uma rápida comparação nos mostra que a relação entre os elementos manifesto e latente não é uma relação simples está longe de ser o caso o fato de um elemento manifesto sempre estar no lugar de um elemento latente Antes o que existe é uma relação de conjunto entre as duas camadas dentro da qual um elemento manifesto pode substituir diversos elementos latentes ou um elemento latente pode ser substituído por diversos elementos manifestos ver adiante em 1 No que concerne ao significado do sonho e à atitude da sonhadora para com este bem poderíamos classificálo de igualmente surpreendente Realmente ela concordou com a interpretação porém estava assombrada com ela Não tinha consciência de como era reduzido o valor que atribuía a seu marido e nem sabia por que tinha de desvalorizálo tanto Assim a este respeito muita coisa ainda existe por compreender Com efeito pareceme que ainda não estamos aparelhados para interpretar um sonho e que primeiro necessitamos receber mais alguns conhecimentos e preparação CONFERÊNCIA VIII SONHOS DE CRIANÇAS SENHORAS E SENHORES Tenho a impressão de que progredimos depressa demais Retrocedamos um pouco Antes de empreendermos a anterior tentativa de vencer a dificuldade da deformação em sonhos com o auxílio de nossa técnica dissemos ver em 1 que a melhor forma de proceder nesse caso seria contornar a dificuldade atendonos a sonhos em que não havia deformação ou apenas pouca deformação caso existam tais sonhos Uma vez mais isso significará um desvio em relação à evolução histórica de nossas descobertas ver em 1 porque na verdade só após a técnica de interpretação ter sido coerentemente aplicada e os sonhos deformados terem sido completamente analisados é que percebemos haver sonhos livres de deformaçãoOs sonhos que estamos buscando ocorrem em crianças São breves claros coerentes fáceis de entender sem ambigüidade não obstante são sonhos indubitavelmente Os senhores porém não devem supor que todos os sonhos de crianças sejam desse tipo A deformação onírica já inicia bem no início da infância e têm sido relatados sonhos sonhados por crianças entre 5 e 8 anos que possuem todas as características de sonhos de idade maior Entretanto se os senhores se limitarem à faixa etária entre o início da atividade mental observável e o quarto ou quinto ano encontrarão numerosos sonhos portadores das características que se podem descrever como infantis e alguns outros do mesmo tipo em anos posteriores da infância Na verdade sob certas condições os próprios adultos têm sonhos que em muito se assemelham aos sonhos tipicamente infantisDesses sonhos de crianças podemos tirar conclusões com grande facilidade e certeza a respeito do caráter essencial dos sonhos em geral e podemos esperar que essas conclusões sejam comprovadas como decisivas e universalmente válidas1 Nenhuma análise nenhuma aplicação de qualquer técnica é necessária para compreender esses sonhos Não há necessidade de indagar a uma criança que nos conta seu sonho No entanto há que acrescentar ao sonho alguma parcela de informação proveniente de eventos da vida da criança Invariavelmente existe alguma vivência do dia anterior que nos explica o sonho O sonho é a reação durante o sono da vida mental da criança à experiência que teve no dia precedente Tomaremos alguns exemplos nos quais basearemos nossas demais conclusões a Um menino de 2 anos foi solicitado a entregar a alguém uma cesta de cerejas como presente de aniversário Obviamente ele estava muito relutante em fazêlo embora lhe houvessem prometido que ganharia algumas das cerejas Na manhã seguinte contou que havia sonhado O Hermann comeu todas as cerejas b Uma menina de 3 anos e 3 meses fez a travessia de um lago pela primeira vez No local de desembarque não queria deixar o barco e chorava desconsoladamente A travessia tinha sido curta demais para ela Na manhã seguinte anunciou Noite passada eu andei no lago Seguramente podemos acrescentar que essa travessia tinha durado mais tempo c Um menino de 5 anos e 3 meses foi levado a uma excursão ao Echerntal perto de Hallstatt Tinhalhe sido dito que Hallstatt ficava no sopé do Dachstein Tinha mostrado grande interesse por essa montanha De onde ele estava em Aussee havia uma linda vista da montanha e o Simony Hut que a encimava podia ser reconhecido através de um telescópio A criança muitas vezes procurava vêlo através do telescópio se o conseguiu não se sabe A excursão começou em clima de alegre expectativa Sempre que uma nova montanha surgia aos seus olhos a criança perguntava É aquele o Dachstein e foi ficando mais e mais deprimida cada vez que lhe diziam que não Por fim ficou completamente calado e se recusou a prosseguir com o resto do grupo na curta subida da cachoeira acharam que devia estar exausto Na manhã seguinte porém com a fisionomia radiante falou assim Na noite passada sonhei que nós estávamos no Simony Hut Assim fora isso que esperava obter da excursão Não deu outros detalhes salvo algo que tinha ouvido antes Você tem que subir a pé durante seis horasEstes três sonhos nos fornecerão todas as informações de que necessitamos2 Como podemos ver esses sonhos de crianças não são absurdos São atos mentais inteligíveis completamente válidos Os senhores recordarão o que eu lhes disse da opinião médica a respeito de sonhos e da analogia com dedos sem experiência musical passeando sobre as teclas de um piano ver em 1 Não podem deixar de observar quão nitidamente esses sonhos de crianças contradizem tal opinião De fato seria por demais estranho se as crianças pudessem executar atos mentais completos em seu sono enquanto os adultos se contentassem sob as mesmas condições com reações que não fossem nada mais que repuxões Ademais temos toda a razão ao pensar que o sono das crianças é mais eficaz e profundo 3 Esses sonhos não apresentam qualquer deformação onírica e por conseguinte não exigem nenhuma atividade interpretativa Neles o sonho manifesto e o latente coincidem Assim a deformação onírica não faz parte das características essenciais do sonho Espero que isso alivie os senhores Porém quando examinarmos esses sonhos mais detidamente reconheceremos mesmo neles uma pequena parcela de deformação onírica determinada diferença entre o conteúdo manifesto do sonho e os pensamentos oníricos latentes 4 Um sonho de uma criança é uma reação a uma experiência do dia precedente a qual deixou atrás de si uma mágoa um anelo um desejo que não foi satisfeito O sonho proporciona uma satisfação direta indisfarçada desse desejo Recordemos agora nossas discussões sobre o papel que desempenham os estímulos somáticos de fora e de dentro como perturbadores do sono e provocadores dos sonhos ver em 1 e segs Nessa conexão vimos a conhecer alguns fatos incontestes mas por meio destes apenas nos capacitamos a explicar um reduzido número de sonhos Nesses sonhos de crianças entretanto não há nada que assinale a atuação de estímulos somáticos dessa espécie nisso não poderíamos estar equivocados pois os sonhos são completamente inteligíveis e fáceis de apreender Porém isso não significa que devemos abandonar a questão do estímulo na etiologia do sonho Podemos apenas nos perguntar como pôde acontecer que desde o início esquecessemos que além dos estímulos somáticos existem estímulos mentais que perturbam o sono Afinal de contas sabemos que excitações dessa natureza são os principais responsáveis pela perturbação do sono em um adulto impedindoo de estabelecer o estado de espírito requerido para o adormecer o interesse em ser retirado do mundo Ele não deseja interromper a vida de preferência continuaria seu trabalho com as coisas nas quais está interessado e por essa razão não adormece No caso de crianças portanto o estímulo mental o desejo que não foi satisfeito e é a isso que reagem com o sonho 5 Isso nos abre o caminho mais direto para a compreensão da função do sonho Na medida em que um sonho é uma reação a um estímulo psíquico deve equivaler a um manejo do estímulo de maneira tal que este seja eliminado e o sono possa continuar Ainda não sabemos como esse manejo do estímulo pelo sonho se torna possível dinamicamente porém já estamos verificando que os sonhos não são perturbadores do sono como erroneamente são denominados mas guardiães do sono que eliminam as perturbações do sono Pensamos que deveríamos dormir melhor se não houvesse sonho porém nos equivocamos de fato sem o auxílio do sonho não poderíamos absolutamente ter dormido É devido a isso que dormimos bem ou mal O sonho não pode evitar de nos perturbar um pouco da mesma maneira como um vigia noturno muitas vezes não pode evitar de fazer um pequeno ruído quando persegue os perturbadores do sossego que procuram acordarnos com seu barulho 6 O que origina um sonho é um desejo e a satisfação deste desejo constitui o conteúdo do sonho esta é uma das características principais dos sonhos A outra igualmente constante é que um sonho não apenas confere expressão a um pensamento mas também representa o desejo sendo satisfeito sob a forma de uma experiência alucinatória Gostaria de ir ao lago é o desejo que origina o sonho O conteúdo do sonho propriamente dito é Estou indo ao lago Portanto mesmo nesses simples sonhos de crianças há uma diferença entre o sonho latente e sonho manifesto há uma distorção do pensamento onírico latente a transformação de um pensamento em uma vivência No processo de interpretar um sonho essa alteração necessita primeiro ser desfeita Se tal vier a revelarse como a característica mais universal dos sonhos a parte de sonho que lhes referi anteriormente ver em 1 Vi meu irmão em uma caixa Kasten não deve ser traduzida como meu irmão está se restringindo schränkt sich ein e sim como Eu gostaria que meu irmão se restringisse meu irmão deve restringirse Das duas características gerais dos sonhos que agora apresentei a segunda tem melhor perspectiva de ser aceita sem oposição do que a primeira É apenas por meio de exaustivas investigações que podemos estabelecer o fato de que a origem dos sonhos deve ser sempre um desejo não uma preocupação uma intenção ou uma censura isso porém não afetará a outra característica a de que o sonho não faz simplesmente reproduzir esse estímulo mas removeo eliminao manejao através de um tipo de vivência 7 Com base nestas características dos sonhos podemos voltar mais uma vez a uma comparação entre sonho e parapraxia Nesta distinguimos entre uma intenção perturbadora e uma intenção perturbada ver em 1 e segs sendo a parapraxia uma conciliação das duas Um sonho pode se ajustar ao mesmo modelo A intenção perturbada só pode ser a de dormir Podemos substituir a intenção perturbadora pelo estímulo psíquico quer dizer pelo desejo que pressiona por ser manejado de vez que até o momento não tomamos conhecimento de nenhum outro estímulo psíquico que perturbe o sono Também aqui o sonho é o resultado de uma conciliação Dormese e não obstante se vivencia a remoção de um desejo satisfazse um desejo porém ao mesmo tempo continuase a dormir Ambas as intenções são em parte realizadas e em parte abandonadas 8 Os senhores estarão lembrados de que em certa passagem ver em 1 e 2 tínhamos a esperança de nos aproximarmos da compreensão dos problemas dos sonhos a partir de determinadas estruturas imaginativas muito simples de examinar conhecidas como devaneios Ora esses devaneios são na realidade satisfações de desejos satisfações de ambições e de desejos eróticos que nos são bem conhecidos porém constituem pensamento ainda que vividamente imaginado e jamais são experimentados sob a forma de alucinações Das duas principais características dos sonhos então a menos constante é aqui preservada ao passo que a outra está totalmente ausente visto depender do estado de sono e não poder realizarse no estado de vigília O uso idiomático por conseguinte encerra uma noção do fato de que a satisfação de desejos é uma característica principal dos sonhos Digase de passagem se nossa vivência nos sonhos é apenas um tipo modificado de imaginação que se tornou possível devido às condições do estado de sono isto é um devanear noturno já podemos compreender como o processo de construção de um sonho pode utilizar o estímulo noturno e proporcionar satisfação visto que o devaneio também é uma atividade vinculada à satisfação e na verdade somente é exercido por esse motivo Outros usos idiomáticos contudo expressam o mesmo sentido Existem provérbios conhecidos como Os porcos sonham com bolotas de carvalho e os gansos sonham com milho ou Com que sonham as galinhas Com milho Assim os provérbios descem mais ainda do que nós abaixo das crianças até os animais e afirmam que o conteúdo dos sonhos é a satisfação de uma necessidade Numerosas expressões idiomáticas parecem apontar na mesma direção lindo como um sonho eu nem sonharia uma coisa dessas não imaginei isso nem nos meus sonhos mais ousados Neste ponto o uso idiomático está tomando partido evidentemente Tanto que existem também sonhos de ansiedade e sonhos de conteúdo penoso ou indiferente porém o uso idiomático permaneceu indiferente a eles É verdade que se conhece o que se chama de sonhos maus mas um sonho é pura e simplesmente apenas a doce realização de um desejo E não existe nenhum provérbio que nos afirme que os porcos e os gansos sonham com sua matança É naturalmente inconcebível que a realização de desejos característica dos sonhos não tivesse sido percebida por pessoas que escreveram sobre o assunto Pelo contrário muitas vezes foi percebida contudo a ninguém ocorreu a idéia de reconhecer esta característica como sendo universal e transformála em ponto capital da explicação dos sonhos Bem podemos imaginar o que impediu de fazêlo entraremos no assunto mais adiante Mas vejam quantos esclarecimentos obtivemos ao examinarmos sonhos de crianças e com tão pouco esforço o conseguimos as funções dos sonhos na qualidade de guardiães do sono sua origem situada em duas intenções concorrentes uma das quais o desejo de dormir permanece inalterada ao passo que a outra luta por satisfazer um estímulo psíquico a evidência de que os sonhos são atos psíquicos com um sentido suas duas principais características realização de desejos e vivência alucinatória E ao descobrir tudo isso quase seríamos capazes de esquecer que estávamos comprometidos com a psicanálise À parte a relação com as parapraxias nosso trabalho não leva nenhum sinal especial Qualquer psicólogo nada conhecendo dos postulados da psicanálise teria conseguido darnos essa explicação dos sonhos de crianças Por que não o fez Se os sonhos do tipo infantil fossem os únicos o problema estaria resolvido e nossa tarefa terminada e isso sem termos de fazer perguntas àquele que sonhou sem tocarmos no inconsciente ou recorrermos à associação livre É aí evidentemente que se situa a continuação de nossa tarefa Já verificamos repetidamente que as características que se afirmava serem de validade geral terminaram aplicandose apenas a um determinado tipo e a um determinado número de sonhos A questão que se nos apresenta portanto é saber se as características gerais que inferimos dos sonhos de crianças possuem uma base mais firme se elas são válidas também para sonhos que não são tão transparentemente nítidos e cujo conteúdo manifesto não apresenta qualquer sinal de estar relacionado a algum desejo remanescente do dia anterior É nossa opinião que esses outros sonhos sofreram uma deformação em profundidade e por este motivo não podem ser avaliados à primeira vista Também suspeitamos que para explicar essa deformação necessitaremos da técnica psicanalítica da qual pudemos prescindir quando tratávamos de entender ainda há pouco os sonhos de crianças Em todo caso ainda há uma outra classe de sonhos que se apresentam nãodeformados e que como os sonhos de crianças facilmente podem ser reconhecidos como realizações de desejos Estes são os sonhos que em qualquer época da vida são suscitados por necessidades corporais imperiosas fome sede necessidade sexual isto é são realizações de desejos sob a forma de reações a estímulos somáticos internos Assim tenho anotado um sonho de uma menina de dezenove meses que consistia em um cardápio ao qual se ligava seu próprio nome Anna F morangos morangos silvestres omelete pudim Isso era uma reação a um dia sem comida devido a um distúrbio digestivo este realmente se tinha originado na ingestão da fruta que apareceu por duas vezes no sonho A avó da criança suas idades somadas perfaziam setenta anos simultaneamente foi obrigada a privarse de alimentos por um dia inteiro devido um distúrbio ocasionado por um rim flutuante Ela sonhou na mesma noite que havia sido convidada para comer fora e que fora regalada com as mais apetitosas iguarias Observações levadas a cabo com prisioneiros que foram forçados a jejuar e com pessoas que estiveram sujeitas a privações em viagens e explorações nos ensinam que sob essas condições os sonhos regularmente se centram na satisfação de tais necessidades Assim Otto Nordenskjöld 1904 1 336 e seg escreve da seguinte maneira a respeito dos membros de sua expedição enquanto atravessavam o inverno na Antártida A direção tomada por nossos pensamentos mais íntimos mostravase claramente em nossos sonhos que nunca foram mais vívidos nem mais numerosos do que nesta época Mesmo aqueles de nós que de outro modo sonhavam apenas de vez em quando tinham longas histórias para contar quando chegava a manhã ocasião em que trocávamos experiências desse mundo da imaginação Todos diziam respeito ao mundo exterior agora tão distante de nós embora todas elas muitas vezes estivessem adaptadas a nossas circunstâncias reais No entanto comer e beber eram o ponto central ao redor do qual giravam no mais das vezes os nossos sonhos Um de nós que tinha um dom especial para participar de grandes banquetes durante a noite se sentia orgulhoso de poder contar de manhã que tinha devorado um jantar de três pratos Um outro sonhava com fumo com montanhas inteiras de fumo enquanto isso um terceiro sonhava com um navio que se aproximava de velas enfunadas em mar aberto Mas esse outro sonho vale a pena repetilo Um carteiro trazia a correspondência e dava uma longa explicação do motivo pelo qual tivéramos que esperar tanto tempo pela correspondência ele a havia despachado para o endereço errado e só pudera recuperála com grande dificuldade Naturalmente sonhávamos com coisas ainda mais impossíveis Mas havia uma falta muito grande de imaginação evidenciada por quase todos os sonhos que eu próprio sonhei ou de que ouvi falar Certamente seria de grande interesse psicológico se todos esses sonhos pudessem ser registrados E facilmente se pode compreender quanto desejávamos o sono pois este podia oferecer a cada um de nós tudo o que mais ardentemente era desejado Assim também de acordo com Du Prel 1885 231 Mungo Park quando estava a ponto de morrer de sede em uma de suas viagens pela África sonhava incessantemente com os vales ricamente irrigados e com as campinas de sua terra natal Em forma semelhante o barão Trenck sofrendo os tormentos da fome à época em que esteve encarcerado na fortaleza de Magdeburg sonhava que se via rodeado de refeições abundantes e George Back que tomou parte na primeira expedição de Franklin quando estava quase morrendo de inanição em conseqüência de suas terríveis privações sonhava constante e regularmente com lautas refeições Todo aquele que come algum prato altamente condimentado no jantar e sente sede durante a noite provavelmente sonha que está bebendo Naturalmente é impossível desfazerse de uma necessidade muito premente de comer e beber por meio de um sonho Acordase de um sonho dessa natureza ainda com a sensação de sede e temse de tomar água realmente O efeito produzido pelo sonho é insignificante neste caso sob o ponto de vista prático não obstante é evidente que ele aconteceu com o objetivo de despertar e fazer agir Quando a necessidade não é tão intensa os sonhos de satisfação de necessidades amiúde ajudam a superálas Da mesma forma proporcionam satisfação os sonhos sob a influência de estímulos sexuais contudo estes mostram particularidades que convém mencionar Como constitui característica do instinto sexual ser um pouco menos dependente do seu objeto do que a fome e a sede pode constituir uma satisfação real aquela que advém de sonhos de ejaculação e como conseqüência de determinadas dificuldades que terei de mencionar mais adiante em sua relação com o objeto acontece com especial freqüência que a satisfação real é ainda assim vinculada a um obscuro ou distorcido conteúdo do sonho Essa característica dos sonhos de ejaculação como foi assinalado por Otto Rank 1912a faz deles assunto especialmente favorável ao estudo da deformação onírica Ademais todos os sonhos de adultos originários em necessidades corporais geralmente contêm junto com a satisfação um outro material este deriva de fontes de estimulação puramente psíquicas e exige interpretação para que possa ser compreendidoAlém disso não desejo afirmar que os sonhos de realização de desejos em adultos construídos segundo padrões infantis somente aparecem como reações a necessidades imperiosas que mencionei Conhecemos também sonhos breves claros do tipo que sob a influência de alguma situação dominante inquestionavelmente se originam em fontes psíquicas de estimulação Existem por exemplo sonhos de impaciência se alguém fez preparativos para uma viagem para uma representação teatral importante para ele para ir a uma conferência ou fazer uma visita pode sonhar com uma satisfação antecipada de sua expectativa durante a noite anterior ao evento poderá verse a si mesmo chegando ao seu destino presente no teatro em conversação com a pessoa que vai visitar Existem ainda aqueles que são apropriadamente chamados de sonhos de conveniência nos quais uma pessoa que deseja dormir mais sonha que já está de pé e se lavando ou que já está na escola ao passo que na realidade ainda está dormindo e preferiria levantarse num sonho a fazêlo na realidade O desejo de dormir que temos reconhecido como um dos constantes componentes da construção dos sonhos aparece abertamente nesses sonhos e se revela como o principal construtor onírico Existem bons motivos para situar a necessidade de dormir em condições de igualdade com as outras grandes necessidades corporaisAqui está uma reprodução de um quadro de Schwind exposto na Galeria Schack de Munique ver frontispício que mostra com que perfeição o artista captou a maneira como os sonhos surgem da situação dominante Seu título é O Sonho do Prisioneiro um sonho cujo conteúdo só pode ser sua fuga Constitui uma solução feliz darse sua fuga através da janela porque é o estímulo da luz entrando pela janela que põe fim ao sono do prisioneiro Os gnomos que estão subindo um em cima do outro sem dúvida representam as posições sucessivas que ele próprio teria de tomar à medida que subisse até o nível da janela E se não me engano e se não estou atribuindo demasiada deliberação ao artista o gnomo que se situa mais em cima que está serrando as grades isto é que está fazendo o que o prisioneiro gostaria de fazer tem semblante igual ao desteEm todos os sonhos que não sejam os de crianças nem os de tipo infantil nosso caminho como disse está obstruído pela deformação onírica De início não podemos dizer se esses outros sonhos também são realizações de desejos conforme suspeitamos não podemos determinar a partir do seu conteúdo manifesto a que estímulo psíquico devem sua origem e não podemos provar que também eles se esforçam por eliminar esse estímulo ou de algum modo manejálo Devem ser interpretados isto é traduzidos sua deformação deve ser desfeita e seu conteúdo manifesto substituído pelo conteúdo latente antes de podermos julgar se aquilo que encontramos nos sonhos infantis pode ser considerado válido para todos os sonhos CONFERÊNCIA IX A CENSURA DOS SONHOS SENHORAS E SENHORES O estudo dos sonhos de crianças nos ensinou a origem a natureza essencial e a função dos sonhos Os sonhos são coisas que eliminam pelo método da satisfação alucinatória estímulos psíquicos perturbadores do sono No entanto conseguimos explicar apenas um grupo dos sonhos de adultos aqueles que descrevemos como sonhos de tipo infantil O que se passa com os demais ainda não sabemos dizer contudo também não os entendemos Assim mesmo chegamos a um dado provisório cuja importância não devemos subestimar Sempre que um sonho se nos tornou inteiramente inteligível veio a se revelar como realização de um desejo em forma alucinatória Essa coincidência não pode ter surgido do acaso deve ter um significadoCom base em considerações diversas e na analogia com nossa opinião acerca das parapraxias supusemos a propósito de sonhos de uma outra espécie ver em 1 e seg que eles seriam um substituto deformado de um conteúdo desconhecido e que a primeira coisa seria correlacionálos com esse conteúdo Nossa tarefa imediata portanto consiste em uma investigação que nos leva a compreender essa deformação nos sonhosDeformação onírica é aquilo que faz com que um sonho nos pareça estranho e ininteligível A respeito dela queremos saber diversas coisas primeiro de onde vem sua dinâmica segundo o que faz e por último como faz Também podemos dizer que a deformação onírica é obra da elaboração onírica é necessário descrevermos a elaboração onírica e explicarmos as forças que nela operamE agora ouçam este sonho Foi registrado por uma senhora pertencente ao nosso grupo e conforme ela nos conta provém de uma senhora de idade avançada altamente conceituada e instruída Não foi feita nenhuma análise do sonho nossa informante observa que para um analista ele não requer interpretação E a pessoa que o sonhou também não o interpretou porém o julgou e o condenou como se compreendesse a maneira de interpretálo pois a respeito do mesmo ela disse E uma coisa chocante e estúpida como esta foi sonhada por uma mulher de cinqüenta anos que dia e noite não tem outros pensamentos senão os de se preocupar com seu filhoAqui pois está o sonho que trata de serviços de amor em época de guerra A paciente dirigiuse ao Hospital da Guarnição N 1 e informou ao sentinela do portão que precisava falar com o Chefe do Serviço Médico mencionando um nome que lhe era desconhecido visto desejar oferecer seus serviços como voluntária no hospital Ela pronunciou a palavra serviço de tal forma que o suboficial imediatamente compreendeu que ela queria dizer serviço de amor Como se tratava de uma senhora idosa após alguma hesitação permitiu que ela passasse Em vez de encontrar o Chefe do Serviço Médico contudo chegou ela a um aposento grande e sombrio no qual estava grande número de oficiais e médicos do exército alguns de pé e outros sentados em torno de uma longa mesa Aproximouse de um cirurgião da equipe com o seu pedido e ele compreendeu o que ela queria dizer depois de ter esta pronunciado apenas algumas palavras O fraseado real de seu discurso no sonho foi Eu e muitas outras mulheres e moças de Viena estamos prontas para nesta altura do sonho suas palavras se transformaram num sussurro ininteligível para as tropas oficiais e outras patentes sem distinção Ela pôde compreender pela expressão do rosto dos oficiais em parte com uma expressão de constrangimento e em parte de malícia que todos haviam compreendido suas palavras corretamente Prosseguiu a senhora Estou cônscia de que nossa decisão pode parecer surpreendente mas nossa intenção é realmente séria Ninguém pergunta a um soldado no campo de batalha se ele deseja morrer ou não Seguiuse um incômodo silêncio de alguns minutos O médico pôs então um braço em torno de sua cintura e disse Suponha madame que isso realmente viesse a murmúrio Ela afastouse dele dizendo com os seus botões Ele é como todos os demais e retrucou Deus do Céu sou uma velha e nunca poderia chegar a esse ponto Além disso há uma condição que deve ser observada idade deve ser respeitada Jamais deve acontecer que uma mulher idosa murmúrio um mero garoto Isso seria terrível Compreendo perfeitamente respondeu o médico Alguns dos oficiais e entre eles um que tinha sido pretendente à sua mão quando ela era jovem riram alto A seguir a senhora pediu para ser levada à presença do Chefe do Serviço Médico pessoa do seu conhecimento de modo que todo o assunto pudesse ser deslindado mas verificou para sua consternação que não podia recordarlhe o nome Não obstante o médico com o máximo de cortesia e respeito indicoulhe o caminho até o segundo andar por uma escada de ferro em caracol muito estreita que conduzia diretamente da sala até aos andares superiores do edifício Quando subia ouviu um oficial dizer Essa é uma tremenda decisão a tomar não importa que uma mulher seja moça ou velha Belo gesto o dela Sentindo simplesmente que estava cumprindo com seu dever ela subiu por uma interminável escadaO sonho se repetiu por duas vezes no decurso de poucas semanas conforme comentou a senhora com apenas algumas modificações sem importância e carentes de sentidoPor sua continuidade este sonho se assemelha a uma fantasia diurna nele há poucas interrupções e alguns dos detalhes de seu conteúdo poderiam ter sido explicados se tivessem sido investigados porém como sabem isto não foi feito Do nosso ponto de vista contudo o que é notável e interessante é que o sonho apresenta diversas lacunas lacunas não na memória da mulher que o sonhou mas no conteúdo do próprio sonho Em três pontos o conteúdo do sonho foi por assim dizer extinto onde ocorrerem essas lacunas o falar foi interrompido por um murmúrio Como não foi realizada nenhuma análise estritamente falando não temos o direito de dizer algo sobre o sentido do sonho Não obstante há indícios nos quais podem se fundamentar determinadas conclusões por exemplo na expressão serviço de amor porém acima de tudo as partes do discurso imediatamente anteriores aos murmúrios exigem que sejam preenchidas as lacunas e de forma nada ambígua Ao fazermos as inserções o conteúdo da fantasia se revela como sendo o seguinte a mulher que teve o sonho atendendo a uma obrigação patriótica está apta a colocarse à disposição das tropas tanto de oficiais como de outras categorias para satisfação das necessidades eróticas dos mesmos Naturalmente isso é muito censurável é o modelo de uma fantasia libidinal desavergonhada tal porém absolutamente não aparece no sonho Precisamente nos pontos onde o contexto exigiria que isso fosse admitido o sonho manifesto contém um murmúrio indistinto algo se perdeu ou foi suprimido Os senhores pensarão assim espero que seja plausível supor que foi justamente a natureza censurável dessas passagens que constituiu o motivo de sua supressão Onde encontraremos um paralelo de tal evento Nos dias atuais não é preciso ir longe Tomem qualquer jornal político e verificarão que aqui e ali o texto está ausente e em seu lugar não se vê nada mais que papel em branco Isto como sabem é obra da censura da imprensa Nos espaços vazios havia algo que só agradou às autoridades superiores da censura e por este motivo foi removido é uma pena como vêem pois sem dúvida era o que de mais interessante havia no jornal o melhor pedaço Noutras ocasiões a censura não funcionou em uma passagem depois de esta já estar pronta O autor viu com antecedência quais as passagens que se podia esperar suscitassem objeções da censura e por esta causa antecipadamente moderou o tom das mesmas modificouas ligeiramente ou se contentou com aproximações ou alusões àquilo que originalmente teria fluido de sua pena Neste caso não há espaços em branco no papel contudo as circunlocuções e obscuridades de expressão que aparecem em certos pontos possibilitarão aos senhores perceber onde houve prévio acatamento à censura Pois bem podemos manter esta comparação Pensamos que as partes omitidas do discurso do sonho que foram ocultadas por um murmúrio de forma semelhante foram sacrificadas a uma censura Queremos nos referir a uma censura de sonhos à qual se deve atribuir uma parcela da deformação onírica Em qualquer parte onde existem lacunas no sonho manifesto a censura é responsável por elas Devemos ir mais adiante e considerar como manifestação da censura toda passagem em que um elemento onírico é recordado de maneira especialmente indistinta indefinida duvidosa em meio a outros elementos construídos mais claramente No entanto apenas muito raramente essa censura se manifesta tão indisfarçadamente tão ingenuamente se poderia dizer como nesse exemplo do sonho dos serviços de amor A censura age muito mais freqüentemente de acordo com o segundo método produzindo atenuações aproximações e alusões em vez da coisa original Nas atuações da censura de imprensa não conheço nada semelhante à terceira forma de funcionamento da censura de sonhos posso porém demonstrála justamente com o exemplo de um sonho que antes já analisamos Os senhores se recordam do sonho dos três bilhetes de entrada ruins por 150 florim ver em 1 Nos pensamentos latentes desse sonho o elemento superapressadamente cedo demais estava em primeiro plano Portanto foi absurdo casar tão cedo também foi absurdo adquirir os bilhetes de ingresso tão cedo foi ridículo a cunhada sair tão apressada com o dinheiro para comprar jóias Nada desse elemento central dos pensamentos oníricos transpareceu no sonho manifesto neste a posição central é ocupada por ir ao teatro e comprar os ingressos Como conseqüência desse deslocamento da ênfase com esse novo agrupamento dos elementos de conteúdo o sonho manifesto ficou tão diferente dos pensamentos oníricos latentes que ninguém suspeitaria da presença destes atrás daquele Esse deslocamento da tônica é um dos principais instrumentos da deformação onírica e é o que confere ao sonho sua estranheza que faz com que a própria pessoa que teve o sonho não se mostre inclinada a reconhecêlo como obra sua Omissão modificação novo agrupamento do material são estas pois as atividades da censura de sonhos e os instrumentos da deformação onírica A censura de sonhos por si mesma é o agente ou um dos agentes da deformação onírica que agora estamos examinando Estamos habituados a combinar os conceitos de modificação e reajuste sob o termo deslocamento Após estes comentários sobre as atividades da censura de sonhos passemos agora à sua dinâmica Espero que os senhores não tomem o termo antropomorficamente demais e não imaginem o censor dos sonhos como um severo homúnculo contudo também espero que não assumam muito o termo num sentido de localização e não pensem em um centro cerebral do qual proceda uma influência censora dessa ordem uma influência que chegaria ao fim se esse centro fosse lesado ou removido Por agora não é nada mais que um termo útil para descrever a relação dinâmica A palavra não nos impede de perguntarmos por quais intenções é exercida essa influência censora e contra que intenções ela é exercida E não nos surpreenderemos ao constatar que mais uma vez nos defrontamos com a censura de sonhos embora talvez sem reconhecêlaPois é este realmente o caso Os senhores se recordam de que ao começarmos a usar nossa técnica de associação livre fizemos uma descoberta surpreendente Apercebemonos de que nossos esforços de abrir caminho desde o elemento onírico até o elemento inconsciente do qual aquele é um substituto encontravam uma resistência ver em 1 e 2 Essa resistência dissemos poderia ser de diferentes magnitudes às vezes enorme às vezes quase insignificante Nesse último caso temos de passar através de apenas alguns elos intermediários em nosso trabalho de interpretação No entanto quando a resistência é grande temos de percorrer longas cadeias de associações a partir do elemento onírico somos conduzidos para longe deste e em nosso caminho temos de vencer todas as dificuldades representadas pelas objeções críticas às idéias que ocorrem O que encontramos sob a forma de resistência em nosso trabalho de interpretação deve agora ser introduzido na elaboração onírica como censura de sonhos A resistência à interpretação é apenas a efetivação da censura do sonho Também nos prova que a força da censura não se esgota com a deformação do sonho e nem se extingue depois disso que a censura contudo persiste como instituição permanente que tem como seu objetivo manter a deformação Ademais assim como a força da resistência varia na interpretação de cada elemento do sonho também a magnitude da deformação engendrada pela censura varia para cada elemento do mesmo sonho Se compararmos o sonho manifesto com o latente constataremos que determinados elementos latentes foram totalmente eliminados outros modificados em grau maior ou menor enquanto outros ainda foram transportados para o conteúdo manifesto do sonho inalterados ou mesmo talvez reforçadosDesejávamos no entanto perguntar quais são os propósitos que exercem a censura e contra que propósitos ela é exercida Ora esta questão fundamental para o entendimento dos sonhos e talvez na realidade da vida humana é fácil de responder se examinarmos a série de sonhos que foram interpretados Os propósitos que exercem a censura são aqueles reconhecidos pelo julgamento vigil da pessoa que sonhou aqueles com o quais o sonhador está de acordo Os senhores podem ter a certeza de que se rejeitarem uma interpretação de um de seus próprios sonhos que tenha sido efetuada corretamente assim estarão agindo pelos mesmos motivos pelos quais a censura do sonho foi exercida a deformação do sonho foi ocasionada e a interpretação do sonho se tornou necessária Vejam o sonho da senhora de cinqüenta anos de idade ver em 1 e 2 Ela achou seu sonho repugnante sem têlo analisado e se teria indignado mais ainda se Dr von HugHellmuth lhe houvesse dito algo acerca de sua inevitável interpretação foi precisamente porque essa senhora condenou o sonho que as passagens censuráveis do mesmo foram substituídas por um murmúrioAs tendências contra as quais se dirige a censura de sonhos devem ser descritas em primeiro lugar do ponto de vista dessa instância mesma Assim sendo apenas podese dizer que invariavelmente são de natureza repreensível repulsiva do ponto de vista ético estético e social assuntos nos quais a pessoa absolutamente não se aventura a pensar ou somente pensa com aversão Esses desejos que são censurados e recebem uma expressão deformada nos sonhos são primeiro e acima de tudo manifestações de um egoísmo desenfreado e impiedoso E vejam só o próprio ego do sonhador surge e desempenha o papel principal no sonho apesar de muito bem saber esconderse para o que muito contribui o conteúdo manifesto Este sacro egoísmo dos sonhos certamente não é desprovido de alguma relação com a atitude que adotamos quando dormimos que consiste em retirarmos nosso interesse de todo o mundo externoO ego liberto de todos os compromissos éticos também se sente à vontade com todas as exigências do sexo mesmo aquelas que por muito tempo têm sido condenadas pela nossa educação estética e aquelas que contrariam todos os requisitos das barreiras morais O desejo de prazer a libido conforme o denominamos escolhe sem inibição seus objetos e de preferência os proibidos não somente as mulheres de outros homens mas acima de tudo objetos incestuosos objetos sagrados segundo o consenso da humanidade mãe e irmã de um homem pai e irmão de uma mulher O sonho dessa senhora de cinqüenta anos também era incestuoso sua libido estava inequivocamente voltada para seu filho ver em 1 e 2 Desejos sensuais que imaginamos distantes da natureza humana mostramse suficientemente fortes para provocar o surgimento de sonhos Também surgem ódios rancorosos sem constrangimento Desejos de vingança e de morte dirigidos contra aqueles que nos são mais próximos e mais caros na vida desperta contra os pais irmãos e irmãs marido ou esposa e contra os próprios filhos não são nada raros Esses desejos censurados parecem nascer de um verdadeiro inferno depois que são interpretados quando estamos acordados nenhuma censura a eles nos parece tão rigorosa Porém os senhores não devem acusar o próprio sonho por causa de seu conteúdo mau Não se esqueçam de que ele executa a função inocente e na verdade útil de preservar o sono de qualquer perturbação Essa ruindade não faz parte da natureza essencial dos sonhos Com efeito os senhores também sabem que há sonhos que podem ser reconhecidos como satisfação de desejos justificados e de necessidades corporais prementes Estes é verdade não apresentam deformação mas também não precisam de deformação porque podem preencher sua função sem insultar os propósitos éticos e estéticos do ego Atentem também para o fato de que a deformação do sonho é proporcional a dois fatores Por um lado ela é tão maior quanto pior é o desejo a ser censurado mas por outro lado também se torna maior à medida que mais severas forem as exigências da censura no momento Assim uma moça educada rigorosamente pudica com uma censura implacável irá distorcer impulsos oníricos que nós médicos por exemplo teríamos de considerar desejos libidinais permissíveis inofensivos e acerca dos quais dentro de dez anos ela mesma fará julgamento igualAdemais ainda não fomos tão suficientemente longe a ponto de sentirmos indignação com esse resultado de nosso trabalho de interpretação Penso que ainda não o compreendemos acertadamente porém nossa primeira obrigação é defendêlo contra certas calúnias Não há dificuldade em encontrar nele um ponto fraco Nossas interpretações de sonhos são feitas com fundamento nas premissas que já aceitamos ver em 1 e seg que os sonhos em geral possuem um sentido que é correto transportar do sono hipnótico para o normal o fato de existirem processos mentais que na época considerada são inconscientes e que tudo o que ocorre à mente é determinado Se com base nessas premissas tivéssemos chegado a achados plausíveis originados da interpretação de sonhos deveríamos ter encontrado justificativa para concluir pela validade das premissas Mas como conseguir isso se esses achados parecem ser como lhes mostrei Estaríamos então tentados a dizer Esses achados são impossíveis carecem de sentido ou pelo menos são muito improváveis portanto havia algo de errado nas premissas Ou os sonhos não são fenômenos psíquicos ou não existe nada inconsciente no estado normal ou nossa técnica apresenta em si uma falha Não é mais simples e mais satisfatório supor assim de preferência a aceitar todas as abominações que se supõe tenhamos descoberto baseados em nossas premissasSim com efeito Mais simples e mais satisfatório no entanto nem por isso necessariamente mais correto Concedamonos tempo o tema ainda não está maduro para julgamento E em primeiro lugar podemos reforçar ainda mais as críticas à nossa interpretação de sonhos O fato de os achados provenientes dos sonhos serem tão desagradáveis e repulsivos talvez não devesse ter tanto peso Um argumento mais forte é que as pessoas que têm os sonhos a quem somos levados a atribuir essas intenções plenas de desejos mediante a interpretação de seus sonhos as rejeitem muito enfaticamente e por boas razões o fazem O quê diz uma delas o senhor quer me convencer com este sonho de que eu lamento ter gasto dinheiro com o dote de minha irmã e com a instrução de meus irmãos Mas não pode ser assim Trabalho exclusivamente para meus irmãos e irmãs não tenho nenhum outro interesse na vida senão cumprir minhas obrigações para com eles o que como o mais velho da família prometera a minha falecida mãe fazer Ou então uma mulher poderá dizer a propósito de seu sonho Pensa que eu desejaria ver meu marido morto Isso é chocante disparate É que não somente estamos vivendo um casamento muito feliz o senhor provavelmente não acreditaria em mim se eu dissesse isso mas a morte dele me roubaria tudo o que eu tenho neste mundo Um outro homem nos respondeu O senhor diz que tenho desejos sensuais por minha irmã Isso é ridículo Ela não significa absolutamente nada para mim Estamos brigados e com ela não tenho trocado uma palavra há anos Poderíamos talvez não dar maior importância se tais pessoas não confirmassem nem negassem as intenções que lhes atribuímos poderíamos dizer que essas eram justamente coisas que elas desconheciam a respeito de si próprias Porém quando sentem em si mesmas justamente o contrário do desejo que lhes interpretamos e quando conseguem provarnos através da vida que levaram estarem dominadas por esse desejo contrário seguramente somos tomados de surpresa Não teria chegado a hora de abandonar todo o trabalho que executamos acerca da interpretação de sonhos como algo cujos achados se reduziram ad absurdumNão ainda não Até mesmo este argumento mais forte desmorona se o examinarmos criticamente Tendo como certo que na vida mental existem intenções inconscientes nada se prova ao mostrar que intenções opostas às intenções inconscientes dominam a vida consciente Quem sabe na mente há lugar para existirem lado a lado intenções opostas contradições Possivelmente na verdade a dominância de um impulso seja precisamente a condição necessária para que seu contrário seja inconsciente Afinal restamnos então as primeiras objeções levantadas as descobertas da interpretação de sonhos não são simples e são muito desagradáveis À primeira delas podemos responder que toda a paixão dos senhores pelo que é simples não conseguirá solucionar um só dos problemas dos sonhos Aqui os senhores precisam se acostumar a enfrentar um complexo estado de coisas E à segunda objeção podemos responder que os senhores se enganam redondamente quando usam um gostar ou nãogostar daquilo que sentem como fundamento de um julgamento científico Que diferença faz se as descobertas da interpretação de sonhos lhes parecem desagradáveis ou na realidade embaraçosas e repulsivas Ça nempêche pas dexister conforme ouvi meu mestre Charcot dizer em situação semelhante quando eu era um jovem médico Devese ter humildade e refrear as simpatias e antipatias quando se deseja descobrir o que é real neste mundo Se um físico pudesse provarlhes que em certo espaço de tempo a vida orgânica neste planeta chegaria ao fim por meio do congelamento os senhores se arriscariam a darlhe a mesma resposta Não pode ser assim a perspectiva é tão desagradável assim Penso que os senhores se calariam até que outro físico viesse e mostrasse ao primeiro um erro em suas premissas ou em seus cálculos Quando os senhores rejeitam alguma coisa que lhes desagrada o que fazem é repetir o mecanismo de construção dos sonhos em vez de entendêlo e superáloOra os senhores poderão prometer não levar em conta o caráter desagradável dos sonhos de realização de desejo censurados e se apoiarão no argumento de que afinal é improvável que seja dado espaço tão grande ao mal na constituição dos seres humanos A experiência dos senhores porém ratifica o que dizem Não irei discutir o que cada um possa aparentar a si mesmo mas têm os senhores encontrado tanta benevolência entre os seus superiores e competidores tanto cavalheirismo entre os seus inimigos e tão pouca inveja em seu meio social que se sentem na obrigação de protestar contra o fato de a maldade egoísta fazer parte da natureza humana Não têm os senhores plena consciência de como a média das pessoas tem descontroles e deslealdades em tudo o que diz respeito à vida sexual Ou não sabem que todas as transgressões e excessos com que sonhamos durante a noite são diariamente cometidos na vida real pelas pessoas em sua vida desperta O que faz aqui a psicanálise senão confirmar a velha sentença de Platão de que os bons são aqueles que se contentam em sonhar com aquilo que os outros os maus realmente fazemE agora abstraiamse dos indivíduos e considerem a grande guerra que ainda devasta a Europa Pensem na avassaladora brutalidade na crueldade e nas mentiras que conseguem se alastrar pelo mundo civilizado Os senhores acreditam realmente que um punhado de homens ambiciosos trapaceiros sem consciência poderiam ter tido êxito em desatrelar todos esses maus espíritos se seus milhões de seguidores não partilhassem de seu crime Os senhores se arriscariam nessas circunstâncias a quebrar lanças em defesa da inexistência do mal na constituição mental da humanidadeOs senhores me farão ver que estou fazendo um julgamento unilateral da guerra que esta também faz manifestarse o que há de mais belo e nobre nos homens seu heroísmo seu autosacrifício seu senso social Sem dúvida mas os senhores não se estarão revelando cúmplices da injustiça que tem sido feita à psicanálise de reprovála negando uma coisa só porque ela afirmou outra Não é nossa intenção questionar os nobres reforços da natureza humana e nunca fitemos algo que lhe diminuísse o valor Pelo contrário estou mostrando aos senhores não apenas os maus sonhos de realização de desejo que são censurados mas também a censura que os suprime e os torna irreconhecíveis Damos ênfase maior àquilo que nos homens é mau tãosomente porque outras pessoas o rejeitam e com isso tornam a mente humana não melhor mas incompreensível Se agora deixamos de lado essa avaliação ética unilateral sem dúvida encontraremos uma fórmula mais correta para a relação entre o bem e o mal na natureza humanaAí está Não temos por que abandonar as descobertas de nosso trabalho sobre interpretação dos sonhos ainda que não consigamos vêlas senão como estranhas Talvez mais adiante sejamos capazes de nos aproximarmos da compreensão delas a partir de outro enfoque Por agora fixemonos nisso a deformação onírica é conseqüência da censura exercida por intenções reconhecidas do ego contra impulsos plenos de desejos de qualquer modo censuráveis que perturbam nosso interior à noite durante nosso sono Por que isso tem de acontecer especialmente à noite e de onde procedem esses desejos repreensíveis ambos constituem um assunto sobre o qual sem dúvida ainda há muito a questionar e pesquisar Seria injusto porém se a esta altura deixássemos de enfatizar suficientemente um outro resultado de nossas investigações Os sonhos de realização de desejo que procuram nos perturbar o sono nos são desconhecidos e na verdade deles somente tomamos conhecimento através da interpretação de sonhos Portanto eles devem ser descritos segundo o sentido de nossa exposição como inconscientes no momento atual Devemos contudo refletir que são inconscientes também por duração mais longa do que no momento atual O sonhador como temos verificado em tantos casos também os rejeita depois de chegar a conhecêlos pela interpretação do seu sonho Aqui nos defrontamos novamente com a situação que pela primeira vez encontramos no lapso de língua do arroto ver em 1 onde o proponente do brinde protestou indignado que nem naquela época nem em qualquer outra época anterior estivera cônscio de qualquer impulso desrespeitoso em relação a seu chefe Já naquela ocasião nos assaltaram algumas dúvidas a respeito da validade de uma convicção dessa espécie e em vez disso sugerimos a hipótese de que o orador tinha permanente desconhecimento da presença de semelhante impulso em si próprio Essa situação se repete agora com toda interpretação de um sonho acentuadamente deformado e conseqüentemente adquire redobrada importância pelo apoio que confere à nossa opinião Agora estamos preparados para supor existirem na mente processos e intenções dos quais a pessoa pode não saber absolutamente nada nada soube durante longo tempo e até mesmo talvez jamais tenha sabido de alguma coisa Com isso o inconsciente adquire um novo sentido para nós a característica de no momento atual ou temporário desaparece de sua natureza essencial Pode significar permanentemente inconsciente e não meramente latente em certa época Naturalmente haveremos de ouvir mais a este respeito em outra ocasião CONFERÊNCIA X SlMBOLISMO NOS SONHOS SENHORAS E SENHORES Verificamos que a deformação que ocorre nos sonhos e interfere em nossa possibilidade de compreendêlos resulta de uma atividade censora dirigida contra inaceitáveis impulsos plenos de desejo inconscientes Não temos afirmado naturalmente ser a censura o único fator responsável pela deformação nos sonhos e de fato ao estudálos mais detidamente podemos descobrir que outros fatores desempenham sua parte na consecução desse resultado Isso importa em dizermos que mesmo estando fora de ação a censura onírica ainda assim não estaríamos em condições de entender os sonhos o sonho manifesto ainda não seria idêntico aos pensamentos oníricos latentesDescobrimos esse outro fator que evita que os sonhos sejam nítidos essa nova contribuição à deformação onírica ao constatarmos uma lacuna em nossa técnica Já fiz ver aos senhores ver em 1 que às vezes realmente acontece não ocorrer à pessoa em análise nenhuma idéia em resposta a determinados elementos de seus sonhos É verdade que isso não acontece tão seguidamente como a pessoa afirma em muitíssimos casos com persistência brotalhe uma idéia Não obstante restam casos nos quais deixa de surgir uma associação ou se essa é obtida não nos dá o que dela esperávamos Acontecendo durante um tratamento analítico isso tem um significado especial que não nos interessa aqui Contudo também acontece na interpretação de sonhos de pessoas normais e em nossos próprios sonhos Se nos convencemos de que em tais casos não há pressão que possa nos ser de utilidade terminamos por descobrir que esse evento indesejado ocorre regularmente em conexão com determinados elementos oníricos e começamos a reconhecer que um novo princípio geral está em vigor ali onde começávamos a pensar que apenas se nos antepunha uma excepcional falha de técnica Assim sendo somos tentados a interpretar esses elementos oníricos mudos em si mesmos a nos pôr a traduzilos com nossos próprios recursos Somos então compelidos a reconhecer que sempre que nos aventuramos a efetuar uma substituição dessa espécie encontramos um sentido adequado para o sonho ao passo que este permanece carente de sentido e a cadeia de pensamentos se mantém interrompida enquanto nos abstivermos de intervir dessa maneira A acumulação de muitos casos semelhantes proporciona por fim a necessária certeza àquilo que começou como tímida experiência Estou expondo tudo isso de modo bastante esquemático Tal porém afinal se permite por motivos didáticos e nada foi adulterado mas apenas simplificado Conseguimos assim traduções uniformes para numerosos elementos oníricos assim como os livros de sonhos populares dão traduções para tudo o que aparece nos sonhos Os senhores naturalmente não se terão esquecido de que quando usamos técnica associativa nunca se torna claro por que ocorrem determinadas substituições constantes de alguns elementos oníricos Os senhores prontamente farão a objeção de que esse método de interpretação lhes parece muito mais inseguro e passível de ataque do que o anterior baseado na associação livre Porém existe algo mais Pois quando com a experiência tivermos coligido número suficiente de tais versões constantes chega a hora em que percebemos que deveríamos ser capazes de lidar com essa parte da interpretação de sonhos por meio de nossos próprios conhecimentos e que elas poderiam realmente ser compreendidas sem as associações do sonhador O modo como devemos conhecer necessariamente seu significado se tornará claro na segunda metade desta nossa exposiçãoUma relação constante desse tipo entre um elemento onírico e sua versão nós a descrevemos como relação simbólica e ao elemento onírico propriamente dito como um símbolo do pensamento onírico inconsciente Os senhores estão lembrando de que anteriormente quando investigávamos as relações entre elementos oníricos e a coisa original situada por trás deles diferenciei três relações desse tipo a da parte com o todo a da alusão e a da representação plástica Na ocasião eu os adverti de que havia uma quarta relação porém não citei seu nome ver em 1 Essa quarta relação é a relação simbólica que estou apresentando agora Ela enseja oportunidade para algumas discussões interessantes e eu passarei a estas antes de lhes demonstrar os resultados detalhados de nossas observações sobre o simbolismo O simbolismo é talvez o mais notável capítulo da teoria dos sonhos Em primeiro lugar como os símbolos são versões constantes realizam até certo ponto o ideal da antiga tanto como da popular interpretação dos sonhos do qual com nossa técnica nos afastamos muito Permitemnos em certas circunstâncias interpretar um sonho sem fazer perguntas ao sonhador que de qualquer modo realmente nada teria a nos dizer acerca do símbolo Se estivermos familiarizados com os símbolos oníricos comuns e ademais disso com a personalidade do sonhador as circunstâncias em que ele vive e as impressões que precederam a ocorrência do sonho freqüentemente estaremos em situação de interpretar um sonho com segurança de traduzilo à vista por assim dizer Um virtuosismo dessa espécie lisonjeia a quem interpreta o sonho e impressiona aquele que teve o sonho forma um agradável contraste com a laboriosa tarefa de interrogar o sonhador Contudo não se deixem perderse com isso Não é de nosso feitio executar atos de virtuosismo A interpretação baseada no conhecimento dos símbolos não é uma técnica que possa substituir a técnica associativa nem competir com esta A técnica dos símbolos suplementa a técnica associativa e produz resultados que apenas possuem utilidade quando subordinada a esta E no que concerne ao conhecimento que se tenha da situação psíquica da pessoa que nos relata seu sonho devem ter em mente que os sonhos das pessoas que os senhores bem conhecem não são os únicos que os senhores têm para analisar ter em mente que via de regra os senhores não estão familiarizados com os eventos do dia anterior que foram aqueles que provocaram o sonho mas que as associações de idéias da pessoa que os senhores estão analisando lhes proporcionarão um conhecimento preciso daquilo que chamamos situação psíquica Ademais constitui aspecto muito notável tendo em conta também algumas considerações que mencionaremos mais adiante cf pág 16970 o fato de se terem manifestado mais uma vez as mais violentas resistências contra uma relação simbólica entre os sonhos e o inconsciente Mesmo pessoas de discernimento e reputação que afora isso têm concordado em muito com a psicanálise nesse ponto retiraram seu apoio Esse comportamento se afigura muito estranho primeiro em vista do fato de que o simbolismo não constitui peculiaridade exclusiva dos sonhos e não é característico dos mesmos e em segundo lugar o simbolismo nos sonhos não é de forma alguma descoberta da psicanálise embora esta tenha feito muitas outras descobertas surpreendentes O filósofo K A Scherner 1861 deve ser apontado como o descobridor do simbolismo onírico se é que absolutamente se possam situar seus inícios nos tempos atuais A psicanálise confirmou os achados de Scherner embora tenha feito substanciais modificações nos mesmos Agora certamente os senhores desejam ouvir algo sobre a natureza do simbolismo dos sonhos e ter alguns exemplos Com satisfação lhes direi o que sei embora deva confessar que nossa compreensão deste tema não é tão completa como desejaríamos A essência desta relação simbólica constitui em ela ser uma comparação embora não uma comparação de tipo qualquer Limitações especiais parecem estar vinculadas à comparação porém é difícil dizer quais sejam elas Nem tudo aquilo com que podemos comparar um objeto ou um processo aparece nos sonhos como símbolo dessa comparação E por outro lado um sonho não simboliza cada elemento possível dos pensamentos oníricos latentes mas somente alguns pensamentos determinados Assim existem limitações em ambos os sentidos Devemos admitir também que o conceito de símbolo no momento atual não pode ser definido com precisão esse conceito se transfigura gradualmente em noções tais como as de substituição ou representação e mesmo se aproxima do que entendemos por alusão Em numerosos símbolos a comparação que subjaz é óbvia Entretanto também aí existem outros símbolos em relação aos quais devemos nos perguntar onde buscaremos o elemento comum o tertium comparationis da suposta comparação Com outras reflexões podemos posteriormente descobrilo ou então ele pode permanecer definitivamente oculto É ademais estranho que sendo o símbolo uma comparação não seja elucidado por uma associação e que o sonhador não conheça mas faça uso dele sem saber nada a seu respeito mais ainda na verdade que o sonhador não se sinta disposto a reconhecer a comparação mesmo depois de esta lhe ter sido mostrada Os senhores observam pois que uma relação simbólica é uma comparação de tipo muito especial cuja base até agora ainda não apreendemos embora possamos posteriormente chegar a alguma indicação sobre a mesma A gama de coisas às quais se confere uma representação simbólica nos sonhos não é ampla o corpo humano como um todo os pais os filhos irmãos e irmãs nascimento morte nudez e algumas outras coisas mais A representação típica isto é regular da figura humana como um todo é uma casa conforme foi reconhecido por Scherner que até mesmo quis atribuir a este símbolo uma importância transcendental que não tem Em um sonho pode acontecer alguém sentirse descendo pela fachada de uma casa num momento deliciandose com isso depois atemorizandose As casas com paredes lisas representam homens e aquelas com saliências e sacadas em que é possível segurarse representam mulheres ver em 1 adiante Os pais aparecem nos sonhos como imperador e imperatriz rei e rainha loc cit ou outras personagens respeitadas com isso os sonhos evidenciam muito respeito filial Tratam porém com muito menos ternura os filhos os irmãos e as irmãs estes são simbolizados como pequenos animais ou bichinhos O nascimento é quase que invariavelmente representado por algo que tem uma conexão com água ou a pessoa cai dentro da água ou sai da água a pessoa salva alguém da água ou é resgatada da água por alguém ou seja é uma relação mãefilho ver em 1 Morrer é substituído nos sonhos por partir por viajar de trem ver em 1 e 2 estar morto é representado por indícios diversos por assim dizer obscuros a nudez por meio de roupas e uniformes Os senhores vêem quão indistintos são os limites aqui entre a representação simbólica e a alusiva É surpreendente que em comparação com essa reduzida numeração existe uma outra área em que os objetos e assuntos são representados por um simbolismo extraordinariamente rico Essa área é a da vida sexual os genitais os processos sexuais a relação sexual Nos sonhos a grande maioria dos símbolos são símbolos sexuais E aqui se revela uma estranha desproporção Os temas que mencionei são poucos os símbolos que os representam são porém extremamente numerosos de forma que cada uma dessas coisas pode ser expressa por numerosos símbolos quase equivalentes Quando interpretados o resultado origina objeções generalizadas Pois em contraste com a multiplicidade das representações no sonho as interpretações dos símbolos variam muito pouco o que enfada qualquer pessoa que ouve falar nisso mas o que podemos fazer quanto a isto Como esta é a primeira vez que falo no tema da vida sexual em uma destas conferências devolhes uma explanação sobre a maneira pela qual me proponho a tratar do assunto A psicanálise não tem necessidade de ocultamentos nem de palpites não pensa que seja necessário envergonharse de lidar com esse importante material acredita que é correto e apropriado nomear cada coisa pelo seu nome certo e espera que esta seja a melhor maneira de manter à distância idéias inadequadas de natureza desorientadora O fato de estas conferências estarem sendo proferidas perante um auditório misto de ambos os sexos não faz qualquer diferença com relação a esse aspecto Assim como não pode haver ciência in usum Delphini também não pode havêla para meninas de colégio e as senhoras aqui presentes já evidenciaram por sua própria presença nesta sala de conferências que desejam ser tratadas em condições de igualdade com os homensOs genitais masculinos então são representados nos sonhos por numerosas formas que devem ser chamadas simbólicas nas quais o elemento comum da comparação é em geral muito evidente Primeiramente para os genitais masculinos como um todo o sagrado número 3 tem significação simbólica ver em 1 e segs O mais notável e para ambos os sexos mais interessante componente dos genitais o órgão masculino encontra substitutos simbólicos primordialmente em coisas que a ele se assemelham pela sua forma coisas portanto que são alongadas e retas tais como bengalas guardachuvas postes árvores e assim por diante e também objetos que compartilham com a coisa que representam da característica de penetrar no corpo e ferir ou seja armas pontiagudas de toda espécie facas punhais lanças sabres e também armas de fogo rifles pistolas e revólveres especialmente adequados por causa de sua forma Nos sonhos de ansiedade de uma menina ser seguida por um homem com uma faca ou com arma de fogo desempenha importante papel Esse talvez seja o caso mais comum de simbolismo onírico e agora os senhores estão aptos a traduzilo com facilidade E não é difícil compreender de que modo o órgão masculino pode ser substituído por objetos dos quais flui água torneira regador chafariz ou ainda por outros objetos capazes de se distenderem tais como lâmpadas suspensas lápis extensíveis etc Um aspecto não menos óbvio do órgão explica o fato de que lápis canetas limas martelos e outros instrumentos são indubitáveis símbolos sexuais masculinosA extraordinária característica do órgão masculino de ser capaz de erguerse em desafio às leis da gravidade um dos fenômenos da ereção faz com que seja representado simbolicamente por balões máquinas voadoras e mais recentemente pelas aeronaves Zeppelin Os sonhos porém podem simbolizar a ereção de outra maneira muito mais expressiva Podem tratar o órgão sexual como sendo a essência da pessoa inteira daquele que sonha e fazêlo voar Não se melindrem com a idéia de que os sonhos com voar tão comuns e freqüentemente tão agradáveis devam ser interpretados como sonhos de excitação sexual geral como sonhos de ereção Entre alunos de psicanálise Paul Federn 1914 colocou essa interpretação fora de dúvida contudo através de suas investigações chegou à mesma conclusão Mourly Vold 191012 2 791 que tem sido tão elogiado por sua seriedade quem levou a cabo as experiências com sonhos a que me referi ver em 1 e 2 com posições artificialmente assumidas dos braços e pernas e estava muito distanciado da psicanálise e possivelmente nada sabia a respeito dela E não façam a partir daí a objeção ao fato de as mulheres poderem ter os mesmos sonhos de voar como os homens Lembremse antes de que nossos sonhos objetivam ser realizações de desejos e que o desejo de ser homem com muita freqüência é encontrado consciente ou inconscientemente em mulheres E ninguém que conheça anatomia se espantará com o fato de que é possível às mulheres realizar esse desejo através das mesmas sensações do homem As mulheres possuem como parte de seus genitais um pequeno órgão semelhante ao órgão masculino e esse pequeno órgão o clitóris realmente desempenha na infância e durante os anos anteriores às relações sexuais o mesmo papel que desempenha o grande órgão dos homensEntre símbolos sexuais masculinos menos inteligíveis situamse certos répteis e peixes e acima de tudo o famoso símbolo da cobra Certamente não é fácil adivinhar por que chapéus e sobretudos ou capas são empregados da mesma maneira contudo seu significado simbólico é bastante inquestionável ver em 1 Finalmente podemos nos perguntar se a substituição do membro masculino por outro membro o pé ou a mão deveria ser descrita como simbólica Penso que somos compelidos a também fazêlo em face ao contexto e aos equivalentes no caso das mulheresOs genitais femininos são simbolicamente representados por todos esses objetos que compartilham da característica de possuírem um espaço oco que pode conter algo dentro de si buracos cavidades e concavidades por exemplo vasos e garrafas recipientes caixas malas estojos cofres bolsas e assim por diante Barcos também se incluem nesta categoria Alguns símbolos têm mais conexão com o útero do que com os genitais femininos assim armários fogões e mais especialmente aposentos Aqui o simbolismo de aposento se aproxima do simbolismo de casa Portas e portões também são símbolos do orifício genital Os materiais também são símbolos femininos ver em 1 madeira papel e objetos feitos desses materiais como mesas e livros Dentre os animais caramujos e conchas pelo menos são inegáveis símbolos femininos entre as partes do corpo a boca como substituto do orifício genital entre as construções igrejas e capelas como podem observar nem todos os símbolos são igualmente inteligíveisOs seios devem ser incluídos nos genitais sendo hemisférios volumosos do corpo feminino são representados por maçãs pêras e frutas em geral Os pêlos pubianos de ambos os sexos são representados nos sonhos por florestas e moitas A complexa topografia das partes genitais femininas torna compreensível o fato de elas serem freqüentemente representadas por paisagens com rochedos floresta e água ao passo que o imponente mecanismo do aparelho genital feminino explica por que todo tipo de máquinas difíceis de descrever lhe serve de símboloOutro símbolo dos genitais femininos que merece ser mencionado é o portajóias Jóia e tesouro são usados nos sonhos assim como na vida desperta para mencionar alguém que é amado Doces freqüentemente representam satisfação sexual A satisfação que uma pessoa obtém com seus próprios genitais é indicada por toda espécie de tocar inclusive tocar piano Constituem representação simbólica par excellence da masturbação o deslizar ou escorregar o arrancar um ramo ver em 1 A queda de um dente ou a extração de um dente são símbolos oníricos particularmente dignos de reparo Sua significação primeira é indubitavelmente a castração como castigo pela masturbação loc cit Encontramos representações especiais do ato sexual com menos freqüência do que se poderia esperar com base naquilo que se disse até aqui Atividades rítmicas como dançar cavalgar e subir devem ser mencionadas aqui bem como ocorrências violentas como ser atropelado e ainda da mesma forma certas atividades manuais e naturalmente ameaças com armasOs senhores não devem imaginar que seja muito simples o emprego ou a tradução desses símbolos No decurso deles acontecem todos os tipos de coisas que são contrárias às nossas expectativas Parece quase inacreditável por exemplo que nessas representações simbólicas as diferenças entre os sexos amiúde não são nitidamente observadas Alguns símbolos significam em geral independentemente de serem masculinos ou femininos por exemplo uma criança pequena um filho pequeno uma filha pequena Ou ainda um símbolo predominantemente masculino pode ser empregado para representar genitais femininos e viceversa Não podemos compreender esse fato enquanto não tivermos obtido determinada compreensão interna insight da evolução das idéias sexuais nos seres humanos Em alguns casos a ambigüidade dos símbolos pode ser apenas aparente e os símbolos mais marcados como armas bolsas e cofres se excluem desse uso bissexual Agora partindo não da coisa representada mas sim do símbolo prosseguirei fazendo um exame de conjunto das áreas das quais geralmente derivam os símbolos sexuais e farei algumas observações adicionais com especial referência aos símbolos em que o elemento comum da comparação não está entendido O chapéu é um símbolo obscuro deste tipo talvez também tudo o que se usa para cobrir a cabeça em geral e tem via de regra significação masculina mas é também capaz de ter significação feminina Da mesma forma um sobretudo ou uma capa significam um homem talvez nem sempre se referindo ao aspecto genital compete aos senhores perguntarem por quê Gravatas que são coisas que ficam pendentes e não são usadas por mulheres são definitivamente um símbolo masculino Roupa interior e roupa branca geralmente são símbolos femininos Vestuário e uniformes conforme já vimos são substitutos da nudez ou das formas corporais Sapatos e chinelos são símbolos de genitais femininos Mesas e madeira já foram mencionadas como símbolos femininos enigmáticos porém certos Escadas degraus escadarias ou mais precisamente subir ou descer pelos mesmos são claros símbolos da relação sexual Pensando melhor ocorrenos que aqui o elemento comum é o ritmo de galgálos talvez também a crescente excitação e a respiração ofegante à medida que se sobe ver em 1Já nos referimos anteriormente a paisagens como representantes dos genitais femininos Montes e rochedos são símbolos do órgão masculino Jardins são símbolos comuns dos genitais femininos Frutas representam não os filhos mas os seios Animais selvagens significam pessoas em estado de excitação sensual e além disso os maus instintos ou paixões Botões e flores indicam os genitais femininos ou em especial a virgindade Não se esqueçam de que realmente as flores constituem os genitais das plantasJá conhecemos aposentos como símbolos A representação pode ir além as janelas e portas com ou sem aposentos assumindo o significado de orifícios do corpo E a questão de um aposento estar aberto ou fechado se adapta a este simbolismo e a chave que o abre é decididamente um símbolo masculinoEsse pois o material de que se serve o simbolismo nos sonhos Não está completo e poderia ser aprofundado e ampliado ainda mais Imagino porém que lhes parecerá mais que suficiente e talvez até mesmo possa têlos irritado Será que de fato vivo no meio de símbolos sexuais poderão perguntar São todos os objetos ao meu redor todas as roupas que visto todas as coisas que pego todos símbolos sexuais e nada mais Existe com efeito fundamento suficiente para fazer perguntas atônitas e como primeira delas podemos nos interrogar sobre como realmente chegamos a conhecer a significação desses símbolos oníricos a respeito dos quais o sonhador nos dá informação insuficiente ou absolutamente nenhuma informaçãoMinha resposta é que a aprendemos a partir de fontes muito diversas de contos de fadas de mitos de bufonarias e anedotas do folclore isto é do conhecimento dos usos populares e costumes da maneira de falar e das canções e de expressões idiomáticas poéticas e coloquiais Em todas essas direções encontramos o mesmo simbolismo e em alguns deles podemos entendêlo sem maior erudição Se penetrarmos nos detalhes dessas fontes encontraremos tantas semelhanças do simbolismo onírico que não podemos deixar de nos convencer de nossas interpretaçõesSegundo Scherner como dissemos ver em 1 o corpo humano é com freqüência representado nos sonhos pelo símbolo de uma casa Aprofundando esta representação verificamos que janelas portas e portões representavam as aberturas do corpo e que as fachadas das casas eram ou lisas ou providas de sacadas e saliências nas quais se podia encontrar apoio Contudo o mesmo simbolismo é encontrado em nossos usos idiomáticos quando saudamos familiarmente um conhecido como uma altes Haus casa velha quando falamos em dar a alguém eins aufs Dachl uma pancada na cabeça literalmente uma no telhado ou quando dizemos de uma pessoa que ela não está bem do sótão Na anatomia os orifícios do corpo são muitas vezes chamados Leibespforten literalmente portões do corpo De início parece surpreendente encontrar os pais nos sonhos como casal imperial ou real Isso porém tem seu similar nos contos de fadas Começamos a compreender que as variadas histórias de fadas que começam com Era uma vez um rei e uma rainha apenas querem dizer que certa vez havia um pai e uma mãe Em uma família as crianças são de brincadeira chamadas de príncipes e o mais velho de príncipe herdeiro O próprio rei se denomina o pai de seu país Por brincadeira falamos nos filhos como Würmer bichinhos e com simpatia nos referimos a uma criança como der arme Wurm pobre bichinho Retornemos ao simbolismo da casa Quando em um sonho fazemos uso das saliências de uma casa para nelas nos segurarmos podemos nos recordar de uma expressão vulgar comumente usada para designar seios bem desenvolvidos Ela tem coisa para agarrar Existe outra expressão popular em tais casos Ela tem muita madeira em frente de casa o que parece confirmar nossa interpretação da madeira como símbolo feminino materno E por falar em madeira é difícil compreender como esse material veio a representar o que é materno No entanto nisso a filologia comparada pode vir em nosso auxílio Nossa palavra alemã Holz parece provir da mesma raiz da ulh hulé grega significando material matériaprima Esse parece ser um exemplo da ocorrência não rara de um nome genérico de um material vir a ser afinal reservado a algum material determinado Ora existe no Atlântico uma ilha chamada Madeira Este nome lhe foi dado pelos portugueses quando a descobriram porque naquela época estava toda recoberta de florestas Pois na língua portuguesa madeira está relacionada a floresta Os senhores observam porém que madeira é apenas uma forma ligeiramente modificada da palavra latina materia que mais uma vez significa material em geral Contudo materia é derivada de mater mãe o material do qual tudo é feito por assim dizer a mãe de tudo Esse conceito antigo da coisa sobrevive portanto no uso simbólico de madeira como mulher ou mãe O nascimento é geralmente expresso nos sonhos por meio de alguma conexão com a água a pessoa cai na água ou é tirada das águas dá à luz ou nasce Não devemos nos esquecer de que este símbolo consegue se utilizar em dois sentidos da verdade da evolução Não apenas todos os mamíferos terrestres inclusive os ancestrais do homem descendem de seres aquáticos este é o mais remoto dos dois fatos mas também todo mamífero todo ser humano passou a primeira fase de sua existência na água ou seja na qualidade de embrião no líquido amniótico do útero materno e saiu dessa água ao nascer Não digo que aquele que sonha sabe disso por outro lado afirmo que ele não necessita saber Existe algo mais que o sonhador provavelmente sabe por lhe haver sido dito em sua infância assim mesmo afirmo que se soubesse esse conhecimento em nada contribuiria para a construção do símbolo Foilhe dito quando criança que é a cegonha que traz os bebês Mas de onde os busca Do lago ou do rio mais uma vez pois da água Um de meus pacientes após lhe haver sido dada esta informação na época ele era um pequeno conde desapareceu por uma tarde inteira Por fim foi encontrado de bruços junto à borda do lago do castelo com seu rostinho pendido sobre a superfície da água perscrutando atentamente procurando ver os bebês no fundo da água Nos mitos sobre o nascimento de heróis aos quais Otto Rank 1909 dedicou um estudo comparado sendo o mais antigo o mito do rei Sargão de Agade cerca de 2800 aC uma parte predominante é desempenhada pelo abandono na água e o resgate da água Rank constatou que isso são representações do nascimento análogas às que comumente surgem nos sonhos Quando uma pessoa salva alguém das águas em um sonho ela se transforma em sua mãe ou simplesmente em mãe Nos mitos uma pessoa que salva um bebê das águas admite ser a verdadeira mãe do bebê Existe uma conhecida anedota cômica segundo a qual perguntaram a um inteligente menino judeu quem era a mãe de Moisés Respondeu sem hesitação A princesa Não disseramlhe ela somente o tirou da água Isso é o que ela diz replicou e assim provou que havia encontrado a interpretação correta do mitoNos sonhos partir significa morrer Assim quando uma criança pergunta onde está alguém que morreu e de quem sente falta é costume comum responderlhe que esse alguém partiu de viagem Mais uma vez gostaria de desmentir a crença de que o símbolo onírico deriva dessa evasiva O dramaturgo Shakespeare em Hamlet Ato III Cena 1 usa a mesma conexão simbólica quando fala na morte como país desconhecido de cujos limites nenhum viajante retorna Mesmo na vida comum é freqüente falar em última jornada Todo aquele que conhece os rituais antigos se apercebe de como se levava a sério na religião do antigo Egito por exemplo a idéia de uma viagem às regiões da morte Sobreviveram muitas cópias do Livro dos Mortos que era fornecido à múmia como um guia de viagem para ser levado nessa jornada Desde quando os locais funerários foram separados dos locais de moradia a última viagem de uma pessoa morta se tornou verdadeiramente uma realidadeE não se pense que o simbolismo genital seja algo encontrado apenas em sonhos Provavelmente todos os senhores em uma ou outra ocasião referiramse indelicadamente a uma mulher como alte Schachtel caixa velha talvez sem saber que estavam usando um símbolo genital No Novo Testamento encontramos a mulher sendo mencionada como o vaso mais frágil As escrituras hebraicas escritas em um estilo que muito se aproxima da poesia estão plenas de expressões sexualmente simbólicas que nem sempre foram corretamente compreendidas e cuja exegese por exemplo no caso do Cântico de Salomão tem causado alguns equívocos Na literatura hebraica posterior é muito comum encontrar a mulher representada por uma casa cuja porta representa o orifício sexual Um homem se queixa por exemplo em um caso de perda da virgindade de haver encontrado a porta aberta Assim também nesses escritos o símbolo da mesa representa a mulher Por isso uma mulher diz de seu marido Eu lhe preparei a mesa mas ele a virou Dizse que as crianças aleijadas surgem porque o homem virou a mesa Estes exemplos eu os tomei de um artigo do Dr L Levy de Brünn 1914O fato de nos sonhos também os navios representarem mulheres merece crédito pois os etimologistas nos dizem que Schiff navio era originalmente o nome de um recipiente de barro e é a mesma palavra que Schaff palavra dialetal que significa tina O fato de fogões representarem mulheres e útero é confirmado pela lenda grega de Periandro de Corinto e sua esposa Melissa O tirano segundo Heródoto faz aparecer o espírito de sua mulher a quem amara apaixonadamente e contudo assassinara por ciúmes a fim de obter dela algumas informações A mulher morta provou sua identidade dizendo que ele Periandro havia metido seu pão dentro de um forno frio como forma de disfarçar um acontecimento que só era conhecido dos dois Na revista Anthropophyteia editada por F S Krauss inestimável fonte de conhecimentos de antropologia sexual ficamos sabendo que em determinada região da Alemanha de uma mulher que deu à luz uma criança se diz que o forno dela se fez em pedaços Pegar fogo fazer fogo e tudo o que com isso se relacione está intimamente entretecido de simbolismo sexual A chama é sempre um genital masculino e a lareira o fogão é seu equivalente femininoSe os senhores puderem se surpreender com a freqüência com que as paisagens são empregadas nos sonhos para representar os genitais femininos podem aprender da mitologia geral qual o papel desempenhado pela Mãe Terra nos conceitos e cultos dos povos da Antigüidade e como sua visão da agricultura era determinada por esse simbolismo O fato de em sonhos um quarto representar uma mulher os senhores tenderão a atribuílo ao uso idiomático de nossa linguagem pelo qual Frau é substituído por Frauenzimmer o ser humano sendo substituído pelo aposento destinado a ele De forma semelhante falamos em Sublime Porte significando o sultão e seu governo Assim também o título do governante do Egito antigo Faraó significa simplesmente Grande Saguão do Paço No antigo oriente os pátios entre os duplos portões de uma cidade eram locais de encontro públicos assim como as praças do mercado do mundo clássico Essa derivação entretanto parece ser excessivamente superficial Pareceme mais provável que um aposento se tornou símbolo de mulher por ser o espaço que encerra seres humanos Já verificamos que casa é usada em sentido semelhante e a mitologia e a linguagem poética nos possibilitam acrescentar cidade cidadela castelo e fortaleza como outros símbolos para mulher Poderseia facilmente levantar a questão a respeito de sonhos de pessoas que não falam ou não entendem o idioma alemão Durante esses últimos anos tenho tratado principalmente pacientes de idioma estrangeiro e pareceme que me lembro de que também em seus sonhos Zimmer aposento significava Frauenzimmer embora em seus idiomas não tivessem uso semelhante Existem outras indicações de que a relação simbólica pode ultrapassar os limites da linguagem o que aliás foi afirmado há muito tempo por um antigo pesquisador de sonhos Schubert 1814 No entanto nenhum de meus pacientes ignorava completamente o alemão de modo que a decisão deve ser deixada aos analistas que podem coligir dados das pessoas que usam um só idioma em outros países Dificilmente alguma das representações simbólicas dos genitais masculinos não reaparece no uso anedótico vulgar ou poético especialmente junto aos dramaturgos clássicos antigos Entretanto aqui encontramos não apenas os símbolos que surgem nos sonhos porém outros mais como por exemplo utensílios usados em diversas atividades e especialmente o arado Ademais a representação simbólica da masculinidade nos leva a uma região muito extensa e muito controvertida que por motivos de economia evitaremos Gostaria no entanto de dedicar algumas palavras a um símbolo que por assim dizer se exclui dessa categoria o número 3 Permanece obscuro o fato de saber se este número deve seu caráter sagrado a essa relação simbólica O que no entanto parece certo é que numerosas coisas tripartidas existentes na natureza a folha de trevo por exemplo devem seu uso em brasões e emblemas a esse significado simbólico De maneira semelhante o lírio tripartido a chamada fleurdelis e o notável desenho heráldico de duas ilhas tão distantes uma da outra como a Sicília e a ilha de Man o tríscele três pernas meio fletidas irradiandose de um centro parecem ser versões estilizadas dos genitais masculinos As formas do órgão masculino eram consideradas na Antigüidade como o mais poderoso apotropaico meio de defesa contra más influências e por conseguinte os amuletos de nossos dias podem todos eles ser reconhecidos facilmente como símbolos genitais ou sexuais Consideremos uma coleção dessas coisas como são usadas por exemplo na forma de pequenos berloques de prata pendentes trevo de quatro folhas porco cogumelo ferraduras escada vassoura de chaminé O trevo de quatro folhas tomou o lugar do de três folhas que realmente se presta para ser um símbolo O porco é um antigo símbolo da fertilidade O cogumelo é sem dúvida um símbolo do pênis existem cogumelos fungos que devem seu nome sistemático Phallus impudicus à sua inconfundível semelhança com o órgão masculino A ferradura reproduz o contorno do orifício genital feminino ao passo que a vassoura de chaminé que se associa à escada aparece em companhia desta em face de suas funções às quais vulgarmente se compara o ato sexual Cf Anthropophyteia Conhecemos essa escada em sonhos como símbolo sexual aqui o uso idiomático alemão vem em nosso auxílio e nos mostra como a palavra steigen subir ou montar é usada no que é par excellence um sentido sexual Dizemos den Frauen nachsteigen perseguir literalmente trepar mulheres e ein alter Steiger um velho farrista literalmente trepador Em francês a palavra para degraus de uma escada é marches e encontramos um termo exatamente análogo un vieux marcheur O fato de que em muitos animais de grande porte subir ou montar na fêmea é um preliminar necessário ao ato sexual provavelmente se presta a este contextoArrancar um galho como representação simbólica da masturbação não apenas se coaduna com as descrições vulgares do ato como também possui semelhanças mitológicas amplas Mas que a masturbação ou melhor a punição correspondente a castração seja representada pela queda ou extração de dentes é fato especialmente notável pois existe na antropologia um seu equivalente o qual pode ser do conhecimento de apenas um pequeno número das pessoas que sonham Pareceme inequívoco que a circuncisão praticada por tantos povos é um equivalente e substituto da castração E agora sabemos de determinadas tribos primitivas da Austrália que realizam a circuncisão como um rito da puberdade na cerimônia em que se celebra o início da maturidade sexual de um menino enquanto outras tribos seus vizinhos próximos substituíram esse ato pela quebra de um denteA este ponto encerro minha exposição desses exemplos São apenas exemplos A respeito deste assunto conhecemos muito mais porém os senhores podem imaginar como seria mais rica e mais interessante uma coleção como essa se fosse reunida não por amadores como nós e sim por verdadeiros profissionais da mitologia antropologia filologia e do folcloreAlgumas conseqüências se impõem à nossa atenção não podem ser completas porém nos oferecem material para reflexãoEm primeiro lugar deparamos com o fato de que o sonhador tem à sua disposição uma forma simbólica de expressão que ele desconhece na vida desperta e não reconhece Isso é tão extraordinário como se os senhores viessem a descobrir que sua empregada doméstica entendesse sânscrito embora sabendo que ela nasceu numa aldeia da Boêmia e jamais o estudou Não é fácil explicar tal fato com o auxílio de nossas concepções psicológicas Apenas podemos dizer que o conhecimento do simbolismo é inconsciente naquele que sonha que pertence à sua vida mental inconsciente Contudo mesmo com essa suposição não chegamos ao cerne da questão Até agora apenas nos tem sido necessário supor a existência de esforços inconscientes isto é esforços dos quais nada sabemos temporária ou permanentemente Agora porém tratase de algo mais que isso simplesmente de parcelas inconscientes de conhecimento de conexões de pensamentos de comparação entre diferentes objetos que resultam na possibilidade de estes serem regularmente colocados um em lugar do outro Essas comparações não são recémestabelecidas em cada ocasião estão de antemão prontas para uso e são completas de uma vez por todas Isso está implícito no fato de serem concordantes quando se trata de indivíduos diferentes possivelmente na verdade concordantes apesar das diferenças de idioma Qual pode ser a origem dessas relações simbólicas O uso idiomático cobre apenas uma parte delas A multiplicidade de analogias em outras esferas de conhecimento é na maioria das vezes desconhecida da pessoa que tem o sonho nós mesmos tivemos de laboriosamente colecionálasEm segundo lugar tais relações simbólicas não constituem peculiaridade do sonhador ou da elaboração onírica através da qual elas adquirem expressão Esse mesmo simbolismo como vimos é empregado por mitos e contos de fadas pelas pessoas em seus ditados e em sua canções pelo uso idiomático coloquial e pela imaginação poética O campo do simbolismo é imensamente amplo e o simbolismo onírico constitui apenas pequena parte dele na verdade não conduz a nenhum objetivo útil atacar o problema a partir dos sonhos Muitos símbolos que são comumente usados em outros contextos aparecem no sonho muito raramente ou absolutamente não aparecem Alguns símbolos oníricos não podem ser encontrados em todas as áreas porém como os senhores viram apenas num ou noutro lugar Temse a impressão de que nos defrontamos aqui com um modo de expressão antigo porém extinto cujas diferentes partes sobreviveram em diferentes campos de fenômenos uma parte somente aqui outra somente ali uma terceira parte talvez com suas formas ligeiramente modificadas em diversas áreas E nisso recordome da fantasia de um interessante paciente psicótico que imaginou uma linguagem básica da qual todas essas relações simbólicas seriam resíduos Em terceiro lugar deve terlhes causado surpresa que o simbolismo nas outras áreas que mencionei não é absolutamente apenas simbolismo sexual ao passo que nos sonhos os símbolos são empregados quase exclusivamente para expressão de objetos e relações sexuais Isso também não se explica facilmente Deveríamos supor que os símbolos que originalmente possuíam uma significação sexual mais tarde tenham adquirido outra aplicação e que ademais disso a atenuação da representação por símbolos em outros tipos de representação pode estar em conexão com este aspecto Essas questões evidentemente não podem ser respondidas enquanto não houvermos considerado o simbolismo onírico isoladamente Podemos apenas manter firme a suspeita de que existe uma relação especialmente íntima entre símbolosverdadeiros e sexualidade Com referência a esse aspecto descobrimos importantes indícios durante esses últimos anos Um filólogo Hans Sperber 1912 de Uppsala que trabalha independentemente da psicanálise apresentou o argumento de que as necessidades sexuais desempenharam o papel principal na origem e no desenvolvimento da linguagem Segundo esse autor os sons originais da linguagem se destinavam à comunicação e atraíam o parceiro sexual a evolução ulterior das raízes lingüísticas acompanhou as atividades laborativas do homem primitivo Essas atividades prossegue ele eram executadas em comum e acompanhadas por expressões ritmicamente repetidas Assim um interesse sexual permaneceu vinculado ao trabalho O homem primitivo tornou o trabalho aceitável por assim dizer tratandoo como equivalente e substituto da atividade sexual As palavras enunciadas durante o trabalho em comum tinham pois dois significados designavam atos sexuais e também a atividade laborativa que a estes se equiparava Com o decorrer do tempo as palavras se desvincularam da significação sexual e fixaramse no trabalho Em gerações posteriores a mesma coisa aconteceu com as palavras novas que tinham significado sexual e eram aplicadas a novas formas de trabalho Desse modo numerosas raízes de palavras teriam sido formadas todas elas de origem sexual perdendo subseqüentemente sua significação sexual Se é correta a hipótese que delineei aqui ela nos possibilitaria compreender o simbolismo dos sonhos Deveríamos entender por que os sonhos que conservam algumas das condições mais primitivas mantêm um número tão extraordinariamente grande de símbolos sexuais e por que geralmente armas e utensílios representam o que é masculino ao passo que materiais e coisas que se prestam para serem transformados pelo trabalho representam o que é feminino A relação simbólica seria o resíduo de uma antiga identidade verbal coisas que numa época foram chamadas pelo mesmo nome tanto que os genitais poderiam agora servir como símbolo para os mesmos nos sonhosOs aspectos correlatos que encontramos no simbolismo onírico também nos permitem formar uma estimativa dessa característica da psicanálise que lhe permite atrair interesse geral de uma forma que nem a psicologia nem a psiquiatria conseguiram fazêlo No trabalho da psicanálise formamse vínculos com numerosas outras ciências mentais cuja investigação promete resultados do mais elevado valor vínculos com a mitologia e a filosofia com o folclore com a psicologia social e com a teoria da religião Os senhores não ficarão surpresos ao ouvir que uma revista cresceu em solo psicanalítico e seu único objetivo é fortificar esses vínculos Essa revista é conhecida pelo nome de Imago fundada em 1912 e editada por Hanns Sachs e Otto Rank Em todos esses vínculos a participação da psicanálise é em primeira instância a de doador e apenas em menor escala a de receptor É verdade que isso lhe traz a vantagem de seus estranhos achados se tornarem mais conhecidos quando constatados também em outras áreas da ciência porém em seu conjunto é a psicanálise que provê os métodos técnicos e as concepções cuja aplicação nesses outros campos deve se mostrar proveitosa A vida mental dos seres humanos quando sujeita à investigação psicanalítica oferecenos explicações com cujo auxílio conseguimos resolver numerosos enigmas da vida das comunidades humanas ou pelo menos enquadrálos num enfoque verdadeiroA propósito ainda não lhes disse absolutamente nada com respeito às circunstâncias em que podemos obter nossa mais profunda compreensão da hipotética linguagem primitiva e ao campo em que a maior parte desta sobreviveu Até virem a conhecêla os senhores não poderão formar uma opinião de sua total importância Pois esse campo é o das neuroses e seu material são os sintomas e outras manifestações dos pacientes neuróticos para cuja elucidação e tratamento a psicanálise foi de fato criada A quarta de minhas reflexões nos leva de volta ao começo e nos conduz por nosso caminho previamente determinado Eu disse ver em 1 que os sonhos ainda que não houvesse censura de sonhos não seriam facilmente inteligíveis para nós de vez que ainda teríamos de nos defrontar com a tarefa de traduzir a linguagem simbólica dos sonhos para a de nosso pensamento desperto Assim o simbolismo é um segundo e independente fator de deformação de sonhos ao lado da censura de sonhos É plausível supor porém que a censura de sonhos julga conveniente fazer uso do simbolismo porque isso conduz ao mesmo fim o caráter estranho e incompreensível dos sonhosEm breve ficará esclarecido se um estudo adicional dos sonhos não nos poderá colocar em face de um outro fator que contribui para a deformação dos sonhos Contudo eu não gostaria de abandonar o tema do simbolismo onírico sem mais uma vez ver em 1 e 2 tocar no problema sobre o modo como ele pode encontrar resistência tão acirrada em pessoas instruídas quando a ampla difusão do simbolismo nos mitos na religião na arte e na linguagem é tão inquestionável A responsável não será novamente sua conexão com a sexualidade CONFERÊNCIA XI A ELABORAÇÃO ONÍRICA SENHORAS E SENHORES Quando tiverem compreendido adequadamente a censura de sonhos e a representação por símbolos verdade é que ainda não terão dominado o assunto sobre a deformação em sonhos e não obstante estarão em condições de entender a maioria destes E para isso os senhores usarão ambas as técnicas complementares reunir as idéias que acodem à mente do sonhador até haverem compreendido desde a coisa substituta até a coisa original e fundados no próprio conhecimento dos senhores substituir os símbolos por aquilo que representam Mais adiante discutiremos algumas incertezas que surgem nessa correlaçãoPodemos agora dedicarnos mais uma vez à tarefa que tentamos executar anteriormente com recursos inadequados quando estudávamos as relações entre os elementos dos sonhos e as coisas originais que eles representam Estabelecemos quatro principais relações ou seja ver em 1 e seg relação da parte com o todo aproximação ou alusão relação simbólica e representação plástica das palavras Agora nos propomos empreender a mesma coisa em escala mais ampla comparando o conteúdo manifesto de um sonho como um todo com o sonho latente conforme este é revelado pela interpretaçãoEspero que os senhores nunca mais venham a confundir essas duas coisas uma com a outra Se alcançarem esse ponto terão conseguido compreender melhor os sonhos do que a maioria dos leitores de meu trabalho A Interpretação de Sonhos E permitamme lembrarlhes novamente que o trabalho que transforma o sonho latente no sonho manifesto se chama elaboração onírica O trabalho que opera em sentido oposto que intenta chegar ao sonho latente a partir do manifesto é nosso trabalho interpretativo Esse trabalho interpretativo procura decifrar a elaboração onírica Os sonhos de tipo infantil que reconhecemos como evidente realizações de desejos ainda assim sofreram determinado grau de elaboração onírica sofreram uma transformação de desejo em experiência real e também via de regra de pensamentos foram transformados em imagens visuais No caso deles não há necessidade de interpretação porém apenas se requer sejam desfeitas essas duas transformações A elaboração onírica adicional que ocorre em outros sonhos denominase deformação onírica e é esta que deve ser decifrada através de nosso trabalho interpretativo Tendo comparado as interpretações de numerosos sonhos estou em condições de lhes apresentar uma descrição sumária daquilo que a elaboração onírica executa com o material dos pensamentos oníricos latentes Peçolhes entretanto não procurarem entender demais acerca das coisas que lhes digo Tratarseá de uma descrição que deve ser ouvida com serena atençãoA primeira realização da elaboração onírica é a condensação Entendemos com isso que o sonho manifesto possui um conteúdo menor do que o latente e é deste uma tradução abreviada portanto Às vezes a condensação pode estar ausente via de regra se faz presente e muitíssimas vezes é enorme Jamais ocorre uma mudança em sentido inverso ou seja nunca encontramos um sonho manifesto com extensão ou com conteúdo maior do que o sonho latente A condensação se realiza das seguintes maneiras 1 determinados elementos latentes são totalmente omitidos 2 apenas um fragmento de alguns complexos do sonho latente transparece no sonho manifesto e 3 determinados elementos latentes que têm algo em comum se combinam e se fundem em uma só unidade no sonho manifestoSe preferirem podemos reservar o termo condensação apenas para o último desses processos Seus resultados podem ser demonstrados com especial facilidade Os senhores não terão dificuldade em relembrar exemplos de seus próprios sonhos em que pessoas diferentes são condensadas em um a só Um personagem composto deste tipo pode talvez assemelharse a A mas pode talvez assemelharse a A contudo pode estar vestida como B executar algo que lembre C e ao mesmo tempo podemos saber que é D Essa estrutura composta naturalmente está dando ênfase àquilo que as quatro pessoas têm em comum É possível naturalmente formar tal estrutura composta de coisas ou de lugares do mesmo modo que de pessoas contanto que as diferentes coisas e lugares tenham em comum algo que o sonho latente acentua O processo se assemelha à construção de um conceito novo e transitório que tem nesse elemento comum o seu núcleo O resultado dessa superposição de elementos separados que foram condensados conjuntamente é via de regra uma imagem difusa e vaga à semelhança daquilo que sucede quando se batem diversas fotografias sobre uma mesma chapaA produção de estruturas compostas como essas referidas deve ser de grande importância para a elaboração onírica porquanto podemos demonstrar que ali onde inicialmente faltam os elementos comuns para formálas estes são introduzidos deliberadamente por exemplo através da escolha da palavra pelas quais um pensamento é expresso Já encontramos condensações e estruturas compostas dessa espécie Desempenharam seu papel na produção de determinados lapsos de língua Os senhores se recordam do jovem senhor que se prontificou a begleitdigen begleiten acompanhar beleidigen insultar ver em 1 uma senhora E também existem anedotas cuja técnica se baseia em uma condensação desse tipo Salvo esses casos porém podese dizer que o processo é muito raro e estranho É verdade que as partes componentes destinadas a essa construção devem situarse em algumas criações de nossa imaginação que está pronta para combinar em uma unidade componentes de coisas que não formam conjunto em nossa experiência corrente nos centauros por exemplo e nos animais fabulosos que aparecem na mitologia antiga ou nos quadros de Böcklin A imaginação criativa realmente é bastante incapaz de inventar qualquer coisa ela pode apenas combinar entre si componentes que são estranhos O notável no que se refere ao processo da elaboração onírica contudo reside no que vem a seguir O material disponível à elaboração onírica consiste de pensamentos alguns deles podem ser censurados ou inaceitáveis porém são corretamente construídos e expressos A elaboração onírica dá a esses pensamentos uma outra forma e constitui fato singular e incompreensível que sendo feita tal tradução transmitindo essa mensagem digamos assim através de um outro texto da linguagem esses métodos de mistura e combinação se realizam Afinal uma tradução se esforça por preservar as diferenças constantes do texto original e especialmente por manter separadas as coisas que são apenas semelhantes A elaboração onírica muito ao contrário procura condensar dois pensamentos diferentes buscando como um chiste uma palavra ambígua na qual os dois pensamentos se possam juntar Não preisamos tentar compreender esse aspecto de uma só vez no entanto ele pode ser importante em nosso estudo crítico da elaboração onírica Embora a condensação torne os sonhos obscuros não parece darnos a impressão de ela ser efeito da censura Antes parece ser devida a um fator automático ou econômico mas em todo caso a censura lucra com elaAquilo que a condensação consegue realizar pode ser bastante extraordinário Às vezes é possível com seu auxílio combinar duas seqüências de pensamentos latentes muito diferentes em um único sonho manifesto de modo que se pode chegar a algo que parece ser uma interpretação suficiente de sonho e no entanto procedendo assim podese deixar de perceber uma possível superinterpretaçãoNo que concerne à relação entre o sonho latente e o manifesto a condensação tem como conseqüência o estabelecimento de uma relação nãosimples entre os elementos de um e de outro Um elemento manifesto pode corresponder simultaneamente a diversos elementos latentes e em sentido inverso um elemento latente pode desempenhar seu papel em diversos elementos manifestos existe por assim dizer um relacionamento entrecruzado ver em 1 Ademais ao interpretar um sonho verificamos que as associações com um único elemento manifesto nem sempre emergem em seqüência ordenada muitas vezes devemos esperar até todo o sonho ter sido interpretadoA elaboração onírica assim efetua uma espécie muito inusitada de transcrição dos pensamentos oníricos não se trata de uma tradução palavraporpalavra ou sinalporsinal e nem se trata de uma solução feita segundo normas fixas como seria no caso de se reproduzir apenas as consoantes de uma palavra e eliminar as vogais e também não é aquilo que se poderia descrever como solução representativa um elemento sendo invariavelmente escolhido para tomar o lugar de vários elementos tratase de algo diferente e muito mais complexoA segunda realização da elaboração onírica é o deslocamento Felizmente já procedemos a um exame preliminar do mesmo pois já sabemos que é inteiramente obra da censura dos sonhos Manifestase de duas maneiras na primeira um elemento latente é substituído não por uma parte componente de si mesmo mas por alguma coisa mais remota isto é por uma alusão e na segunda o acento psíquico é mudado de um elemento importante para outros sem importância de forma que sonho parece descentrado e estranhoA substituição de algo por meio de uma alusão constitui processo corrente também em nosso pensamento desperto porém existe uma diferença No pensamento desperto a alusão deve ser inteiramente inteligível e o substituto deve estar relacionado no seu tema com a coisa original que representa Também os chistes fazem uso da alusão Eles prescindem da precondição de haver uma associação no tema e a substituem por associações externas incomuns tais como semelhança de sons ambigüidade verbal e assim por diante Conservam contudo a precondição de inteligibilidade um chiste perderia toda a sua eficiência se o caminho retroativo que vai da alusão à coisa original não pudesse ser percorrido com facilidade As alusões usadas para fins de deslocamento nos sonhos estão livres de ambas essas restrições Elas estão em conexão com o elemento que substituem através das relações mais externas e remotas e são pois ininteligíveis e quando são desfeitas sua interpretação dá a impressão de serem um mau chiste ou de constituírem uma explicação aleatória e forçada tirada não se sabe de onde Pois a censura de sonhos só consegue seu objetivo quando consegue tornar impossível que se encontre o caminho desde a alusão até a coisa originalO deslocamento do acento é um método sem igual de expressar pensamentos Algumas vezes o utilizamos no pensamento desperto a fim de conseguir um efeito cômico Talvez eu possa recriar aqui a impressão de alheamento causada por esse método recordando uma anedota Numa aldeia havia um ferreiro que cometera um crime capital O júri decidiu que o crime devia ser punido porém como o ferreiro era o único na aldeia e era indispensável e como por outro lado lá viviam três alfaiates um destes foi enforcado em seu lugar A terceira realização da elaboração onírica é psicologicamente a mais interessante Consiste em transformar pensamentos em imagens visuais Deixemos claro que essa transformação não afeta tudo nos pensamentos oníricos alguns deles conservam sua forma e aparecem no sonho manifesto também como pensamentos ou conhecimentos e nem são as imagens visuais a única forma na qual os pensamentos se transformam Ainda assim eles enfeixam a essência da formação dos sonhos essa parte da elaboração onírica como já sabemos é a segunda parte mais constante ver em 1 e 2 e já nos familiarizamos com a representação gráfica das palavras no caso dos elementos oníricos isolados ver em 1 e 2Claro que essa realização não é fácil Para termos uma idéia de suas dificuldades suponhamos que os senhores tivessem assumido a tarefa de substituir um editorial político em um jornal por uma série de ilustrações Os senhores teriam de retroceder da escrita alfabética para a escrita pictográfica Em um tal artigo mencionando pessoas e objetos concretos os senhores os substituiriam com facilidade e talvez até mesmo com vantagem por meio de figuras contudo as dificuldades começariam quando se tratasse da representação de palavras abstratas e de todos aqueles componentes do discurso que indicam relações entre pensamentos tal como partículas conjunções e assim por diante No caso de palavras abstratas os senhores conseguirão recorrer a uma variedade de soluções Por exemplo os senhores se esforçariam por dar ao texto um enunciado diferente que talvez pudesse parecer menos usual porém com mais componentes concretos e possíveis de ser representados Então os senhores se lembrariam de que a maioria das palavras abstratas são palavras concretas diluídas e por essa razão teríamos que retroceder sempre que possível à significação concreta original de tais palavras Assim os senhores teriam o prazer de constatar que podem representar a possessão de um objeto pela ação real física de estar sentado sobre o mesmo E a elaboração onírica executa justamente a mesma coisa Em tais circunstâncias dificilmente poderiam esperar uma grande precisão daquilo que os senhores representassem de forma semelhante perdoariam a elaboração onírica por substituir um elemento tão difícil de traduzir em imagens como por exemplo adultério Ehebruch literalmente quebra do casamento por outra quebra a fratura de uma perna Beinbruch E dessa forma os senhores conseguiriam até certo ponto compensar a falta de habilidade expressiva da escrita pictórica que estaria supostamente substituindo a escrita alfabéticaPara representar aquelas partes do discurso que indicam relações entre pensamentos porque portanto entretanto etc os senhores não poderiam contar com semelhante ajuda à sua disposição esses constituintes do texto se perderiam à medida que a tradução os transformasse em imagens Da mesma forma a elaboração onírica reduz o conteúdo dos pensamentos oníricos à sua matériaprima de objetos e de atividade Os senhores se dariam por satisfeitos com haver uma possibilidade de por alguma forma deixar entrever através de sutis detalhes das figuras determinadas relações não em si capazes de ser representadas E é precisamente assim que a elaboração onírica consegue expressar algo do conteúdo dos pensamentos oníricos latentes por meio de peculiaridades na forma do sonho manifesto por sua clareza ou obscuridade por sua divisão em diversas partes e assim por diante O número de partes oníricas em que se divide um sonho geralmente corresponde ao número dos temas principais dos pensamentos no sonho latente Um sonho introdutório curto freqüentemente faz as vezes de prelúdio a um sonho seguinte mais detalhado o sonho principal ou pode proporcionar o motivo para o mesmo uma oração subordinada nos pensamentos oníricos será substituída pela interpolação de uma mudança de cena no sonho manifesto e assim por diante Logo a forma dos sonhos está longe de não ter alguma importância e essa mesma forma exige interpretação Quando diversos sonhos ocorrem durante a mesma noite têm freqüentemente a mesma significação e indicam que está sendo feita uma tentativa de manejar cada vez mais eficazmente um estímulo de crescente insistência Em sonhos separados um elemento especialmente difícil pode estar representado por diversos símbolos por dobletesSe fizermos uma série de comparações entre os pensamentos oníricos e os sonhos manifestos que os substituem encontraremos toda sorte de coisas para as quais estamos despreparados por exemplo que o disparate e o absurdo dos sonhos possuem seu significado Neste aspecto com efeito o contraste entre a visão médica e a psicanalítica dos sonhos apresenta uma discordância que não se encontra em qualquer outra área Segundo o ponto de vista médico os sonhos são desprovidos de sentido porque a atividade mental nos sonhos abandonou todas as suas faculdades de crítica segundo nosso ponto de vista pelo contrário os sonhos se tornam carentes de sentido quando uma parcela de crítica incluída nos pensamentos oníricos um julgamento de que isso é absurdo tem de ser representada O sonho que os senhores conhecem aquele da ida ao teatro três ingressos por 150 florim ver em 1 é um bom exemplo disso O julgamento que expressou era foi absurdo casar tão cedoDe forma semelhante no decurso de nosso trabalho interpretativo percebemos o que é que corresponde às dúvidas e incertezas que tantas vezes se expressam nos sonhos dúvidas sobre saber se determinado elemento ocorreu em um sonho se foi isso ou se pelo contrário foi alguma outra coisa Via de regra nos pensamentos oníricos latentes não há nada correspondente a essas dúvidas e incertezas estas se devem à atividade da censura de sonhos e devem ser identificadas como tentativas de eliminação que não tiveram muito êxitoEntre os achados mais surpreendentes encontrase a maneira como a elaboração onírica trata os contrários que ocorrem nos sonhos latentes Já sabemos ver em 1 e 2 que as semelhanças no material latente são substituídas por condensações no sonho manifesto Pois bem os contrários são tratados da mesma forma que as semelhanças e existe uma especial preferência por expressálos pelo mesmo elemento manifesto Assim um elemento no sonho manifesto capaz de ter o seu contrário com igual facilidade pode estar se expressando a si próprio ou seu contrário ou ambos conjuntamente apenas o sentido pode decidir qual a versão que se deve escolher Isto se vincula com o fato adicional de que nos sonhos não se encontrará uma representação para não ou de qualquer modo uma representação isenta de ambigüidadeUma oportuna analogia com esse estranho comportamento da elaboração onírica nos é proporcionada com a evolução da linguagem Alguns filólogos têm afirmado que nos idiomas mais antigos os contrários tais como fortefraco claroescuro grandepequeno são expressos pelas mesmas raízes verbais É o que denominamos significação antitética de palavras primitivas Assim no idioma egípcio antigo ken originalmente significava forte e fraco No falar evitamse os equívocos provenientes do uso dessas palavras ambivalentes através de diferenças de entonação e de gestos concomitantes e no escrever pelo acréscimo de algo chamado determinativo uma figura que não se destina a ser falada Por exemplo ken com a significação de forte era escrito com a figura de um homenzinho na vertical após os sinais alfabéticos quando ken representava fraco o que se seguia era a figura de um homem instavelmente agachado Foi somente mais tarde por meio de ligeiras modificações da palavra homóloga original que se chegou a duas representações distintas para expressar os contrários nela incluídos Foi assim que de ken fortefraco derivaram ken forte e kan fraco Os remanescentes dessa significação antitética antiga parecem ter sido conservados não somente nas mais recentes evoluções dos idiomas mais primitivos como também nos idiomas mais novos e até mesmo em algumas línguas ainda vivas Aqui estão algumas provas disso retiradas de K Abel 1884No latim palavras que permaneceram ambivalentes são altus alto e profundo e sacer sagrado e malditoComo exemplos de modificações da mesma raiz posso mencionar clamare chorar clam macio sossegado secreto siccus seco succus suco E em alemão Stimme voz stumm mudoSe compararmos línguas afins encontraremos numerosos exemplos Em inglês to lock fechar em alemão Loch buraco e Lücke fresta Em inglês to cleave em alemão kleben aderirA palavra inglesa without que é realmente withwithout com sem é empregada atualmente apenas como without sem O with além de seu sentido de combinar originalmente tinha também o de remover isso ainda se percebe nos compostos withdraw remover e withhold reter De maneira semelhante em alemão wieder junto com e wider contraOutra característica da elaboração onírica também tem seu correspondente na evolução da linguagem No antigo idioma egípcio assim como em outras línguas menos primitivas a ordem dos sons numa palavra pode ser invertida ao mesmo tempo conservando a mesma significação Constituem exemplos disso no inglês e no alemão Topf pot panela boat barco tub banheira barco para prática de remo hurry pressa Ruhe rest descanso Balken beam viga Kloben log tora madeira e club clava wait esperar täuwen tarry esperar demorarse De maneira semelhante encontramos no latim e no alemão capere packen pegar ren Niere rimInversões como essas que ocorrem aqui em palavras isoladas efetuamse de várias maneiras na elaboração onírica Já conhecemos a inversão de significado a substituição de algo pelo seu oposto ver em 1 e 2 Ademais disso nos sonhos encontramos diversões de situações da relação entre duas pessoas um mundo virado de pernas para o ar Muito freqüentemente em sonhos é a caça que atira no caçador Ou então encontramos uma inversão na ordem dos eventos de modo que aquilo que precede causalmente um evento ocorre depois do mesmo no sonho como uma produção teatral realizada por uma companhia de terceira categoria na qual o herói cai morto e o tiro que o matou não é detonado nos bastidores senão bem depois E também há sonhos nos quais a ordem total dos elementos se encontra invertida de forma que para se obter sentido quando de sua interpretação devemos tomar o último elemento em primeiro lugar e o primeiro em último Os senhores também recordam de quando estudamos o simbolismo dos sonhos que entrar ou cair na água significa o mesmo que sair dela isto é dar à luz ou nascer ver em 1 e que subir uma escadaria ou uma escada é a mesma coisa que descêla ver em 1 Não é difícil ver qual a vantagem que a deformação onírica pode auferir desta liberdade de representaçãoEstes aspectos da elaboração onírica podem ser descritos como arcaicos São igualmente característicos dos sistemas antigos de expressão falada e escrita e importam nas mesmas dificuldades que teremos de abordar mais adiante em um sentido críticoAgora mais algumas considerações No caso da elaboração onírica tratase claramente da questão de transformar os pensamentos latentes que são expressos em palavras em imagens sensoriais a maioria na forma de imagens visuais Ora nossos pensamentos originalmente surgiram de imagens sensoriais desta espécie seu primeiro material e seus estádios preliminares foram impressões dos sentidos ou mais propriamente imagens mnêmicas dessas impressões Somente mais tarde as palavras foram vinculadas a essas impressões e as palavras por sua vez vincularamse a pensamentos Assim a elaboração onírica submete os pensamentos a um tratamento regressivo e desfaz a sua evolução e no decorrer da regressão tem de ser eliminado tudo o que foi acrescido como aquisição nova no decorrer da evolução das imagens mnêmicas para pensamentosTal parece ser pois a elaboração onírica Em comparação com os processos que nela vimos a conhecer o interesse pelo sonho manifesto deve perder muito de sua importância Mas dedicarei alguns comentários a este último pois é dele somente que temos conhecimento imediatoÉ natural devermos perder algo do interesse pelo sonho manifesto Para nós será indiferente se ele está bem composto ou se está fracionado em uma série de quadros separados e desconexos Mesmo quando possui um exterior aparentemente inteligível sabemos que isso somente se fez pela deformação onírica e pode ter tão pouca relação orgânica com o conteúdo interno do sonho como a fachada de uma igreja italiana com uma estrutura e sua planta Outras ocasiões há em que esta fachada do sonho tem sua significação e reproduz um importante componente dos pensamentos oníricos latentes com pouca ou nenhuma deformação Mas isso não podemos saber sem primeiro termos submetido o sonho à interpretação e podermos formar um julgamento a partir dessa interpretação do grau de deformação que se realizou Dúvida semelhante surge quando dois elementos em um sonho parecem ter entrado em relação íntima um com o outro Isso talvez nos forneça um valioso indício de que podemos juntar também no sonho latente aquilo que corresponde a esses elementos Em outras ocasiões porém podemos nos convencer de que aquilo que é da mesma classe nos pensamentos oníricos foi disposto separadamente no sonhoEm geral devese evitar a tentativa de explicar uma parte do sonho manifesto por outra como se o sonho tivesse sido concebido coerentemente e fosse uma narrativa com ordenação lógica Pelo contrário via de regra é como um pedaço de brecha composto de diversos fragmentos de rocha unidos por um cimento de modo que os desenhos que nele aparecem não pertencem às rochas originais inclusas E há realmente uma parte da elaboração onírica conhecida como elaboração secundária cuja função é conferir um aspecto de unidade e maior ou menor coerência aos produtos primários da elaboração onírica No transcorrer desta o material é arranjado segundo o que amiúde é um sentido totalmente confuso e onde parece necessário são feitas interpolações Por outro lado não devemos superestimar a elaboração onírica e atribuirlhe demasiada importância As suas realizações que citei resumem toda a sua atividade ela não pode fazer mais que condensar deslocar representar em forma plástica e submeter o todo a uma elaboração secundária O que no sonho aparece como expressão de julgamento crítica surpresa ou interferência nada disso são realizações da elaboração onírica e muito raramente são expressões de pensamentos subseqüentes referentes ao sonho na sua maioria são parcelas de pensamentos oníricos que passaram para o sonho manifesto com maior ou menor grau de modificação e adaptação ao contexto E a elaboração onírica não consegue formar discursos Com algumas exceções destacadas os discursos nos sonhos são cópias e combinações de discursos que alguém ouviu ou enunciou para si próprio no dia anterior ao sonho e que foram incluídos nos pensamentos latentes ou como material ou como instigadores dos sonhos A elaboração onírica também é incapaz de efetuar cálculos Estes quando surgem no sonho manifesto são na maioria combinações de números cálculos simulados muito desprovidos de sentido enquanto cálculos e mais uma vez apenas cópias de cálculos dos pensamentos oníricos latentes Nessas circunstâncias não é de admirar se o interesse que se havia voltado para a elaboração onírica logo tende a se deslocar desta para os pensamentos oníricos latentes que se revelam deformados em grau maior ou menor através do sonho manifesto Mas não existe justificativa para levar tão longe essa mudança de interesse a ponto de considerando o assunto teoricamente substituir o sonho completamente pelos pensamentos oníricos latentes e afirmar sobre aquele alguma coisa que se aplica exclusivamente a estes É estranho que os achados da psicanálise possam prestarse a um mau uso que possibilite confusões Não se pode dar o nome de sonho a nenhuma outra coisa que não seja produto da elaboração onírica isto é a forma em que os pensamentos latentes foram transmutados pela elaboração onírica ver em 1 e segsA elaboração onírica é um processo de tipo muito singular do qual ainda não se tem conhecido similar na vida mental Condensações deslocamentos transformações regressivas de pensamentos em imagens eis os novos fatos cuja descoberta premiou abundantemente os esforços da psicanálise E os senhores podem constatar uma vez mais a partir das comparações com a elaboração onírica as conexões que se revelaram entre os estudos psicanalíticos e outros campos do conhecimento especialmente os referentes à evolução da linguagem e do pensamento Somente poderão formar uma idéia da transcendente importância destas descobertas quando aprenderem que o mecanismo da construção onírica é o modelo segundo o qual se formam os sintomas neuróticosTambém estou cônscio de que ainda não estamos em condições de fazer um apanhado geral do total das novas aquisições com que estes estudos contribuíram para a psicologia Apenas quero assinalar as recentes provas que eles proporcionaram da existência de atos mentais inconscientes pois é isto que são os pensamentos oníricos latentes e assinalar quão inimaginável e amplo acesso a um conhecimento da vida mental inconsciente nos promete a interpretação de sonhosAgora contudo sem dúvida chegou a minha ocasião de demonstrarlhes dentre uma variedade de pequenos exemplos de sonhos para que fim estive preparando os senhores no decorrer destes comentários CONFERÊNCIA XII ALGUMAS ANÁLISES DE AMOSTRAS DE SONHOS SENHORAS E SENHORES Não devem ficar desapontados se mais uma vez apresentolhes fragmentos de interpretações de sonhos em vez de convidálos a tomar parte na interpretação de um lindo e grande sonho Os senhores argumentarão que após tantos preparativos têm esse direito e expressarão sua convicção de que depois de tantos milhares de sonhos terem sido exitosamente interpretados já há muito tempo deveria ter sido possível haver juntado uma coleção de excelentes amostras de sonhos sobre as quais todas as nossas assertivas referentes à elaboração onírica e aos pensamentos oníricos pudessem ser demonstradas Certo As dificuldades que se opõem à realização do desejo dos senhores todavia são muitas Em primeiro lugar devo admitir que ninguém efetua interpretação de sonhos como sua atividade principal Como ocorre então que as pessoas os interpretam Ocasionalmente sem nenhum objetivo em vista alguém pode se interessar por sonhos de um conhecido seu ou alguém pode esquadrinhar seus próprios sonhos durante algum tempo a fim de prepararse para o trabalho psicanalítico mas na maior parte das vezes aquilo com que se tem de lidar são os sonhos de pacientes neuróticos que estão em tratamento psicanalítico Esses sonhos constituem excelente material e de modo algum são inferiores aos de pessoas sadias a técnica do tratamento porém requer que subordinemos a interpretação de sonhos aos objetivos terapêuticos e temos de permitir que bom número de sonhos tenha sido examinado até havermos extraído dos mesmos alguma coisa de utilidade para o tratamento Alguns sonhos que ocorrem durante o tratamento escapam inteiramente a uma análise completa de vez que se originam de um grande acervo de material que ainda nos é desconhecido é impossível entendêlos antes de o tratamento chegar ao término Se eu fosse relatar sonhos deste tipo seria obrigado a desvendar também todos os segredos de uma neurose e isto não nos servirá pois foi precisamente a fim de prepararnos para o estudo das neuroses que enfrentamos o problema dos sonhos Os senhores entretanto gostariam de dispensar essa parte e prefeririam que lhes fosse dada uma explanação dos sonhos de pessoas sadias ou de sonhos dos senhores mesmos Isto contudo não pode ser feito por causa de seu conteúdo É impossível submeter seja a si mesmo seja qualquer outra pessoa de cuja confiança se desfruta a uma exposição impiedosa que adviria a da análise detalhada de seus sonhos os quais como os senhores já sabem referemse à parte mais íntima da personalidade Mas existe ainda outra dificuldade que se opõe afora a de fornecer material Os senhores sabem que os sonhos apresentam uma aparência estranha para o próprio sonhador e ainda mais estranha para quem quer que não o conheça pessoalmente Nossa bibliografia não é pobre de boas e detalhadas análises de sonhos Eu mesmo publiquei algumas dentro do quadro referencial dos casos clínicos Talvez o melhor exemplo de interpretação de um sonho seja o que foi relatado por Otto Rank 1910b consistindo em dois sonhos interrelacionados tidos por uma jovem que ocupam cerca de duas páginas impressas mas sua análise vai a setenta e seis páginas Assim eu deveria necessitar de cerca de um semestre inteiro para conduzilos através de um único trabalho dessa espécie Se se tomar qualquer sonho relativamente longo e muito deformado há que fornecer tantas explicações do mesmo levantar tanto material que surge no curso das associações e das recordações seguir tantas vias secundárias que uma conferência a respeito dele seria muito confusa e insatisfatória Devo portanto pedirlhes que se contentem com o que se pode ter com mais facilidade uma descrição de pequenas parcelas de sonhos de pacientes neuróticos em que é possível reconhecer este ou aquele ponto isoladamente O que é mais fácil de demonstrar são os símbolos oníricos e depois destes algumas características da representação regressiva nos sonhos No caso de cada um dos sonhos que se seguem indicarei o motivo por que penso valer a pena relatálo 1 Este sonho consiste em apenas dois quadros breves O tio dele estava fumando um cigarro embora fosse sábado Uma mulher o acariciava e o acarinhava ao sonhador como se fosse seu filho Com referência ao primeiro quadro a pessoa que sonhou um judeu comentou que seu tio era um homem piedoso que nunca fizera e jamais poderia fazer algo assim pecaminoso No que concerne à mulher no segundo quadro não lhe ocorreu nada à mente exceto sua mãe Esses dois quadros ou pensamentos devem evidentemente ser vistos um em relação ao outro Mas como Visto que ele negou expressamente a realidade da ação de seu tio é plausível inserir um se Se meu tio este homem piedoso viesse a fumar um cigarro em dia de sábado então eu também poderia permitirme ser acarinhado pela minha mãe Isto significa evidentemente que trocar carícias com sua mãe se constituía em algo não permissível como não seria permissível a um judeu piedoso fumar no sábado Os senhores se lembram de que eu lhes disse ver em 1 e 2 que no decurso da elaboração onírica todas as relações entre os pensamentos oníricos são eliminadas elas se dissipam dentro da matériaprima destes e compete à interpretação reinserir as relações omitidas 2 Em conseqüência de minhas publicações sobre sonhos torneime em certo sentido consultor público sobre assuntos referentes a eles e por muitos anos venho recebendo comunicações das mais variadas origens em que sonhos me são relatados ou submetidos a meu julgamento Naturalmente sou grato a todo aquele que acrescenta ao sonho material suficiente para possibilitar uma interpretação ou que dá ele próprio uma interpretação O sonho que se segue sonhado por um estudante de medicina de Munique e datando do ano de 1910 enquadrase nesta categoria Apresentoo para lhes mostrar como em geral é impossível compreender um sonho enquanto o sonhador não nos der as informações pertinentes Pois suspeito que no fundo os senhores pensam que o método ideal de interpretação de sonhos consistiria em preencher a significação dos símbolos e que gostariam de prescindir da técnica de obter associações com os sonhos e estou desejoso de dissuadilos desse equívoco nocivo13 de julho de 1910 Pela manhã tive este sonho Eu estava andando de bicicleta por uma rua de Tübingen quando um cão rasteiro de cor marrom se lançou ao meu encalço e me atacou no calcanhar Logo desci da bicicleta sentei num degrau e comecei a espancar o animal que me mordia com firmeza Não tive qualquer sentimento desagradável nem pela mordida nem pela cena como um todo Algumas senhoras mais idosas estavam sentadas no outro lado da rua em frente e riam de mim mostrando os dentes Então acordei e como tantas vezes me aconteceu no momento da transição para o despertar o sonho todo se me tornou claro Aqui os símbolos são de pouca ajuda O mesmo estudante porém relatou Recentemente me apaixonei por uma jovem mas apenas pude vêla na rua e não tive meios de falarlhe O cão rasteiro poderia ser o meio mais agradável de conseguir isso especialmente porque tenho grande afeição por animais e gostei dessa mesma característica na jovem Acrescentou que ele repetidamente havia intervindo em furiosas brigas de cães com grande habilidade e muitas vezes para surpresa dos circunstantes Sabemos também que a jovem pela qual ele se sentia atraído sempre era vista na companhia de seu cão de estimação No que tange o sonho manifesto porém a jovem foi omitida e somente restou o cão que ele associava a ela As senhoras de idade que se riam dele talvez possam estar em lugar da jovem Seus outros comentários não esclareceram adequadamente este ponto O fato de no sonho ele estar andando de bicicleta é uma repetição direta da situação recordada Ele nunca encontrou a jovem com o cão a não ser quando ele estava andando de bicicleta 3 Quando se perde alguém que é de nossas relações e nos é caro surgem sonhos de um tipo especial durante algum tempo após nos quais o conhecimento da morte chega às mais estranhas conciliações com a necessidade de trazer novamente à vida a pessoa morta Em alguns desses sonhos a pessoa que morreu está morta e ao mesmo tempo permanece viva porque não sabe que está morta somente se soubesse morreria completamente Em outros a pessoa está meio morta e meio viva e cada um desses estados vem indicado por uma forma particular Não devemos descrever esses sonhos como simplesmente absurdos pois ser devolvido novamente à vida não é mais inconcebível nos sonhos do que o é por exemplo em contos de fadas nos quais isso ocorre como fato muito rotineiro Sempre que pude avaliar tais sonhos constatei que eles são passíveis de uma solução racional contudo o piedoso desejo de fazer retornar à vida a pessoa morta conseguiu operar pelos mais estranhos meios Apresentarlhesei agora um sonho desse tipo que parece tão esquisito e absurdo e no entanto sua análise lhes mostrará muitas coisas para as quais nossas explicações teóricas os terão preparado É o sonho de um homem que havia perdido seu pai vários anos antes Seu pai estava morto mas havia sido exumado e parecia estar mal Tinha estado vivendo desde então e o homem no sonho fazia todo o possível para evitar que o pai percebesse O sonho continuava com outros assuntos aparentemente muito diferentes Seu pai estava morto sabemos disso O ter sido exumado não corresponde à realidade e não havia nada de realidade em tudo o que se seguia O sonhador porém relatou que após ter voltado dos funerais do pai um de seus dentes começou a doer Ele queria tratar o dente segundo o preceito da doutrina judaica Se teu dente incomoda arrancao E ele foi ao dentista Mas o dentista disse Não se arranca um dente Devese ter paciência com ele Porei dentro dele algo que o mate volte em três dias e eu o extrairei Esse extrair disse o homem que teve o sonho é exumar Será que o homem estava certo do que dizia Isso apenas se adapta mais ou menos não completamente pois não foi extraído o dente foi extraído apenas algo nele que morrera No entanto imprecisões deste tipo podem com prova em outras experiências ser atribuídas à elaboração onírica Sendo assim o homem que teve este sonho condensara seu pai morto e o dente que havia sido morto porém conservado ele os fundiu numa unidade Não é de causar admiração portanto que algo de absurdo emergisse no sonho manifesto de vez que afinal nem tudo que se disse do dente poderia ajustarse a seu pai Onde pode haver talvez um tertium comparationis ver em 1 anterior entre o dente e seu pai para que se tornasse possível a condensação Entretanto sem dúvida ele deve ter tido razão pois prosseguiu dizendo que sabia que sonhar com a queda de um dente significa que se vai perder um membro da família Essa interpretação popular como sabemos é incorreta ou pelo menos correta somente em sentido grosseiro Todos ficaremos muito surpresos por encontrar pois o assunto assim abordado reaparecendo agora em outras partes do conteúdo do sonhoEste sonhador sem nenhum outro encorajamento começou a falar na doença e na morte de seu pai bem como a respeito de suas próprias relações com ele Seu pai esteve doente durante longo tempo e os cuidados e o tratamento tinhamlhe custado ao filho grande soma de dinheiro Não obstante nunca era demais ele jamais se impacientou jamais desejou que afinal tudo pudesse logo chegar ao fim Orgulhavase de sua verdadeira dedicação filial judaica para com o pai de sua estrita obediência à lei judaica E aqui nos surpreendemos com uma contradição existente nos pensamentos pertinentes ao sonho Ele havia identificado o dente com seu pai Devia proceder com o dente segundo a lei judaica que lhe ordenava arrancálo se lhe causasse dor ou incômodo Desejava também proceder do mesmo modo com seu pai segundo os preceitos da lei neste caso porém ela lhe ordenava não poupar gastos nem atribulações assumir todo o encargo sobre si mesmo e não permitir que alguma intenção hostil emergisse contra o objeto que lhe estava causando sofrimento Será que as duas atitudes não teriam sido conciliadas muito mais convincentemente se ele tivesse realmente desenvolvido sentimentos para com seu pai doente semelhantes àqueles com relação a seu dente doente isto é se tivesse desejado que a morte se antecipasse e pusesse fim à sua existência desnecessária dolorosa e custosa Não duvido de que era esta realmente sua atitude para com seu pai durante a fatigante doença e que suas altivas afirmações de amor filial se destinavam a desviálo dessas lembranças Sob essas condições o desejo de morte contra um pai está pronto a entrar em atividade e esconderse sob o disfarce dessas reflexões caridosas tais como seria um feliz alívio para ele Mas por favor observem que nisso ultrapassamos uma barreira existente nos próprios pensamentos oníricos latentes Sem dúvida a primeira parte dos mesmos esteve inconsciente apenas temporariamente isto é durante a construção do sonho seus impulsos hostis contra o pai contudo devem ter sido permanentemente inconscientes Podem terse originado de cenas de sua infância e ocasionalmente emergiram como conscientes tímida e disfarçadamente durante a doença do pai Isto podemos afirmar com grande certeza acerca de outros pensamentos latentes que contribuíram inequivocamente para o conteúdo do sonho Nada realmente deve ser descoberto no sonho sobre seus impulsos hostis para com seu pai Se porém procurarmos na infância as raízes dessa hostilidade contra um pai nos recordaremos de que o medo ao pai tem início nos primeiros anos de vida porque este se opõe às atividades sexuais do menino exatamente como terá de acontecer mais uma vez por motivos sociais após a idade púbere Essa relação com o pai aplicase também a esse nosso sonhador o amor pelo pai incluía uma estranha mescla de reverência e temor que tinha sua origem no fato de quando menino por meio de ameaças ter sido tolhido em sua atividade sexualAs frases restantes do sonho manifesto podem ser explicadas agora em relação ao complexo da masturbação Ele parecia estar mal é realmente uma alusão a uma outra observação do dentista no sentido de que parece mau alguém perder um dente nessa parte da boca mas referese ao mesmo tempo ao parecer estar mal pelo qual um jovem na puberdade revela ou receia revelar sua atividade sexual excessiva Não foi sem alívio para seus próprios sentimentos que no conteúdo manifesto este que sonhou deslocou o parecer estar mal de si mesmo para seu pai um dos tipos de inversão feitos pela elaboração onírica que os senhores já conhecem ver em 1 Tinha estado com vida desde então coincide com o desejo de trazer de volta à vida assim como coincide com a promessa do dentista de que o dente sobreviveria A frase o sonhador fazia todo o possível para evitar que ele o pai percebesse é muito sutilmente arquitetada para nos desorientar fazendonos pensar que ela deveria ser completada com as palavras que ele estava morto A única completação entretanto que faz sentido provém uma vez mais do complexo de masturbação em relação a isto é evidente que o jovem fez tudo quanto pôde para ocultar de seu pai sua vida sexual E finalmente lembremse de que sempre devemos interpretar os chamados sonhos com um estímulo dental como sendo relacionados com masturbação e com o temido castigo correspondente ver em 1 Agora podem ver como esse sonho incompreensível se efetuou Fezse produzindo uma condensação estranha e desorientadora desprezando todos os pensamentos que estavam no centro do processo de pensamentos latentes e criando substitutos ambíguos para os mais profundos e cronologicamente mais remotos desses pensamentos4 Já tentamos repetidamente chegar a compreender os sonhos triviais e comuns que nada têm de absurdo ou estranho em sua aparência mas nos fazem perguntar por que alguém iria sonhar com matéria tão indiferente assim ver em 1 2 e 3 Por isso lhes ofereço outro exemplo deste tipo três sonhos em interconexão tidos por uma jovem senhora em uma só noitea Ela estava caminhando pelo salão de sua casa e bateu com a cabeça num lustre que pendia a baixa altura e começou a sangrar Nenhuma reminiscência nada que lhe houvesse realmente acontecido As informações que deu em resposta ao sonho conduziram a direções bem diferentes O senhor sabe como meu cabelo está caindo Minha filha disseme ontem minha mãe use isso continua desse jeito você vai ficar com a cabeça tão lisa como um traseiro Dessa forma aqui a cabeça está em lugar da outra extremidade do corpo Podemos entender o lustre sem qualquer ajuda como sendo um símbolo todos os objetos capazes de serem encompridados são símbolos do órgão masculino ver em 1 Tratavase portanto da questão do sangramento na extremidade inferior do corpo decorrência de contato com o pênis Isto ainda poderia ser ambíguo Suas posteriores associações mostraram que estava em questão algo referente à crença de que o sangramento menstrual se origina da relação sexual com um homem um fragmento de teoria sexual que conta com muitas crentes fiéis entre jovens imaturas b Ela via no parreiral um buraco fundo que ela sabia ter sido causado pelo arrancamento de uma árvore Acrescentou um comentário de que a árvore estava faltando Ela quis dizer que não tinha visto a árvore no sonho mas as mesmas palavras serviram para exprimir um outro pensamento que tornou a interpretação de símbolos muito certa O sonho se referia a uma outra parte da teoria sexual a crença de que as meninas originalmente tinham os mesmos genitais que os meninos e que sua forma ulterior foi conseqüência da castração o arrancamento de uma árvore c Ela estava de pé em frente à gaveta de sua escrivaninha que ela conhecia tão bem a ponto de poder dizer imediatamente se alguém ali havia penetrado Como todas as gavetas cofres e caixas a gaveta da escrivaninha significava os genitais femininos ver em 1 Ela sabia que os sinais de relação sexual e segundo pensava de tocar podiam ser observados nos genitais e por muito tempo havia temido tal descoberta Em todos estes três sonhos penso que a ênfase deve ser posta no conhecimento Ela estava recordando o período de suas investigações sexuais quando era criança de cujo resultado naqueles tempos muito se orgulhava5 Aqui se apresenta mais um pouco de simbolismo Desta vez porém devo começar com um breve preâmbulo da situação psíquica Um cavalheiro que havia passado a noite mantendo relações sexuais com uma mulher descreveua como uma dessas personagens maternas em quem o desejo por um filho irrompe irresistivelmente na relação com um homem As circunstâncias desse encontro no entanto exigiam uma precaução que impedisse o sêmen fertilizante de atingir o útero da mulher Ao acordar após essa noite a mulher relatou o seguinte sonho Um oficial com uma capa vermelha corria atrás dela na rua Ela fugia dele e subiu correndo os degraus e ele sempre atrás Ofegante chegou a sua casa bateu a porta atrás de si e trancoua Ele permaneceu do lado de fora e quando ela olhou através da vigia da porta ele estava sentado num banco e chorava Sem dúvida os senhores reconhecerão a perseguição pelo oficial com a capa vermelha e a subida ofegante dos degraus da escada como representação do ato sexual ver em 1 O fato de ter sido a própria mulher do sonho que se trancou a si mesma para se livrar de seu perseguidor servirá como exemplo das inversões tão comumente utilizadas nos sonhos ver em 1 pois foi o homem quem evitara a consumação do ato sexual Da mesma maneira a tristeza dela tinha sido deslocada para o homem pois era este quem chorava no sonho e isto era simultaneamente uma representação da emissão de sêmen Estou certo de que os senhores ouviram uma vez ou outra a psicanálise afirmar que todo sonho tem uma significação sexual Pois bem os senhores mesmos estão em condições de formar um julgamento da incorreção dessa acusação Os senhores vieram a conhecer sonhos plenos de desejos que lidam com a satisfação das necessidades mais óbvias fome e sede e ânsia de liberdade sonhos de conveniência e de impaciência e também sonhos puramente gananciosos e egoístas Mas ao mesmo tempo os senhores deveriam ter em mente como um dos resultados da investigação psicanalítica que sonhos grandemente deformados proporcionam expressão principalmente embora também não exclusivamente a desejos sexuais 6 Tenho um motivo especial para colecionar exemplos do uso dos símbolos nos sonhos Em nossa primeira conferência ver em 1 e segs eu lamentava a dificuldade de proporcionar demonstrações e assim de conferir convicção ao dar ensinamentos sobre psicanálise E não tenho dúvidas de que os senhores desde então tenham concordado comigo As diversas teses da psicanálise estão contudo em tão íntima conexão que as provas podem com facilidade ser estendidas de um único ponto até um ponto maior do todo Da psicanálise poderseia dizer que se alguém lhe mostra um só dedo mínimo ela imediatamente lhe agarra a mão inteira E mesmo ninguém que tenha aceito a explicação das parapraxias pode logicamente refrear sua crença em tudo o mais Uma segunda situação igualmente acessível é oferecida pelo simbolismo onírico Aqui está o sonho de uma mulher sem instrução cujo marido era um policial e que certamente jamais tinha ouvido falar qualquer coisa sobre simbolismo onírico ou psicanálise Depois julguem por si mesmos se a explicação do sonho com auxílio dos simbolismos sexuais pode ser chamada de arbitrária e forçada Então alguém penetrou na casa e ela assustouse e chamou um policial Mas ele entrara tranqüilamente numa igreja à qual se chegava por certo número de degraus acompanhado de dois vagabundos Atrás da igreja havia uma colina e acima um cerrado bosque O policial usava um capacete gola com placa de bronze e capote Tinha a barba castanha Os dois vagabundos que acompanhavam pacificamente o policial tinham aventais semelhantes a sacos atados em torno da cintura Em frente da igreja um caminho conduzia até a colina em ambos os lados cresciam relva e mato rasteiro que se tornavam cada vez mais espessos e no alto da colina se transformavam num bosque comumOs senhores não terão problemas em reconhecer os símbolos utilizados Os genitais masculinos são representados por uma tríade de personagens e os genitais femininos por um cenário com uma capela um monte e uma floresta Mais uma vez os senhores encontram degraus como símbolo do ato sexual O que no sonho é chamado de monte é também chamado de monte na anatomia o Mons Veneris o monte de Vênus7 E aqui está mais um sonho que deve ser solucionado pela inserção de símbolos É notável e convincente pelo fato de a própria pessoa que o sonhou haver traduzido todos os símbolos embora não tivesse qualquer espécie de conhecimento teórico prévio da interpretação de sonhos Tal atitude é bastante incomum e suas causas determinantes não foram precisamente compreendidasEle estava passeando a pé com seu pai num lugar que certamente deve ter sido o Prater pois viu a Rotunda com um pequeno anexo em frente à qual estava amarrado um balão cativo embora este parecesse flácido Seu pai perguntoulhe para que servia tudo isso ele ficou surpreso com a pergunta mas explicoulhe Então entraram num pátio em que havia uma grande folha de flandres estendida Seu pai quis arrancar um pedaço grande da mesma porém primeiro olhou em volta para ver se havia alguém observando Ele lhe disse que ele apenas precisava falar ao capataz e poderia levar uma parte da folha sem qualquer problema Uma escada descia desse pátio para um poço de mina cujas paredes estavam almofadadas com um material macio bem semelhante a uma poltrona de couro No fim do poço de mina havia uma comprida plataforma e depois mais outro poço de mina começava O próprio sonhador interpretouo A Rotunda eram os meus genitais e o balão cativo em frente da mesma era meu pênis de cuja flacidez tenho motivos para me queixar Entrando em maiores detalhes portanto podemos traduzir a Rotunda como o traseiro habitualmente considerado pelas crianças como fazendo parte dos genitais e o pequeno anexo em frente da mesma como o escroto Seu pai perguntoulhe no sonho para que servia tudo isso ou seja qual a finalidade e função dos genitais Pareceu plausível inverter a situação e transformar a pessoa que sonhou na pessoa que pergunta Visto como ele nunca havia feito perguntas a seu pai neste sentido temos de considerar o pensamento onírico como um desejo ou tornálo como oração condicional tal como Se eu tivesse perguntado a meu pai sobre explicações sexuais Logo mais encontraremos a continuação deste pensamento em outra parte do sonho O pátio onde estava estendida a folha de flandres não deve ser tomado simbolicamente à primeira vista Derivava dos locais de negócios do pai desse sonhador Por motivos de discrição substituí folha de flandres por outro material com que seu pai realmente lidava mas não fiz nenhuma outra alteração no sonho Ele havia entrado no negócio de seu pai e tinha feito sérias objeções às práticas um tanto duvidosas das quais dependiam em parte os lucros da firma Conseqüentemente o pensamento onírico que acabei de interpretar pode ser retomado desta maneira Se eu lhe tivesse perguntado ele me teria logrado da mesma forma como logra seus fregueses Com relação ao arrancar que serviu para representar a desonestidade de seu pai no negócio o sonhador deu uma segunda explicação ou seja que representava a masturbação Não somente há muito tempo estávamos familiarizados com essa interpretação como também havia algo para confirmála no fato de que a natureza secreta da masturbação estava representada pelo seu inverso podia ser efetuada em público Tal como era de se esperar a atividade masturbatória mais uma vez se deslocou para o pai do sonhador assim como sucedera com o aspecto de fazer perguntas na primeira cena do sonho Ele prontamente interpretou o poço de mina como sendo uma vagina tendo em conta o revestimento macio de suas paredes Acrescentei com base na minha autoridade ver em 1 que descer assim como subir em outros casos descrevia o coito na vagina O próprio personagem desta história deu uma explicação biográfica dos demais detalhes de o primeiro poço de mina ser seguido de uma plataforma comprida e de mais outro poço de mina Ele vinha mantendo relações sexuais durante certo tempo mas depois abandonouas por causa de inibições e agora esperava conseguir reencetálas com o auxílio do tratamento8 Os dois sonhos seguintes foram sonhados por um estrangeiro que vivia numa situação altamente polígama Reproduzoos para os senhores como prova de minha afirmação ver em 1 de que o próprio ego de quem o sonhou aparece em cada um de seus sonhos ainda que escondido no conteúdo manifesto As malas nestes sonhos eram símbolos de mulheresa Ele estava iniciando uma viagem sua bagagem era levada à estação numa carruagem numerosas malas empilhadas e entre elas duas malas pretas semelhantes a malas de amostras Ele disse a alguém em tom de consolo Bem elas só vão comigo até a estaçãoEle realmente viajava com grande quantidade de bagagem mas também trazia consigo para o tratamento muitíssimas histórias referentes a mulheres As duas malas pretas correspondiam a duas mulheres negras que nessa época estavam desempenhando o principal papel na sua vida Uma delas quis acompanhálo a Viena e por orientação minha ele havia telegrafado para ela não virb Uma cena que se passa na alfândega Um outro viajante abriu seu baú e fumando indiferentemente um cigarro disse Não há nada aí dentro O funcionário aduaneiro pareceu acreditar nele mas voltou a apalpar o interior do baú e encontrou algo muito especialmente proibido O viajante disse com voz resignada O que é que se vai fazerEle próprio era o viajante eu era o funcionário da alfândega Via de regra ele era muito franco em admitir determinadas coisas mas tencionava comigo manter silêncio a respeito de uma ligação recente que havia iniciado com uma senhora porque com razão supunha que ela não me fosse desconhecida Ele deslocou para um estranho a desagradável situação de ser descoberto de modo que ele próprio parecia não surgir no sonho 9 Aqui está um exemplo de um símbolo que ainda não mencionei Ele encontrou sua irmã em companhia de duas amigas que eram também elas irmãs Cumprimentou com um aperto de mão a ambas mas não a sua irmã Nenhuma conexão com alguma ocorrência real Seus pensamentos porém o levaram de volta isto sim a um período no qual suas observações fizeramno refletir quão tardiamente se desenvolviam os seios das meninas Assim as duas irmãs eram seios ele teria desejado agarrálos com sua mão desde que não se tratasse de sua irmã 10 E agora um exemplo de simbolismo da morte num sonho Ele estava caminhando com duas pessoas cujos nomes sabia mas esquecera ao acordar por uma ponte de ferro muito alta e íngreme De repente elas desapareceram e ele viu um homem parecido com um fantasma envolto numa capa e numa roupagem de linho Perguntoulhe se ele era o mensageiro do telégrafo Não Era ele o cocheiro Não Então continuou andando Enquanto ainda estava sonhando sentia uma aguda ansiedade e após haver acordado continuou o sonho com uma fantasia de que a ponte de ferro se rompia de repente e ele caía no espaço Pessoas de quem se insiste em dizer que são desconhecidas ou cujos nomes não são lembrados são na sua maioria pessoas próximas Este sonhador tinha um irmão e uma irmã e se ele desejasse que estes dois estivessem mortos não seria mais que justo que em troca ele devesse ser vítima do medo da morte Sobre o mensageiro do telégrafo comentou que uma pessoa assim sempre traz más notícias Pelo seu uniforme poderia igualmente ter sido o acendedor de lampião entretanto ele também os apaga da mesma forma como o Espírito da Morte apaga a chama da vida O cocheiro fêlo pensar no poema de Uhland sobre a Viagem do Rei Carlos e fêlo recordarse de uma perigosa viagem por mar com dois companheiros durante a qual ele tinha feito a parte do rei no poema A ponte de ferro levouo a pensar num recente desastre e no tolo ditado A vida é uma ponte pênsil 11 O sonho seguinte pode contarse como mais uma entre as representações da morteUm cavalheiro desconhecido entregoulhe um cartão de visitas tarjado de negro12 Os senhores estarão interessados no seguinte sonho por diversos motivos embora um estado neurótico na pessoa que o sonhou tenha sido uma de suas precondiçõesEle estava viajando de trem O trem fez uma parada em campo aberto Pensou que estava por suceder um desastre e que devia tratar de fugir Percorreu todos os carros do trem e matou a todos que encontrou o guarda o maquinista e assim por dianteCom relação a isto ele pensou em uma história que lhe contara um amigo Um louco estava sendo conduzido em um vagão de trem na Itália contudo por descuido deixouse que um viajante ficasse com ele no mesmo compartimento O louco matou o viajante Assim ele estava identificandose com o louco e seu motivo de agir assim ele o baseou em uma obsessão que o atormentava de tempos em tempos de que ele devia livrarse de todas as testemunhas cúmplices Ele próprio porém então encontrou um motivo melhor e isso foi o que levou à causa desencadeante do sonho A noite anterior no teatro mais uma vez viu a jovem com quem desejara casar mas havia desistido porque ela lhe dera motivos para ciúme Em face da intensidade atingida por seu ciúme pensou ele estaria realmente louco para querer casar com ela Isto significava que ele a considerava tão indigna de confiança que em seu ciúme ele teria de matar todos os que estivessem no seu caminho Já encontramos o caminhar através de uma série de quartos aqui carros do trem como símbolo de casamento uma inversão de monogamiaCom relação à parada do trem em campo aberto e ao medo de acidente disse que certa vez quando se encontrava numa viagem de trem tinha havido uma súbita parada nessas circunstâncias quando não estavam na estação Uma jovem senhora que viajava com ele dissera que podia ser iminente uma colisão e que o mais seguro era manter as pernas levantadas Este manter as pernas levantadas tinha tido contudo seu papel nos muitos passeios a pé e excursões pelo campo que ele tinha feito com a outra jovem nos primeiros dias felizes de seu amor Este era um novo argumento para pensar que ele estava louco para casar com ela agora Meu conhecimento da situação deume a certeza de que não obstante ele desejava estar suficientemente louco para casar com ela CONFERÊNCIA XIII ASPECTOS ARCAICOS E INFANTILISMO DOS SONHOS SENHORAS E SENHORES Comecemos mais uma vez partindo da conclusão a que chegamos de que a elaboração onírica sob a influência da censura dos sonhos transpõe a ordem dos pensamentos oníricos latentes para um modo de expressão diferente Os pensamentos latentes não diferem dos nossos conhecidos pensamentos conscientes da vida desperta O novo modo de expressão nos é incompreensível devido a muitos de seus aspectos Temos dito que ele retorna a estados de nossa evolução intelectual que há muito foram suplantados à linguagem por imagens às conexões simbólicas a condições que talvez existiram antes de se desenvolver nossa linguagem de pensamento Temos descrito por essa razão o modo de expressão da elaboração onírica como arcaico ou regressivo ver em 1 e seg Os senhores podem concluir com isto que se estudarmos mais a elaboração onírica deveremos conseguir lograr valioso esclarecimento dos poucos conhecidos inícios de nosso desenvolvimento intelectual Espero que assim seja contudo este trabalho até agora não foi iniciado A préhistória à qual a elaboração onírica nos faz retroceder é de duas espécies de um lado à préhistória do indivíduo sua infância e de outro lado até onde cada indivíduo de alguma maneira recapitula em forma abreviada todo o desenvolvimento da espécie humana também à préhistória filogenética Conseguiremos distinguir qual parte dos processos mentais latentes deriva do período préhistórico do indivíduo e qual a parte proveniente da préhistória filogenética Penso não ser impossível conseguilo A mim por exemplo pareceme que as conexões simbólicas que o indivíduo jamais adquiriu por aprendizado podem com razão exigir serem consideradas como herança filogenética Esta porém não é a única característica arcaica do sonho Naturalmente os senhores todos conhecem bem a extraordinária amnésia da infância Quero dizer com isso que os primeiros anos de vida até a idade de cinco seis ou oito anos não deixaram atrás de si em nossa memória marcas como as das experiências posteriores Aqui e ali é verdade encontramos pessoas que se podem gabar de uma memória contínua desde os primeiros começos até o dia de hoje mas a outra alternativa de lacunas na memória é de longe a mais freqüente Em minha opinião não tem havido suficiente surpresa com referência a esse fato Na época em que uma criança tem dois anos de idade ela consegue falar bem e logo mostra que está à vontade em situações mentais complicadas e faz comentários que se lhe forem referidos muitos anos mais tarde ela mesma terá esquecido Ademais disso a memória é mais eficiente em tenra idade pois está menos sobrecarregada do que estará mais tarde E não existe qualquer motivo para considerar a função da memória uma atividade mental especialmente elevada ou difícil pelo contrário podemos encontrar uma boa memória em pessoas de nível intelectual muito baixoUm segundo fato notável para o qual devo chamar sua atenção e que se aflora do primeiro é que de permeio ao vazio de memórias que abrange os primeiros anos da infância sobressaem algumas recordações bem preservadas na maioria percebidas em forma plástica que não podem explicar sua sobrevivência Nossa memória lida com o conteúdo das impressões que nos atingem posteriormente na vida fazendo uma seleção das mesmas Ela retém o que possui alguma importância e elimina o que carece de importância Isto porém não procede para as lembranças da infância que foram conservadas Elas não correspondem necessariamente às experiências importantes dos anos da infância nem mesmo àquelas experiências que devem ter parecido importantes do ponto de vista da criança Freqüentemente são tão banais e insignificantes que apenas podemos nos perguntar surpresos por que esse detalhe especial escapou ao esquecimento Há muito tempo com auxílio da análise procurei enfrentar o enigma da amnésia infantil e das memórias residuais que a interrompem e cheguei à conclusão de que mesmo no caso de crianças malgrado tudo é verdade que somente permanece na memória aquilo que é importante Pelos processos que os senhores já conhecem de condensação e mais especialmente de deslocamento aquilo que é importante é contudo substituído na memória por alguma outra coisa que parece sem importância Por essa razão denominei a essas lembranças da infância lembranças encobridoras e com uma análise minuciosa pode ser extraído delas tudo o que foi esquecido Nos tratamentos psicanalíticos invariavelmente nos defrontamos com a tarefa de preencher essas lacunas na memória da infância e na medida em que o tratamento de alguma forma tem êxito ou seja muito freqüentemente também temos êxito em trazer à luz o conteúdo desses anos da infância esquecidos Tais impressões realmente jamais foram esquecidas eram apenas inacessíveis latentes e tinham formado parte do inconsciente Pode suceder porém elas emergirem do inconsciente espontaneamente e isto sucede em relação aos sonhos Parece que a vida onírica sabe como obter acesso a essas experiências latentes infantis Excelentes exemplos disto foram relatados na literatura e eu mesmo pude trazer uma contribuição desse teor Uma vez sonhei em certa circunstância com uma pessoa que devia terme prestado um serviço e que vi claramente à minha frente Era um homem com um olho só de baixa estatura forte e com a cabeça profundamente enterrada nos ombros Pelo contexto concluí que se tratava de um médico Felizmente pude perguntar a minha mãe que ainda vivia com quem se parecia o médico da minha terra natal que eu deixara quando tinha três anos de idade e eu soube por ela que ele tinha um olho só era baixo forte e tinha a cabeça enterrada fundo nos ombros e também soube qual o acidente em decorrência do qual ele viera em meu auxílio e que eu mesmo havia esquecido Esse fato de os sonhos terem à sua disposição o material esquecido dos primeiros anos da infância é pois mais um aspecto arcaicoEssa mesma parcela de informação pode ademais ser aplicada a um outro enigma com que nos temos defrontado Os senhores se recordam do assombro causado pela nossa descoberta de que os sonhos são provocados por desejos ativamente maus e extravagantemente sexuais que tornaram necessária a censura e a deformação dos sonhos ver em 1 e segs Ao interpretarmos um sonho desse tipo àquele que o sonhou e se na melhor das hipóteses o sonhador não atacar realmente a interpretação ele ainda assim regularmente levanta a questão da proveniência desses desejos de vez que estes lhe parecem alheios e aquilo de que está cônscio é o oposto desses desejos Não devemos hesitar em assinalar a origem dos mesmos Esses impulsos de desejos maus são originários do passado e freqüentemente de um passado não tão remoto Podese demonstrar que houve uma época em que eles eram corriqueiros e conscientes embora atualmente não o sejam mais Uma mulher cujo sonho significava que desejava ver sua filha única agora com dezessete anos de idade morta em sua presença verificou com nosso auxílio que ela realmente em certa época abrigava esse desejo de morte A filha era fruto de um casamento infeliz que logo se dissolvera De certa feita quando ainda trazia essa filha em seu ventre num acesso de raiva e após uma cena violenta com seu marido ela golpeara com seus próprios punhos seu corpo a fim de matar a criança que estava dentro Quantas mães que amam seus filhos ternamente hoje em dia talvez com excessiva ternura conceberamnos contra a vontade e à época desejaram que o ser vivo dentro delas não mais se desenvolvesse Podem até mesmo ter expresso esse desejo em ações diversas felizmente inofensivas Assim seu desejo de morte contra alguém que amam desejo que depois é tão misterioso originase dos primeiros dias de seu relacionamento com essa pessoaDa mesma forma um pai teve um sonho que legitimou a interpretação de que ele desejava a morte de seu filho predileto o mais velho Ele também foi levado a recordar que houvera uma época em que tal desejo não lhe era estranho Quando o filho era ainda uma criança de colo este pai descontente com a esposa que escolhera amiúde pensava que se a pequena criatura que nada significava para ele viesse a morrer mais uma vez ficaria livre e faria melhor uso de sua liberdade A mesma origem pode ser demonstrada no caso de grande número de impulsos de ódio semelhantes são recordações de algo pertencente ao passado que numa época foi consciente e desempenhou seu papel na vida mental Os senhores tenderão a disso concluir que esses desejos e esses sonhos não deveriam aparecer naqueles casos em que nunca ocorreram transformações desse tipo nas relações com alguém em que o relacionamento foi do mesmo tipo desde o início Estou disposto a admitir esse fato devo porém lembrarlhes que precisam ter em consideração não o enunciado do sonho mas seu sentido após o sonho haver sido interpretado É possível que um sonho manifesto com a morte de alguma pessoa amada simplesmente tenha assumido uma máscara aterradora e possa significar algo muito diferente ou que a pessoa amada sirva como substituto destinado a confundir a identidade de alguma outra pessoa Este mesmo tema pode contudo sugerir uma outra questão muito mais séria Ainda que os senhores dirão este desejo de morte se encontrasse presente em determinada época e seja confirmado pela lembrança isso ainda não constitui explicação Afinal há muito que foi ultrapassado e atualmente só pode estar presente no inconsciente como alguma outra recordação qualquer desprovida de conteúdo emocional e não como um impulso poderoso Nada fala em favor desta última possibilidade Por que então foi recordado no sonho Esta pergunta pode surgir e com razão Uma tentativa de respondêla nos levaria demasiado longe e exigiria que assumíssemos uma posição em um dos pontos mais importantes da teoria dos sonhos Vejome no entanto obrigado a manterme dentro do quadro de referências de nossa exposição e usar de moderação Assim preparemse para uma desistência provisória Contentemonos com a evidência efetiva de esse desejo que ficou para trás poder ser demonstrado como sendo o causador do sonho e prossigamos com nossa investigação para saber se outros desejos maus podem de modo semelhante ser remontados ao passadoDeternosemos nesses desejos de eliminar alguém os quais em sua maioria podem ser atribuídos ao desenfreado egoísmo do sonhador Um desejo desse tipo muito amiúde pode ser apontado como o maquinador de um sonho Sempre que alguém no decurso da vida se interpõe no caminho de uma pessoa e como é freqüente isso acontecer face à complexidade dos relacionamentos de uma pessoa um sonho logo se prontifica a matar esse alguém mesmo que se trate do pai ou da mãe do irmão ou da irmã do marido ou da esposa Essa maldade da natureza humana surgiunos para grande surpresa nossa e decididamente não estávamos propensos a aceitar sem indagações esse resultado da interpretação de sonhos No entanto assim que fomos levados a procurar a origem desses desejos no passado descobrimos o período do passado do indivíduo quando não havia ainda nada de estranho em tal egoísmo e em tais impulsos plenos de desejos dirigidos até mesmo contra os parentes mais próximos São as crianças e precisamente nesses primeiros anos mais tarde velados pela amnésia que freqüentemente manifestam um tal egoísmo em grau extremamente marcado e invariavelmente mostram evidentes rudimentos ou expressandose com maior correção resíduos dele As crianças amam em primeiro lugar a si próprias e apenas mais tarde é que aprendem a amar os outros e a sacrificar algo de seu ego aos outros As próprias pessoas a quem uma criança parece amar desde o início no começo são amadas pela criança porque esta necessita delas e não pode dispensálas por motivos egoístas mais uma vez Somente mais tarde o impulso de amar se torna independente do egoísmo É literalmente verdadeiro que seu egoísmo ensinou a amar Neste consenso será interessante comparar a atitude da criança com relação a seu irmãos e irmãs com sua atitude para com seus pais Uma criança pequena não ama necessariamente seus irmãos e irmãs muitas vezes obviamente não os ama Sem dúvida ela os odeia como rivais seus e é fato sabido que esta atitude freqüentemente persiste por muitos anos até ser atingida a maturidade ou mesmo até mais tarde sem interrupção Com efeito muito amiúde esta atitude é substituída ou melhor digamos é encoberta por outra mais cordial Mas a que é hostil em geral parece ser a que surge primeiro Essa atitude hostil pode ser observada com muita facilidade em crianças com idade entre dois e meio e quatro ou cinco anos quando um novo irmãozinho ou irmãzinha aparece Geralmente encontra uma recepção muito inamistosa São muito comuns os comentários como não gosto dele a cegonha pode levar embora de novo Depois aproveitamse de todas as oportunidades para rebaixar o recémchegado e se fazem tentativas de machucálo e até mesmo se conhecem casos de ataques mortíferos Se a diferença de idade é menor na época em que a atividade mental da criança se aviva em determinado grau de intensidade ela já encontra aí seu competidor e a ele se adapta Sendo maior a diferença o novo bebê pode desde o início despertar alguma simpatia como um objeto interessante uma espécie de boneca viva e quando a diferença de idade é de oito ou mais anos já podem manifestarse impulsos solícitos maternais especialmente em meninas Contudo falando honestamente se alguém encontrar em sonho um desejo de morte contra um seu irmão ou irmã raramente há que considerálo um enigma e sem dificuldades pode situar seu protótipo no início da infância e vezes mais seguidas também nos anos subseqüentes do companheirismo fraternoProvavelmente não há quarto de crianças sem violentos conflitos entre seus ocupantes Os motivos de tais desavenças são a rivalidade pelo amor dos pais pelas posses comuns pelo espaço vital Os impulsos hostis são dirigidos contra membros da família mais velhos e também mais novos Foi Bernard Shaw segundo penso quem comentou Via de regra só existe uma pessoa que uma menina inglesa odeia mais do que a sua mãe é a sua irmã mais velha Neste comentário existe porém algo que nos parece estranho Poderíamos quando muito achar compreensíveis o ódio e a competição entre irmãos e irmãs Mas como podemos supor que sentimentos de ódio venham a surgir nas relações entre filha e mãe entre pais e filhosEsta relação é sem dúvida uma relação mais favorável também do ponto de vista dos filhos É o que exigem as nossas expectativas achamos que uma ausência de amor é muito mais censurável entre pais e filhos do que entre irmãos e irmãs No primeiro caso teríamos tornado esta relação sagrada ao passo que no segundo isso teria permanecido profano Já a observação corrente pode nos mostrar quão freqüentemente as relações afetivas entre os pais e seus filhos adultos deixam de atingir o ideal estabelecido pela sociedade quanta hostilidade está pronta para manifestarse e se manifestaria se não fosse contida por um misto de devoção filial e impulsos afetuosos Os motivos dessa hostilidade geralmente são conhecidos e sua tendência é separar os do mesmo sexo a filha de sua mãe e o pai de seu filho A filha encontra em sua mãe a autoridade que restringe sua vontade e que está incumbida da tarefa de imporlhe a renúncia à liberdade sexual renúncia que também a sociedade exige em alguns casos a filha encontra em sua mãe até mesmo uma competidora que luta por não ser suplantada A mesma coisa se repete entre filho e pai e de forma ainda mais flagrante Aos olhos do filho o pai representa todas as restrições sociais relutantemente toleradas o pai lhe impede o exercício da vontade o prazer sexual incipiente e nas famílias em que existe propriedade comum o desfrute desta No caso de um herdeiro do trono essa espera da morte do pai atinge as raias do trágico Parece haver perigo menor para a relação entre pai e filha ou mãe e filho Esta última proporciona os mais puros exemplos de uma afeição imutável não prejudicada por quaisquer considerações egoístasPor que estou eu falando nestas coisas que afinal são banais e conhecidas universalmente Porque há uma inequívoca tendência a negarlhes a importância que têm na vida e a fazer crer que o ideal imposto pela sociedade é atingido muito mais freqüentemente do que o é na realidade É melhor pois que a verdade deva ser dita pelos psicólogos de preferência a deixar tal tarefa a cargo de cínicos E aliás essa negação se aplica somente à vida real As obras narrativas e dramáticas da imaginação podem livremente jogar com os temas que surgem de um distúrbio deste ideal Portanto não há motivos para surpresas se em muitas pessoas os sonhos revelam seu desejo de eliminar seus pais e especialmente o genitor do mesmo sexo Podemos supor que esse desejo também esteja presente na vida desperta e até mesmo seja consciente às vezes quando pode estar mascarado por algum outro motivo como foi o caso do sonhador do Exemplo 3 ver em 1 acima em que foi substituído pela compaixão pelos inúteis sofrimentos do pai É raro que apenas a hostilidade domine o relacionamento muito mais freqüentemente ela se encontra nos bastidores de impulsos mais afetuosos pelos quais é suprimida e pode por assim dizer esperar até que um sonho venha a isolála O que parecenos ter uma dimensão enorme em um sonho por ter sido isolado reduzse mais uma vez quando nossa interpretação o situa no contexto da vida real Hanns Sachs Contudo encontramos este desejo onírico também na vida real onde não adquire qualquer relevância e onde o adulto jamais deseja admitilo na vida desperta A razão disso é que os motivos mais profundos e mais invariáveis de desavenças especialmente entre duas pessoas do mesmo sexo já se fizeram sentir no início da infânciaO que tenho em mente é a rivalidade no amor com nítida ênfase no sexo do indivíduo Quando é ainda uma criança um filho já começa a desenvolver afeição particular por sua mãe a quem considera como pertencente a ele começa a sentir o pai como rival que disputa sua única posse E da mesma forma uma menininha considera sua mãe como uma pessoa que interfere na sua relação afetuosa com o pai e que ocupa uma posição que ela mesma poderia muito bem ocupar A observação nos mostra a quão precoces anos essas atitudes remontam A essas atitudes chamamos de complexo de Édipo visto que a lenda de Édipo materializa com apenas uma leve atenuação os dois desejos extremos originários na situação do filho matar o pai e tomar a mãe como esposa Não pretendo afirmar que o complexo de Édipo engloba toda a relação dos filhos com os pais esta pode ser muito mais complexa O complexo de Édipo ademais disso pode estar desenvolvido em maior ou menor intensidade pode até mesmo estar invertido mas constitui fator constante e importante na vida mental de uma criança e existe maior risco de antes subestimarmos do que superestimarmos sua influência e a dos desenvolvimentos que nele se originam Aliás as crianças freqüentemente reagem em sua atitude edipiana a um estímulo proveniente de seus pais que amiúde se deixam levar nas suas preferências pela diferença do sexo de modo que o pai escolherá a filha e a mãe escolherá o filho como favorito ou no caso de um esfriamento conjugal como um substituto de um objeto de amor que perdeu seu valorNão se pode dizer que o mundo tenha demonstrado muita gratidão à investigação psicanalítica por sua revelação do complexo de Édipo Ao contrário a descoberta provocou a mais violenta oposição entre adultos e aqueles que não se interessaram por tomar parte no repúdio a este relacionamento emocional proscrito e tabu compensaram seu débito mais tarde subtraindo a este complexo o seu valor por meio de reinterpretações tortuosas Permanece inalterada minha convicção de que não há o que negar ou encobrir Devemos nos congratular com o fato de ter sido reconhecido pela própria lenda grega como destino inevitável Mais uma vez é interessante o fato de o complexo de Édipo que tem sido repudiado na vida real ter sido deixado a cargo dos escritos imaginativos ter sido colocado por assim dizer livremente à sua disposição Otto Rank 1912b demonstrou em cuidadoso estudo como o complexo de Édipo proporcionou aos autores dramáticos uma riqueza de temas com infindáveis modificações atenuações e disfarces isto é com distorções do tipo que já conhecemos como obra de uma censura Portanto podemos também atribuir este complexo de Édipo às pessoas que sonham e foram suficientemente felizes para escapar a conflitos com seus pais em sua vida posterior E em íntima conexão com o mesmo encontramos aquilo a que chamamos de complexo de castração a reação às ameaças contra a criança destinadas a pôr um fim a suas primeiras atividades sexuais ameaças atribuídas a seu paiO que já aprendemos de nosso estudo da vida mental das crianças fará com que esperemos encontrar uma explicação semelhante para o outro grupo de desejos oníricos proibidos os impulsos sexuais excessivos Assim encorajamonos a realizar um estudo da evolução da vida sexual das crianças e com base em muitas informações chegamos ao que se segue Primeiro e acima de tudo é um erro injustificável negar que as crianças têm uma vida sexual e supor que a sexualidade somente inicia na puberdade com a maturação dos genitais Pelo contrário bem desde o início as crianças têm uma intensa vida sexual que difere em muitos pontos daquilo que mais tarde é considerado normal Aquilo que na vida adulta é descrito como perverso difere do normal por estes aspectos primeiro porque despreza a barreira da espécie o abismo entre o homem e o animal segundo por transpor a barreira contra a repugnância terceiro a barreira contra o incesto proibição contra a busca da satisfação sexual em relações consangüíneas próximas quarto a barreira contra pessoas do mesmo sexo e quinto por transferir a outros órgãos e áreas do corpo o papel desempenhado pelos genitais Nenhuma destas barreiras existia desde o começo foram estabelecidas apenas gradualmente no decorrer do desenvolvimento e da educação Crianças de tenra idade são livres delas Não reconhecem qualquer abismo assustador entre seres humanos e animais a soberba com que os homens se distanciam dos animais não emerge senão mais tarde Inicialmente as crianças não mostram qualquer repugnância pelas excreções porém adquiremna lentamente sob a pressão da educação Não dão importância especial à distinção entre os sexos mas atribuem a ambos a mesma conformação dos genitais dirigem seus primeiros desejos sexuais e sua curiosidade àqueles que lhes são mais próximos e por outras razões mais caros os pais irmãos e irmãs ou babás e finalmente demonstram e isto mais tarde irrompe novamente no clímax de uma relação amorosa que esperam obter prazer não somente a partir de seus órgãos sexuais mas que muitas outras partes do corpo exibem a mesma sensibilidade proporcionamlhes sensações análogas de prazer e em decorrência podem desempenhar o papel de genitais Assim podese descrever as crianças como perversos polimorfos e se estes impulsos apenas mostram traços de atividade isso ocorre por um lado porque eles têm intensidade menor quando comparados com os da vida posterior e por outro lado porque todas as manifestações sexuais de uma criança são prontamente energicamente suprimidas pela educação Esta supressão por assim dizer se estende à teoria pois os adultos se esforçam por não ver uma parte das manifestações sexuais das crianças e por disfarçar uma outra parte interpretandolhes erroneamente a natureza sexual conseguindo assim negála em sua totalidade Freqüentemente são estas exatamente as mesmas pessoas que no trato com as crianças se enfurecem com qualquer traquinagem sexual sua e depois em seus escritos defendem a pureza sexual das mesmas crianças Quando abandonadas a si próprias ou sob a influência de sedução amiúde as crianças realizam proezas consideráveis na área da atividade sexual perversa Os adultos naturalmente têm razão ao não levar isto muito a sério e considerálo como criancice ou brincadeira de vez que as crianças não podem ser condenadas como inteiramente capazes ou inteiramente responsáveis seja perante o tribunal da moralidade seja perante a lei não obstante essas coisas existem Têm sua importância não apenas como indicações da constituição inata de uma criança e como causas e encorajamentos para desenvolvimentos ulteriores também nos proporcionam informações acerca da vida sexual das crianças e assim acerca da vida sexual humana em geral Se portanto mais uma vez encontramos todos estes impulsos plenos de desejos perversos por trás de nossos sonhos deformados isto somente significa que também neste campo os sonhos deram um passo atrás ao estado de infância Entre esses desejos proibidos merecem especial ênfase os desejos incestuosos isto é aqueles que objetivam a relação sexual com pais irmãos e irmãs Os senhores conhecem o horror que se sente ou ao menos se manifesta na sociedade humana diante de tal relação e o acento com que se tonificam as proibições contra a mesma Esforços tremendos têm sido dispendidos para explicar esse horror ao incesto Algumas pessoas supuseram que considerações referentes à reprodução por parte da natureza tivessem encontrado representação psíquica nesta proibição pois os acasalamentos consangüíneos prejudicariam as características raciais Outros afirmaram que como conseqüência da vida em comum do início da infância em diante o desejo sexual desviouse das pessoas em questão Em ambos estes casos podese observar um evitar do incesto estaria assegurado automaticamente e não se esclareceria por que se exigem essas proibições severas as quais indicariam antes a presença de um intenso desejo incestuoso As pesquisas psicanalíticas têm demonstrado inequivocamente que a escolha incestuosa de um objeto de amor é pelo contrário a primeira e a invariável escolha e senão mais tarde é que a resistência contra ela se manifesta sem dúvida não é impossível descobrir a origem desta resistência na psicologia individual Reunamos agora tudo aquilo com que nossas pesquisas acerca da psicologia da criança têm contribuído para nossa compreensão dos sonhos Não somente constatamos que o material das vivências esquecidas da infância tem acesso aos sonhos como também vimos que a vida mental das crianças com todas as suas características seu egoísmo sua escolha incestuosa de objetos de amor e assim por diante ainda persiste nos sonhos isto é no inconsciente e que os sonhos nos levam de volta todas as noites a esse nível infantil Confirmase assim o fato de que na vida mental o que é inconsciente é também o que é infantil A estranha impressão de haver tanta maldade nas pessoas começa a reduzirse Esta maldade temida é simplesmente a inicial e primitiva parte infantil da vida mental que podemos encontrar em real atuação nas crianças à qual contudo em parte não damos importância nas crianças devido ao pequeno tamanho delas e em parte não a levamos a sério porque das crianças não esperamos elevado padrão ético algum Visto os sonhos regredirem a esse nível eles dão a impressão de terem revelado o mal que existe em nós Esta todavia é uma aparência enganadora pela qual nos temos deixado atemorizar Não somos tão maus como tenderíamos a supor a partir da interpretação dos sonhosSe esses impulsos maus nos sonhos são meros fenômenos infantis um retorno aos inícios de nossa evolução ética de vez que os sonhos simplesmente nos transformam novamente em crianças em nossos pensamentos e sentimentos não temos se formos racionais necessidade de nos envergonhar desses sonhos de maldade Aquilo que é racional porém constitui apenas uma parte da vida mental inúmeras outras coisas se passam na vida mental e não são racionais e assim sucede irracionalmente estarmos envergonhados desses sonhos Sujeitamolos à censura dos sonhos envergonhamonos e nos irritamos se por exceção um desses desejos consegue irromper na consciência em forma tão indisfarçada que somos obrigados a reconhecêlo com efeito às vezes nos envergonhamos tanto de um sonho deformado como se o compreendêssemos Basta pensar no indignado julgamento que aquela excelente senhora de meiaidade emitiu a propósito de seu sonho não interpretado sobre os serviços de amor ver em 1 O problema assim ainda não está esclarecido e ainda é possível que outras considerações sobre a perversidade nos sonhos possam nos levar a formar outro julgamento e chegar a uma outra avaliação da natureza humana Como resultado de nossas pesquisas atenhamonos a duas descobertas embora apenas signifiquem o começo de novos enigmas e de novas dúvidas Em primeiro lugar a regressão da elaboração onírica não é apenas formal mas também material Não só traduz nossos pensamentos em uma forma primitiva de expressão revive também as características de nossa vida mental primitiva a antiga dominância do ego os primeiros impulsos de nossa vida sexual e realmente até mesmo nossa antiga propriedade intelectual caso assim possam ser consideradas as conexões simbólicas E em segundo lugar tudo isso que é antigo e infantil e que em certa época foi dominante e dominante sozinho hoje deve ser atribuído ao inconsciente acerca do qual nossas idéias agora se estão modificando e ampliando Inconsciente já não é mais o nome daquilo que é latente no momento o inconsciente é um dos reinos da mente com seus próprios impulsos plenos de desejos seu modo de expressão próprio e com seus mecanismos mentais específicos que não vigoram em outros setores No entanto os pensamentos oníricos latentes que descobrimos ao interpretar sonhos não pertencem a este reino são ao contrário pensamentos iguais àqueles que poderíamos ter pensado na vida desperta Não obstante são inconscientes Como então se pode solucionar esta contradição Começamos a suspeitar que aqui deve ser estabelecida uma distinção Alguma coisa que deriva de nossa vida consciente e compartilha de suas características nós a denominamos resíduos diurnos combinase com alguma outra coisa proveniente dos domínios do inconsciente a fim de se construir um sonho A elaboração onírica se realiza entre estes dois componentes A influência exercida sobre os resíduos diurnos pela adição do inconsciente está sem dúvida entre os determinantes da regressão Esta é a mais profunda compreensão que podemos obter aqui da natureza essencial dos sonhos até havermos investigado outras regiões da mente Logo contudo advirá a época de dar outro nome ao caráter inconsciente dos pensamentos oníricos latentes a fim de diferenciálo do inconsciente oriundo dos domínios do infantilPodemos naturalmente levantar uma outra questão paralela Que coisa força a atividade psíquica durante o sono a fazer esta regressão Por que não remove os estímulos mentais que perturbam o sono sem causar esta regressão E se para fins de censura de sonhos tem de fazer uso de disfarce utilizandose do modo de expressão antigo agora ininteligível qual o motivo de reviver também os impulsos desejos e traços de caráter mentais antigos que hoje em dia estão superados de fazer uso da regressão material além da regressão formal A única resposta que poderia nos satisfazer é que apenas desta forma pode um sonho ser construído e que não seria dinamicamente possível o estímulo do sonho ser eliminado de outra maneira Por enquanto não temos o direito de dar tal resposta contudo CONFERÊNCIA XIV REALIZAÇÃO DE DESEJO SENHORAS E SENHORES Deverei fazêlos lembraremse mais uma vez dos assuntos sobre os quais discorremos até aqui De como quando começamos a aplicar nossa técnica defrontamonos com a deformação dos sonhos de como pensávamos a respeito da natureza essencial dos sonhos a partir dos sonhos de crianças De como após munidos daquilo que aprendêramos dessa pesquisa acometemos diretamente a deformação onírica e segundo espero vencemola passo a passo Somos levados a admitir entretanto que as coisas que descobrimos por uma e por outra via não se harmonizam inteiramente Será nossa tarefa juntar as duas séries de descobertas e ajustálas entre si Verificamos partindo de ambas as fontes de informação que a elaboração onírica consiste essencialmente na transformação dos pensamentos em uma experiência alucinatória É por demais misterioso o modo pelo qual isso pode acontecer é contudo um problema de psicologia geral que propriamente não nos interessa aqui Ficamos sabendo pelos sonhos de crianças que a intenção da elaboração onírica é eliminar o estímulo mental perturbador do sono por meio da realização de um desejo Dos sonhos deformados não podíamos dizer nada semelhante até descobrirmos como interpretálos Desde o início porém nossa expectativa era a de podermos considerar os sonhos deformados sob o mesmo prisma que os sonhos de crianças A primeira confirmação desta expectativa nos foi dada pela descoberta de que na realidade todos os sonhos são sonhos de crianças que eles operam com o mesmo material infantil com os impulsos e mecanismos mentais da infância Agora que acreditamos haver superado a deformação onírica devemos prosseguir e investigar se nossa visão a respeito dos sonhos como realização de desejos também é válida para os sonhos deformadosHá pouco tempo submetemos uma série de sonhos à interpretação porém deixamos completamente fora de cogitação a realização de desejos Estou certo de que os senhores repetidamente devem ter sido levados a se perguntarem de si para si Onde porém está a realização de desejos que se supõe ser o objetivo da elaboração onírica A pergunta é importante porque é aquela levantada por nossos críticos leigos Os seres humanos como os senhores sabem possuem uma tendência natural a repelir inovações intelectuais Uma das formas pelas quais se manifesta esta tendência é a imediata redução da novidade às suas menores proporções comprimindoa se possível em um simples verbete Realização de desejo tornouse o verbete para a nova teoria dos sonhos O leigo pergunta Onde está a realização de desejo Instantaneamente tendo ouvido falar que se supõe serem os sonhos realizações de desejos no próprio ato de emitir a pergunta ele a responde com uma rejeição Imediatamente pensa em inumeráveis experiências suas com sonhos nas quais o sonho foi acompanhado por sentimentos que vão desde o desagradável até uma acentuada ansiedade de modo que a afirmação feita pela teoria psicanalítica dos sonhos parecelhe muitíssimo improvável Não temos dificuldade em responder que nos sonhos deformados a realização de desejo pode não estar evidente porém deve ser buscada de modo que é impossível evidenciarse depois que o sonho for interpretado Sabemos também que os desejos nesses sonhos deformados são desejos proibidos rejeitados pela censura e a existência desses desejos justamente foi a causa da deformação onírica o motivo da intervenção da censura dos sonhos Contudo é difícil fazer o crítico leigo entender que antes de um sonho ser interpretado não se pode investigar a respeito da realização do desejo desse sonho Ele continuará esquecendo este aspecto Sua rejeição da teoria da realização de desejo realmente não é mais que uma conseqüência de censura dos sonhos um substituto da rejeição dos desejos oníricos censurados e uma decorrência da mesma Naturalmente também sentimos a necessidade de explicar a nós próprios por que existem tantos sonhos de conteúdo aflitivo e especialmente por que existem sonhos de ansiedade Aqui pela primeira vez encontramos o problema dos afetos nos sonhos mereceria uma monografia à parte porém infelizmente não o adentraremos Se os sonhos são realizações de desejos deveria ser impossível surgirem neles os sentimentos desagradáveis então pareceria que as críticas leigas teriam razão Devese contudo levar em conta três tipos de complicações de que ainda não se havia cogitado 1 Em primeiro lugar pode ser que a elaboração onírica não tenha conseguido criar uma realização de desejo assim parte do afeto aflitivo dos pensamentos oníricos ficou excedente no sonho manifesto Nesse caso a análise teria de demonstrar que estes pensamentos oníricos eram muito mais desagradáveis do que o sonho que foi construído a partir deles Que sempre se pode provar muita coisa Sendo assim devemos admitir que a elaboração onírica atingiu seu objetivo em grau não maior do que o sonho com beber o qual formado em resposta ao estímulo da sede não conseguiu aplacar a sede ver em 1 e seg Aquele que tem um tal sonho permanece com sede e tem de acordar para tomar algo Não obstante era um sonho verdadeiro e não perdera nada da natureza essencial de um sonho Podemos apenas dizer Ut desint vires tamen est laudanda voluntas A intenção pelo menos que pode ser definidamente reconhecida merece ser valorizada Tais casos de fracasso não são eventos raros Concorre para isto o fato de que é muito mais difícil a elaboração onírica alterar o sentido dos afetos de um sonho do que o seu conteúdo os afetos às vezes são altamente resistentes O que então acontece é a elaboração onírica transformar o conteúdo aflitivo dos pensamentos oníricos na realização de um desejo ao passo que o afeto desagradável persiste inalterado Em sonhos dessa espécie o afeto é bastante inadequado ao conteúdo e nossos críticos podem dizer que os sonhos tão distante estão de serem realizações de desejos que mesmo mantendo um conteúdo inócuo podem ser sentidos como aflitivos Podemos responder a este comentário superficial assinalando que é precisamente em sonhos dessa natureza que o propósito realizador de desejos da elaboração onírica aparece mais claramente por ter sido isolado O erro surge porque àqueles que não estão familiarizados com as neuroses se lhes afigura demasiado íntimo o vínculo entre conteúdo e afeto e portanto não podem imaginar que o conteúdo seja alterado sem uma alteração simultânea da expressão do afeto ligado a ele2 Um segundo fator muito mais importante e de grande alcance contudo igualmente negligenciado pelos leigos apresentase a seguir Não há dúvida de que uma realização de desejo deve proporcionar prazer mas então surge a pergunta A quem À pessoa que tem o desejo naturalmente Mas como sabemos a relação do sonhador para com seus desejos é uma relação muito especial Ele os repudia e os censura não tem nenhuma simpatia por eles em suma De modo que sua realização não lhe dará prazer e sim o oposto e a experiência mostra que este oposto aparece sob a forma de ansiedade um fato ainda a explicar Assim aquele que sonha em sua relação com seus desejos oníricos só pode ser comparado à amálgama de duas pessoas separadas que estão ligadas por algum forte elemento em comum Em vez de estenderme sobre isto recordarei para os senhores um conhecido conto de fadas no qual encontrarão a mesma situação repetida Uma fada boa prometeu a um casal pobre assegurarlhe a realização dos seus três primeiros desejos Eles ficaram jubilosos e puseramse a pensar em como escolher cuidadosamente seus três desejos Mas um cheiro de lingüiça frita proveniente da casa próxima tentou a mulher a desejar algumas lingüiças Num relâmpago ali estavam as lingüiças e esta foi a primeira realização de desejo Mas o marido se enfureceu e em sua raiva desejou que as lingüiças ficassem dependuradas no nariz da mulher E foi isto o que também aconteceu e não havia como retirálas dessa nova posição Esta foi a segunda realização de desejo mas o desejo era do homem e a sua realização foi muito desagradável para sua mulher Os senhores sabem o restante da história Visto que afinal eles eram de fato um marido e mulher o terceiro desejo não podia ser senão o de que as lingüiças se desprendessem do nariz da mulher Este conto de fadas poderia ser usado em relação a muitas outras coisas mas aqui serve apenas para ilustrar a possibilidade de que se duas pessoas não estão de acordo uma com a outra a realização de um desejo de uma delas não pode senão causar desprazer à outra Agora não nos será difícil conseguir compreender melhor ainda os sonhos de ansiedade Apresentaremos uma nova observação e então nos decidiremos a adotar a hipótese a favor da qual há muito que dizer A observação consiste em que os sonhos de ansiedade freqüentemente possuem um conteúdo por assim dizer que escapou à censura Um sonho de ansiedade muitas vezes é a realização indisfarçada de um desejo não naturalmente de um desejo inaceitável mas de um desejo repudiado A geração da ansiedade assumiu o lugar da censura Ao passo que de um sonho infantil podemos dizer ser ele a realização franca de um desejo permitido e de um sonho deformado como sendo a realização disfarçada de um desejo reprimido a única fórmula adequada a um sonho de ansiedade consiste em que este é a realização franca de um desejo reprimido A ansiedade é um sinal de que o desejo reprimido se mostrou mais forte que a censura que ele levou a cabo ou está a ponto de levar a cabo sua realização de desejo apesar da censura Percebemos que aquilo que para o desejo é uma realização de desejo para nós só pode ser de vez que estamos do lado da censura motivo de sentimentos angustiantes e de repulsa ao desejo A ansiedade que emerge nos sonhos é se preferem ansiedade face à força destes desejos que normalmente estão sob controle A razão por que esta repulsa aparece na forma da ansiedade não pode ser descoberta apenas a partir do estudo dos sonhos a ansiedade deve ser estudada evidentemente em outro contextoPodemos supor que aquilo que é verdadeiro para os sonhos de ansiedade nãodeformados também se aplica àqueles parcialmente deformados assim como a outros sonhos desprazíveis nos quais os sentimentos desagradáveis provavelmente correspondem a uma aproximação da ansiedade Sonhos de ansiedade via de regra são também sonhos que fazem despertar habitualmente interrompemos nosso sono antes que o desejo reprimido no sonho tenha executado a realização completa apesar da censura Nesse caso a função do sonho fracassou mas sua natureza essencial não foi modificada com isto Temos comparado os sonhos com o vigia noturno ou guardião do sono que procura proteger nosso sono contra perturbações ver em 1 O vigia noturno também pode chegar ao ponto de acordar a pessoa que dorme se sente que é por demais fraco para sozinho afugentar a perturbação ou o perigo Ainda assim às vezes conseguimos continuar nosso sono mesmo quando o sonho começa a ficar inseguro e a transformarse em ansiedade Dizemos a nós mesmos em nosso sono afinal é apenas um sonho e continuamos dormindoQuando ocorre que um desejo onírico consegue sobrepujar a censura A condição necessária para isto pode ser preenchida tanto pelo desejo onírico como pela censura do sonho O desejo devido a uma causa desconhecida pode ser excessivamente forte em uma ocasião mas temse a impressão de que com mais freqüência a conduta da censura do sonho é a responsável por este deslocamento de suas forças relativas Já vimos ver em 1 que a censura atua com intensidade variável em cada caso particular que ela trata cada elemento de um sonho com um grau diferente de severidade Agora podemos acrescentar mais uma hipótese no sentido de que em geral a censura é muito variável e não emprega igual severidade para com cada elemento censurável Caso suceda em dada ocasião sentirse sem forças contra um desejo onírico que ameaça tomála de surpresa em vez da deformação ela se utiliza de seu último recurso restante e abandona o estado de sono ao mesmo tempo gerando ansiedadeNessa conexão surpreendenos o fato de ainda ignorarmos tanto por que esses desejos maus repudiados se tornam ativos justamente à noite e nos perturbam durante o sono A resposta praticamente não pode deixar de se fundamentar em alguma hipótese relativa à natureza do estado de sono Durante o dia uma pesada censura os oprime e via de regra lhes torna impossível manifestarse em qualquer atividade À noite esta censura assim como todos os demais interesses da vida mental provavelmente está afastada ou pelo menos muito reduzida em benefício apenas do desejo de dormir É a essa diminuição da censura à noite que os desejos proibidos devem agradecer por poderem se tornar novamente ativos Há alguns pacientes neuróticos que são incapazes de dormir e admitem que sua insônia foi inicialmente intencional Não ousavam dormir porque temiam os seus sonhos isto é temiam os resultados do enfraquecimento da censura Os senhores constatarão com facilidade entretanto que a despeito disto o afastamento da censura não importa em grande desorganização O estado de sono paralisa nossa capacidade motora Se nossas intenções más começam a perturbar elas podem afinal causar nada mais do que simplesmente um sonho que é inócuo do ponto de vista prático É esta consideração apaziguadora a base de comentário altamente inteligente feito por aquele que está sonhando à noite é verdade mas não formando parte da vida onírica Afinal é apenas um sonho Deixemos que ele siga seu caminho continuemos dormindo3 Em terceiro lugar se os senhores se recordarem de nossa idéia de que o sonhador lutando contra seus próprios desejos pode ser comparado à soma de duas pessoas separadas embora de algum modo em íntima conexão uma com a outra compreenderão mais uma possibilidade Porque existe uma possibilidade de que a realização de um desejo venha a causar algo nada prazeroso ou seja uma punição Aqui novamente podemos utilizar como ilustração o conto de fadas dos três desejos As lingüiças fritas em um prato eram realização direta do desejo da primeira pessoa a mulher As lingüiças grudadas em seu nariz eram a realização do desejo da segunda pessoa o marido contudo eram ao mesmo tempo uma punição pelo desejo tolo da mulher Nas neuroses descobriremos o motivo do terceiro desejo o último que restava no conto de fadas Existem várias dessas tendências punitivas na vida mental dos seres humanos são muito poderosas e podemos atribuirlhes a responsabilidade de alguns dos sonhos aflitivos Agora talvez os senhores dirão que com isto resta muito pouco da famosa realização de desejo Ao considerarem a questão mais detidamente porém admitirão que se enganaram Comparada com a multiplicidade que mencionarei mais adiante de coisas que os sonhos podem ser e segundo muitas autoridades realmente são nossa solução realização de desejo realização de ansiedade realização de punição é muito restrita Podemos acrescentar que a ansiedade é o oposto direto do desejo que os opostos se encontram muito próximos um do outro nas associações e que no inconsciente eles se unem ver em 1 e segs e ademais que a punição também é a realização de um desejo do desejo da outra pessoa a que censura No conjunto portanto não fiz concessão à objeção dos senhores contra a teoria da realização de desejo Competenos porém sermos capazes de indicar a realização de desejo em todo sonho deformado que pudermos encontrar e por certo não fugiremos à tarefa Retornemos ao sonho que já interpretamos o sonho dos três ingressos ruins por 1 florim e meio ver em 1 e 2 do qual já aprendemos tanto Espero que se recordem dele Uma senhora cujo marido lhe havia dito durante o dia que sua amiga Elise que era só três meses mais nova que ela havia noivado sonhou que estava no teatro com seu marido Um dos lados da primeira fila de cadeiras estava quase vazio Seu marido dizialhe que Elise e seu noivo também tinham desejado ir ao teatro mas não puderam pois apenas tinham conseguido lugares ruins três por 1 florim e meio Ela pensou que não teria havido nenhum prejuízo se tivessem ido Verificamos que os pensamentos oníricos estavam relacionados à sua irritação por haver casado tão cedo e à sua insatisfação com seu marido Talvez tenhamos a curiosidade de descobrir como estes pensamentos sombrios se transformaram numa realização de desejo e onde se pode encontrar algum vestígio do mesmo no conteúdo manifesto do sonho Já sabemos que o elemento muito cedo apressadamente foi eliminado do sonho pela censura ver em 1 e 2 As cadeiras vazias eram uma alusão a esse elemento O misterioso três por 150 florim agora se nos torna mais inteligível com a ajuda do simbolismo com o qual nesse meio tempo nos familiarizamos O 3 realmente significa um homem ou marido e o elemento manifesto é fácil de traduzir comprar um marido com o dote dela Eu poderia ter conseguido um dez vezes melhor com meu dote Casar está claramente substituído por ir ao teatro Comprar os ingressos cedo demais é realmente um substituto imediato de casar cedo demais Esta substituição é porém obra da realização de um desejo Essa mulher nem sempre estava tão insatisfeita com seu casamento precoce como estava no dia em que recebeu a notícia do noivado de sua amiga Em certa época tinha estado orgulhosa do seu casamento e consideravase em vantagem sobre sua amiga Como se sabe moças ingênuas depois de haverem noivado freqüentemente expressam seu contentamento por poderem em breve ir ao teatro a todas as peças que até então foram proibidas e terem permissão de ver tudo O prazer de olhar ou a curiosidade que nisto se revela era sem dúvida originalmente um desejo sexual de olhar escopofilia dirigido para os eventos sexuais e especialmente para os pais das moças daí haverse tornado poderoso motivo para induzilas a um casamento precoce Assim sendo freqüentar o teatro tornouse mediante uma alusão um substituto óbvio de estar casada Por tanto essa senhora que sonhou em sua atual irritação com seu casamento precoce retrocedeu ao tempo em que o casamento precoce constituía a realização de um desejo porque satisfazia a sua escopofilia e levada por esse antigo impulso pleno de desejo substituiu casamento por ir ao teatroNão posso ser acusado de ter selecionado especialmente o exemplo mais conveniente para provar uma oculta realização de desejo O procedimento haveria de ter sido o mesmo no caso de outros sonhos deformados Não posso demonstrarlhes isto agora e apenas expressarei minha convicção de que sempre poderia ser executado com êxito Entretanto determeei um pouco mais neste ponto teórico A experiência ensinoume que este é um dos pontos mais expostos a ataque em toda a teoria dos sonhos e que muitas contradições e equívocos se originam nele Ademais disso os senhores talvez ainda se encontrem sob a impressão de que já retirei parte da minha afirmação ao dizer que um sonho é um desejo realizado ou o oposto de um desejo realizado ou uma ansiedade ou uma punição realizada e os senhores podem pensar que esta é uma oportunidade para me forçarem a outras restrições Também tenho sido censurado por apresentar coisas que me parecem óbvias sob forma por demais concisa e em conseqüência nãoconvincente Quando alguém nos acompanhou até aqui na interpretação dos sonhos e aceitou tudo que foi apresentado até este ponto amiúde sucede que faz uma pausa na realização de desejo e diz Já que os sonhos sempre tem um sentido e este sentido pode ser descoberto pela técnica da psicanálise por que deve este sentido com todas as evidências em contrário ser enquadrado à força dentro da fórmula da realização de desejo Por que não deveria o sentido deste pensar noturno ser de tantas espécies quantas são o do pensar diurno Ou seja por que não deveria um sonho muitas vezes corresponder a um desejo realizado às vezes como o senhor mesmo o diz ao oposto desse desejo ou a um medo realizado mas às vezes exprimir uma intenção uma advertência uma reflexão com os seus prós e contras ou uma reprovação um escrúpulo de consciência uma tentativa de se preparar para uma tarefa urgente e assim por diante Por que deve ser sempre apenas um desejo ou quando muito o oposto do desejo Poderseia pensar que uma diferença de opinião neste ponto não tem importância se se concorda no restante Poderseia dizer que basta havermos descoberto o sentido dos sonhos e a maneira de reconhecêlo é de somenos importância se parecemos definir de maneira muito restrita esse sentido Não é isso porém Um equívoco neste ponto afeta a essência de nossas descobertas sobre os sonhos e põe em perigo o valor das mesmas para a compreensão das neuroses Além disso um acordo dessa espécie que é muito cogitado na vida comercial como sendo uma cortesia não tem acolhida em assuntos científicos por ser prejudicial Minha primeira resposta à pergunta de saber por que os sonhos não possuem numerosas significações no sentido indicado é a que costumo dar em tais casos Não sei por que não possuem Não teria o que objetar Na parte que me interessa poderia ser assim Existe apenas um detalhe nessa questão de um conceito mais vasto e mais cômodo dos sonhos é que na realidade não é assim Minha segunda resposta seria que a hipótese de que os sonhos correspondem a uma variedade de formas de pensar e de operações intelectuais não me é estranha a mim próprio Já certa vez relatei um sonho em um de meus casos clínicos o qual apareceu por três noites sucessivas e depois nunca mais e expliquei essa conduta com o fato de que o sonho correspondia a uma intenção e não necessitava repetirse depois de a intenção ter sido realizada Mais tarde publiquei um sonho que corresponde a uma aprovação Portanto como poderei contradizerme e afirmar que os sonhos jamais são outra coisa senão um desejo realizadoFaçoo porque não deixarei passar um equívoco tolo que pode nos roubar o fruto de nossos esforços com os sonhos um equívoco que confunde o sonho com os pensamentos oníricos latentes e afirma acerca daquele algo que se aplica somente a este Pois é bastante correto dizer que o sonho pode representar e ser substituído por tudo aquilo que os senhores há pouco enumeraram uma intenção uma advertência uma reflexão uma preparação uma tentativa de solucionar um problema e assim por diante Se examinarem atentamente verão todavia que tudo isso se aplica somente aos pensamentos oníricos latentes que foram transformados em sonho Os senhores sabem das interpretações de sonhos que o pensar inconsciente das pessoas centrase nessas intenções preparações reflexões e assim por diante a partir das quais a elaboração onírica então forma os sonhos Se no momento os senhores não estão interessados na elaboração onírica estiverem contudo muito interessados na atividade ideativa inconsciente das pessoas então os senhores eliminam a elaboração onírica e dizem do sonho o que na prática é bastante correto que ele corresponde a uma advertência uma intenção e assim por diante O que freqüentemente acontece na atividade psicanalítica é que nossos esforços se dirigem principalmente para a eliminação da forma onírica e visam a inserir no contexto em vez da forma onírica os pensamentos latentes com os quais o sonho foi feitoAssim bastante incidentalmente constatamos de nosso exame dos pensamentos oníricos latentes que todos estes atos mentais altamente complexos que citamos podem realizarse inconscientemente uma descoberta tão grandiosa quanto surpreendenteMas voltando atrás os senhores somente estarão corretos enquanto tiverem plena consciência de haver usado uma forma abreviada de expressão e enquanto não acreditarem que a multiplicidade que descreveram deve estar relacionada à natureza essencial dos sonhos Quando falam de sonho devem querer significar ou o sonho manifesto isto é o produto da elaboração onírica ou no máximo também a própria elaboração onírica isto é o processo psíquico que forma o sonho manifesto a partir dos pensamentos oníricos latentes Qualquer outro uso da palavra significa confusão de idéias e só pode levar a maus resultados Quando estiverem fazendo afirmações acerca dos pensamentos latentes por trás do sonho façamno diretamente e não obscureçam o problema dos sonhos com uma forma negligente de falar Os pensamentos oníricos latentes são o material que a elaboração onírica transforma em sonho manifesto Por que teriam de confundir o material com a atividade que o forma Com isto que vantagem os senhores teriam sobre aqueles que apenas conheceram o produto dessa atividade e não puderam explicar de onde veio ou como foi feitoA única coisa essencial a respeito de sonhos é a elaboração onírica que modificou o material ideativo Não temos o direito de ignorála em nossa teoria ainda que a negligenciemos em algumas situações práticas A observação analítica demonstra também que a elaboração onírica nunca se limita a traduzir esses pensamentos em um modo de expressão arcaico ou regressivo que os senhores conhecem Ademais regularmente se apossa de mais alguma coisa que não faz parte dos pensamentos latentes do dia anterior mas que é a verdadeira força propulsora da construção do sonho Este acréscimo indispensável é o desejo igualmente inconsciente para cuja realização o conteúdo do sonho recebe sua nova forma Portanto um sonho pode ser qualquer espécie de coisas desde que os senhores estejam apenas tomando em consideração os pensamentos que representa uma advertência uma intenção uma preparação e assim por diante mas também é sempre a realização de um desejo inconsciente e se os senhores o considerarem produto da elaboração onírica ele é isto somente Assim sendo um sonho nunca é simplesmente uma intenção ou uma advertência mas sempre uma intenção etc traduzida para o modo arcaico de pensamento mediante o auxílio de um desejo inconsciente e transformada para realizar esse desejo Ver em 1 Esta característica a de realização de desejo é a característica invariável as demais podem variar Pode por seu turno mais uma vez ser um desejo e neste caso o sonho com auxílio de um desejo inconsciente representará como realizado um desejo latente do dia anteriorEu consigo compreender tudo isto muito claramente mas não posso dizer se consegui tornálo inteligível também para os senhores E também tenho dificuldade em lho demonstrar Isso não pode ser feito sem cuidadosamente analisar muitíssimos sonhos e por outro lado esse aspecto tão importante e tão crítico de nosso conceito dos sonhos não pode ser convincentemente apresentado sem nos referirmos àquilo que vem depois É impossível supor de vez que tudo é intimamente interrelacionado que se possa penetrar profundamente na natureza de uma coisa sem que se tenha levado em conta coisas de natureza semelhante Como ainda não sabemos nada dos parentes mais próximos dos sonhos os sintomas neuróticos mais uma vez devemos contentarnos neste ponto com o que temos conseguido Quero apenas darlhes só mais um exemplo ilustrativo e exporlhes uma nova idéia Retomemos o sonho ao qual retornamos tantas vezes o sonho dos três ingressos de teatro por 1 florim e meio Posso assegurarlhes que inicialmente escolhi este exemplo sem qualquer propósito especial em vista Os senhores conhecem os pensamentos oníricos latentes irritação por ter tido tanta pressa de casar o que surgiu quando ela ouviu a notícia de que sua amiga só então acabava de noivar atribuindo pouco valor a seu marido e a idéia de que poderia ter conseguido um marido melhor se ela ao menos tivesse esperado Já conhecemos o desejo que fez desses pensamentos um sonho era o desejo de olhar de poder ir ao teatro muito provavelmente uma derivação de sua antiga curiosidade de descobrir afinal o que realmente acontece quando uma pessoa casa Esta curiosidade conforme sabemos as crianças dirigemna regularmente à vida sexual dos pais tratase de curiosidade infantil e na medida em que ainda persiste mais tarde de um impulso instintual com raízes que remontam à infância A notícia que a sonhadora recebeu durante o dia não proporcionou a ocasião de despertar este desejo de olhar mas apenas despertou irritação e desgosto Este impulso pleno de desejo não se encontrava à primeira vista em conexão com os pensamentos oníricos latentes e poderíamos incluir o resultado da interpretação do sonho na análise sem levar em conta esse impulso A irritação de per se contudo não era capaz de criar um sonho Um sonho não poderia surgir a partir dos pensamentos de que foi absurdo casar tão cedo a não ser quando estes despertaram o antigo desejo de ver até que enfim o que acontece no casamento Este desejo então deu ao conteúdo do sonho a sua forma substituindo casamento por ir ao teatro e a forma foi a de uma anterior realização de desejo Toma agora eu posso ir ao teatro e vez tudo o que é proibido e tu não podes Estou casada e tu tens que esperar Desse modo sua presente situação foi transformada em seu oposto um velho triunfo se colocou no lugar de sua recente frustração E aliás a satisfação de sua escopofilia misturouse à satisfação de sua tendência competitiva egoística Esta satisfação determinou então o conteúdo manifesto do sonho no qual a situação real consistia em que ela estava no teatro ao passo que a amiga não conseguia obter ingresso ao mesmo As partes do conteúdo do sonho atrás das quais os pensamentos oníricos latentes ainda permanecem escondidos foram superpostas a essa situação de satisfação como modificação equívoca e ininteligível da mesma A interpretação do sonho teve de desprezar tudo quanto serviu para representar a realização de desejos e de restabelecer os pensamentos oníricos latentes aflitivos diferenciandoos desses obscuros indícios remanescentesA nova idéia que desejo apresentarlhes é atrair sua atenção para os pensamentos oníricos latentes que agora se colocaram em primeiro plano Peçolhes que não se esqueçam de que em primeiro lugar eles são inconscientes para o sonhador e em segundo lugar de que ele são completamente racionais e coerentes de modo que podem ser compreendidos como reações naturais à causa precipitante do sonho e em terceiro lugar de que eles podem ser o equivalente de qualquer impulso mental ou operação intelectual Agora descreverei estes pensamentos mais estritamente do que antes como resíduos diurnos admitaos ou não a pessoa que teve o sonho E farei a distinção entre os resíduos diurnos e os pensamentos oníricos latentes e de conformidade com o uso que fizermos anteriormente designarei como pensamentos oníricos latentes tudo o que constatamos na interpretação do sonho enquanto os resíduos diurnos constituem apenas uma parte dos pensamentos oníricos latentes Pensamos pois que alguma coisa se acrescenta aos resíduos diurnos algo que também fazia parte do inconsciente um impulso pleno de desejos poderoso porém reprimido e é este somente que torna possível a construção do sonho A influência deste impulso pleno de desejos sobre os resíduos diurnos cria a outra parte dos pensamentos oníricos latentes essa parte que já não necessita parecer racional e inteligível como se fosse derivada da vida despertaTenho usado de uma analogia para ilustrar a relação entre os resíduos diurnos e o desejo inconsciente e aqui posso apenas repetila Em todo empreendimento é preciso haver um capitalista que cobre as despesas e um entrepreneur que tem a idéia e sabe como pôla em prática Na construção dos sonhos o papel do capitalista é sempre desempenhado apenas pelo desejo inconsciente este prove a energia psíquica para a construção do sonho O entrepreneur é o resíduo diurno que decide como deve ser usado este dispêndio de energia Naturalmente é possível o próprio capitalista ter a idéia e o conhecimento técnico ou o próprio entrepreneur ter o capital Isto simplifica a situação prática porém dificulta a compreensão teórica Em economia a mesma pessoa se encontra constantemente dividida em seus dois aspectos de capitalista e de entrepreneur e isto restabelece a situação fundamental em que se baseou nossa analogia Na construção onírica as mesmas flutuações acontecem e deixo que os senhores as complementemNeste ponto não podemos progredir mais pois os senhores provavelmente há muito têm sido perturbados por uma dúvida e esta merece atenção Os resíduos diurnos os senhores me perguntarão são realmente inconscientes no mesmo sentido que o desejo inconsciente que deve ser acrescentado a eles a fim de tornálos capazes de produzir um sonho A suposição dos senhores está correta Este é o ponto saliente em todo este assunto Não são inconscientes no mesmo sentido O desejo onírico pertence a um inconsciente diferente àquele inconsciente que já reconhecemos como tendo uma origem infantil e mecanismos peculiares ver em 1 e 2 Seria muito oportuno distinguir essas duas espécies de inconscientes por meio de nomes diferentes Preferiríamos porém esperar até nos familiarizarmos com a área dos fenômenos das neuroses As pessoas consideram um tanto fantástico haver um só inconsciente Que dirão quando confessarmos que temos de nos haver com doisVamos interromper neste ponto Mais uma vez os senhores ouviram somente algo incompleto No entanto não é promissor pensar que este conhecimento tem uma continuação que ou nós mesmos ou outras pessoas iremos elucidar E nós mesmos já não aprendemos tantas coisas novas e surpreendentes CONFERÊNCIA XV INCERTEZAS E CRÍTICAS SENHORAS E SENHORES Não deixaremos o tema dos sonhos sem abordarmos as dúvidas e incertezas mais comuns que nossas inovações e nossas teorias originaram até aqui Os senhores mesmos ouvintes atentos terão coligido algumas junto ao material de que tratamos 1 Os senhores podem ter tido a impressão de que embora a técnica seja corretamente executada as descobertas de nosso trabalho interpretativo de sonhos admitem tantas incertezas que chegam a invalidar qualquer tradução segura do sonho manifesto para os pensamentos oníricos latentes Em apoio a isso os senhores argumentarão que em primeiro lugar nunca se sabe se um determinado elemento do sonho deve ser entendido no seu sentido realçou na qualidade de símbolo pois as coisas empregadas como símbolos não deixam de por este motivo ser elas mesmas Se no entanto não se dispõe de indício objetivo para resolver isto a interpretação nesse ponto deve ser deixada à escolha arbitrária do interpretador Ademais em conseqüência do fato de que na elaboração onírica os contrários se fundem sempre permanece indeterminado se certo elemento deve ser compreendido em sentido positivo ou negativo como sendo ele próprio ou como sendo o seu contrário ver em 1 Aqui está uma nova oportunidade de o interpretador exercer uma escolha arbitrária Em terceiro lugar em conseqüência de inversões de toda espécie tão ao gosto dos sonhos ver em 1 é facultado ao interpretador efetuar uma inversão dessas em relação a qualquer passagem do sonho que venha a escolher E por fim comentarão que ouviram dizer que jamais se tem certeza de que a interpretação que se encontrou para um sonho é a única possível Corremos o risco de passar por alto uma superinterpretação perfeitamente admissível do mesmo sonho ver em 1 Nestas circunstâncias concluirão os senhores deixase tanta margem para a decisão arbitrária do interpretador que esta se torna incompatível com a certeza objetiva dos dados Ou alternativamente podem supor que a falha não se situa nos sonhos mas que as inexatidões de nossa interpretação de sonhos devem ser atribuídas a erros em nossos pontos de vista e em nossas premissasTodos os elementos que os senhores apresentam são indiscutíveis porém segundo penso não justificam suas conclusões em dois aspectos ou seja que a interpretação de sonhos como insistem os senhores esteja à mercê da escolha arbitrária e que a falta de resultados lance dúvidas sobre a correção de nosso método Se em lugar da escolha arbitrária feita pelo interpretador os senhores se referissem à sua habilidade à sua experiência e à sua compreensão eu concordaria com os senhores Naturalmente não podemos dispensar um fator pessoal como este especialmente nos problemas mais difíceis da interpretação de sonhos A situação não é porém nada diferente em outras áreas científicas Não há como evitar que uma pessoa faça melhor uso de uma técnica que de outra Em outros termos aquilo que dá a impressão de casualidade na interpretação de sonhos por exemplo é desfeito pelo fato de via de regra a interconexão entre pensamentos oníricos ou a conexão entre o sonho e a vida de quem sonha ou a situação psíquica global em que ocorre o sonho selecionar uma só entre as soluções possíveis apresentadas dispensando as demais como inservíveis A conclusão de que por causa das imperfeições na interpretação de sonhos nossas hipóteses seriam incorretas é invalidada assinalandose que ao contrário a ambigüidade ou a indefinição é uma característica dos sonhos que era de se prever necessariamenteRecordemos haver dito que a elaboração onírica executa uma versão dos pensamentos oníricos segundo um modo de expressão primitivo semelhante à escrita pictográfica ver em 1 e segs No entanto todos esses sistemas primitivos de expressão se caracterizam por indefinição e ambigüidade semelhante não justificando que lancemos dúvidas sobre sua serventia A fusão dos contrários na elaboração onírica é como sabem análoga à chamada significação antitética das palavras primitivas nos idiomas mais antigos Realmente Abel 1884 o filólogo ao qual devemos essa linha de pensamento nos pede não supormos que as comunicações feitas por uma pessoa a outra com a ajuda de tais palavras ambivalentes sejam por essa razão ambíguas Pelo contrário entonação e gestos devem têlas feito muito precisas no contexto do discurso indicando qual dos dois contrários o interlocutor tencionava comunicar Na escrita onde o gesto está ausente seu lugar era ocupado por um sinal pictográfico que não se destinava a ser falado por exemplo pela figura de um homenzinho agachado e cambaleando ou firmemente ereto conforme o hieróglifo ken devesse significar fraco ou forte Assim apesar da ambigüidade dos sons e sinais evitavase o equívoco Ver em 1 e 2 anteriores Os antigos sistemas de expressão por exemplo a escrita dos idiomas mais antigos revelam vaguidade em uma variedade de formas tal que não toleraríamos em nossa escrita atual Assim em algumas escritas semíticas somente estão indicadas as consoantes das palavras O leitor deve inserir as vogais omitidas segundo seus conhecimentos e o contexto A escrita hieroglífica se comporta de forma similar embora não precisamente da mesma maneira e por este motivo permanece desconhecida para nós a pronúncia do antigo idioma egípcio A escrita sagrada dos egípcios é importante também em outros aspectos Por exemplo compete à decisão arbitrária do escriba dispor as figuras da direita para a esquerda ou da esquerda para a direita A fim de proceder à sua leitura devese seguir a regra de ler em direção aos rostos das figuras pássaros e assim por diante Porém o escriba também podia ordenar os sinais pictográficos em colunas verticais e ao fazer inscrições em objetos comparativamente pequenos permitia que considerações de decoração e espaço o influenciassem no sentido de alterar a seqüência dos sinais de outras maneiras O que mais perturba na escrita hieroglífica é sem dúvida o fato de não haver separação entre as palavras As figuras são dispostas na página separadas por distâncias iguais em geral é impossível dizer se um sinal ainda faz parte da palavra precedente ou se forma o começo de uma nova palavra Na escrita cuneiforme persa por outro lado uma cunha oblíqua serve para separar as palavras Idioma e escrita extremamente antigos o chinês ainda é usado por quatrocentos milhões de pessoas Os senhores não devem supor que eu absolutamente o entenda somente obtive algumas informações sobre o mesmo porque esperava encontrar nele analogias com a imprecisão dos sonhos E minha expectativa não sofreu desapontamento O idioma chinês está cheio de exemplos de imprecisão que poderiam nos deixar muito alarmados Como se sabe compõese de numerosos sons silábicos que são falados isolados ou combinados aos pares Um dos principais dialetos possui uns quatrocentos destes sons Como o vocabulário deste dialeto é calculado em cerca de quatro mil palavras porém concluise que cada som tem em média dez significados diferentes alguns menos mas outros em troca têm mais Existem numerosos métodos de evitar a ambigüidade pois não se pode inferir apenas a partir do contexto qual dos dez significados do som silábico a pessoa tenciona transmitir ao ouvinte Entre esses métodos estão aqueles que consistem em combinar dois sons em uma palavra composta e em utilizar quatro diferentes tons na pronúncia das sílabas Do ponto de vista de nossa comparação é ainda mais interessante verificar que este idioma praticamente não tem gramática É impossível dizer se uma das palavras monossilábicas é um substantivo ou um verbo ou um adjetivo e não há flexões verbais pelas quais se possa reconhecer gênero número desinência tempo e modo Assim a linguagem consta poderia dizerse apenas de matériaprima assim como nossa linguagempensamento fica reduzida através da elaboração onírica à sua matériaprima e se omite qualquer expressão de relação No idioma chinês a solução do sentido em todos os casos cabe ao entendimento de quem ouve e nisto a pessoa se guia pelo contexto Tomei nota de um exemplo de um provérbio chinês que traduzido literalmente reza assimPouca visão muita maravilhaNão é difícil compreender isto Pode significar Quanto menos alguém viu mais tem com que se maravilhar ou De muita coisa se admira aquele que viu pouco Naturalmente não há maneira de diferenciar entre estas duas versões que diferem apenas gramaticalmente Apesar desta imprecisão foinos assegurado que o idioma chinês é um veículo bastante eficiente de expressão do pensamento Assim a imprecisão não deve necessariamente produzir ambigüidadeNaturalmente devese admitir que o sistema de expressão por meio de sonhos ocupa uma posição muito mais desfavorável do que qualquer desses idiomas e escritas antigos Pois afinal destinamse estes fundamentalmente à comunicação ou seja por qualquer método e com qualquer recurso destinamse a serem compreendidos Precisamente esta característica porém está ausente nos sonhos Um sonho não pretende dizer nada a ninguém Não é um veículo de comunicação pelo contrário destinase a permanecer nãocompreendido Por essa razão não devemos nos surpreender ou ficar perplexos ao verificarmos que permanecem sem solução numerosas ambigüidades e obscuridades dos sonhos O único lucro certo que auferimos de nossa comparação é a descoberta de que esses pontos de incerteza que as pessoas tentaram usar como objeções à solidez de nossas interpretações de sonhos são ao contrário características constantes de todos os sistemas primitivos de expressãoA questão de saber até onde alcança a inteligibilidade dos sonhos somente pode ser respondida pela prática e pela experiência Muito longe creio e minha opinião é confirmada ao compararmos os resultados produzidos por analistas de formação correta O público leigo inclusive o público leigo científico como se sabe gosta de promover uma demonstração de ceticismo quando se defronta com as dificuldades e incertezas de uma realização científica Penso que nisto não têm razão Talvez nem todos os senhores estejam cientes de que uma situação semelhante surgiu na história da decifração das inscrições assíriobabilônicas Houve época em que a opinião pública esteve muito inclinada a considerar visionários os decifradores da escrita cuneiforme e a totalidade de suas pesquisas uma impostura Mas em 1857 a Royal Asiatic Society fez uma experiência decisiva Solicitou a quatro dos peritos mais altamente respeitados em escrita cuneiforme Rawlinson Hincks Fox Talbot e Oppert para remeterem em envelopes lacrados traduções independentes de uma inscrição recentemente descoberta e após uma comparação entre os quatro trabalhos pôde anunciar que a concordância entre estes peritos era suficiente para justificar o crédito que até então se havia dado e a confiança em posteriores realizações A zombaria por parte do mundo leigo culto diminuiu gradualmente após isto e desde então tem aumentado enormemente a certeza na leitura dos documentos cuneiformes2 Um segundo grupo de dúvidas está em conexão íntima com a impressão à qual certamente nem os senhores escaparam de que determinadas soluções em direção às quais nos sentimos compelidos ao interpretar sonhos parecem ser forçadas artificiais arranjadas por imposição isto é arbitrárias ou até mesmo cômicas anedóticas Comentários nesse sentido são tão freqüentes que escolherei ao acaso o último que me foi relatado Ouçam pois Na Suíça livre o diretor de uma instituição de ensino recentemente foi afastado do cargo por causa de seu interesse pela psicanálise Ele entrou com um protesto e um jornal de Berna publicou a versão das autoridades da escola sobre sua apelação Selecionarei algumas frases desse documento referentes à psicanálise Além de tudo estamos surpresos com o aspecto forçado e artificial de muitos dos exemplos que também podem ser encontrados na obra do Dr Pfister de Zurique a qual é citada Por conseguinte é realmente surpreendente que o diretor de uma instituição de ensino aceite sem críticas todas essas assertivas e provas forjadas Estas frases são expostas como uma decisão a que chegou uma pessoa após um julgamento sereno Penso que esta serenidade isto sim é que é artificial Examinemos essas observações mais detidamente na expectativa de que uma leve reflexão e um pouco de conhecimento especializado não constituirão nenhuma desvantagem mesmo para um julgamento sereno É verdadeiramente reconfortante verificar com que rapidez e infalibilidade uma pessoa pode chegar a julgar determinados problemas delicados de psicologia profunda após ter sua primeira impressão sobre a mesma As interpretações lhe parecem artificiais e forçadas elas não lhe agradam assim elas são falsas e todo esse assunto de interpretação não tem valor E nem dedica à outra possibilidade uma idéia passageira de que existem bons motivos para essas interpretações só poderem ter esta aparência e daí a outra questão ou seja quais são esses bons motivosO assunto em questão referese essencialmente aos resultados do deslocamento que os senhores já conhecem como o mais poderoso instrumento da censura de sonhos Com auxílio do deslocamento a censura de sonhos cria estruturas substitutivas que temos descrito como alusões Mas tratase de alusões que não são facilmente reconhecíveis como tais cujo caminho inverso até a coisa original não é fácil de estabelecer e que se correlacionam com a coisa original por meio das associações mais estranhas incomuns e superficiais Em todos estes casos no entanto tratase de coisas que interessa sejam mantidas ocultas condenadas ao ocultamento pois é isto que objetiva a censura de sonhos Não devemos contudo esperar que uma coisa que foi mantida escondida venha a ser encontrada em seu lugar próprio em sua localização adequada As comissões de controle de fronteira que funcionam atualmente são mais habilidosas neste aspecto do que as autoridades escolares suíças Em sua busca de documentos e anotações não se contentam com examinar carteiras e pastas de documentos mas admitem a possibilidade de que os espiões e contrabandistas possam ter essas coisas proibidas nas partes mais secretas do vestuário onde sua presença seria totalmente imprópria por exemplo entre as solas duplas das botas Se as coisas ocultas estão aí certamente será possível dizer que são artificiais mas também é verdade que com isso muito se terá achadoAo reconhecermos que as conexões entre um elemento onírico latente e o seu substituto manifesto podem ser da natureza mais remota e especial às vezes parecendo cômicas e às vezes assemelhandose a um chiste estamos nos fundamentando em abundante experiência de exemplos que via de regra nós mesmos não solucionamos Amiúde é impossível dar tais interpretações por nossa própria conta nenhuma pessoa sensata poderia adivinhar qual a conexão Aquele que teve o sonho nos dá a tradução toda de uma vez por meio de uma associação direta ele é capaz disso pois foi ele quem produziu o substituto ou então fornece tanto material que a solução não exige mais nenhuma sagacidade mas se apresenta por assim dizer como algo muito natural no contexto Se o sonhador deixa de prestar esta ajuda numa ou noutra destas duas formas o elemento manifesto que pretendemos examinar permanecerá para sempre ininteligível para nós Permitamme darlhos um exemplo que me ocorreu há pouco Uma de minhas pacientes perdeu seu pai durante o tratamento Desde então ela aproveitou todas as ocasiões para trazêlo à vida em seus sonhos Num destes seu pai apareceu em conexão com algo sem maior importância e disse São onze e quinze são onze e meia são quinze para as doze Ao tentar a interpretação desta singularidade tudo o que lhe acudiu à mente foi que seu pai gostava que seus filhos adultos chegassem pontualmente às refeições da família Sem dúvida isto se relacionava ao elemento onírico mas não elucidou nada de sua origem Havia uma suspeita baseada na situação imediata do tratamento de que uma revolta crítica cuidadosamente suprimida contra seu pai querido e honrado desempenhava um papel no sonho No decorrer das associações seguintes aparentemente distantes do sonho ela contou como no dia anterior tinha havido um bocado de conversa sobre psicologia em sua presença e um seu parente havia comentado O Urmensch homem primitivo sobrevive em todos nós Isto pareceu darnos a explicação Fora para ela uma excelente oportunidade para trazer à vida o pai falecido No sonho ela o transformou no Uhrmensch homem do relógio fazendoo anunciar os quartos de hora do meiodiaNão há como evitar a semelhança deste exemplo com um chiste e freqüentemente tem acontecido um chiste do sonhador ser considerado como chiste de quem interpreta Há outros casos em que não tem sido nada fácil decidir se aquilo que estamos abordando é um chiste ou um sonho Os senhores se lembrarão contudo de que a mesma dúvida surgiu no caso de algumas parapraxias lapsos de língua ver em 1 e seg Um homem referiu como sonho seu que um seu tio lhe havia dado um beijo enquanto estavam sentados no seu auto móvel Ele mesmo muito rapidamente acrescentou a interpretação significava autoerotismo um termo da teoria da libido indicando satisfação obtida sem qualquer objeto externo Estava o homem querendo fazer uma brincadeira conosco e estaria ele transmitindo um chiste de que se lembrava como um sonho Penso que não creio que ele realmente teve o sonho Mas qual é a origem dessa enigmática semelhança Esta questão em certa época desvioume temporariamente do meu caminho forçandome a fazer dos chistes mesmos o tema de uma investigação detalhada Aí ficou demonstrado como se originam os chistes uma seqüência de pensamentos préconsciente é abandonada por um momento para ser trabalhada no inconsciente e deste ela emerge como chiste Sob a influência do inconsciente é sujeita aos efeitos dos mecanismos que ali imperam condensação e deslocamento os mesmos processos que vimos em ação na elaboração onírica e é a este aspecto comum que se deve atribuir a semelhança quando ocorre entre chistes e sonhos O chiste onírico involuntário não tem nada da graça de uma verdadeira anedota Os senhores podem vir a saber por quê se se aprofundarem no estudo dos chistes Um chiste onírico se nos apresenta como anedota sem graça não nos faz rir deixanos friosNisso entretanto estamos palmilhando os caminhos da interpretação de sonhos da Antigüidade que ao lado de muita coisa imprestável deixounos alguns bons exemplos de interpretação de sonhos que nós mesmos não poderíamos superar Repetirei para os senhores um sonho que teve importância histórica e que Plutarco e Artemidoro de Daldis ver em 1 anterior com ligeiras variações referiram acerca de Alexandre Magno Quando o rei estava sitiando a obstinadamente defendida cidade de Tiro 322 a C sonhou que via um sátiro dançando Aristandro o interpretador de sonhos que se encontrava presente junto com o exército interpretou o sonho dividindo a palavra Satyros em sa TuroV sa Turos tua é Tiro e portanto prometeu que ele iria triunfar sobre a cidade Por esta interpretação Alexandre foi levado a continuar o cerco e finalmente capturou Tiro A interpretação que possui uma aparência bastante artificial indubitavelmente era a correta3 Bem posso imaginar que os senhores ficarão especialmente impressionados quando ouvirem dizer que as objeções aos nossos pontos de vista dos sonhos têm sido feitas até mesmo por pessoas que estiveram elas próprias como psicanalistas dedicandose por tempo considerável a interpretar sonhos Seria demais esperar que este tão forte encorajamento a novos erros como o que oferece esta teoria tivesse sido negligenciado e assim em conseqüência de confusões conceituais e generalizações injustificadas foram feitas afirmações que não estão muito longe da visão médica acerca dos sonhos no que esta tem de incorreta Os senhores já conhecem uma delas Diznos que os sonhos constituem tentativas de adaptação atuais e tentativas de solucionar problemas futuros que eles têm um propósito prospectivo Maeder 1912 Já temos demonstrado ver em 1 que esta asserção se baseia numa confusão entre sonho e pensamentos oníricos latentes e por conseguinte se baseia no fato de se omitir a elaboração onírica Esta como caracterização da atividade intelectual inconsciente da qual os pensamentos oníricos latentes fazem parte não constitui novidade por um lado e por outro não esgota o assunto de vez que a atividade mental inconsciente está ocupada com muitas outras coisas além da preparação para o futuro Uma confusão muito pior parece estar subjacente à afirmação de que a idéia de morte pode ser encontrada por trás de todo sonho Stekel 1911 34 Não tenho uma noção clara acerca do que se pretende dizer com esta fórmula Suspeito porém que ela esconde uma confusão entre o sonho e a personalidade global daquele que sonhou Cf I de S Vol V pág 424Uma generalização injustificável baseada em alguns poucos exemplos está contida na afirmação de que todo sonho admite duas interpretações uma que concorda com nossa descrição psicanalítica e outra anagógica que não leva em conta os impulsos instintuais e objetiva representar as funções superiores da mente Silberer 1914 Existem sonhos deste tipo porém os senhores tentarão inutilmente estender esta concepção à maioria dos sonhos E mais após tudo o que eu lhes disse os senhores acharão bastante incompreensível uma afirmação de que todos os sonhos devem ser interpretados bissexualmente como confluência de duas correntes descritas como masculina e feminina Adler 1910 Cf I de S Vol V págs 4234 podem constatar posteriormente que eles se constróem como alguns dos sintomas histéricos A razão por que mencionei todas essas descobertas de novas características universais dos sonhos é para que os senhores estejam prevenidos quanto às mesmas ou ao menos para que não tenham dúvidas a respeito do que penso delas4 Um dia o valor objetivo da investigação sobre sonhos pareceu ser posto em xeque por uma observação de que os pacientes em tratamento analítico ordenam o conteúdo dos sonhos conforme as teorias prediletas de seu médicos alguns sonhando predominantemente com impulsos instintuais sexuais outros com a luta pelo poder e ainda outros até mesmo com renascimento Stekel O peso destas observações entretanto diminuiu com a reflexão de que os seres humanos tinham sonhos antes que houvesse qualquer tratamento psicanalítico que pudesse dar a esses sonhos uma direção e que as pessoas que agora se encontram em tratamento costumavam sonhar também durante o período anterior ao início do tratamento O que havia de verdade nesta inovação logo se podia ver que era evidente por si mesmo e sem importância para a teoria dos sonhos Os resíduos diurnos que suscitam os sonhos são elementos postos de lado devido a poderosos interesses durante a vida desperta Quando as observações feitas pelo médico e os indícios que este fornece adquirem importância para o paciente eles entram para o círculo dos resíduos diurnos e podem prover estímulos psíquicos para a construção dos sonhos como quaisquer outros interesses emocionalmente significativos do dia precedente que não foram atendidos e podem atuar como os estímulos somáticos que incidem sobre o sono de uma pessoa que venha a sonhar As seqüências de pensamentos postas em marcha pelo médico assim como esses outros instigadores dos sonhos surgem no conteúdo manifesto de um sonho ou se revelam em seu conteúdo latente Na verdade sabemos que um sonho pode ser produzido experimentalmente ou expressandonos em termos mais corretos uma parte do material onírico pode ser introduzida no sonho Ao produzir esses efeitos em seus pacientes um analista está executando um papel não diferente de um experimentador que como Mourly Vold coloca em determinadas posturas os membros de pessoas em suas experiências ver em 1 anterioresFreqüentemente é possível influenciar uma pessoa acerca do que ela vai sonhar mas nunca aquilo que sonhará O mecanismo da elaboração onírica e o desejo onírico inconsciente estão isentos de qualquer influência externa Ao tratar dos sonhos com estímulo somático já verificamos ver em 1 e seg que a natureza característica e a independência da vida onírica são mostradas na reação com que os sonhos respondem aos estímulos somáticos ou mentais que são postos em ação A tese que estivemos discutindo e que procura lançar dúvidas sobre a objetividade da pesquisa referente aos sonhos mais uma vez está baseada numa confusão desta vez entre o sonho e o material dos sonhosIsto pois era o que tinha a dizerlhes senhoras e senhores a respeito dos problemas dos sonhos Como poderão perceber há muitas coisas que tive de omitir e verificarão que em quase todos os pontos o que disse ficou necessariamente incompleto Isso naturalmente se deve à conexão entre os fenômenos dos sonhos e os das neuroses Temos estudado os sonhos como introdução à teoria das neuroses e isso foi certamente um procedimento mais correto do que se tivéssemos feito o oposto Mas assim como os sonhos preparam o caminho para uma compreensão das neuroses também por outro lado uma verdadeira apreciação dos sonhos só pode ser realizada depois de se conhecer os fenômenos neuróticosNão sei dizer o que os senhores pensarão porém devo assegurarlhes que não lamento terlhes exigido tanto do seu interesse e do tempo de que dispusemos para os problemas dos sonhos Não existe nenhuma outra coisa mais a partir da qual se possa tão rapidamente obter certeza da correção da tese pela qual a psicanálise resiste ou perece Trabalho muito sério por meses e até mesmo por anos é o que se exige para demonstrar que os sintomas de um caso de doença neurótica têm um sentido servem a um propósito e se originam das experiências de vida do paciente Por outro lado um esforço de apenas umas poucas horas pode ser suficiente para provar que o mesmo procede para um sonho que e de início confuso a ponto de ser ininteligível e para dessa maneira confirmar todas as premissas da psicanálise a natureza inconsciente dos processos mentais os mecanismos especiais a que estes obedecem e as forças instintuais que neles se expressam E quando temos em mente a extraordinária analogia entre a estrutura dos sonhos e a dos sintomas neuróticos e ao mesmo tempo consideramos a rapidez com que uma pessoa que tem um sonho se transforma em um homem vigil e racional adquirimos a certeza de que também as neuroses se baseiam apenas em uma modificação do jogo de forças entre os poderes da vida mental